quarta-feira, 26 de abril de 2017

Frederico Lourenço sobre Atenas e Jerusalém


Quem se encontrava em Portimão na sexta-feira passada, teve a sorte de poder de assistir, no confortável auditório do Museu Municipal, à excelente conferência de Frederico Lourenço intitulada "Bíblia, História e Filosofia". 

Não será exagero afirmar que tanto os crentes como os não-crentes na mensagem bíblica, tiveram a oportunidade de descobrir muitos aspectos interessantes, e até então ocultos, para quem nunca teve a possibilidade de ler as palavras do Novo Testamento no original grego. Com o seu gigantesco trabalho de tradução, Frederico Lourenço tem prestado um inestimável serviço a todos os que não desistem de compreender a verdadeira mensagem dessa obra marcante da história da humanidade, sem deixar de nos permitir apreciar o seu real valor literário. 

A tradução de Frederico Lourenço do Novo Testamento não está comprometida com qualquer tipo de abordagem ou interpretação, procurando apenas aproximar-nos tanto quanto possível das palavras originais e deixando em aberto as mais variadas interpretações, sejam elas teológicas, filosóficas ou estritamente históricas. Dado que as abordagens essencialmente teológicas têm sido largamente difundidas, Frederico Lourenço apresentou na sua conferência várias ideias que podem orientar uma leitura histórica e filosófica.

Entre os muitos aspectos interessantes, refiro aqui apenas um. Talvez poucas pessoas saibam que, em toda a Bíblia, a palavra "filosofia" ocorre apenas uma vez e que a palavra "filósofos" ocorre também uma só vez. Em ambas as ocorrências fica bem patente o quanto Atenas e Jerusalém estavam inicialmente de costas voltadas, como refere Frederico Lourenço numa das suas numerosas e sempre instrutivas notas, citando o pensador cristão do século II, Tertuliano.    

A palavra "filósofos" ocorre em Actos dos Apóstolos (17:18), escrito pelo evangelista Lucas, a propósito da visita de Paulo a Atenas. E diz-se mesmo que filósofos são esses: os epicuristas e estoicos. O que não é de estranhar, dada a influência destas duas escolas filosóficas durante boa parte do chamado período helenístico. Neste caso, o que ficamos a saber é que o ambiente intelectual em Atenas era adverso à mensagem cristã e que esses filósofos encaravam Paulo como um fala-barato. A palavra surge na seguinte passagem.

    Quando os judeus de Tessalónica souberam que também em Bereia a palavra de Deus fora anunciada por Paulo, para lá se dirigiram, provocando e agitando as multidões. De imediato, os irmãos mandaram Paulo em direção ao mar; Silas e Timóteo ficaram lá. Os acompanhantes levaram Paulo a Atenas e, tendo recebido a incumbência de transmitir a Silas e a Timóteo que fossem ter com Paulo o mais rapidamente possível, regressaram. 
    Estando Paulo em Atenas à espera deles, irritava-se-lhe o espírito ao ver quão idólatra era a cidade. Discutia na sinagoga com os judeus e com os que veneravam a Deus,  assim como diariamente na praça pública com quem ele lá encontrava.
    Alguns filósofos epicuristas e estoicos conversavam com ele. Uns diziam: "O que queria dizer este fala-barato?" Outros diziam: "Parece ser um pregoeiro de divindades estranhas." Isto porque Paulo anunciava a boa-nova de Jesus e da ressurreição. Levando-o com eles até ao Areópago, dizem-lhe: "Podemos saber que nova doutrina é esta, por ti falada?" Pois lanças ideias estranhas contra os nossos ouvidos. Queremos saber, portanto, o que isto pretende ser." Todos os atenienses e os estrangeiros residentes em Atenas noutra coisa não se alegravam que não fosse dizer ou ouvir algo de novo.
  Paulo, de pé no meio do Areópago, disse: "Homens atenienses! Em tudo eu vejo que sois muito religiosos. Percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar no qual fora escrito:
    A um desconhecido deus.
   Aquilo que, desconhecedores, venerais, é isso que eu vos anuncio.
Actos dos Apóstolos, 17:12-23

Frederico Lourenço adverte-nos, num texto que entretanto escreveu, que o autor dos Actos dos Apóstolos nunca leu sequer uma linha das cartas de Paulo. Ainda assim, a passagem não deixa de fazer jus à fama de Paulo como orador impressionantemente sagaz e persuasivo — um aspecto que também impressionou Frederico Lourenço, como sublinhou na sua conferência. Veja-se como, nesta passagem, Lucas relata a resposta de Paulo a quem acusa o apóstolo de ser fala-barato. Paulo inverte inteligentemente a direcção da acusação ao sugerir que os idólatras são os atenienses, e que é  precisamente ele, Paulo, quem os convida a não serem tão idólatras e a venerarem o deus que já eles mesmos pressentiam, sem o saber nomear: o desconhecido deus.  

Quanto à palavra "filosofia", ela ocorre na Carta aos Colossenses (2:8), cuja autoria, por vezes atribuída a Paulo, permanece muito duvidosa, como esclarece Frederico Lourenço na sua introdução a esta epístola. Também aqui encontramos um contexto acusatório. Mas a acusada é agora a filosofia, cujo "discurso convincente" leva ao "logro" e não à verdade. Esta surge da autoridade da palavra de Cristo e não da tradição filosófica. A passagem é a seguinte.

    Quero que saibais quão grande é a luta que travo por vós e por aqueles na Laodiceia, e por quantos não viram o meu rosto em carne, para que os seus corações fiquem encorajados, tendo sido ligados em amor e para toda a riqueza da abundante convicção do entendimento, para conhecimento do mistério de Deus, que é Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.
   Digo isto, para que ninguém vos iluda com um discurso convincente. Se estou ausente pela carne, por outro lado estou convosco pelo espírito, alegrando-me e observando a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo. 
   Por conseguinte, tal como recebestes de Cristo Jesus, o Senhor, caminhai nele, enraizados e edificados nele, fortalecidos na fé, tal como fostes ensinados, abundando em ação de graças. Vede para que ninguém seja vosso captor através da filosofia e do logro vazio segundo a tradição dos homens, segundo os princípios do mundo e não os de Cristo. Pois nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente, e nele sois plenos — ele que é a cabeça de todo o poder e autoridade.  
                                                 Carta aos Colossenses, 2:1-10 

Mas ainda que a filosofia e o cristianismo primitivo estivessem de costas voltadas, a união entre Atenas e Jerusalém não deixou de se tornar um dos mais marcantes factos históricos do chamado mundo ocidental. Há quem diga que pertencemos a uma civilização de matriz judaico-cristã e há quem prefira dizer que se trata de uma matriz greco-romana. Talvez não fosse menos adequado falar antes de uma matriz greco-cristã.

Este foi apenas um pequeno apontamento entre tantas reflexões que a conferência de Frederico Lourenço despertou em quem teve a sorte de o ouvir. Resta-nos agradecer mais uma vez e esperar que volte em breve.


Aspecto do auditório um pouco antes do início da conferência


NOTA: Uma passagem deste texto foi reescrita depois de ler o texto para que aponta a ligação inserida.

domingo, 16 de abril de 2017

Filósofos, boas pessoas e disparates


Certo dia, um conhecido filósofo americano, eu e uma amiga candidata a filósofa fomos a uma espécie de café-concerto de fim de tarde no CCB onde a cantora de jazz Maria Viana actuava com a sua banda. À saída, decidimos ir aos pastéis de Belém, ali ao pé. Estávamos prestes a aviar a primeira dose de calorias quando a candidata a filósofa se vira para o filósofo e pergunta:

— Acha que os filósofos são melhores pessoas do que a maior parte das outras pessoas?
— Por que razão haveriam de o ser? — retorquiu o filósofo.
— Precisamente por serem filósofos. Estão melhor apetrechados do que ninguém para discernir o que é bom e distinguir o certo do errado — esclareceu ela.
— Estou a ver. Ainda assim, acho que não — respondeu o filósofo, depois de parar um pouco para pensar. — Na verdade,  digo isto com base apenas nos indícios que a minha experiência pessoal me parece mostrar — acrescentou.

Claro que se a candidata a filósofa tivesse perguntado a Sócrates, este teria respondido que sim. É bem conhecida a perspectiva socrática de que a virtude é conhecimento e que, portanto, a ignorância é a fonte do erro. Ora, se a filosofia for, como pensam tantos filósofos, a procura do conhecimento, então dedicarmos-nos à filosofia equivale a tornarmo-nos pessoas virtuosas. E mesmo que os filósofos não consigam obter o conhecimento que procuram, esforçam-se por isso mais do que quaisquer outras pessoas, pelo que se esforçam mais do que as outras por ser pessoas virtuosas. E é, no mínimo, expectável que as pessoas que mais se esforçam por ser virtuosas e que mais motivadas estão para o serem, acabem também por ser mais virtuosas. Assim, infere-se socraticamente que os filósofos são, em geral, melhores pessoas do que as outras pessoas.

Para que lado penderá a verdade? Será o argumento a priori de Sócrates mais convincente do que os indícios empíricos referidos pelo filósofo americano? Sócrates poderia descartar tais indícios alegando que não são acerca de verdadeiros filósofos. Mas o filósofo americano poderia alegar, como Hume, que a razão, embora o possa mostrar, não motiva necessariamente para o bem. E poderia exemplificar com alguns dos nomes mais sonantes da história da filosofia, que foram reconhecidamente más pessoas: Jean-Jacques Rousseau (um traste ingrato, mesmo com aqueles que mais o ajudaram nas horas difíceis), Wittgenstein (para quem os outros eram sempre um incómodo), Heidegger (para quem parecia haver seres superiores e inferiores consoante a sua origem). E muitos outros exemplos poderiam ser dados, incluindo de filósofos actuais. Colin McGinn refere o caso do filósofo da mente britânico Christopher Peacocke, capaz de passar por cima dos seus colegas para atingir os seus objectivos pessoais.

Seja como for, o raciocínio subjacente à pergunta da minha amiga candidata a filósofa é amplamente partilhado. Pode ser que os filósofos sejam, em princípio, melhores pessoas do que as outras e que talvez Rousseau, Wittgenstein, Heidegger ou Peacocke tivessem sido ainda piores pessoas caso não tivessem abraçado a reflexão filosófica.

Entretanto, lembrei-me do post anterior e ocorreu-me perguntar se o tipo de raciocínio socrático aqui apresentado não poderia servir também para concluir que os filósofos — pelo menos os melhores — dificilmente poderiam defender ideias disparatadas.

Sem dúvida que há aqui uma dificuldade acrescida, pois aquele que defende uma dada ideia nunca irá concordar que se trata de um disparate, por muito disparatada que ela pareça a outros. Por exemplo, o brilhante filósofo Alvin Plantinga defende a ideia de que Deus é uma pessoa em três, isto é, que a pessoa do pai, a pessoa do seu próprio filho e a pessoa do Espírito Santo são, real e literalmente, uma só pessoa. Em suma, a ideia é que, no caso do dogma da trindade, 1=3. Dizer a Plantinga — e, já agora, a outros brilhantes filósofos antes dele — que isso não passa de um disparate seria, em sua opinião, completamente disparatado. E seria também disparatado pensar que um filósofo com os pergaminhos de Plantinga não dispõe de razões para defender tal ideia.

Assim, se uma ideia disparatada fosse uma ideia em defesa da qual não são apresentadas razões, então praticamente não haveria ideias filosóficas disparatadas e este qualificativo não faria qualquer sentido neste contexto. Contudo, julgo não ser descabido considerar disparatadas as ideias de Schopenhauer ou de Nietzsche acerca da suposta natureza das mulheres, mesmo que disponham de algum tipo de justificação nesse sentido.

Num sentido fraco, mas que também é mais do que uma mera força de expressão, parece-me razoável qualificar como disparatadas certas ideias ou teorias defendidas por filósofos. Estou a pensar em teorias com um carácter notoriamente instrumental e cuja plausibilidade é reconhecida apenas por quem as aceitaria sem precisar de razões. Por exemplo, parece-me disparatado defender que os direitos das pessoas dependem da sua origem ou etnia; que os homens são moralmente superiores às mulheres; que há anjos; que não há um mundo exterior. Em contrapartida, nem o mais inflexível defensor da ética kantiana considera o utilitarismo uma teoria disparatada — e vice-versa — apesar de estarem aqui em confronto ideias bem diferentes.   

Penso, pois, que mesmo os melhores filósofos podem defender teorias ou ideias disparatadas e que um bom exemplo disso talvez seja Alvin Plantinga. Tive em tempos a oportunidade de estudar o seu livro The Nature of Necessity (1974), e confesso que fiquei impressionado com o seu brilhantismo filosófico. E, embora o tema central do livro seja a modalidade, não deixa de incluir alguma da mais rigorosa e sofisticada filosofia da religião que já li. Mas também penso que Plantinga foi filosoficamente longe de mais em outras obras, nomeadamente no seu bem mais recente Warranted Christian Belief (2000). Longe de mim pensar que se trata de ideias disparatadas do ponto de vista da teologia dogmática. Certamente que terão a sua justificação religiosa e provavelmente uma função simbólica muito relevante. Mas a defesa filosófica de algumas das ideias que aí encontramos manifestamente persuade apenas quem de algum modo não precisa de ser persuadido.

Se o que digo for minimamente plausível, então surge uma outra questão intrigante: o que leva grandes filósofos a defender ideias ou teorias disparatadas aos olhos de muitos? Além da busca da verdade, nada impede que os filósofos tenham também outras motivações muito fortes e profundas, seja de carácter religioso, estético, social ou político. Talvez a resposta resida nesse tipo de motivações profundas, que surgem a par da motivação para a verdade.

Mas talvez o que aqui tenho estado a sugerir seja apenas mais um disparate. 


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Filosofia da religião à la carte


Acerca de Deus, os filósofos costumam levantar vários problemas. Há, para começar, o mais básico e central de todos: o problema metafísico da sua existência. Outro problema metafísico —  conceptualmente relacionado com este, mas apesar disso diferente — é o da natureza da divindade: quais os atributos de Deus e, portanto, o que define tal divindade? E podemos ainda ligar estes dois problemas a um terceiro, de carácter epistémico: o do nosso conhecimento de Deus.

Claro que há outros problemas de filosofia da religião, mas limito-me a referir apenas os mais básicos e filosoficamente mais urgentes. Quase todos reconhecem — incluindo filósofos teístas — que, de tão difíceis que são, qualquer destes problemas dá pano filosófico para mangas intermináveis. Só o problema da existência de Deus tem, ao longo de séculos de debate filosófico, mobilizado praticamente todos os filósofos teístas. E, embora todos estes filósofos concordem que Deus existe, frequentemente discordam sobre as razões que legitimam tal conclusão.

Mas também há quem, desassombrado diante de tais problemas, avance respostas para questões ainda mais espinhosas, na medida em que são duplamente problemáticas: são-no em si mesmas e são-no também porque a solução para elas depende da resposta que se dá aos problemas anteriores. Ainda assim, nem isso impede que alguns filósofos (como Plantinga e Swinburne, para referir apenas os mais destacados), não demasiado impressionados com a dificuldade dos problemas da existência, da natureza e do nosso conhecimento de Deus, tenham avançado com complicadas teorias filosóficas sobre a trindade de Deus, a presença de Cristo na eucaristia, a transubstanciação ou a ressurreição do corpo de Cristo, entre outras questões que não dizem respeito à religião em geral, mas apenas a certas religiões — mais particularmente à religião católica. 

Sem dúvida que os problemas da existência, da natureza e do conhecimento de Deus dizem, de algum modo, respeito a todas as religiões monoteístas. E praticamente nenhuma delas pode prescindir de uma resposta para essas questões, dado que a existência da divindade, seja sob que forma for, é um elemento definidor da religião. Ainda assim, é apenas uma condição necessária, não suficiente. 

Outra condição necessária é dada pelo ritual que transforma meros crentes numa comunidade religiosa. Dado que o fenómeno religioso é um fenómeno comunitário, dificilmente as religiões teriam surgido e se teriam mantido sem a sua componente ritualística. Celebrações litúrgicas ou missas, procissões e peregrinações, são práticas que ligam, por um lado, os crentes com o objecto da crença e ligam, por outro lado, os crentes entre si enquanto comunidade. É a dimensão ritualística — uma actividade estritamente simbólica — que dá vida às religiões, mantendo simultaneamente a crença acesa e a comunidade activa. 

Simplificando um pouco, mas não demasiado, qualquer religião é constituída por dois ingredientes essenciais: um conjunto de crenças acerca de algum tipo de divindade e um conjunto de rituais simbólicos que visam dar vida e preservar essas crenças. Assim, o que distingue as religiões entre si é o tipo de divindade em que se acredita ou o tipo de rituais praticados — ou ambos. E aqui pode haver um mundo de diferenças. 

Tudo isto parece apontar no sentido de a verdadeira tarefa do filósofo teísta ser a de proporcionar boas respostas para as questões da existência, da natureza e do nosso conhecimento de Deus, deixando o aspecto ritualístico de constituir matéria filosófica, na medida em que pode ser explicado de forma coerente em termos estritamente simbólicos. Sem dúvida que mesmo as práticas simbólicas têm um fundamento e precisam de uma justificação, mas isso cabe mais à teologia dogmática do que à filosofia.   

Ora, o que tentam fazer filósofos como Plantinga e Swinburne é legitimar filosoficamente todo e qualquer aspecto particular da sua religião, nem que para isso tenham de encarar problemas filosóficos — isto é, questões abertas como a existência ou a natureza de Deus — como questões fechadas. E nem que para isso tenham também de multiplicar entidades, na tentativa de substancializar metafisicamente práticas meramente simbólicas. Ou seja, estamos perante um apoteótico festim metafísico onde, a haver lugar para qualquer coisa parecida à navalha de Ockham, ela parece estar completamente romba. Enfim, é a filosofia ao serviço da religião. E nem sequer está ao serviço da religião em geral, mas de religiões particulares. 

Filosofia da religião à la carte?



segunda-feira, 27 de março de 2017

A cigarra que canta maravilhosamente


Ele aí está finalmente disponível, este livro excepcional. E muita satisfação me dá estar ligado à sua publicação entre nós. Não me lembro, aliás, de um livro que me tenha dado mais gozo ler. Por ser um livro inteligente, divertido, filosoficamente profundo, intelectualmente provocador e surpreendente, sem esquecer a elegância da escrita.

É, de resto, um livro que sabe ainda melhor de cada vez que se relê, tantas são as subtilezas que lá descobrimos Por isso, não tarda que volte a lê-lo pela quinta ou sexta vez. E subscrevo cada palavra destes senhores:

«Este livro único deixou-me intelectualmente maravilhado. É um deslumbrante festim literário. Bernard Suits torna a filosofia agradável, como ela deve ser, e fá-lo sem comprometer de forma alguma a verdadeira profundidade. Discute não só Wittgenstein, mas a própria vida humana ao mais alto nível, num livro que desafia as ortodoxias filosóficas, ao mesmo tempo que flui como mel.»
Simon Blackburn, Universidade de Cambridge

«A Cigarra Filosófica é um livro espantoso. Filosoficamente profundo, porém genuinamente divertido. Ao mesmo tempo que faz sobretudo a articulação e a defesa de uma definição muitíssimo plausível dos jogos, consegue também fazer algumas das perguntas mais profundas e intrigantes acerca do sentido da vida. Tudo na forma de diálogos entre um insecto e os seus discípulos! Nada há que simplesmente se lhe assemelhe.»
Shelly Kagan, Universidade de Yale

«Inteligente e profundo. Como é estimulante verificar que mesmo no interior da mais árida tradição filosófica universitária um livro assim possa ter sido escrito. Um livro delicioso.»

Nigel Warburton, filósofo free-lancer e co-editor de Philosophy Bites

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O que é um formalista?

A resposta foi dada por uma mente brilhante, que recentemente se apagou: o lógico, filósofo, pianista e mágico americano Raymond Smullyan. É a seguinte:

Um formalista é aquele que não consegue entender uma teoria a não ser que ela não tenha sentido. 



Smullyan, que sempre foi uma pessoa divertida, contou também como a lógica o ajudou em tempos a arrancar um beijo a uma encantadora rapariga música de Nova Iorque logo no primeiro encontro que teve com ela. O diálogo que levou ao beijo foi mais ou menos o seguinte:

Ele: Pode fazer-me um favor?
Ela: Diga primeiro qual é.
Ele: Vou fazer uma afirmação acerca de si e que apenas exige um pouco de lógica para determinar se é verdadeira ou se é falsa. Se essa afirmação for verdadeira, dá-me um autógrafo; mas se a afirmação for falsa, dá-me um beijo.
Ela: Humm... diga lá. Qual é a afirmação?
Ele: Não me vai dar um autógrafo nem um beijo.

A encantadora jovem música reflectiu e, como também era inteligente, concluiu que não tinha outro remédio senão dar um beijo a Smullyan, para não ter de cair em contradição.

Como se vê, a lógica é bem mais útil do que muitos pensam e tem aplicações que mal imaginam.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O meu primeiro teste de Filosofia

Com a devida autorização do seu autor, o meu colega João Carlos Silva, reproduzo aqui esta sua interessante história. Com algumas mudanças aqui e ali (o professor de História em vez do professor de Filosofia; o professor padre em vez do professor ateu), talvez alguns de nós reconheçamos esta história como algo pessoal também. Eis a história, contada na primeira pessoa.

O meu primeiro professor de filosofia era um senhor um tanto ou quanto excêntrico e, talvez, um tanto ou quanto louco - embora, para alguns, dizer isto seja já redundante -, que logo na primeira aula nos informou, divertido, que a razão pela qual tinha escolhido cursar filosofia prendia-se com o facto de a fila das matrículas para o curso de Direito ser demasiado grande, enquanto que a de filosofia não tinha ninguém, o que teria determinado a sua decisão. Também nos informou, desde logo, que a nota máxima a que poderíamos almejar na disciplina seria de 15, na escala de 0 a 20. Para além disso, as suas aulas eram caóticas, tanto do ponto de vista filosófico como pedagógico, uma vez que o senhor, para além de ser extremamente dogmático e não possuir qualquer método de ensino, era também completamente paranóico, desconfiando de tudo e de todos, dizendo-se perseguido pelos seus próprios correlegionários políticos e ideológicos locais, os quais identificarei dentro em pouco, para não estragar a surpresa. Em suma, gritava connosco, não sabia ensinar, não ensinava nada e parecia detestar-nos e à disciplina que "ensinava", tendo da disciplina uma visão dogmática e puramente ideológica, que tentava passar aos alunos com base na autoridade e no medo. Como podem calcular, com um cenário destes, conseguiu que toda a gente - com excepção de mim mesmo, como é evidente - desenvolvesse um ódio à primeira vista em relação à disciplina, coisa que não parecia propriamente atormentá-lo, antes lhe proporcionando até uma espécie de gozo sádico, que era manifesto nos seus sorrisos e esgares. Portanto, quando chegou a hora de realizar o primeiro teste, não é de surpreender que toda a gente se sentisse em pânico - menos eu, mais uma vez, por razões que já explicarei adiante - com a perspectiva de ter de o fazer, ainda para mais sem ninguém sequer conseguir imaginar que diabo iria sair no teste e como seria ele feito, já para não falar do modo da sua correcção. E como não poderia deixar de ser, o senhor professor de filosofia não nos desiludiu e esteve à altura das nossas piores expectativas. Quando chegou o dia do teste, o senhor limitou-se a escrever dois pequenos textos no quadro, um do papa João XXIII, que dizia qualquer coisa como isto: "Só Jesus Cristo salva e a Igreja Católica é a sua representante na Terra, portanto quem quiser ser salvo deve ter fé em Cristo e converter-se ao catolicismo" (cito de memória), enquanto o outro era a famosa citação de Karl Marx, essa sim fácil de citar com exactidão, pois é aquela que diz que "A religião é o ópio do povo". Ora bem, transcritas as duas citações, ficámos então a saber o que nos cumpria fazer com elas: deveríamos escolher aquela com a qual estivéssemos de acordo e justificar porquê. Acontece, porém, que o senhor professor de filosofia se esqueceu de nos informar previamente que era marxista e ateu dogmático, pois embora nós já soubessemos que ele era dogmático e autoritário - apesar de não ter autoridade nenhuma, ou talvez por isso mesmo -, aquando da realização do primeiro teste ele ainda não tinha aberto completamente o jogo, coisa que só fez mais tarde, talvez para não nos facilitar a vida e poder tramar-nos ainda melhor. Por isso, quando os testes foram entregues aos seus destinatários, rapidamente nos apercebemos que o critério de correcção do mesmo tinha sido extremamente simples: quem fosse ateu, tivesse tido a sorte de concordar com Marx e tivesse apresentado uma justificação filosófica para esse concordância, teve boa nota; quem, pelo contrário, fosse católico e tivesse tido o azar de concordar com a afirmação papal, mesmo que o tivesse justificado, teve uma má nota. Felizmente, eu fui um dos sortudos, pois já naquela altura era ateu e concordava com essa afirmação, tendo por isso sido agraciado com a nota máxima atribuída pelo senhor. Escusado será dizer que, após este episódio, o pessoal aprendeu a lição e o "amor" ao senhor professor de filosofia e à disciplina que ele representava "aumentou exponencialmente", contribuindo decisivamente para a "boa fama" que a disciplina já tinha na escola, naquele tempo em que esta era popularmente definida entre os alunos como "aquela ciência com a qual ou sem a qual ficamos todos tal e qual". 
E pronto, aqui têm a história do meu primeiro teste de filosofia, restando apenas explicar porque é que, apesar de tudo, eu não fazia parte dos assustados com o 1º teste nem me juntei ao coro dos "traumatizados de guerra" que passaram a odiar visceralmente a disciplina. A razão é simples: é que a vocação filosófica já cá estava desde o princípio, embora ainda sem ser devidamente nomeada e idenficada como tal, tendo eu já lido um manual de filosofia do antigo liceu, O Pequeno Manual de Filosofia, do professor Magalhães Vilhena, o qual só era pequeno no nome, dado que era um pequeno tijolo de algumas 500 páginas que servia de manual escolar para os antigos 6ª e 7º anos liceais. Como tenho uma prima que é 5 anos mais velha do que eu, curioso com a disciplina nova que iria ter no 10º ano, pedi-lho emprestado para o ler nas férias do 9º para o 10º ano, tendo sido amor à primeira vista, uma vez que me reconheci imediatamente nos temas e problemas ali abordados. Para além disso, como o meu pai, apesar de só ter podido estudar até ao nível do ensino médio, era um leitor compulsivo e, sendo marxista, possuia uma pequena biblioteca filosófica marxista, onde se contavam os famosos Princípios Elementares da Filosofia e os Princípios Fundamentais da Filosofia, do filósofo marxista francês de origem húngara, Georges Politzer, juntamente com dois manuais universitários soviéticos de filosofia, um dedicado ao materialismo dialéctico e outro ao materialismo histórico, que eram os manuais oficiais do ensino da filosofia na União Soviética por essa altura, eu já conhecia essa bibliografia, facto que me colocou em óbvia vantagem quando me deparei com o dito cujo professor e o seu peculiar e idiossincrático "sistema de ensino e avaliação". 
Enfim, para não me alongar e não os maçar mais com uma história que provavelmente só interessará a uns poucos, permitem-me apenas que acrescente, em jeito de conclusão ou moral da história, que o dito senhor, sem querer e de forma perversa, acabou por ter um papel importante na minha vida, não tanto por me ter inspirado a seguir-lhe as pegadas ou por ter contribuído para o meu amor à sabedoria. Muito pelo contrário, foi por ele me ter servido de exemplo negativo quanto àquilo que idealmente um professor deve ser e ao modo como deve ensinar, já que, ao contrário do que costuma suceder nestes casos, não foi propriamente por causa dele que resolvi dedicar-me à filosofia e tornar-me professor da mesma, mas sim apesar dele que o decidi fazer. Ora, não são apenas as pessoas que nos inspiram pela positiva a querer ser como elas quando formos grandes que são importantes para nós, também aquelas que nos inspiram pela negativa a não querermos ser como elas quando crescermos o são. Portanto, apesar de na altura estar muito longe de mim a ideia de vir a ser professor de filosofia (nessa altura ainda queria ser cientista, que era o meu sonho de infância) e de o meu professor de filosofia ter sido, sem qualquer exagero, simplesmente um dos piores professores que tive em toda a minha vida escolar como aluno, senão mesmo o pior, a verdade é que tenho de lhe agradecer por me ter ensinado muito daquilo que um professor não deve ser nem fazer. E é por essa razão que, quando os meus alunos sofrem antecipadamente com a perspectiva do primeiro teste da disciplina, não tanto por não saberem o que lhes vai sair à rifa, mas antes por não saberem como serão as perguntas e por recearem o pior quanto a uma possível subjectividade arbitrária ou tendenciosa na avaliação das mesmas, eu lhes conto esta história para os tentar tranquilizar. Como é evidente, por mais que eu tente explicar-lhes que não têm nenhuma razão objectiva para estarem em pânico com o 1º teste de filosofia, essa tranquilidade só se torna real depois de o fazerem e o receberem, só então compreendendo que a disciplina, o seu professor e a sua avaliação não são propriamente bichos papões que devam recear nem sofrer de maior angústia do que aquela sofrida pelos guarda-redes antes do penalty.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Os meus 3 livros do ano

O ano que acaba não me deixa grandes saudades. Mas nem tudo foi mau, claro. Destaco três livros da colecção Filosofia Aberta, que dirijo na Gradiva, e cuja publicação muito gosto me deu.


Este pequeno livro é uma serena e ponderada defesa moral do socialismo, levada a cabo por um filósofo contemporâneo de peso. O seu autor, G. A. Cohen (1941-2009), foi o mais persuasivo, influente e respeitado defensor contemporâneo do pensamento político da esquerda marxista e também um dos mais importantes filósofos políticos das últimas décadas, a par de figuras como John Rawls, Robert Nozick, Ronald Dworkin ou Michael Sandel. Nasceu em Montreal (Canadá), mas foi em Inglaterra que acabou por ensinar a maior parte do tempo, primeiro no University College of London e depois na Universidade de Oxford, onde se veio a tornar emeritus fellow do All Souls College. É autor de vários livros, entre os quais Karl Marx’s Theory of History: A DefenceIf You Are an Egalitarian, How Come You’re So Rich?, Rescuing Justice and Equality e este Socialismo.Porque não?, que foi o último escrito, antes de falecer em 2009, em Oxford.


Este livro é a resposta ao livro de Cohen, em que um acutilante filósofo libertário argumenta não tanto contra o socialismo mas antes a favor da superioridade moral do capitalismo em relação ao socialismo. Jason Brennan doutorou-se em filosofia pela Universidade do Arizona, ensinou na Universidade de Brown e é actualmente professor associado de Estratégia, Economia, Ética e Políticas Públicas na Universidade de Georgetown. É autor de Compulsory Voting: For and Against, com Lisa Hill, Libertarianism: What Everyone Needs to Know, The Ethics of Voting, A Brief History of Liberty, com David Schmidtz e Against Democracy (a publicar brevemente na colecção Filosofia Aberta, com o título Contra a Democracia). A filosofia política e a ética aplicada são as suas duas principais áreas de investigação.



Neste curto ensaio filosófico de um dos grandes filósofos contemporâneos, argumenta-se que somos moralmente obrigados a eliminar a pobreza mas não a diminuir a desigualdade, e que o combate à desigualdade, quando não decorre do combate à pobreza, pode até ser humanamente alienante. Harry G. Frankfurt quase dispensa apresentações. Este Professor Emérito de Filosofia na Princeton University reparte a sua importante obra filosófica principalmente pelas áreas da filosofia moral, da filosofia da mente e da filosofia da acção. Os seus contributos para a discussão do problema do livre-arbítrio fazem dele uma referência nesse domínio. Da sua obra, destacam-se ainda os sucessos de vendas On Bullshit (Da Treta) e The Reasons of Love (a publicar brevemente na colecção Filosofia Aberta, com o título As Razões do Amor).

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Fundamentar a proposta


Ainda bem que a proposta de reformulação do programa de Filosofia que aqui apresentei tem suscitado alguma discussão que, em meu entender, tem sido saudável e proveitosa. Contudo, algumas opiniões como a de Domingos Faria e sobretudo a proposta alternativa de Rolando Almeida, além das sugestões de outros colegas no FB, levaram-me a pensar que precisava ainda de esclarecer alguns aspectos.

Começo por reafirmar que ninguém me pediu qualquer proposta e que ela não passa de um simples esboço a merecer outro detalhe. Posto isso, preciso de tornar claro por que razão qualifico a minha proposta de construtiva, por um lado, e minimalista, por outro lado. 

É construtiva porque não se trata de desfazer o programa actual nem sequer de lhe dar uma direcção diferente, até porque não é isso que o ministério solicita. Assim, a ideia motriz é aproveitar o que de melhor tem o programa actual e trabalhar com base nele. 

É minimalista porque, tendo em conta o que acabei de referir, o objectivo é alterar apenas o que, por razões didácticas relacionadas com a gestão da carga horária disponível, tem mesmo de ser alterado, e não mais do que isso. Claro que aqui cabe acrescentar as inevitáveis questões de carácter científico e cabe não desprezar o que tem sido a prática lectiva concreta de centenas de professores. Por isso procurei evitar — a não ser que me parecesse inevitável — alterar a sequência das matérias a lecionar e de introduzir novas matérias, por muito interessantes que as ache. O objectivo é reduzir e não acrescentar ao que já existe. 

A redução consiste basicamente nisto: manter um, e apenas um, problema em cada uma das disciplinas contempladas no programa actual. Assim, os alunos familiarizam-se, de forma mais aprofundada, com a diversidade de disciplinas e problemas filosóficos, em vez de se querer meter cada Rossio filosófico na sua rua da Betesga. A excepção é a ética, dado que as teorias éticas em confronto relacionam problemas subtilmente diferentes, mas conexos. De qualquer forma, penso que todos concordam que a ética é a parte mais importante do programa, juntamente com a teoria do conhecimento no 11.º ano.

A proposta que apresento não constitui, portanto, o meu programa preferido. E mesmo que me pedissem para fazer um programa de raíz, totalmente novo, procuraria abster-me de dar preferência aos meus interesses filosóficos pessoais, privilegiando as áreas que melhor conheço ou domino. É preciso não esquecer que se trata de um programa para os alunos aprenderem o que é mais central, acessível e estruturante, pelo que aquilo que mais me entusiasma filosoficamente pode não ser — e muitas vezes não é — o que melhor serve os alunos. Esquecer isto seria irresponsável e não ter sentido de serviço público. Na verdade, a disciplina filosófica em que mais tenho trabalhado é a estética e filosofia da arte, tendo até publicado alguma coisa na área, mas tenho algumas dúvidas que um programa destas características totalmente elaborado por mim — coisa que, de resto, nunca aceitaria fazer — incluísse problema algum de estética e filosofia da arte.

Apresentados os pressupostos da minha proposta, cabe responder a algumas dúvidas levantadas. Divido-as por conteúdos temáticos.

1. Lógica. Se a lógica é uma ferramenta da actividade filosófica, porquê mantê-la no 11.º ano em vez de a passar, como seria natural, para o 10.º ano? Considero que este é o aspecto em que mais hesitei e em relação ao qual as considerações de vários colegas no sentido de lecionar a lógica no 10.º ano me parecem mais pertinentes. Como disse acima, tive sempre em conta a prática lectiva concreta e a previsível rejeição de muitos professores. Se a minha suposição estiver errada, então há todas as razões para colocar a lógica no início do 10.º ano. Concedo completamente, de bom grado.

Outro aspecto diferente diz respeito a que conteúdos leccionar na lógica. Há quem defenda que se deve manter a opção entre lógica proposicional e a lógica aristotélica. Mas isto parece-me indefensável, por duas fortíssimas razões, uma de carácter científico e outra de carácter didáctico: a primeira é que uma coisa não é alternativa à outra, como já tinha referido e julgo ninguém contestar seriamente; a segunda é que a ideia de que deve haver opção destrói o argumento de que a lógica se justifica por ser uma ferramenta necessária que todos os alunos devem aprender a manejar.

Deixando de lado a primeira, que já foi suficientemente referida, vale a pena pensar melhor na segunda. Como pode a lógica ser uma ferramenta que todos devem dominar e depois dar-se ferramentas diferentes aos alunos, como se eles fossem resolver problemas diferentes? Será que se está a pensar que cada argumento filosófico discutido deve ter uma versão silogística e outra manejável pela lógica proposicional? Ou será antes que os que aprenderam lógica silogística só trabalham com silogismos e outros com raciocínio proposicional? A ser assim, teria de se fazer programas paralelos para quase todos os problemas filosóficos. Mas isso seria absurdo. Talvez a ideia seja a de prever uma quantidade idêntica de argumentos silogísticos e não-silogísticos, de modo que  os que aprendem uma teoria lógica não sejam prejudicados relativamente aos que aprendem a outra. Mas também isto é disparatado. A verdade é que, se o programa é o mesmo para todos e se há raciocínios proposicionais a sustentar as teorias discutidas que não podem ser alternativamente avaliados — nem sequer expressos — com os recursos da teoria silogística, então alguém terá de ficar prejudicado. As ferramentas têm de ser as mesmas para todos, pois diferentes ferramentas servem para tratar de problemas diferentes. Dizer que uns podem usar uma ferramenta e que outros podem usar a outra é reconhecer que qualquer delas é dispensável. Não há, portanto, qualquer razão científica, e ainda menos didáctica ou pedagógica, que justifique tal opção.

Mas há ainda outro aspecto que deve ser tido em conta. Não é forçoso que se dê a lógica optando apenas por uma destas teorias lógicas. Se pensarmos em dar as noções elementares de lógica e argumentação, podemos incluir, além dos aspectos informais, os elementos mais úteis e acessíveis de cada uma das teorias. Assim, seria perfeitamente adequado ensinar, por exemplo, o quadrado da oposição de Aristóteles, que é bem útil, e também noções muito elementares de lógica proposicional. E tudo isso é possível reduzindo substancialmente a lógica formal e informal que actualmente se encontra espalhada pelos dois anos. Pelas minhas contas, o tema da lógica e argumentação — que inclui as noções de argumentação dadas na unidade inicial do 10.º ano e a retórica no 11.º ano — tem previstas um total 22 aulas de 90 minutos, o que equivale a 39 aulas e meia de 50 minutos. O que eu propus foi umas 24 a 25 aulas, considerando aquela parte do módulo inicial. Ora, poderia juntar-se tudo no início do 10.º ano, como muitos sugerem, e apenas 25 aulas de 50 minutos seriam suficientes para se ensinar, no momento certo, as ferramentas do trabalho sem ser preciso voltar à lógica no 11.º ano.

2. Religião e estética. Por que razão estas matérias passam para o 11.º ano e por que razão deixam de ser opcionais, perguntam alguns. Em primeiro lugar, por uma questão de gestão dos tempos lectivos disponíveis em cada ano. A verdade é que não se consegue discutir decentemente tantas matérias no 10.º ano e, portanto, algo terá de transitar para o ano seguinte. Em segundo lugar, com os cortes operados só nestas duas disciplinas é perfeitamente possível leccionar, mas no ano seguinte, um problema de cada uma delas, evitando-se tão indesejável opção. 

3. Livre-arbítrio. Porquê manter uma matéria tão abstracta e complexa como o problema do livre-arbítrio logo no início? Vários colegas sugerem que deveria passar para o fim do 11.º ano. Bom, se nos entusiasmamos demasiado com as alterações, estas deixam de ser minimalistas. Em todo o caso, discordo que o problema do livre-arbítrio seja dos mais difíceis e abstractos. Compare-se, por exemplo, com a dificuldade que é, para muitos alunos, compreenderem adequadamente a autonomia da vontade kantiana ou até o imperativo categórico. Não é por o livre-arbítrio ser um problema metafísico — apesar das suas conexões com a ética, com a filosofia da ciência e com a filosofia da mente — que é mais difícil ou motivador do que outros. Um problema é mais motivador ou menos motivador consoante os alunos já tragam na sua bagagem pré-teórica intuições fortes acerca disso. E creio que é precisamente o que os alunos já trazem consigo neste caso — estou neste momento a discutir o problema nas aulas e não falta animação. Não são poucos o que vêem as suas ideias fatalistas desafiadas ou a ideia, defendida por muitos, de que são livres por fazerem o que querem. E nem sequer é um tema demasiado abstracto, pois é dos que podem perfeitamente ser discutidos com exemplos concretos do quotidiano. 

4. Política. Por que razão tomar como referência apenas a perspectiva de Rawls, ao passo que noutras áreas são explicitamente referidas duas ou mesmo três perspectivas? A verdade é que a teoria da justiça de Rawls se tornou o centro de toda a discussão posterior acerca da justiça social, o que mesmo os seus críticos reconhecem. Digamos que, nesta matéria, há a teoria de Rawls e os seus críticos.

5. Tema livre. O Rolando discordou deste aspecto da minha proposta, alegando que não devia haver temas livres, mas que se devia antes aproveitar algumas aulas para preparar o elaboração de ensaios filosóficos. Não sei se compreendo exactamente o que o Rolando tem em mente, mas parece-me estar a defender que se deve destinar essas aulas à aquisição de metodologias de trabalho filosófico mais avançadas — de que os ensaios seriam o melhor exemplo. Sinceramente, não me parece boa ideia voltar às ferramentas do trabalho filosófico assim em seco. Nessa fase já deveria ser possível aos alunos desenvolverem essas capacidades — que, aliás, poderiam ter sido usadas antes —, aplicando-as a algum tema filosófico. Por isso mesmo, os professores, eventualmente em conjunto com os alunos, estarão em melhores condições de escolher que temas filosóficos melhor poderão satisfazer esse objectivo. Além disso, é mesmo muito importante não ser totalmente directivo e deixar espaço para cada professor dar o seu próprio contributo para o leque de conteúdos que os alunos irão trabalhar e, desejavelmente, dar um pouco a palavra a alunos, que se espera sejam também capazes de exercer um pouco da sua autonomia filosófica.

Finalmente, uma nota sobre a bibliografia. É importante sublinhar que se trata de um conjunto de recomendações e de obras de referência sobre os problemas que constam do programa, pelo que não deve ser encarada como se da bibliografia de um ensaio se tratasse. Não se espera, portanto, que seja apresentada a bibliografia consultada para elaborar o programa, mas antes de um conjunto de propostas de leitura acessíveis e orientadoras para alunos e professores — umas de consulta e outras de referência — sobre os conteúdos a leccionar. Assim, além das obras relevantes dos filósofos de referência mencionados no programa, tudo o que é preciso é um conjunto de obras de consulta que os alunos sejam capazes de ler por si próprios: um par de dicionários de filosofia, uma ou duas boas histórias da filosofia e um conjunto de obras introdutórias aos temas e disciplinas em apreço.  


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

As perguntas da filosofia em Vilamoura

Estarei no Colégio Internacional de Vilamoura na próxima quinta-feira, dia 24 de Novembro, para falar sobre a pergunta mais importante do mundo. O convite foi feito pelos professores de Filosofia do colégio e insere-se nas comemorações do IV Festival de Perguntas e do Dia Mundial da Filosofia.


sábado, 19 de novembro de 2016

Filosofia: uma proposta construtiva e minimalista

De acordo com o jornal Público, as mudanças curriculares, cuja proposta está, no caso da Filosofia, a ser levada a cabo pela Associação de Professores de Filosofia (APF), visa "uma melhor gestão curricular" e procura, por isso, elencar "as aprendizagens essenciais" da disciplina. 

Em suma, trata-se de ir ao que é realmente central, tornando isso o mais claro possível. A finalidade é, portanto, evitar que se aprenda à pressa e apenas pela rama uma quantidade enorme de matérias, que podem até não ser as mais estruturantes e significativas. 

A ideia de reduzir o elenco de matérias é muito bem vinda, pois a verdadeira discussão em sala de aula dos problemas filosóficos e das principais respostas a esses problemas exige tempo. Este aspeto fundamental da aprendizagem filosófica tem sido contrariado por programas extensos, quase enciclopédicos, que frequentemente fazem da disciplina uma espécie de coleção de ideias que os alunos se limitam a decorar e a repetir, esvaziando a disciplina da sua verdadeira natureza filosófica. E que não se culpe os professores, pois eles não fazem milagres, até porque não podem deixar de cumprir o programa.

Por sua vez, é imperioso não apenas identificar os conteúdos centrais mas também fazê-lo da forma mais clara para todos, até porque se trata de conteúdos sujeitos a avaliação externa e não deve haver ambiguidades quanto ao que é suposto ser avaliado. 

Dado que o objetivo aqui é selecionar e reformular o essencial do que o programa em vigor já contempla, é de esperar que as divergências sejam meramente pontuais. Não vale a pena esconder que diferentes perspetivas filosóficas e metodológicas são possíveis. Mas isso é um problema maior quando se parte do zero e quando se tem em vista um elenco tendencialmente maximalista. Desta vez, estamos perante a situação inversa: parte-se de um programa já assimilado por todos e do qual há apenas que selecionar e clarificar o mais importante, de acordo com a longa tradição filosófica que se mantém viva até aos nossos dias. Creio também que os mesmos conteúdos admitem, sem conflitos de maior, diferentes abordagens metodológicas, as quais devem ser da exclusiva responsabilidade de cada professor.

Em todo o caso, o secretário de estado teve o cuidado de esclarecer, como se lê no Público, que "convidou as associações de professores a estabelecerem as parecerias que considerem 'relevantes', o que poderá passar pelas sociedades científicas". Posto isto, não acredito que a APF não venha a convidar a SPF para dar também o seu contributo, caso ainda o não tenha feito.

Como é natural, ninguém pediu o meu contributo, mas tomo a liberdade de deixar aqui a minha opinião sobre o que poderia ser um renovado programa. Bem vistas as coisas, como muitos outros professores de filosofia, sou parte interessada e não me parece boa ideia silenciar os meus legítimos interesses.

A minha proposta procura preservar os aspetos positivos do programa actual, a saber: a) incidir nas principais disciplinas filosóficas tradicionais; b) partir dos problemas em vez dos autores; c) manter conteúdos abertos, de modo a que cada professor possa, razoavelmente, imprimir o seu cunho pessoal, e porque nem tudo precisa de estar sujeito a avaliação externa.

Mas procura também evitar os seus aspetos menos positivos, a saber: a) as disciplinas filosóficas em causa não serem identificadas de forma clara, como é habitual fazer-se; b) os problemas filosóficos não serem explicitamente enunciados ou formulados, prestando-se a confusões conceptuais; c) incluir conteúdos de interesse meramente histórico e de menor relevância filosófica, à luz da generalidade da bibliografia filosófica disponível; d) o seu carácter frequentemente vago e prolixo; e) opções didáctica e cientificamente injustificadas; f) bibliografia inadequada para o nível de ensino e a faixa etária dos alunos do secundário; g) a incongruente, em termos filosóficos, proposta de gestão dos conteúdos.

Os quadros seguintes (clicar em cima para ampliar) apresentam lado a lado os conteúdos do programa em vigor e a minha proposta, de modo a que se perceba melhor as opções feitas. Na gestão das unidades temáticas conto apenas com aulas de 50 minutos, dado que é essa a duração das aulas em muitas escolas (nesses casos, a Filosofia dispõe frequentemente de apenas 150 minutos semanais).

10.º Ano

Até aqui, há a salientar a clara divisão das unidades programáticas em função dos problemas e disciplinas filosóficas tradicionais, o que, só por si, já é mais esclarecedor e orienta melhor os próprios alunos, a quem já se explicou na unidade inicial quais as principais disciplinas da filosofia. A parte da definição da acção, ou da chamada "rede conceptual da acção" também é eliminada, pois a abordagem proposta no actual programa é demasiado esquemática, sem prever qualquer discussão filosófica. Sem dúvida que a filosofia da acção é campo de importantes discussões filosóficas, mas isso exigiria outros aprofundamentos, que não constam do programa e que consumiriam mais tempo.


Como se pode ver aqui, deixa de haver filosofia da religião e estética no 10.º ano. Qualquer professor sabe que o tempo disponível não é suficiente para lecionar todos os conteúdos previstos para o 10.º, que tem muito mais conteúdos do que o do 11.º ano. Os conteúdos anteriores são mais do que suficientes para nos ocupar o ano inteiro.

11.º Ano

A novidade aqui é o desaparecimento da chamada "lógica aristotélica". Será esta a mudança que mais adaptações exigirá da parte de muitos professores. Mas aqui as razões são de carácter científico — dêem-se as voltas que se derem, não é simplesmente verdade que a lógica aristotélica e a lógica proposicional clássica constituam diferentes paradigmas, dado que uma teoria lógica de modo algum é alternativa à outra. Mesmo em termos meramente instrumentais, não se justifica ensinar a lógica aristotélica em detrimento da lógica proposicional clássica. Além disso, por muito estranho que possa parecer a muitos, os rudimentos da lógica proposicional clássica não são, de todo em todo, mais difíceis de apresentar nem de aprender. No fundo, a minha proposta é simplesmente ensinar as noções elementares de lógica, que possam ser realmente úteis na discussão e clarificação de uma boa parte das teses filosóficas. Só não incluí o estudo da lógica no início do 10.º ano, como seria mais adequado, porque imagino haver demasiada resistência da parte dos professores a isso. Acho essa resistência injustificada, mas não podemos deixar de ter em conta a realidade.

Na parte da ciência, não dá para trabalhar mais do que um problema e o que parece mais óbvio lecionar é o do método científico. De resto, no programa actual os problemas do método, da racionalidade e da objectividade (e ainda um arremedo do problema da demarcação entre senso comum e ciência) estão algo embrulhados, o que tem levantado dificuldades didácticas não desprezíveis. 

Outra novidade é aparecerem no 11.º ano, e sem opções, as questões de Deus e da arte. Com o que se elimina na lógica e argumentação (sim, fica mais curta, pois deixaria de se lecionar os temas de carácter essencialmente histórico sobre a relação entre filosofia, retórica e democracia, além de a lógica propriamente dita ficar mais curta) e também o que se elimina na filosofia da ciência, dá para tratar um problema central da filosofia da religião e outro problema central da estética e filosofia da arte. Recorde-se que o actual programa do 11.º ano já é mais curto do que o do 10.º.


E terminaria com um tema completamente livre, escolhido pelo professor ou pelo professor e os alunos ou pelos grupos disciplinares de cada escola. 

Esta minha proposta poderia ser mais detalhada e tenho ideias sobre isso. Poderia ainda falar sobre a bibliografia recomendada pelo programa ou até das sintomáticas considerações iniciais sobre a justificação do ensino da filosofia. Mas o que aqui deixo já é suficiente para dar uma boa ideia do que defendo. Já é suficiente para suscitar eventuais críticas dos leitores. Espero bem que existam e aguardo por elas com toda a abertura.