sábado, 16 de maio de 2026

Uma maravilha cultural: o manual escolar

Muito se tem escrito e publicado sobre pedagogia e educação escolar em geral. Mas, a avaliar pelo que conheço — e que pode ser pouco — quase nada se encontra sobre um dos mais comuns instrumentos de ensino e de aprendizagem: o manual escolar. Há quem os desvalorize e quem não os dispense. Mas as razões a favor ou contra são frequentemente de carácter impressionista e sem uma base empírica sólida. 

O livro O Manual Escolar (Almedina, 2025), de Nuno Crato, tem desde logo dois méritos: o de abordar um tema que, apesar da sua relevância didática e pedagógica, raramente se vê tratado com alguma profundidade; o de recorrer a estudos empíricos de ciência cognitiva, psicologia e investigação educacional, em vez de se limitar a meras opiniões pessoais.

Os destinatários principais deste livro são, como refere o autor, professores (é o meu caso), autores de manuais (é também o meu caso), estudiosos da teoria e da prática pedagógica, além de alunos e das próprias editoras escolares. Os principais focos de atenção do autor são a conceção e construção dos manuais, a sua escolha pelos professores e o seu uso nas aulas e fora delas. 

Há uma tese pedagógica que orienta o livro e que o autor apresenta logo de início: «pensar que um professor, por melhor que ele seja» pode prescindir de um bom manual, improvisando ou recorrendo apenas a apontamentos, «aproxima-se da arrogância e da irresponsabilidade». E isto aplica-se também ao ensino universitário, nomeadamente nas disciplinas de carácter mais técnico ou com conteúdos razoavelmente estabilizados. Esta tese parecerá demasiado forte, e muitos professores protestarão imediatamente, contrapondo que muitos manuais atrapalham mais do que ajudam, além de reduzirem a sua autonomia como professores. Contudo, há que ter em conta que Crato está a falar dos bons manuais. Por isso, a parte substancial do livro é precisamente mostrar, com base nos dados disponibilizados pela psicologia e pela ciência cognitiva em geral, como deve ser um bom manual.

O livro inclui nove capítulos e quatro intermezzos com algumas histórias reais da sua experiência pessoal como docente e que visam ilustrar algumas das ideias defendidas no livro.

No primeiro capítulo, intitulado 'Do livro escolar ao manual escolar', Crato traça resumidamente a evolução do manual escolar, ao longo dos seus 150 anos de vida, sublinhando que se trata, portanto, de um produto tardio da escola.

No segundo capítulo, intitulado 'O que é um manual escolar', procura distinguir o manual de outros recursos didáticos, como os livros de apoio ou as folhas impressas com seleções de textos, de exercícios ou de apontamentos dos professores. E, sem as nomear explicitamente, também as sebentas. O manual escolar distingue-se de tudo isso pela sua organização e pelos seus objetivos. Crato destaca as seguintes quatro características identificadoras do manual escolar:

terça-feira, 21 de abril de 2026

Traduzir nomes

Traduzir nem sempre é fácil e exige cuidados especiais. Quem já traduziu ou fez revisão de traduções para português saberá que as dificuldades surgem de onde menos se espera. Dos nomes próprios, por exemplo.
 
No entanto, parece que não se dá a devida atenção a isso. Daí que vejamos, repetida e erradamente, nas próprias capas dos livros nomes como: Baruch de Espinosa, Léo Tolstoy, Léon Trotsky.

aqui tentei explicar por que razão é inaceitável ver nas capas de traduções para português o nome Baruch, a propósito de Espinosa (por vezes, o ridículo vem em dose dupla, como em Baruch Spinoza). 

O verdadeiro nome de Espinosa, aquele que se encontra nos documentos civis oficiais é Bento d'Espinoza, em português do século XVII. Portanto não faz sentido traduzir o verdadeiro nome português do filósofo para Baruch. Que este sim, é uma tradução. Mais precisamente, a tradução hebraica de Bento. Mas o nome hebraico apenas era usado no seio da comunidade judaica portuguesa de Amsterdão, da qual ele veio, ainda jovem, a ser violentamente expulso. Podia, no entanto, dar-se o caso de Bento ter escrito sob o nome de Baruch. Mas nunca o fez! Chega, por isso, a ser quase insultuoso para a memória do filósofo continuar a chamar-lhe Baruch, perpetuando o nome usado na comunidade que o expulsou. E o nome que ele próprio rejeitou.

Já os casos de Tolstói e de Trotski resultam de uma espécie de submissão a outras línguas europeias culturalmente mais fortes, como o francês e o inglês. A transliteração do nome próprio do escritor russo é Lev, cuja tradução literal para português é Leão. Tal como o nome do político e revolucionário ucraniano. Porquê usar, então, Leo (como os ingleses) ou Léon (como os franceses)? 

Assim, em português é compreensível a opção entre Lev e Leão. Mas nunca Leo nem Léon. 

Quando não se liga a coisas tão simples e fáceis de esclarecer como estas, imagine-se como será o resto. É por isso que tais desleixos são, geralmente, indício de livros mal traduzidos. Fujo deles!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Uma inteligência natural a falar sobre a inteligência artificial

O cientista Carlos Fiolhais irá fazer uma conferência sobre a inteligência artificial e a nossa. 

É já na sexta-feira, dia 6 de março, às 18h, no auditório do Museu de Portimão. 

Com entrada livre.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Livre-arbítrio: de que lado se encontram os filósofos?

Em geral, parece que acreditamos que temos livre-arbítrio. 

Porém, vários cientistas têm dito que, se prestarmos a devida atenção aos resultados das suas investigações, temos boas razões para considerar tal crença injustificada. 

E os filósofos, em que acreditam eles? 

Como seria de esperar, os filósofos dividem-se. Mas dividem-se como? 

Bem, é melhor perguntar-lhes.  

E foi precisamente isso que o PhilPapers Survey 2020 fez. Perguntou a cerca de 1800 filósofos profissionais de todos os quadrantes e das principais universidades do mundo (bem, apenas aos falantes de inglês, dado que o inquérito foi em língua inglesa) e publicou os resultados. O inquérito foi dirigido por dois filósofos: David Bourget (da Western University) e David Chalmers (da New York University).

O inquérito não é apenas sobre o livre-arbítrio, passando também pelos principais temas e áreas da filosofia: da metafísica à epistemologia, da ética à estética e à filosofia política, da filosofia da mente e da linguagem à filosofia da lógica e da ciência, perguntando qual a posição dos filósofos sobre questões muito precisas.

Quanto ao livre-arbítrio, as opiniões dos filósofos dividiram-se do modo que se vê tabela abaixo. A tabela foi feita por mim, sendo apenas uma pequena selecção da enorme quantidade de dados disponíveis.

Como se pode ver, a maior parte dos filósofos concordam, ou tendem a concordar, com o compatibilismo (59%). Note-se que as opções de resposta, além das três principais que encontram na tabela, incluíam, entre outras, "Não tenho opinião sobre isso, ou estou indeciso" e também "Defendo uma posição alternativa a essas", qualquer delas com pouca expressão. 

Vale a pena esclarecer o que significa escolher cada uma daquelas três opções: "Compatibilismo", "Libertismo" e "Não há livre-arbítrio".

O compatibilismo é a posição segundo a qual pode haver livre-arbítrio, mesmo que tudo esteja causalmente determinado. Há vários tipos de compatibilismo, mas uma das suas versões mais conhecidas é a de que  livre-arbítrio, mesmo que tudo esteja causalmente determinado. Os que defendem esta forma de compatibilismo juntam-se, assim, a outros filósofos ilustres como Hobbes e Hume, mas também a Daniel Dennett e Harry Frankfurt, só para dar alguns exemplos.

O libertismo é a perspectiva incompatibilista segundo a qual há livre-arbítrio e nem tudo está causalmente determinado. Os que escolheram esta resposta juntam-se a Descartes e Kant, mas também a Peter van Inwagen, Robert Kane e Carl Ginet, por exemplo.

Por fim, a posição de que não há livre-arbítrio não deve ser confundida com o determinismo radical, uma posição incompatibilista hoje minoritária entre quem defende que não há livre-arbítrio. Isto porque se pode defender, como tem sido mais frequente, que não há livre-arbítrio, independentemente de tudo estar ou não causalmente determinado. Esta é a posição dos incompatibilistas radicais (por vezes chamados pessimistas), para quem não temos livre-arbítrio, quer o determinismo causal seja verdadeiro quer seja falso. Estes filósofos deixam para os cientistas a questão de apurar se tudo está ou não causalmente determinado, sendo certo que é indiferente que esteja ou não tudo causalmente determinado: qualquer dos casos é incompatível com o livre-arbítrio. Assim, quem responde que não há livre-arbítrio, estará a associar-se a nomes como Espinosa e Nietzsche (estes sim, alegadamente deterministas radicais), mas também a incompatibilistas como Galen Strawson e Derk Pereboom.

Quanto aos resultados do inquérito, não é de todo surpreendente que a maioria dos filósofos da religião fujam ao padrão, considerando-se maioritariamente libertistas. Também não é surpreendente que os filósofos da ciência sejam os que, pelo contrário, menos aderem ao libertismo. E talvez também não seja muito surpreendente que os especialistas na chamada "filosofia continental" sejam os que menos respondem que não há livre-arbítrio. Mais surpreendente é os filósofos da física serem dos que, percentualmente, mais aderem ao compatibilismo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

As qualidades do bom professor

É uma banalidade afirmar que uma das qualidades do bom professor é conhecer bem o que vai ensinar. Como é óbvio, ninguém consegue ensinar o que desconhece, nem ensinar bem o que conhece mal.

Outra banalidade é que «conhecer um assunto e saber ensiná-lo são coisas muito diferentes», como afirma Steven Cahn, no seu excelente livro Ensinar Filosofia (Gradiva). Isto também é evidente, ainda que não seja muito difícil encontrar quem tenha como função ensinar o que mal conhece.

Além de conhecer bem o que se ensina, quais são, então, as qualidades que os bons professores têm e que faltam aos outros? 

Cahn diz que «a resposta não é um misterioso je ne sais quoi, mas a atenção a três elementos estratégicos que conduzem ao êxito». Concordando com Cahn, eu resumiria as qualidades por ele referidas no quadro seguinte.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Inventário sonoro de 2025

Ouvi bastante música nova no ano que está a terminar. Como o ano anterior, penso que este também não foi musicalmente muito entusiasmante, sobretudo no que diz respeito a álbuns. Claro que há alguns bons álbuns, mas não especialmente memoráveis. Em todo o caso, consegui ouvir uma boa mão-cheia de boas canções. 

Fiz uma pequena lista, para partilhar aqui, com algumas das canções que mais me prenderam a atenção. Enquanto pensava numa curta justificação para tais escolhas, ocorreu-me perguntar a uma IA, mais precisamente à Gemini (da Google), que razões ela daria para tais escolhas. A Gemini respondeu «com todo o gosto». 

Deixo abaixo a resposta da Gemini, a que acrescentei os meus comentários (a castanho). Trata-se, portanto, de uma pareceria, mas nem sempre concordamos.

A minha playlist de 2025 é a seguinte:

E, a seguir, a reposta da Gemini: 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Ensaios filosóficos

Cinco tipos de ensaios filosóficos:

1. Defender uma tese filosófica. 

2. Avaliar uma tese ou argumento filosóficos. 

3. Comparar criticamente teses filosóficas concorrentes. 

4. Discutir o uso ou significado de um conceito filosófico. 

5. Discutir a relevância ou formulação de um problema filosófico.