quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Reinventar o marxismo

John E. Roemer é um economista político e um dos mais destacados filósofos marxistas dos últimos anos, juntamente com G. Cohen, J. Elster, van Parijs e outros representantes do chamado marxismo analítico.  

Este livro de Roemer é uma das mais claras tentativas de recuperação de um socialismo de inspiração marxista ainda não experimentado. Nesse sentido, Roemer propõe um modelo original de funcionamento de uma economia socialista, procurando mostrar como se comporta na prática.

Demarcando-se do socialismo revolucionário, utópico e romântico, que Roemer aqui descarta tranquilamente, estamos agora perante uma proposta concreta de organização socialista que não só aceita os mercados como lhes atribui uma grande utilidade numa economia socialista. E considera também que a denúncia da propriedade privada como fonte de desigualdades injustas não implica a defesa da estatização da propriedade (como acontecia nas falidas sociedades comunistas). 

Assim, Roemer tanto rejeita as nacionalizações das empresas como as suas privatizações, defendendo a propriedade pública não estatal e um novo tipo de titularidade, a considerar seriamente: uma espécie de carteira de ações ou cupões de empresas, atribuídos a cada pessoa maior de 21 anos, que cada um gere da forma que lhe parecer melhor, podendo trocar ou negociar ações, sem contudo poder transformá-las em liquidez. 

Roemer explica de forma bastante clara no livro quais as vantagens e o propósito disso, tendo em conta o triplo objectivo socialista da igualdade de oportunidades: para a auto-realização e o bem-estar; para a influência política; para o estatuto social. 

O livro estará nas livrarias no fim deste mês de Outubro e agradou-me muito estar ligado à sua publicação.

sábado, 14 de outubro de 2017

Os Beatles e o fim da ditadura musical do século XX


Quem já foi incomodado com infiltrações de água em casa deve ter descoberto que há casos em que de nada serve barrar-lhe o caminho, pois ela sempre acaba por encontrar outro, por vezes bem improvável.

Creio que algo semelhante ocorreu com a música na segunda metade do século XX. Estou a pensar no que, graças ao génio dos Beatles, aconteceu à melodia tonal, que apenas conseguia sobreviver dignamente em algumas variantes de jazz, no cinema e pouco mais.

Não é exagerado afirmar que a melodia é a principal responsável pelo irresistível apelo da música ocidental junto dos melómanos. E também não é por acaso que os amantes de música são referidos como melómanos e não harmoniómanos, ritmómanos ou timbrómanos. Embora quase toda a música, tonal ou atonal, tenha melodia — mesmo que algumas pessoas erroneamente protestem que certas peças atonais não são melódicas —, estou a pensar particularmente na melodia tonal.

A melodia tonal sempre foi a principal porta para a fruição musical, seja na música coral, na música puramente instrumental ou na ópera. Mas foi sobretudo na canção que a melodia tonal reinou acima de tudo o resto, presenteando-nos com verdadeiros tesouros musicais concentrados. Schumann, Schubert, Brahms, Wolf, Mahler e Strauss, entre outros, consolidaram a canção como um género musical de primeiríssima importância, enriquecido também por franceses e ingleses como Poulenc e Britten, respectivamente. E até os italianos lhe dão o destaque merecido, mesmo quando chamam ária à canção implantada na trama operática.

Mas muita coisa mudou no panorama musical do século seguinte. Assente na convicção de que o século XIX tinha esgotado os recursos da composição tonal e de que toda a música ocidental precisava de se reinventar, o início do século XX cravou o primeiro prego do que muitos acreditaram ser o caixão da melodia tonal, uma das vítimas da crise da tonalidade.

O enterro chegou a ser celebrado precipitadamente em plena ditadura vanguardista de meados do século passado, quando os proprietários institucionais da música dessa altura decretavam ferozmente o que era ou não era musicalmente admissível. É, de resto, irónico e significativo como algumas das mais belas canções jamais escritas — As Quatro Últimas Canções — compostas precisamente por essa altura, soaram como um comovente canto do cisne da melodia tonal ela própria. Ainda por cima escritas por alguém — Richard Strauss — que no passado chegara a roçar os limites da tonalidade.

Pouco depois desse melancólico e dourado ocaso outonal, já a ditadura vanguardista, liderada pela arrogância serialista, estendia o seu domínio sobre praticamente todo o universo musical erudito, fazendo da melodia tonal uma espécie de herança vergonhosa de um passado sepultado.

Não seria rigoroso afirmar que a melodia desaparecera totalmente, como referi acima, mas sobrevivia dignamente sem o brilho do passado. Até que surgiram os Beatles, que, como a água, irresistivelmente abriram outro caminho, reconciliando definitiva e descomplexadamente os amantes da música com a melodia tonal. Foram eles que retomaram o fio perdido que vinha de Schubert, Wolf e Verdi, devolvendo à melodia todo o seu esplendor e o público que já lhe faltava.

Claro que os Beatles não fizeram essa revolução completamente sozinhos. Mas sem o seu génio musical talvez a água da melodia tonal não tivesse encontrado leito apropriado. Além disso, o génio musical dos Beatles era totalmente afirmativo, pois não exprimia uma atitude negativa de recusa musical fosse do que fosse. Eles próprios aliaram, de forma espontânea e desinibida, uns toques de experimentalismo musical vanguardista à simplicidade desarmante dos princípios tradicionais da melodia tonal. Com os Beatles a música passou mesmo a ser diferente e voltou, de forma resoluta, a ser popular, como outrora foram as canções de Schubert ou as árias de Verdi.

De resto, não há muito na música popular urbana actual em que não se encontre, para o bem e para o mal — tantas vezes para o mal —, a herança musical dos Beatles. Com a diferença de que a música dos Beatles continua a ter a frescura das criações intemporais.

O mais surpreendente de tudo isto — ou talvez não — é que, se tivermos em conta a educação musical formal dos seus membros, os Beatles eram praticamente semi-analfabetos musicais. O que só torna o seu génio ainda mais notável, até porque ele não consiste simplesmente no seu sentido melódico, mas também nas suas harmonias vocais, no uso do contraponto e numa descomplexada liberdade instrumental que confere a muitas das suas canções uma riqueza tímbrica inesperada — a que o quinto Beatle, George Martin, não é alheio.

As mais de 210 canções compostas e gravadas pelos Beatles oferecem-nos abundantes exemplos do que digo. Mas, entre tantas canções memoráveis, arrisco a minha lista das melhores vinte, apresentada no post anterior a este. 

Beatles: 20 armas de revolução massiva

Esta é a minha lista das vinte melhores canções dos Beatles. O que não falta por aí são listas idênticas a esta: das melhores vinte, melhores dez, melhores cinquenta. Há até quem, como neste caso, ordene as 213 canções originais dos Beatles da menos boa até à melhor, acrescentando a devida justificação. Devo dizer que só nove das vinte melhores dessa lista constam da minha. Contudo, coincidimos nas três melhores, embora a ordem seja ligeiramente diferente.

A verdade é que não tenho grandes dúvidas em relação às cinco melhores, seja por que ordem for. Aqui fica a lista comentada, com comentários um pouco mais alargados apenas para essas cinco.

1. A Day In The Life (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967)
Esta canção consegue reunir o melhor de John Lennon com o melhor de Paul McCartney. Surge, de resto, da reunião de duas canções completamente diferentes de cada um deles: começa com a parte de Lennon e passa para a de McCartney, com uma transição instrumental de pura liberdade orquestral. É uma canção invulgar a todos os títulos: acordes de guitarra ao fundo que parecem não avançar, o piano como que a dar uma ordem de partida e que imediatamente se acomoda para que a voz moderadamente plangente de Lennon, ocasionalmente pontuada pela batida aparentemente irregular da bateria de Ringo Starr, comente as notícias do jornal do dia — alguém ganhou a lotaria, um jovem morreu num acidente de automóvel. A parte orquestral que se segue é uma verdadeira vertigem sonora ascendente que subitamente se acalma e passa para um despertar algo apressado, cantado agora por McCartney. A vertigem sonora orquestral regressa no final e conclui de forma improvável: um verdadeiro ponto final sonoro, com vários pianos a dar em uníssono um único acorde que se prolonga por muito tempo sem se desvanecer. Quem pensava que nada mais havia para inventar dentro dos cânones melódicos tradicionais, devia ouvir isto.

2. Penny Lane (single, 1967)
Parece que esta obra-prima composta por McCartney foi a resposta a Strawberry Fields Forever, outra obra-prima, composta pouco antes por John Lennon. Tal como a canção de Lennon, também Penny Lane evoca recordações da infância em Liverpool. Penny Lane é o nome de uma rua que fica perto da zona onde McCartney morava e por onde passava frequentemente. A letra consiste nas suas memórias de infância de quando cruzava essa rua: coisas banais, mas com os sons e as cores (Penny Lane is in my ears and in my eyes) da candura infantil que simplesmente se satisfaz com a felicidade de um céu azul (the blue suburban skies). A canção começa logo por surpreender com a sua melodia descendente, empurrada pelo baixo bem delineado e saltitante de McCartney. Outro aspecto que não é muito vulgar na música popular prende-se com o uso da bitonalidade, saltando de um tom para o outro ao longo da canção. Não menos surpreendente é o arranjo instrumental, em que se destaca a parte dos metais (trompetes) e um inesperado piccolo. Por vezes penso ser esta a melhor canção do Beatles.
The blue suburban skies,
da ponte sobre o caminho de ferro, em Penny Lane.

3. Strawberry Fields Forever (single, 1967)
Mais uma brilhante canção, que também começa de forma cativantemente estranha: uma primeira frase cantada de forma assertiva e imediatamente quebrada por uma espécie de anti-clímax melódico. E também ela é sobre a felicidade da infância de Lennon. Strawberry Fields é o nome do sítio, ali mesmo ao pé de casa, onde a sua tia o levava no Verão para brincar livre e despreocupadamente com outras crianças no pequeno bosque que lá havia: quem me dera ser sempre criança, é o que Lennon exprime com o refrão Strawberry Fields Forever. A sensação de algo guardado na memória de infância é dada logo a abrir com os aconchegantes acordes de mellotron, um instrumento inventado por essa altura, tocado por McCartney. Este era, aliás, um dos maiores segredos do sucesso musical dos Beatles: as canções de cada um dos dois principais autores eram sempre enriquecidas com as ideias do outro. Por isso se justifica plenamente atribuir a autoria à dupla Lennon e McCartney, independentemente de quem é o autor da ideia original. Tanto Penny Lane como Strawberry Fields Forever foram gravadas para o álbum Sgt. Pepper's, mas acabaram por sair à parte pouco antes de sair aquela obra-prima.

Strawberry Fields, em Liverpool

4. Eleonor Rigby (Revolver, 1966)
Outra canção irresistível, da autoria de McCartney, toda ela acompanhada apenas por uma orquestra de câmara, mas com o ritmo de uma genuína canção pop. A letra é sobre as pessoas solitárias e as pequenas coisas com que tentam preencher o seu quotidiano. A composição começa de forma pouco habitual, com o refrão. A veemência do refrão reforça o que se pede com as palavras (Ah, look at all the lonely people!) e contrasta melodicamente com a parte descritiva da letra. Por sua vez, o contraponto é breve e astuciosamente usado para relembrar o convite inicial contido no refrão. Tudo nesta canção funciona de forma perfeita e expressiva. Só os Beatles foram capazes de fazer uma canção assim.

5. You Never Give Your Money - Sun King - Mean Mustard - Polythene Pam - She Came In Through The Bathroom Window - Golden Slumbers - Carry That Weight - The End (Abbey Road, 1969)
Em rigor, não temos aqui apenas uma canção, mas uma miscelânea de fragmentos de canções diferentes, aparentemente ligados entre si e correspondendo a quase todo o lado B de Abbey Road. Este foi o último álbum gravado pelos Beatles, apesar de ter sido lançado antes de Let It Be, gravado anteriormente. Lennon, autor de metade das canções — sendo a outra parte de McCartney — explicou que se tratou de aproveitar antigos esboços de canções abandonadas por ambos e que decidiram reunir aqui. A verdade é que, apesar das diferenças melódicas, e não só, elas ouvem-se como se fossem capítulos de uma só peça: como se tratasse de diferentes andamentos de uma sinfonia rock ou das árias de uma espécie de ópera rock sem libreto. O resultado é simplesmente brilhante: melodias viciantes e imprevisíveis, como Golden Slumbers; harmonias vocais cativantes como em You Never Give Me Your Money ou Sun King, com um toque de Beach Boys; guitarras incisivas como em She Came In Through The Bathroom Window e The End; hinos imparáveis como Carry That Weight; orquestrações brilhantes como em Carry That Weight e The End. As letras são quase todas pequenos flashes de situações banais e, por vezes, roçam mesmo o non sense, especialmente a mistura de palavras de diferentes línguas latinas em Sun King. Mas tudo funciona de forma irresistível, numa variedade melódica, vocal, harmónica e instrumental que nunca cansa.

6. She Said She Said (Revolver, 1966)
Os Beatles num registo mais puramente rock, com guitarras firmes, ácidas e enleantes. E a voz ligeiramente rugosa de Lennon subtilmente iluminada pelas harmonias vocais em que repousa.

7. She's Leaving Home (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967)
Uma pérola vocal, harmónica e orquestral. É sobre a uma jovem provinciana que sai de casa dos pais contrariados, em busca sabe-se lá bem de quê. Uma das coisas que mais se destaca nesta canção é o uso de duas vozes em contraponto, apresentando cada uma delas uma perspectiva diferente: a dos pais consternados e a da filha em busca de liberdade.

8. In My Life (Rubber Soul, 1965)
Uma das canções mais simples e mais belas dos Beatles. Tudo vem a propósito, incluindo o solo discreto de guitarra eléctrica no início, o belo solo bachiano no piano a meio, e o falsete final. De uma simplicidade tocante.

9. If I Feel (A Hard Day's Night, 1964)
Outra melodia tocante da primeira fase dos Beatles, composta e cantada por Lennon, a que se acrescentam belíssimas harmonias vocais.

10. Yesterday (Help!, 1965)
Diz-se que esta é só a canção com mais versões gravadas em toda a história da indústria discográfica. Não é fácil perceber porquê. Como confessou McCartney, quando a cantou pela primeira vez na guitarra, parecia que estava a cantar algo que já existia por aí desde sempre e que nem sequer tinha sido ele a compô-la. Mas foi. É uma canção melodicamente complexa, com muitos acordes e uma orquestração que acentua ainda mais a sua força melódica.

11. Here, There and Everywhere (Revolver, 1966)
Se a anterior é uma melodia complexa, esta é bem singela. Mas tem uma beleza desarmante e um sabor agradavelmente nostálgico, dado sobretudo pelos coros.

12. Here Comes The Sun (Abbey Road, 1969)
Nem só de Lennon e McCartney vivem os Beatles, como o prova esta sedutora canção, escrita e cantada por George Harrison. O que mais me agrada nela é a toada elegante e optimista como que a empurrar-nos suave mas decididamente. Gosto particularmente do toque da tarola de Ringo Starr.

13. Tomorrow Never Knows (Revolver, 1966)
Se em Yesterday abundam os acordes, nos 3 minutos de Tomorrow Never Knows não há mais do que um, e só um, acorde. Esta canção ilustra bem a ousadia e a liberdade criativa dos Beatles, que nunca se limitam a seguir a mesma fórmula, ao contrário do que infelizmente acontece com grande parte dos músicos rock. O mais interessante nesta canção não é só o uso de recursos tecnológicos inspirados nas experiências vanguardistas da música erudita da altura, como a fita magnética e o looping, mas o seu efeito melódico e o modo como tudo se conjuga de forma estranha mas harmónica.

14. Girl (Rubber Soul, 1965)
Esta é uma das mais bonitas baladas dos Beatles. Lennon canta nostalgicamente o seu amor definitivo pela rapariga que ainda nem sequer conhece (ele próprio disse que a rapariga era Yoko, a qual veio a conhecer anos mais tarde). A melodia, de tão singelamente bela, quase dispensa acompanhamento instrumental. E este restringe-se ao mínimo, como tinha mesmo de ser.

15. The Long and Winding Road (Let It Be, 1970)
Mais uma belíssima canção de McCartney, simultaneamente nostálgica e esperançosa. De facto, ela soa a despedida — a despedida dos Beatles, tanto pela melodia como — mesmo não parecendo à primeira vista — pela letra. Destacam-se os coros distantes e quase etéreos a dar uma não exagerada grandiosidade à melodia, além dos arranjos orquestrais clássicos e envolventes, a mostrar que os Beatles se sentem confortáveis em todos os registos.

16. While My Guitar Gently Weeps (White Album, 1968)
George Harrison de novo, com outra fantástica canção baseada sobretudo na sua guitarra — e com uma mãozinha de Eric Clapton nos solos instrumentais. A melodia é cantada na voz aparentemente frágil de Harrison, o que lhe dá um toque algo lírico, acentuado por uma batida simultaneamente indolente e acentuada.

17. The Fool On The Hill (Magical Mystery Tour, 1967)
Os méritos desta canção estão longe de reunir consenso, mesmo entre os apreciadores dos Beatles. Mas penso que merece estar entre as melhores por se tratar de um excelente exemplo do lirismo melódico aparentemente despojado de McCartney, conseguindo acentuar esse lirismo com um arranjo orquestral perfeito.

18. Help (Help!, 1965)
Ao usarem magistralmente as segundas vozes e o contraponto, com a sua melodia em forma de fuga, os Beatles mostravam nesta canção como a música rock não tinha de ser apenas constituída por melodias simplórias, envolvidas por instrumentos electrificados.

19. Ticket to Ride (Help!, 1965)
A irresistível malha inicial da famosa Rickenbacker de 12 cordas, aqui tocada por George e a afirmativa entrada da bateria de Ringo, ampliada pelas notas ressoantes do pequeno baixo Hõfner de Paul mostram logo ao que vêm: rock intenso, melodioso e instrumentalmente cativante. Mais uma canção inspirada de Lennon, com importantes contributos instrumentais de todos os outros, em especial de Paul.

20. Within You Without You (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967)
Outra faceta dos Beatles e também o seu lado mais exótico, liderado por George. Não se trata simplesmente de uma curiosidade de inspiração indiana, mas de uma verdadeira canção, com todos os melhores ingredientes que uma boa canção pode ter. E com George a cantar e a tocar sitar, que aprendera a tocar com músicos indianos, entre os quais Ravi Shankar.

Fora desta lista ficam canções memoráveis como Hey Jude, Let It Be, Paperback Writer, Day Tripper, Something, Blackbird, Across the Universe, Lady Madonna, Come Together, All You Need is Love, Revolution, With a Little Help From My Friends, Norwegian Wood, Drive My Car, I Want to Hold Your Hand, All My Loving, And I Love Her, Michelle e tantas outras que teria vontade de incluir. Mas isto são os Beatles, não é qualquer coisa.

A lista das 20 canções acima pode ser ouvida aqui.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Jorge Buescu sobre o ensino da Matemática

No mesmo volume referido no post anterior, vale a pena destacar o texto de Jorge Buescu, que apresentou interessantes dados empíricos sobre o ensino da Matemática e que, em muitos aspectos, podem ser semelhantes ao que se verifica no ensino outras disciplinas. 


O texto de Buescu apresenta algumas das principais conclusões daquele que é talvez o mais abrangente e extenso estudo de sempre sobre o ensino da Matemática nos EUA. As conclusões do estudo, que levou 20 meses de intenso trabalho realizado por um painel de professores, matemáticos, investigadores e especialistas em educação, alguns deles de reputação mundial, foram apresentadas num relatório, cuja síntese está disponível aqui

Esta síntese, intitulada Foundations for Success (FS), que tem por detrás mais de 16 mil relatórios sobre políticas educativas e publicações científicas sobre o ensino da Matemática, visa ultrapassar as velhas e infrutíferas Math Wars (Guerras da Matemática) sobre o que deve e como deve ser ensinada a disciplina nas escolas. 

No seu texto, Jorge Buescu destacou e esclareceu algumas das conclusões desse importante documento. Destaco aqui duas delas, que podem ser surpreendentes para muitos, e que também se podem aplicar a outras disciplinas. Os sublinhados são meus.

(clicar para ampliar)


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O que ensinar e como ensinar?


O texto da minha comunicação no Colóquio Currículo e Conhecimento, organizado pelo Conselho Nacional de Educação, em Março de 2016, foi recentemente publicado pelo CNE no Volume 1 da Lei de Bases do Sistema Educativo - Balanço e Prospetiva.

Defendo aí que o ensino público não deve ter como principal finalidade o desenvolvimento económico do país nem a formação de bons cidadãos nem a preservação da herança cultural colectiva nem o sucesso profissional dos indivíduos nem o desenvolvimento da autonomia pessoal. Mais do que isso, e acima de tudo isso, o ensino público deve estar ao serviço do florescimento humano, em sentido aristotélico.



Nesse sentido, defendo ainda que não cabe aos pais decidir o que os seus filhos menores devem aprender na escola e que essa decisão também não compete ao Estado. O que se aprende deve ser o resultado de escolhas individuais informadas, tendo em conta as diferentes formas de vida com valor, de acordo com o mais sólido conhecimento (não apenas o conhecimento de verdades, mas também o conhecimento prático e o conhecimento directo) disponível nas diferentes áreas de atividade humana.


A filosofia é uma dessas áreas centrais do conhecimento, pelo que não deve ser excluída do currículo. Apresento os núcleos centrais do que poderia ser um tal currículo de filosofia. 


O esquema seguinte, incluído no texto, resume as diferentes perspectivas sobre as finalidades do ensino. Faço também uma breve descrição e avaliação de cada uma dessas perspectivas e procuro mostrar que só uma delas promove de forma adequada o respeito pelos direitos humanos fundamentais.



O texto completo também pode ser lido aqui.
  

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O que é a arte?


A filosofia da arte (mais precisamente o problema da definição de arte) está prevista como matéria não opcional no novo documento das Aprendizagens Essencias de Filosofia, a aplicar já no ano letivo que agora começa nas cerca de duzentas escolas que aderiram ao projecto experimental de autonomia e flexibilização curricular. Este projeto será alargado a todas as escolas no ano letivo seguinte. 

Para quem pretende começar a preparar-se melhor para lecionar esse tema ou para quem quer simplesmente aprofundar os seus conhecimentos na área, irei dar uma ação de formação sobre o problema da definição da arte, promovida pelo Centro de Formação Beira Mar, em colaboração com a Associação de Professores de Filosofia. 

As inscrições para a ação de formação de 25 horas, em regime de elearning, terminam já na próxima semana e o número máximo de formandos admitidos é de 15.

Para mais detalhes, pode ver aqui.

Entretanto, deixo aqui o elenco de tópicos a explorar:



Contextualização histórica e filosófica do problema da definição de arte
- Estética ou filosofia da arte?
- Distinguir os problemas da definição, da interpretação, da avaliação e do valor da arte


Tipos de definições e modos de as classificar 
- Definições essencialistas e definições não-essencialistas da arte
- Definições funcionalistas e definições procedimentalistas da arte 

- Definições estéticas e definições não-estéticas da arte
- Definições reais e definições nominais da arte


Perspetivas essencialistas tradicionais  
- A definição representativista (Platão, Aristóteles e Danto) 
- A definição expressivista (Tolstói e Collingwood)
- A definição formalista (Bell e Fry)
- Objeções às definições anteriores

Perspetiva cética
- A indefinibilidade da arte e a arte como conceito aberto (Wittgenstein e Weitz) 

- A diferença entre definir arte e identificar objetos de arte
- Objeções à perspetiva cética


Perspetivas não-essencialistas  
- A definição institucionalista (Dickie)
- A definição historicista (Levinson)
- Objeções às definições anteriores.


Alternativa à definição: caraterizar a arte em vez de a definir  
- A caraterização naturalista (Dutton)
- A caraterização histórica (Carroll) 

sábado, 12 de agosto de 2017

Santos e autores


Quem é o autor da Suma Teológica?
Resposta: Tomás de Aquino.

E o autor de A Cidade de Deus?
Resposta: Agostinho de Hipona.

E o autor de Proslogion?
Resposta: Anselmo de Cantuária.

Se é assim, por que razão, em vez desses nomes, se encontra nas capas de algumas traduções portuguesas de tais livros os nomes São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e Santo Anselmo? É por a Igreja Católica assim ter decidido?

Mas isso não colhe. Primeiro, porque quem escreveu tais obras foram mesmo Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona e Anselmo de Cantuária, que não eram santos, dado só muito mais tarde terem sido canonizados. Depois, porque a santidade é oficialmente reconhecida apenas pela Igreja Católica e seus seguidores, não constituindo ela um elemento objectivo da identificação do autor. Finalmente, porque não há outros autores com os mesmos nomes, pelo que acrescentar-lhes o título de santidade em nada contribui para uma identificação mais precisa.

Em suma, o mais correto é identificar os autores dessas obras usando os nomes pelos quais respondiam quando as escreveram e deixar os santos apenas para os católicos, se assim o desejarem. Mas, numa edição filosófica da Suma Teológica, parece-me uma falta de cuidado e de rigor histórico identificar o autor como São Tomás de Aquino. De resto, nem é claro que ser santo faça sequer parte da sua biografia.

O autor da Suma Teológica é, pois, Tomás de Aquino e do Proslogion é Anselmo de Cantuária. Em nome do rigor histórico, que todos os académicos deviam prezar, é o que devia estar nas capas dos seus livros.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Tu és o repouso

O poema Du bist die Ruh é de Friedrich Rückert, a música de Franz Schubert, a interpretação do precocemente falecido contralto britânico Kathleen Ferrier. E o comentário, no seu devido contexto,  é do filósofo, e também compositor, Roger Scruton. Foi retirado do seu último livro sobre a natureza humana, em breve disponível em tradução portuguesa.

«Quero-te» não é uma figura de estilo, mas a expressão verdadeira do que sinto. E aqui os pronomes identificam o centro exacto da escolha livre e responsável que constitui a realidade interpessoal de cada um de nós. Quero-te como ser livre que és, e a tua liberdade está encerrada na coisa que eu quero, a coisa que tu identificas na primeira pessoa quando falas comigo de eu para eu. E isso é porque eu quero que me queiras da mesma forma, e dessa forma queiras que eu te queira, numa correspondência crescente de desejo. Na cultura popular, as canções de amor são, por conseguinte, elaborações do pronome da segunda pessoa: «Tudo aquilo que tu és»; «Tenho-te sob a minha pele», e por aí fora. E na poesia lírica a segunda pessoa torna-se uma invocação, usando a forma familiar, como neste famoso poema de Rückert: 
Du bist die Ruh,
Der Friede mild,
Die Sehnsucht du
Und was sie stillt. 

Tu és o repouso,
A agradável paz,
O anseio és
E quem o aquieta. 
Vale a pena recordar a quietude inefável conferida a estas reflexões por Schubert, a forma inteligente de condensar uma coisa abstracta por que se anseia (calma, paz), e mesmo a própria ânsia, no pronome concreto que encerra as abstracções e constrói paredes à sua volta. Aqui, tu é o eu transcendente do outro, não descritível mas alvo da minha ânsia.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Exames: e se fosse como na França?


Dez dias antes do exame, um jovem interceptou dados sobre 20 dos temas da prova de Física e Química, tendo sido vários os alunos que beneficiaram dessa informação durante a sua realização, no dia 7 de Junho de 2017. O Ministério da Educação abriu um inquérito para apurar responsabilidades, mas decidiu não repetir o exame com o argumento de que estavam apenas 4 pontos em jogo.

No dia 14 de Junho, o Ministério da Educação descobriu que tinha havido uma fuga de informação sobre um dos três temas do exame de Filosofia (dos cursos tecnológicos), a realizar no dia seguinte. O ministério decidiu, na tarde anterior ao dia da realização do teste, recorrer a um tema de reserva. Contudo, levou bastante tempo para imprimir 140 mil exemplares e os distribuír pelas escolas de todo o país, pelo que milhares de alunos receberam o tema de reserva cerca de uma hora após o início da prova.

Cerca de 18 mil alunos tiveram de repetir no dia 23 de Junho a prova de Espanhol, já realizada no dia 19 do mesmo mês, dado que a primeira delas incluía um capítulo que tinha saído na prova de 2016. O ministro da educação mandou fazer mais um inquérito.

Os alunos de uma das cidades do sul do país terão de repetir a prova de língua estrangeira, uma vez que a escola foi evacuada no dia 19 de Junho, enquanto a prova decorria, por ter soado o alarme de incêndio. Houve, de facto, incêndio nas proximidades, mas não atingiu a escola.

Durante a distribuição das provas pelas escolas, uma parte da prova de Economia-Direito, seguiu inadvertidamente misturada com a prova de outra disciplina para uma escola do leste do país. Essa parte foi recolhida imediatamente após os alunos a terem recebido, mas alguns já tinham visto de que se tratava. A informação circulou rapidamente pelas redes sociais e muitos alunos que iriam fazer a prova de Economia-Direito no dia seguinte aproveitaram-se disso. O Ministério da Educação decidiu não recorrer aos temas de reserva por falta de tempo para a sua impressão. Entretanto, devido à polémica instaurada, acabou por anular esse tema.

Isto aconteceu nas últimas semanas. Sabe onde? Na França! Não acredita? Leia aqui.

Como seria se isto sucedesse em Portugal? E, já agora, o que vos parece o exame de Filosofia (baccalauréat general, série S)? Podem ver aqui. O modelo de prova — que tem gerado alguma contestação em França, mesmo da parte de professores de Filosofia — tem três temas e o aluno responde apenas a um. Eis os temas:

Tema 1: "Defender os seus direitos é defender os seus interesses?"
Tema 2: "Pode alguém libertar-se da sua cultura?"
Tema 3: "Explicar o texto seguinte: (Segue-se um texto de 18 linhas, de Foucault)".

sábado, 24 de junho de 2017

A democracia não nos enobrece

Quem o diz é o filósofo político Jason Brennan no seu mais recente livro, de 2016, precisamente intitulado Contra a Democracia, e agora disponível em tradução portuguesa, na qual tive o gosto de estar envolvido.

Quem entende a filosofia da forma como os grandes filósofos a entenderam sabe que nada é indiscutível. E a democracia também não o é. No caso da democracia diria mesmo que, quanto menos discutida, menos democracia haverá.

Neste estimulante livro de Jason Brennan, o leitor não irá encontrar qualquer projecto político sub-reptício nem tiradas ideológicas impressionantes. Em vez disso, será antes confrontado com  argumentos de carácter moral, cujas premissas são cuidadosamente explicitadas, como seria de esperar de um filósofo respeitável. Cabe ao leitor avaliar se tais argumentos colhem.

Pode haver boas razões para se discordar de Brennan, mas quem o ler verá que não é assim tão fácil encontrá-las. E ele até se esforça por nos ajudar nessa procura.