domingo, 10 de junho de 2018

Conhecimento por contacto e conhecimento por descrição


É suposto os termos "conhecimento por contacto" e "conhecimento por descrição" designarem dois tipos de conhecimento, o primeiro dos quais diz respeito ao conhecimento directo e não inferencial e o segundo ao conhecimento indirecto e inferencial. Esta distinção é geralmente atribuída a Bertrand Russell, como se pode ler nos artigos sobre o assunto da Stanford Encyclopedia of Philosophy e também da Internet Encyclopedia of Philosophy, para dar só dois exemplos. De acordo com o que aí se lê, a distinção foi originalmente introduzida por Russell, num artigo de 1911 precisamente intitulado "Knowledge by acquaintance and knowledge by description", o qual viria, no ano seguinte, a dar origem ao famoso Capítulo 5 de The Problems of Philosophy (Os Problemas da Filosofia)

Contudo, seria mais justo e rigoroso creditar tal distinção ao psicólogo e filósofo pragmatista William James, que no seu The Principles of Psychology (1890, Vol I), já tinha distinguido claramente dois tipos de conhecimento: knowledge of acquaintance knowledge-about

James começa por sublinhar que muitas práticas linguísticas expressam tal distinção, dando os exemplos do francês, com os verbos connaître savoir, e do alemão, com os verbos kennen wissen, mas a que também poderíamos acrescentar o português, com os verbos conhecer saber, respectivamente. 

No caso do conhecimento por contacto, James refere as pessoas ou coisas acerca das quais sabemos muito pouco, a não ser que já estivemos na sua presença. Ou também os casos das cores e dos sabores, cujo conhecimento não resulta de uma descrição verbal acerca do que sentimos quando experimentamos essas coisas, mas da experiência directa de as sentirmos quando estamos em contacto com elas. É certamente por isso que não se ensina a uma criança o que é a cor vermelha descrevendo-a verbalmente, nem dizendo coisas acerca dela ou do que sentimos acerca dela. A única maneira eficaz de uma criança que não sabe o que é a cor vermelha ficar a sabê-lo é entrar em contacto directo com objectos vermelhos e ter a experiência imediata de os ver. E qualquer pessoa consegue dar-se conta de que está perante algo vermelho, mesmo que seja incapaz de dizer o que faz isso ser vermelho. É por isso, sublinha James, que não se pode partilhar o conhecimento de certas coisas a não ser com quem já tenha tido também contacto directo com elas. Isso aplica-se, por exemplo, ao caso dos cegos de nascença, que são incapazes de saber o que é a cor vermelha, mesmo que lha tentemos descrever da melhor maneira que conseguimos. Mas tudo é bem diferente quanto ao saber-acerca-de (knowledge-about), que decorre de analisar as coisas e descrevê-las verbalmente — e que, portanto, se assemelha muito ao que Russell dirá acerca do conhecimento por descrição. 

James refere que a forma verbal por meio da qual se exprime a tomada de consciência do primeiro tipo de conhecimento é gramaticalmente minimalista, levando-nos a usar simples interjeições – therevoilàecco! – ou então meros demonstrativos – it, this, that. Isto é assim, segundo James, porque o knowledge of acquaintance é uma tomada de consciência por meio do sentimento (feeling) — com Russell passará a ser a sensação, ao passo que o knowledge-about está associado ao pensamento reflexivo (thought). Contudo, James considera não serem tipos de conhecimento opostos, como fica patente quando escreve: "pelos sentimentos entramos em contacto com as coisas, mas só pelos nossos pensamentos sabemos mesmo algo sobre elas. Os sentimentos são a seiva e o ponto de partida da cognição, os pensamentos são a árvore desenvolvida" [through feelings we become acquainted with things, but only by our thoughts do we know about them. Feelings are the gem and starting point of cognition, thoughts the developed tree].

Sem dúvida que Russell afinou esta distinção e lhe deu um tratamento bastante mais preciso e desenvolvido. Mas isso não nos deve impedir de dar o seu a seu dono.


Adenda: Entretanto fiquei a saber que a distinção é ainda anterior a James, como refere Desidério Murcho em comentário a este meu texto. Reforça-se, assim, a ideia de que Russell está longe de ser original no que diz respeito à distinção entre conhecimento por contacto e conhecimento por descrição, ao contrário do que se costuma ler mesmo nos mais respeitáveis livros de filosofia.  
        

sábado, 12 de maio de 2018

Filosofia em banda desenhada


Introdução à Filosofia em Banda Desenhada, com tradução de Vítor Guerreiro, estará nas livrarias ainda este mês de Maio. Aí encontramos uma forma diferente, estimulante e descontraída, de acompanhar o irresistível fluxo de algumas das mais importantes ideias e questões que, desde os alvores do século IV a. C. até aos nossos dias, abastecem o sempre renovado rio da filosofia. 

Pela mão do premiado ilustrador Kevin Cannon e do filósofo Michael Patton, somos convidados para uma aliciante viagem, guiada pelo célebre filósofo Heraclito. Ao longo dessa viagem, o vetusto e sagaz filósofo vai saltando de embarcação em embarcação, atraído pelos grandes debates acerca do nosso conhecimento do mundo, da natureza da mente, da existência de Deus e do livre-arbítrio, sem esquecer a questão da validade dos nossos raciocínios e também a questão valorativa sobre o que torna as nossas acções moralmente boas ou más. À medida que descemos o rio sinuoso da filosofia, deparamo-nos com os seus mais audazes navegadores. Tudo começa com os filósofos ditos pré-socráticos, que primeiro questionaram a mitologia e se perguntaram sobre o mundo ao seu redor, mas não ignora importantes filósofos vivos, como David Chalmers e a sua explicação da consciência. Pelo meio deparamo-nos com gigantes filosóficos como Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Locke, Hume, Kant, Mill e Nietzsche, entre outros.

Um livro para todos, começando pelos amantes de banda desenhada, de filosofia, e sobretudo para quem acredita que as ideias sérias e importantes podem ser apresentadas e discutidas de forma alegre e divertida.

Afinal não haverá dose dupla, pois não sairá acompanhado por Hereges, que fica para o próximo mês.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Vêm aí os Hereges!

Hereges! Foi esta a acusação que tantas vezes se apontou aos grandes protagonistas dos prodigiosos, e perigosos, inícios da filosofia e da ciência modernas. E nada melhor do que os diálogos de Steven Nadler e os desenhos de Ben Nadler, para nos fazerem viajar nesse universo de ideias surpreendentes, que continuam a dar que pensar. Os protagonistas principais são Giordano Bruno, Copérnico, Francis Bacon, Galileu, Descartes, Arnauld, Boyle, Hobbes, Espinosa, Leibniz, Locke, Malebranche, Newton, Pascal e Voltaire, entre outros vultos que marcaram o pensamento europeu nos séculos XVII e XVIII.

Os hereges vão mesmo falar português, e é para breve. Veja-se, para abrir o apetite, como os Nadler conseguem exprimir tanto, de forma simples e em tão pouco: dois argumentos cartesianos a favor da existência de Deus (o da marca e o ontológico) numa prancha apenas.


Mas ainda melhor é que os hereges vão ter companhia do mesmo género, neste caso pela mão de Michael Patton e Kevin Cannon, sendo os desenhos apenas deste último. Trata-se da excelente Introdução à Filosofia em Banda Desenhada que, tendo como guia a personagem do nosso velho conhecido Heraclito, nos conduz por temas como a lógica, o livre-arbítrio, a percepção, a mente, a ética e Deus.


Parece que vai ser um excelente mês de Maio.

sábado, 17 de março de 2018

A vida é um sonho?

O número 33 da colecção Filosofia Aberta estará nas livrarias dentro de uma semana ou pouco mais. Aqui fica apenas parte de um dos 101 episódios (mais precisamente, o episódio 39) apresentados e comentados por Rescher.

O sonho de Calderón
  A ideia de que a vida inteira que consideramos estar a viver possa na realidade ser apenas um sonho tem origens que se perdem nas névoas impenetráveis da antiguidade. A ideia é sugerida na crença hindu de que este nosso mundo é maya, uma mera ilusão. E reaparece na alegoria da caverna de Platão, cujos habitantes das cavernas — nós, que habitamos este mundo — têm de dar-se conta de que aquilo de que têm experiência não é a realidade mas antes uma mera aparência — uma «ilusão sem sentido», um mundo de sombras. A ideia ganhou depois bastante força no século xvii, tendo muito destaque na temática da famosa peça A Vida é um Sonho (La vida es sueño) do poeta e dramaturgo espanhol Calderón de la Barca (1600-1681), que reflecte a experiência mental filosófica do Discurso do Método de Descartes.
    Temos aqui uma daquelas hipóteses filosóficas que, como a solidão solipsista, não pode ser refutada com provas empíricas mas que não consegue apesar disso produzir qualquer convicção cognitiva.
    […]
    O contraste entre a experiência autêntica e o sonho é em si perfeitamente apropriado, mas não pode ser trans­formado numa distinção entre a nossa experiência como um todo e algo inteiramente fora dela e para lá dela. O contraste entre como as coisas são e a sua aparência não é um contraste entre a aparência e a não-aparência, mas antes entre a aparência correcta e a incorrecta; ao fazer esse contraste, não saímos do domínio da aparência.
    Considere-se uma analogia. A distinção entre o discurso dotado de significado e uma algaraviada só pode ser feita no seio do domínio discursivo. Tentar aplicá-la para distin­guir entre o que é linguisticamente discutível e algo que esteja para lá destes limites comunicativos é um passo na direcção da incoerência e da ininteligibilidade. De modo semelhante, a ideia de dormir só faz sentido onde há uma multiplicidade de experiências em que estamos acordados para que o contraste exista. A ideia de que em toda a nos­sa experiência poderíamos estar a dormir não faz sentido porque derruba a ponte do seu próprio contraste entre a experiência de dormir e a de estar acordado.
    Poderá haver boas razões para ser céptico quanto ao que Bertrand Russell chamou o «nosso conhecimento do mundo exterior», mas a hipótese do sonho não é uma delas.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Amor e raciocínio prático


«Os temas filosóficos associados à questão de como uma pessoa deve viver caem no domínio de uma teoria geral do raciocínio prático. O termo «raciocínio prático» refere-se a qualquer das diversas variedades de deliberações em que as pessoas se empenham para decidir o que fazer, ou com que se ocupam para avaliar o que foi feito. Entre elas está o tipo especial de deliberação que incide especialmente sobre problemas de avaliação moral. Esta espécie de raciocínio prático recebe naturalmente, de filósofos e também de outros, uma grande dose de atenção.

É inquestionavelmente importante para nós compreender o que os princípios da moralidade requerem, o que recomendam, e o que proibem. Não é necessário dizer que precisamos de tomar seriamente as considerações morais. Na minha opinião, contudo, a importância da moralidade na direcção das nossas vidas tende a ser exagerada. A moralidade é menos pertinente no moldar das nossas preferências e na orientação da nossa conduta – diz-nos menos do que precisamos de saber sobre o que devemos valorizar e como devemos viver – do que normalmente se presume. É também menos autoritária. Mesmo quando tem algo relevante a dizer, não tem necessariamente a última palavra. No que diz respeito ao nosso interesse na gestão sensata dos aspectos das nossas vidas que são normativamente significativos, os preceitos morais não só não são totalmente genuínos mas também são menos definitivos do que com frequência somos encorajados a acreditar.

As pessoas que são escrupulosamente morais podem, não obstante, ser destinadas por deficiências de carácter ou de constituição a levar vidas que nenhuma pessoa razoável escolheria livremente. Podem ter defeitos pessoais e inadequações que não têm muito que ver com a moralidade mas que lhes tornam impossível viver bem. Por exemplo, podem ser emocionalmente superficiais; ou pode faltar-lhes vitalidade; ou podem ser cronicamente indecisas. Na medida em que activamente escolhem e buscam determinados objectivos, podem dedicar-se a ambições de tal modo insípidas que a sua experiência é geralmente enfadonha e sem sabor. Em consequência, as suas vidas podem ser implacavelmente banais e vazias, e – quer reconheçam ou não isto sobre si mesmos – podem estar terrivelmente enfadadas.

Há quem defenda que as pessoas que não são morais não podem ser felizes. Talvez seja verdade que ser moral seja uma condição indispensável para uma vida satisfatória. Não é certamente, contudo, a única condição que é indispensável. O juízo moral sólido não é sequer a única condição indispensável na avaliação de rumos de conduta. A moralidade pode proporcionar no máximo apenas uma resposta severamente limitada e insuficiente à questão de como uma pessoa deve viver.

Presume-se com frequência que as exigências da moral são inerentemente prioritárias — por outras palavras, que devem ter sempre precedência absoluta sobre todos os outros interesses e reivindicações. Isto parece-me implausível. Além disso, tanto quando me é dado ver, não há razão muito persuasiva para acreditar que assim é. A moralidade diz sobretudo respeito ao modo como as nossas atitudes e as nossas acções devem ter em consideração as necessidades, os desejos e os direitos das outras pessoas. Ora, porque é que isso deve ser visto como sendo, sem excepção, a coisa mais premente nas nossas vidas? Certamente, os nossos relacionamentos com as outras pessoas são enormemente importantes para nós; e as exigências da moralidade às quais dão origem são, por isso, inegavelmente importantes. Contudo, é difícil perceber por que razão devemos assumir que nada nunca, em nenhumas circunstâncias, conte mais fortemente para nós do que esses relacionamentos, e que as considerações morais devem invariavelmente ser aceites como mais importantes do que as considerações de todos os outros tipos.»


pp. 12-14

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Filosofia do amor em Fevereiro

Foram muito poucos os filósofos que reflectiram e escreveram de forma rigorosa e esclarecedora sobre o amor: que tipo de coisa é, como justificar o amor e qual a relação, se alguma existe, entre o amor e a razão, o valor, a ética e o próprio sentido da vida. Por outro lado, entre esses, menos ainda foram capazes de dar conta dos diferentes usos que fazemos do termo amor, misturando indiscriminadamente o amor entre pessoas (seja o amor romântico ou o amor entre pais e filhos), o amor-próprio e aquilo que é geralmente designado como o amor por lugares, por actividades ou por objectos. 

De O Banquete, de Platão, à Metafísica do Amor, de Schopenhauer, passando por algumas páginas de Espinosa, Diderot e poucos mais, nem os clássicos conseguiram lançar grande luz sobre um tema tão central e de tão capital importância para as nossas vidas como o amor. Certamente encontramos neles algumas passagens interessantes, mas ideia que fica é a de uma notória desorientação teórica. 

É certo que, mais recentemente, destacados filósofos da emoção, como Robert Solomon ou Amélie Rorty, enfrentaram o tema de uma forma mais metódica e filosoficamente rigorosa. Mas o que interessa a estes filósofos é sobretudo compreender a natureza emocional do amor, deixando de lado outros aspectos tão importantes como o eventual carácter normativo do amor e suas implicações morais. Aspectos que vieram, de algum modo, a captar a atenção de nomes como Martha Nussbaum, Robert Nozick, Roger Scruton ou Hugh LaFollette, mas de um modo ainda algo fragmentário e disperso. De um modo um pouco mais sistematizado, mas ainda algo impreciso e indefinido, como a própria autora admite, temos o último livro de Carrie Jenkins, publicado há menos de um ano. 

Só faltava mesmo referir o que penso ser, de longe, o melhor de todos os livros de filosofia que conheço sobre o amor, As Razões do Amor, de Harry G. Frankfurt. É o melhor porque alia como nenhum outro a argumentação cuidada a um sereno e robusto senso-comum, oferecendo-nos uma abordagem naturalista sobre o amor. Ainda por cima, sem precisar de recorrer a tecnicismos académicos dispensáveis. 

A tese principal de Frankfurt, que trata apenas do amor entre pessoas, é apresentada logo a abrir o livro: a moral não é a única, nem sequer a principal, fonte humana de normatividade, identificando o amor como o cerne da nossa psicologia moral. Isso explica, em parte, por que razão muitas pessoas ficam algo intrigadas quando, em situações limite, a estrita imparcialidade exigida por algumas perspectivas éticas nos impede de ter uma maior consideração por aqueles que mais amamos do que por quaisquer outros. Um livro que, longe dos estafados panegíricos poético-psicológicos ao amor, nos faz tranquilamente pensar com maior profundidade sobre aquilo que mais prezamos. 

A boa notícia é que o livro estará nas livrarias, com tradução portuguesa, já neste mês de Fevereiro. Aqui fica a imagem da capa.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Trifonov ao piano

Para quem não tem a sorte de poder assistir hoje e amanhã na Gulbenkian (Lisboa) aos concertos de Daniil Trifonov, pode ao menos assistir ao Tiny Desk Concert do jovem pianista russo, gravado há dias. Chopin é o tema geral das quatro pequenas peça tocadas neste mini-concerto.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Lobo das estepes


A escassas horas de se concluir este ano de 2017 e de começar o de 2018, gostaria de escrever algo que vem mesmo a propósito: Steppenwolf. E vem a propósito porquê? 

Bem, porque este é um dia como qualquer outro e qualquer dia é o mais adequado para se escrever sobre qualquer coisa que nos apetece. Portanto, é de Steppenwolf, o conjunto musical —  aliás, o grupo; ou será antes a banda? — formado em Toronto (Canadá) nos distantes anos 60 do século passado. 

Os Steppenwolf — Lobo das Estepes, em português — são mais conhecidos pela canção Born To Be Wild, ponto alto da banda sonora do filme Easy Rider, uma despreocupada deambulação pelas estradas do sul dos EUA do trio de motoqueiros protagonizado por Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson. Born To Be Wild é, de resto, apontada por muitos como a música que está na origem do sub-género musical que veio a ser conhecido como heavy metal

Seja isso correcto ou não, Born To Be Wild está longe de ser o melhor que o blues-rock ácido dos Steppenwolf deu à luz. Os Steppenwolf são um caso curioso: não têm um único álbum memorável, mas têm excelentes canções espalhadas por vários deles. Talvez por isso nunca se tenham alçado ao estatuto de outras bandas rock de referência da época, apesar do seu som muito característico, devido sobretudo à guitarra saturada, à voz arranhada de John Kay e ao órgão dito psicadélico de Michael Wilk, que acabam por dar uma volta interessante aos blues de que partem.

Mesmo não sendo dos pontos altos da história da música rock, os Steppenwolf continuam a soar muitíssimo bem, sobretudo se não estivermos condicionados pelo que está ou deixa de estar actualmente em voga. Canções como The Monster, o musicalmente inspirado protesto contra a política americana que levou à Guerra do Vietname, mas também Desperation, For Ladies Only (desde que, neste caso, se esqueça o despropositado e pindérico interlúdio pianístico a meio da canção), Hippo Stomp, What Would You Do (If I Did That To You) e, claro, Born To Be Wild, entre outras, dariam um grande álbum de heavy-acid-blues-rock.

Há outras compilações muito bem sucedidas comercialmente, mas estão longe de me convencer. Aqui fica a minha.

E pronto, este foi o meu contributo para a despedida do ano de 2017. Até 2018 vou ficar calado... se conseguir.   

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Scruton sobre a natureza humana


Neste livro, Roger Scruton lança um olhar original sobre a natureza humana, sem deixar de ter em conta os mais sólidos resultados científicos — da biologia à ciência cognitiva e da psicologia à etologia — mas também o legado das artes e da cultura em geral. E consegue fazê-lo com elegância e concisão, sem tecnicismos nem referências gratuitas.

Ao defender que o ser humano não é apenas um animal racional, Scruton procura, de forma corajosa mas tranquila, mostrar como se pode fazer uma leitura do que as ciências têm para nos contar muito diferente da que tem sido habitual. Nesse sentido, Scruton rejeita não só as perspectivas de muitos psicólogos evolucionistas, mas também as concepções morais utilitaristas e sobretudo as abordagens materialistas da natureza humana — como as de Daniel Dennett e Richard Dawkins —, argumentando que não encontraremos a verdadeira natureza humana em animais racionais despojados dos elos essenciais que, além da biologia e da racionalidade, nos definem como seres que partilham um mesmo universo de valor. De acordo com Scruton, é neste universo de fidelidades, obrigações, direitos e relações que se descobre o eu que cada um de nós é e se revela a nossa natureza singular: a de sermos pessoas. Isto, sustenta Scruton, é algo que nenhuma categoria biológica permite compreender.


É no contexto dessa concepção da natureza humana decididamente personalista que Scruton nos fala do significado humano do riso, da sexualidade, do prazer, da culpa ou da moral, transferindo para quem o lê uma enorme bagagem literária e cultural que, mesmo quando defende pontos de vista não coincidentes com os do leitor, não deixa de ser intelectualmente gratificante.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Reinventar o marxismo

John E. Roemer é um economista político e um dos mais destacados filósofos marxistas dos últimos anos, juntamente com G. Cohen, J. Elster, van Parijs e outros representantes do chamado marxismo analítico.  

Este livro de Roemer é uma das mais claras tentativas de recuperação de um socialismo de inspiração marxista ainda não experimentado. Nesse sentido, Roemer propõe um modelo original de funcionamento de uma economia socialista, procurando mostrar como se comporta na prática.

Demarcando-se do socialismo revolucionário, utópico e romântico, que Roemer aqui descarta tranquilamente, estamos agora perante uma proposta concreta de organização socialista que não só aceita os mercados como lhes atribui uma grande utilidade numa economia socialista. E considera também que a denúncia da propriedade privada como fonte de desigualdades injustas não implica a defesa da estatização da propriedade (como acontecia nas falidas sociedades comunistas). 

Assim, Roemer tanto rejeita as nacionalizações das empresas como as suas privatizações, defendendo a propriedade pública não estatal e um novo tipo de titularidade, a considerar seriamente: uma espécie de carteira de ações ou cupões de empresas, atribuídos a cada pessoa maior de 21 anos, que cada um gere da forma que lhe parecer melhor, podendo trocar ou negociar ações, sem contudo poder transformá-las em liquidez. 

Roemer explica de forma bastante clara no livro quais as vantagens e o propósito disso, tendo em conta o triplo objectivo socialista da igualdade de oportunidades: para a auto-realização e o bem-estar; para a influência política; para o estatuto social. 

O livro estará nas livrarias no fim deste mês de Outubro e agradou-me muito estar ligado à sua publicação.