sábado, 9 de julho de 2016

Cabanas inspiradoras

Que tal passar as férias numa cabana, longe das multidões? Tudo indica que as cabanas são lugares de inspiração e de trabalho criativo. A título de exemplo, refiro aqui algumas cabanas nas quais grandes escritores, filósofos e compositores encontraram inspiração.


O enorme compositor GUSTAV MAHLER (1860-1911) compôs a maior parte das suas obras em cabanas, todas elas na região dos Alpes. 

Na cabana de composição de Steinbach, Mahler compôs parte da Segunda Sinfonia (Ressurreição) e todos os seis andamentos da enorme Terceira Sinfonia. Parece que quando o então jovem maestro Bruno Walter foi visitar o compositor a Steinbach parou à porta da cabana para contemplar a bela paisagem do lago rodeado de montanhas. Mahler terá advertido Walter: "Não precisa de ficar para aí especado a olhar. Eu já compus isso tudo!" Estava, nessa altura Mahler a terminar a sua Terceira Sinfonia.

A cabana de Steinbach, na Áustria

Problemas pessoais levaram Mahler a escolher outra cabana: Marienigg. Foi nesta que ele compôs as Quarta, Quinta, Sexta, Sétima e Oitava sinfonias, além dos maravilhosos ciclos de canções Rückert Lieder e Kindertotenlieder (Canções das Crianças Mortas). Parece que Mahler passava dias inteiros de Verão a compor, dando instruções rigorosas para nunca ser incomodado. A própria criada que, pela manhã, costumava deixar algo para comer na cabana, tinha de ir por um caminho diferente para não se cruzarem quando ele se dirigia para o seu trabalho. 

A cabana de Marienigg, também na Áustria

A terceira cabana de composição de Mahler foi a de Toblach, e foi nela que compôs aquela que é talvez a sua mais irresistível obra: A Canção da Terra.

A cabana de Toblach, que actualmente se chama Dobbiaco e fica na Itália

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Outro grande compositor que encontrou inspiração numa cabana foi o norueguês EDVARD GRIEG (1843-1907), compositor das famosas Suites Peer Gynt e de um excelente Concerto para Piano e Orquestra em Lá menor. A cabana situa-se em Troldhaugen, na Noruega.

A cabana de Grieg

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Mas também há cabanas filosóficas famosas, entre as quais a que LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951) construiu na perdida Skjolden, num remoto fiorde da Noruega. Fo aí que Wittgenstein engendrou o que viria a ser o seu famoso Tractatus.

A cabana de Wittgenstein em Skjolden, na Noruega

Actualmente só já se encontram os restos da cabana de Wittgenstein

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Também não podia faltar a cabana de MARTIN HEIDEGGER (1889-1976) na Floresta Negra, refúgio onde o filósofo alemão certamente se inspirou para escrever o seu Caminhos da Floresta.

A cabana de Heidegger em Todtnauberg, na Floresta Negra da Alemanha

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Também são muitos os escritores que procuraram inspiração na solidão das suas cabanas. O irlandês GEORGE BERNARD SHAW (1856-1950) foi um deles. Autor de Um Socialista Insociável, um dos livros que mais me impressionou na minha adolescência, Bernard Shaw foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1926 e foi também um dos fundadores da prestigiada London School of Economics.

Bernard Shaw saindo de Londres, como ele chamava à sua cabana

A cabana de Shaw continua preservada nos nossos dias

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Outra famosa cabana é a da escritora VIRGÍNIA WOOLF (1882-1941), na qual esta destacada figura do Grupo de Bloomsbury (a que também pertenceram vultos como Clive Bell, Roger Fry, John Maynard Keynes) encontrava o recato indispensável para escrever obras como Mrs. Dalloway ou Orlando.

A cabana de Virginia Woolf, junto a um frondoso castanheiro

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O mais importante poeta galês DYLAN THOMAS (1914-1953) também tinha a sua pequena cabana para escrever, junto ao estuário do rio Taf, no País de Gales. O facto de o boémio Dylan Thomas ter morrido alcoolizado com apenas 39 anos de idade poderia fazer pensar numa vida longe da solidão de uma cabana. Mas foi aí que Thomas (a quem, já agora, o jovem Robert Zimmerman, autor de Blowin' in The Wind, pediu emprestado o apelido) encontrou provavelmente inspiração para o poema que celebra o seu trigésimo aniversário e que começa assim: Era o meu trigésimo rumo ao céu / Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto / E do bosque ao lado, / E da praia empoçada de mexilhões / E sacralizada pelas garças, / O aceno da manhã.

A cabana de Dylan Thomas junto ao estuário do Taf

Dylan Thomas junto à cabana

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O senhor Samuel Langhorne Clemens, conhecido como MARK TWAIN (1835-1910) usou duas e não apenas uma cabana para escrever. É no estado de Nova Iorque que se situa a cabana em que escreveu o seus mais importantes livros: As Aventuras de Huckleberry Finn e As Aventuras de Tom Sawyer.

A cabana de Mark Twain, no estado de Nova Iorque

Twain à janela da cabana

Menos usada foi a cabana do Colorado, mas onde escreveu também alguns ensaios.

A cabana de Twain no Colorado

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Por fim, refira-se a que é talvez a mais emblemática de todas as cabanas, construída com as próprias mãos de HENRY DAVID THOREAU (1817-1862) no Lago Walden (no Massachussets) para aí viver em completo isolamento da sociedade e em total comunhão com a natureza. Foi num terreno junto a esse pequeno lago, cedido pelo seu amigo Ralph Waldo Emerson, que Thoreau quis viver em regime de auto-suficiência e de que resultou a singular obra autobiográfica Walden ou a Vida nos Bosques, na qual declara: Fui para os bosques viver de livre vontade, /  Para sugar todo o tutano da vida... / Para aniquilar tudo o que não era vida, / E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!

Uma réplica da cabana original de Henry Thoreau

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Sem dúvida que, ficcionais ou não, outras distintas cabanas haverá. Poderia referir, por exemplo, a inspiradora Cabana Junto à Praia, entre as dunas e os canaviais, que José Cid parece nunca ter chegado a esclarecer onde fica exactamente. 



sexta-feira, 8 de julho de 2016

São tudo histórias

Regra geral, os grandes artistas — sejam eles pintores, músicos, poetas ou cineastas — impressionam-nos, surpreendem-nos ou deixam-nos a pensar com o conteúdo e a genialidade das suas obras. Raramente, por mais geniais que sejam, o conseguem fazer quando reflectem sobre a sua obra e a sua arte. Quando interrogados sobre isso acabam tantas vezes por dizer pouco mais do que banalidades desinteressantes, muitas vezes sem grande nexo. 

Mas aos artistas tudo isso se perdoa, pois são macacos de outros galhos. Na verdade, não é grave que grande parte dos artistas não consigam dizer grande coisa com interesse sobre a sua obra e a sua arte — a não ser, como é óbvio, quando nos esclarecem sobre os pormenores técnicos e o contexto artístico das suas criações. Quando tem algo verdadeiramente interessante para nos mostrar, a melhor maneira de o grande artista o fazer consiste em mostrá-lo nas suas obras. E estas devem falar por si. 

Vem isto a propósito da entrevista à grande artista Paula Rego, publicada há dias pela revista do Expresso. Mas diga-se que as perguntas da entrevistadora também não ajudam Paula Rego, como se pode confirmar na passagem seguinte:


Porque é que diz que tem medo? 
Porque tenho medo de tudo. E tenho medo de tudo desde pequenina. Tenho medo do escuro. 
Mas quando pinta não tem medo? 
Não, porque se ponho na tela já não me mete medo. Pode é meter medo aos outros... [risos]. Também pinto para fazer troça das pessoas, pessoas de quem a gente não gosta nada, como as professoras e isso... 
Ficou muito marcada pela sua professora lá de casa, a D. Violeta. 
Exatamente [sussurra], mas já morreu. Que o diabo seja surdo, cego e mudo! [bate três vezes na madeira]. 
Acredita no diabo, no bem e no mal, em deus...? 
Sim. Então não existem? São tudo histórias, eu acho, mas o mundo é feito de histórias. Por isso, está claro que o diabo e deus existem, cada um à sua maneira.
A Revista do Expresso de 2 de Julho de 2016

A entrevistadora pergunta por que razão Paula Rego tem medo e Paula Rego responde que tem medo porque... tem medo. Tem, de resto, medo de tudo. Como era de adivinhar, ficámos na mesma. Contudo, lendo melhor, Paula Rego tem medo de tudo... mas das telas não tem medo. Afinal não tem mesmo medo de tudo. Ok, até se percebe a ideia: tem medo de tudo de que geralmente se tem medo quando se é pequenino. Mas, nesse caso, qual o propósito de perguntar a Paula Rego se tem medo quando pinta? Será para indagar se as suas pinturas são a expressão do medo sentido? Será para apurar se a motivação criativa de Paula Rego é transformar — oh, estafado lugar-comum! — os seus medos em quadros? Nada disso é claro.

A pergunta mais curiosa é, contudo, a última. É curiosa porque a entrevistadora não se dá conta que a pergunta é falaciosa. A pergunta assenta numa falácia bem conhecida, a falácia da questão complexa. Imagine-se que Paula Rego, como tantas outras pessoas, acreditava no bem e no mal, mas não em Deus nem no Diabo. Que resposta deveria ela dar: que sim ou que não? 

Sem se dar conta, a entrevistadora parte do pressuposto filosófico tendencioso — e, por isso, enganador — que acreditar no bem e no mal equivale a acreditar em Deus e no Diabo. Isto é partir do princípio que a perspectiva dos mandamentos divinos acerca da moral é consensual. Mas não só não é consensual como nem sequer é partilhada pela maior parte daqueles que reflectem sobre essas coisas. Será que os ateus, por exemplo, não acreditam no bem e no mal?

Ainda assim, a resposta de Paula Rego não deixa de ser desconcertante: acha que o bem e o mal, Deus e o Diabo são tudo histórias. Por isso mesmo existem, diz ela. Como as pedras, os montes e as estrelas, tudo são histórias.

Há quem concorde que no princípio era o Verbo — ou o Logos —, mas Paula Rego acha, além disso, que tudo é Verbo.

Seja como for, Paula Rego é uma mulher divertida e uma grande pintora. E o resto são histórias.


domingo, 3 de julho de 2016

Gales dá música

Muitos portugueses têm, nesta altura, os olhos postos no País de Gales. Bom, não tanto no país em si, mas antes na sua equipa de futebol. O futebol galês talvez tenha sido uma das mais inesperadas surpresas do Campeonato Europeu de Futebol, que está a decorrer em França. Mas vale a pena aproveitar a embalagem e descobrir também algumas das melhores surpresas musicais de Gales. Destaco aqui três dos mais sonantes músicos galeses da actualidade.

Karl Jenkins foi um dos mais importantes membros dos Soft Machine, o grupo que combinava o rock progressivo com o jazz de fusão, criado por Robert Wyatt e Kevin Ayers, entre outros, no final dos anos sessenta do século XX. Foi Jenkins que liderou os Soft Machine após a saída destes, tocando saxofone, oboé, teclados e sintetizadores. Depois de abandonar os Soft Machine, Jenkins ganhou a vida a compor música para filmes publicitários (da Pepsi e da Levi's, por exemplo), passando entretanto a compor obras de maior fôlego para orquestra e voz, principalmente polifonias corais. A sua longa canção Adiemus: Songs of Sanctuary (uma mistura de música clássica com música moderna e world music, e de que confesso não ser grande apreciador), composta em colaboração com Mike Ratledge, outro dos antigos membros dos Soft Machine, foi um enorme sucesso. Mais recentemente compôs um Requiem e outras obras corais religiosas, de que destaco a missa The Armed Man, talvez a sua melhor obra. O Agnus Dei que aqui partilho faz parte dessa missa. Vários intérpretes de renome, como o barítono Bryn Terfel (também ele galês) e a soprano neozelandesa Kiri Te Kanawa, têm cantado as obras de Jenkins (em gravações para editoras como a Deutsche Grammophon, a EMI ou a Warner Classics). Jenkins tem também participado em discos de Mike Oldfield.



Outro nome de primeiro plano com quem Jenkins tem colaborado é a harpista e compositora Catrin Finch, sua compatriota. Catrin Finch também aborda diferentes tipos de música, como o jazz e o folk. Mas é sobretudo como harpista que o seu nome se tem imposto mundialmente. Partilho aqui a sua excelente interpretação em harpa da Aria inicial das Variações Goldberg, de J. S. Bach. 


Para terminar, John Cale, um dos fundadores dos seminais Velvet Underground, formados em Nova Iorque com a benção do inevitável Andy Warhol. Mas Cale foi musicalmente mais do que isso, com uma carreira a solo de que sobressai um dos melhores discos da história do rock alternativo experimental: Music For a New Society (1982). A quantidade de músicos de primeiríssimo plano com que Cale colaborou é impressionante, continuando a ser um dos mais marcantes autores de música popular moderna. A canção aqui partilhada, (I Keep a) Close Watch faz originalmente parte do álbum Music For a New Society


Se Gales tiver tão bons jogadores de futebol como músicos, é caso para Portugal temer o seu adversário do jogo das meias-finais. Estão avisados!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Igualdade económica e alienação

O mais recente livro de Harry Frankfurt, Sobre a Desigualdade, acabou de ser publicado entre nós, na colecção Filosofia Aberta - Política, da Gradiva. Um livro que, apesar de muito curto, dá muito que pensar. Aqui fica uma pequena amostra.
Como objecção ao igualitarismo económico argumenta-se muitas vezes que há um conflito perigoso entre igualdade e liberdade. O argumento apoia-se na suposição de que se as pessoas fossem deixadas livremente entregues a si próprias, uma tendência para as desigualdades de rendimento e de riqueza se iria inevitavelmente desenvolver. Desta suposição infere-se que uma distribuição igualitária do dinheiro só pode ser alcançada e mantida à custa da repressão de liberdades indispensáveis ao desenvolvimento dessa tendência indesejada.
Seja qual for o mérito deste argumento acerca da relação entre liberdade e igualdade, o igualitarismo económico gera outro conflito mais fundamental. Na medida em que as pessoas estão preocupadas com a igualdade económica, sob o pressuposto falso de que é um bem moralmente importante, a sua predisposição para se sentirem satisfeitas com um determinado nível de rendimento ou riqueza está longe de ser norteada pelos seus mais distintivos interesses e ambições pessoais. Em vez disso, é guiada apenas pela quantidade de dinheiro que os outros eventualmente tenham.
Nesse sentido, o igualitarismo económico dissuade as pessoas de calcularem as suas carências monetárias à luz das suas circunstâncias e necessidades pessoais. Em vez disso, encoraja-as a aspirarem, de forma enganadora, a um nível de riqueza medido por um cálculo em que – esquecendo a sua situação monetária relativa – as características específicas das suas próprias vidas não têm qualquer peso.
No entanto, certamente que o montante disponível para outras pessoas não tem directamente nada que ver com aquilo que é necessário para o tipo de vida que, o mais sensata e apropriadamente, uma pessoa procuraria para si mesma. Assim, as preocupações com o alegado valor inerente à igualdade económica tendem a afastar uma pessoa de tentar descobrir – a partir da experiência e das condições da sua própria vida – o que realmente a preocupa, o que verdadeiramente deseja ou precisa e o que a irá de facto satisfazer.
Ou seja, uma preocupação de uma pessoa com a condição dos outros interfere com a mais básica  função de que mais decisivamente depende a selecção inteligente de objectivos monetários para si mesma. Isso afasta a pessoa da compreensão que verdadeiramente ela própria necessita para satisfazer, de facto, as suas mais autênticas necessidades, interesses e ambições. Por outras palavras, dar uma importância desmesurada à igualdade económica é perigoso por ser alienante. Separa uma pessoa da sua própria realidade individual e leva-o a centrar a atenção em desejos e necessidades que não são tão autenticamente seus.
Harry Frankfurt no Daily Show com Jon Stewart

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A desigualdade económica é intrinsecamente má?

Mais uma novidade editorial: o mais recente, mas já muito aclamado, livro do filósofo Harry Frankfurt, Sobre a Desigualdade. Um livro provocador, que nos faz pensar melhor.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Filosofia Aberta na feira

A Feira do Livro de Lisboa já abriu e é uma boa oportunidade para encontrar bons livros de filosofia a preços reduzidos. Alguns títulos da colecção Filosofia Aberta (Gradiva) estão esgotados, mas quem sabe se não se descobre por lá algum exemplar desses. Uma novidade: estão já disponíveis os mais recentes títulos da colecção, acabados de publicar: Socialismo. Porque Não?, do filósofo marxista G. A. Cohen, e Capitalismo. Porque Não?, a resposta do filósofo Jason Brennan.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Socialismo ou capitalismo?

Dois curtos mas muito interessantes livros, da autoria de dois excelentes filósofos. Não, não se trata de panfletos nem de lugares-comuns, mas de boa argumentação filosófica. Ainda por cima são livros muito acessíveis e que se lêem com prazer. Estarão nas livrarias ainda este mês de Maio e tive muito gosto em contribuir modestamente para isso.



sábado, 7 de maio de 2016

O que se ensina nos cursos de filosofia?

Há, salvo erro, oito universidades públicas portuguesas onde se pode estudar filosofia. Escolha é coisa que parece não faltar, até porque os planos curriculares dos cursos são bastante diversificados: há-os mais abertos e mais fechados, mais actuais e mais tradicionalistas, mais contidos e mais abrangentes, mais históricos e mais filosóficos, etc. E há também coincidências e ausências curiosas. 

Os quadros aqui apresentados foram elaborados por mim com base na consulta dos planos curriculares de licenciatura que se encontram nas páginas oficiais das universidades: UL, UP, UC, UM, UBI, UA, UE e UNL. Não sei se todas estas universidades tiveram procura suficiente para terem actualmente o curso de licenciatura a funcionar, mas esse é outro assunto. 

O primeiro quadro abaixo mostra a oferta das principais disciplinas filosóficas, as mais centrais. Claro que não há consenso quanto à centralidade de algumas destas disciplinas. Se a História da Filosofia, a Metafísica, a Teoria do Conhecimento, a Ética e a Lógica não levantam grandes dúvidas, talvez não seja o caso da Estética, da Filosofia Política, da Filosofia da Religião, da Filosofia da Ciência, da Filosofia da Mente e da Filosofia da Linguagem. Contudo, a quantidade de publicações nas diversas áreas filosóficas e uma breve visita aos planos curriculares das mais conceituadas universidades mundiais apontam claramente para o elenco de disciplinas aqui listadas.

A bola branca significa que a disciplina é obrigatória; a bola preta que nem sequer é oferecida; o X indica que se trata de uma disciplina opcional.

A primeira coisa que sobressai é que, exceptuando a História da Filosofia (antiga, medieval, moderna e contemporânea), nenhuma outra disciplina é obrigatória em todas as universidades. A Teoria do Conhecimento, a Lógica e a Ética são, depois da História da Filosofia, as mais consensualmente obrigatórias. 

Em sentido oposto, surpreende que uma das disciplinas filosóficas em que a discussão tem sido mais intensa nas últimas décadas, a Filosofia da Mente, nem sequer como opção aparece em cinco das oito universidades portuguesas. E algo parecido se passa com a Filosofia da Linguagem, que nem opção é em três delas.

Mais surpreendente ainda é a Metafísica ser obrigatória em apenas duas universidades e nem como opção constar em três outras universidades. É certo que estas oferecem Ontologia, que faz parte da metafísica, como disciplina obrigatória. Mas a ontologia deixa de fora problemas metafísicos importantes como os do livre-arbítrio, causalidade e determinismo, mas também as questões do espaço e do tempo, da identidade e persistência ao longo do tempo ou ainda da modalidade, entre outras questões.

Quanto às universidades, destaca-se a de Coimbra, em que só a História da Filosofia (antiga, medieval, moderna e contemporânea) é obrigatória. É certo que o elenco de disciplinas opcionais é relativamente restrito, mas não deixa de ser possível alguém concluir a licenciatura sem ter estudado Teoria do Conhecimento, Ética, Lógica e Filosofia Política, por exemplo. 

Inversamente, nos Açores e na Beira Interior há uma extensa lista de disciplinas obrigatórias, com um reduzido peso de disciplinas opcionais — isto torna-se mais claro quando se consultam também os dois quadros abaixo.

A Universidade de Lisboa é a que, em minha opinião, oferece uma melhor combinação de disciplinas obrigatórias — as que são realmente mais centrais — e opcionais.

O quadro seguinte inclui disciplinas que algumas universidades dão como obrigatórias, outras como opcionais e outras que nem sequer as têm para oferecer. 

Duas disciplinas se destacam neste quadro: a Antropologia Filosófica e a Filosofia em Portugal. Posso estar mal informado, mas não tenho conhecimento de grande produção ou discussão filosófica na área da antropologia filosófica — se comparada com outras áreas disciplinares. Contudo, as universidades portuguesas atribuem-lhe mais importância do que à Metafísica, à Filosofia da Ciência ou à Filosofia da Mente. E será que a filosofia em Portugal é também mais relevante do que estas disciplinas? Será, por exemplo, que os cursos das universidades brasileiras incluem uma disciplina de Filosofia no Brasil? Nas universidades inglesas não encontrei qualquer disciplina de Filosofia em Inglaterra ou de Filosofia Britânica. E o mesmo se passa nos cursos de filosofia das universidades francesas.

A Universidade dos Açores tem a particularidade de incluir como disciplinas obrigatórias a História de Portugal (de diferentes períodos), a Literatura Portuguesa, a História dos Açores e Estudos Culturais. Mas isso acontece porque não se trata de um curso de filosofia apenas, mas de Filosofia e Cultura Portuguesa. 

O quadro seguinte inclui apenas algumas das numerosas disciplinas opcionais nas diferentes universidades.

Algumas universidades, como a de Évora, oferecem um extenso leque de disciplinas opcionais. Certamente que este leque de disciplinas acaba, na prática, por se reduzir bastante, pois terá de haver um número mínimo de inscritos para o seu funcionamento, mas a oferta não deixa de ser exuberante. Outras universidades, como a do Minho, oferecem também um extenso leque de disciplinas opcionais não filosóficas (por exemplo, línguas estrangeiras, economia, etc.), que não cabem neste resumido quadro. 

Finalmente, fiquei surpreendido por não ter encontrado sequer como opção a disciplina de Filosofia do Ambiente em nenhuma universidade, que supunha ser bastante popular. O mais próximo disso é a disciplina de Filosofia do Habitat, como opção na UBI.

terça-feira, 19 de abril de 2016

meia-dúzia ao vivo

Do que conheço da música rock e afins, estes são talvez os melhores álbuns gravados ao vivo.

Em  minha opinião, os álbuns ao vivo não costumam ser grande coisa: quase sempre as gravações são feitas em piores condições do que os discos de estúdio, o que prejudica a qualidade sonora; o ruído do público é muitas vezes exagerado e até irritante (vejam-se as ridículas gravações ao vivo de concertos dos Beatles, em que a gritaria do público se sobrepõe à música); a execução deixa muitas vezes a desejar, pois os músicos não só deixam de contar com todo o tipo de recursos disponíveis em estúdio como não têm a oportunidade de repetir o que corre mal; raramente se encontram novidades nos discos ao vivo, que dificilmente passam de versões mais toscas do que já se conhece de outros discos; e poderia acrescentar outras razões de peso.

Mas também há casos em que os álbuns ao vivo conseguem acrescentar algo que não conseguimos encontrar num disco de estúdio: o improviso capaz de enriquecer as músicas que já conhecemos; a atmosfera festiva e de celebração que faz daquele momento um acontecimento único; a energia e autenticidade que por vezes se perde nas gravações de estúdio; a maneira como os músicos interagem musicalmente com o público; a apresentação de versões melhoradas de músicas já conhecidas ou mesmo de músicas novas; e poderia acrescentar outras razões. Os discos seguintes são os que, em minha opinião, melhor exemplificam estes aspectos.

Deep Purple, Made in Japan (1972)
Este é um dos melhores discos alguma vez gravado ao vivo e, quanto a mim, o melhor disco alguma vez gravado pelos, hoje em dia, algo subestimados Deep Purple. Tem um som fantástico, que quase nos permite "visualizar" o palco, e interpretações soberbas dos cinco membros do grupo: a canção de abertura, Highway Star, é mesmo melhor do que o original gravado em estúdio, sobretudo o memorável solo de guitarra, que soa mais inspirado e menos artificial do que o do original. E segue-se-lhe uma versão inesquecível de Child in Time que, só por si, justifica a sua inclusão nesta lista.

King Crimson, USA (1974)
Este disco marca a despedida da primeira e mais interessante fase dos King Crimson. O som dos King Crimson é aqui mais duro e agreste do que o habitual (mais notoriamente em Larks' Togues in Aspic e 21st Century Schizoid Man) mas isso não retira um pingo da subtileza instrumental que caracteriza a sua música. Em alguns casos, essa subtileza resulta do contraste entre uma certa rudeza e uma quase tímida serenidade. Exiles, por exemplo, tem aqui a melhor versão que lhes conheço, na voz quente e lírica de John Wetton. Mas há, além disso, o excelente Lament e sobretudo o introspectivo Starless.

Keith Jarrett, The Köln Concert (1975)
Um disco único, em vários aspectos. Em sentido literal, porque se trata do registo de um longo e solitário improviso musical a que Jarrett nunca mais voltou a ligar. Jarrett está a sós com o piano como se fossem apenas uma coisa. Não é bem um disco de jazz nem é fácil enquadrá-lo num género musical preciso; é algo musicalmente à parte, uma espécie de reflexão musical. E é, acima de tudo, um disco belíssimo, com música cativante. E pensar que Jarrett quase se recusou a tocar nessa noite de Janeiro de 75, porque o piano não era o que ele pediu: tinha, de resto, os graves muito fracos e os agudos demasiado pequenos, obrigando-o a tocar quase sempre nos médios. O que vale é que a jovem organizadora do concerto, com apenas 17 anos, conseguiu convencê-lo a tocar com um piano de segunda linha, usado apenas nos ensaios da Ópera de Colónia.


Tom Waits,Nighthawks at the Dinner(1975)
Dos três discos gravados ao vivo por Waits, este é o que mais soa a Waits, aquele em que mais facilmente o imaginamos a cantar para nós ao piano de um pequeno bar nocturno do que numa grande sala de concertos. Waits é daqueles músicos capazes de criar uma atmosfera própria que nenhuma gravação em estúdio permite captar totalmente, apenas deixando adivinhar. Este Nighthawks at the Dinner aproxima-nos disso: uma sala pequena numa qualquer viela urbana, boa conversa a introduzir cada canção e a magnética personalidade musical de Waits quase no nosso círculo de intimidade. O disco não inclui as mais emblemáticas canções de Waits, mas não deixa de ser uma excelente colecção de canções, com Waits no seu melhor.

Weather Report, 8:30 (1979)
Um som incrível para um disco ao vivo. Poderia ser um disco de estúdio, não fosse a sensação de espacialidade só ao alcance de uma excelente gravação ao vivo como esta. Nos temas mais suaves, como no sereníssimo A Remark You Made ou em In a Silent Way, não se perde sequer o mais pequeno detalhe do baixo de Pastorius, do sax de Shorter  ou dos teclados de Zawinul, que nos prendem do princípio ao fim. Por sua vez, temas que são autênticas bandeiras do jazz-rock dos Weather Report, como Birdland ou Black Market ganham uma força e uma envolvência quase hipnóticas que vão além dos originais de estúdio.

Talking Heads, The Name of This Band is... (1982)
Há quem considere Stop Making Sense, gravado dois anos depois deste, o melhor disco ao vivo dos Talking Heads. Stop Making Sense é acima de tudo um excelente filme (dirigido por Jonnathan Demme) de música ao vivo, talvez o melhor que há. Mas The Name of This Band Is Talking Heads surpreende em todos os aspectos como nenhum outro disco ao vivo que tenha ouvido. Nem vale a pena referir a sequência de grandes canções dos quatro primeiros discos (qual deles o melhor!) dos Talking Heads. Quando se está à espera de versões algo simplificadas das canções originais, fica-se surpreendido ao verificar que muitas delas resultam ainda mais ricas, frenéticas e vigorosas.

domingo, 10 de abril de 2016

Livre-arbítrio: uma útil e promissora ilusão?


Uma vez que a mente individual não pode ser inteiramente descrita por si mesma, ou por qualquer outro investigador separado, o «eu» — a famosa estrela convidada nos cenários da consciência — ela poderá continuar a acreditar arrebatadamente na sua independência e no livre-arbítrio. E essa é uma circunstância feliz do ponto de vista darwiniano. A confiança no livre-arbítrio é uma adaptação biológica. Sem ela, a mente, na melhor das hipóteses uma frágil e sombria janela para o mundo real, seria atormentada pelo fatalismo. À semelhança de um prisioneiro, condenado a permanecer toda a vida em solitária reclusão, privado de qualquer liberdade para explorar e à míngua de qualquer surpresa, a mente deteriorar-se-ia.
Então, o livre-arbítrio existe? Sim, se não existe enquanto verdadeira realidade, existe pelo menos no sentido operacional necessário para a sanidade, e, portanto, para a perpetuação da espécie humana. 
                  O Sentido da Vida Humana (Clube do Autor Editora), pp. 180-181
Este argumento de Edward O. Wilson é muito semelhante ao de Kant a favor da imortalidade da alma. Com uma diferença importante: este de Wilson visa estabelecer a inevitabilidade prática da crença no livre-arbítrio, ao passo que o de Kant visa estabelecer não tanto a inevitabilidade prática da crença na imortalidade da alma mas a da própria verdade dessa crença.