quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Estrelas que brilham depois de extintas

Blackstar foi o obituário musical que a mais brilhante rockstar de sempre criou para anunciar o seu próprio apagamento. Tal como havia feito há mais de quatro décadas com a revelação da morte metafórica do seu alter ego artístico — Ziggy Stradust, a rockstar alienígena —, David Bowie regressou artisticamente ao sempre difícil tema da despedida. Só, que desta vez, tratou-se da mais difícil de todas: a irrevogável. Uma despedida assim é caso único na história da música rock.


David Bowie é frequentemente referido como alguém que desafiou estereótipos, preconceitos e convenções sociais, contribuindo como poucos para a emancipação da então emergente cultura popular urbana, que tinha o rock and roll como principal elemento de afirmação. E não deixa de ser curioso que tenha sido um verdadeiro catalisador de influências artísticas como Bowie — ele mesmo abraçou influências tão diferentes como a mímica, o teatro de vaudeville, o jazz, os musicais, o cinema, a literatura e as artes plásticas — a mergulhar no universo do rock para lhe oferecer o seu primeiro, mais vivo e mais honesto auto-retrato. Ao dar vida, tanto em disco como nos palcos, a personagens como Ziggy Stardust e os Spiders From Mars — uma rockstar andrógina que veio de outro planeta com a sua banda e que acabou por ser vítima dos excessos do seu próprio sucesso —, conferiu ao rock system a importância e o estatuto que legitimam a auto-referencialidade.


É certo que os Mothers of Invention de Frank Zappa já olhavam por vezes ironicamente para a cultura e a iconografia rock de que eles próprios faziam parte. Só que, diferentemente da perspetiva na primeira pessoa de Bowie, a ironia de Zappa mostra um olhar distanciado, típico da perspectiva na terceira pessoa. No caso de Bowie, é o rock system a olhar-se a partir de dentro, sem qualquer intenção irónica. Por isso se tornava difícil destrinçar se era Bowie ou se era Ziggy a manifestar-se. A personagem confundiu-se a tal ponto com a pessoa que lhe deu corpo, que esta teve de declarar publicamente a morte da personagem para resgatar a sua identidade. É por isso que a música de Bowie da fase Ziggy Stardust soa tão poderosa, desesperada e paradoxalmente autêntica. Parece que Bowie está, sem o saber, a ilustrar o que Fernando Pessoa exprimiu na sua Autopsicografia. Apesar de, ao vestir a pele e a alma de Ziggy, o artista estar a fingir, o fingimento cola-se com tal perfeição ao fingidor a ponto de este sentir o fingimento como dolorosa realidade. Foi manifestamente por isso, que depois da morte de Ziggy, Bowie se tornou uma pessoa diferente e a sua música mudou também de tom. Até a banda Spiders From Mars foi despedida e Bowie não voltou a tocar com ela. Foi por mudar várias vezes de pele que alguns lhe chamaram camaleão. Mas as peles de Bowie são mais parecidas aos heterónimos de Pessoa do que à aparência do camaleão, pois as diferentes peles de Bowie correspondem também a personalidades artísticas completamente diferentes. Bowie não muda só por fora mas por dentro também.

Ainda assim, tudo isso pode ser musicalmente desinteressante. O que importa mesmo é se a música que acompanha tais personagens vale realmente a pena ser ouvida. Ora, é acima de tudo como músico que Bowie merece toda a atenção.

Não devia haver qualquer dúvida que, sem David Bowie, a história da música rock teria sido muito diferente. E muitíssimo mais pobre. Poucas figuras foram individualmente tão marcantes para a história da música rock como Bowie. Talvez só Bob Dylan e Frank Zappa tenham individualmente uma importância equiparável à de Bowie. Nem Elvis Presley, que nunca se aproximou sequer da criatividade e da sofisticação musical de Bowie, nem Jimi Hendrix, cujo génio foi quase todo aplicado à guitarra, nem Jim Morrison, que foi sobretudo a voz carismática da criatividade colectiva dos Doors, são casos comparáveis. Lennon e McCartney, por sua vez, estão muitíssimo longe de ser individualmente o que foram como dupla genial. E o mesmo pode ser dito de outras duplas de peso como Jagger e Richards, Simon e Garfunkel, Page e Plant ou Gilmour e Waters.

Sem dúvida que numa carreira tão longa e tão musicalmente diversificada como a de Bowie, é possível encontrar períodos inteiros de música desinteressante. Foi o que aconteceu durante os anos 80 e boa parte dos 90 do século passado, em que Bowie precisou de ganhar a vida e optou pelo caminho mais curto. Não vou a ponto de dizer que sucessos como Let's Dance, Under Pressure, Dancing in the Streets, Modern Love, China Girl, Absolute Beginners ou Blue Jean são deploráveis. Mesmo em canções banais como estas há um toque especial — que mais não seja a voz única e inconfundível de Bowie —, mas o mundo não ficaria mais pobre sem canções como estas.

Para uma correta avaliação da importância musical de Bowie, é preciso ter em conta que houve um Bowie roqueiro (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars), um Bowie esteta (Hunky Dory), um Bowie progressivo (Space Oddity), um Bowie jazzy (Aladin Sane), um Bowie bluesy (Diamond Dogs) um Bowie funky e soul (Young Americans), um Bowie electrónico, experimental e ambiental (Low, Heroes, Lodger) um Bowie metálico (The Man Who Sold the World), um Bowie new wave (Scary Monsters) e, claro, também um Bowie comercial (Let's Dance, Tonight). Bowie é tudo isso, por vezes misturado, mas sempre à sua maneira, sem nunca se deixar aprisionar por qualquer desses géneros. Não vale, por isso, a pena procurar nele um exemplar puro de qualquer desses sub-géneros.

Mas onde procurar o melhor, e como evitar o pior Bowie? Penso que o melhor está todo nos anos 70  — de The Man Who Sold the World a Scary Monsters, este já gravado no ano de 1980 — e que os anos 80 e parte dos 90 são de evitar. Só já na recta final da sua vida, Bowie volta a fazer música à sua própria altura, em particular o último Blackstar.

Parece-me adequado encarar os seus discos anteriores a 1980 como uma sucessão de trilogias. Os seus três primeiros álbuns — David Bowie, Space Oddity e The Man Who Sold the World — têm algumas boas canções, em especial os dois últimos, mas são apenas um tímido prenúncio da explosão criativa que haveria de se revelar na fantástica trilogia seguinte, constituída por Hunky Dory, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars e Aladdin Sane. Os dois primeiros são, quanto a mim, os melhores álbuns de Bowie e estão entre os melhores discos da história da música rock.


Hunky Dory está recheado de belíssimas canções, com melodias incomuns mas memoráveis. Entre elas destacam-se Life on Mars, com as suas linhas melódicas irresistivelmente ascendentes, os arranjos elegantes do guitarrista Mick Ronson — vejam-se não apenas as cordas mas também os sopros que por vezes se assomam discretamente com a suave batida da tarola aveludada em eco a marcar o compasso —, o magistral piano de Rick Wakeman e a voz lírica de Bowie. Changes, por sua vez, parece tirada de um musical, com Bowie a cantar ora como se fosse um narrador em palco ora como actor. É, de resto, curioso verificar como já aqui Bowie revela o seu fascínio pelas múltiplas personalidades. Mas há ainda a estranhamente tocante Quicksand, em que Bowie confessa, com uma honestidade surpreendente, a sua perigosa proximidade das areias movediças formadas por uma mistura de ideias esotéricas da Aurora Dourada com um cepticismo irracionalista e uma altivez profética nietzscheana. Salva-se a corajosa confissão da sua atracção pelo abismo a que, no fundo, tenta resistir: Don't believe in yourself, don't deceive with belief / Knowledge comes with death's release, canta ele no resignado e encantador refrão. Expôr cruamente tão desprezíveis fraquezas — sobretudo quando apresentadas como tal — não é para qualquer um. Há também The Bewlay Brothers, uma misteriosa balada entre o folk e o rock progressivo, com uma letra estranhíssima, alegadamente um repositório de memórias e de imagens soltas de uma infância partilhada com o seu muito querido meio-irmão mais velho, que padecia de esquizofrenia e que viria anos mais tarde a atirar-se mortalmente da janela da instituição em que estava internado. E ainda sobram o brilhante trio de piano, guitarra eléctrica e voz de Eigth Line Poem, a eloquente pregação musical de Oh! You Pretty Things, em que mais uma vez dá voz à ideia nietzscheana de um futuro homem superior.


Depois de um disco assim era difícil esperar ainda melhor, mas foi isso mesmo que aconteceu com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, uma sucessão de canções tão diferentes mas complementares entre si. Apesar da aparente simplicidade de cada canção, o álbum é um verdadeiro cardápio do melhor que o rock tem para oferecer: a poderosa e incisiva guitarra eléctrica de Ronson, que energicamente irrompe apenas quando é necessário (Soul Love, Moonage Daydream, Ziggy Stardust), por vezes em contraste com a aveludada guitarra acústica de doze cordas de Bowie (Starman, Rock 'n' Roll Suicide); o sax esporádico e insinuante de Bowie (Soul Love); o piano imponente e solene (Five Years, Lady Stardust), tocado ora por Bowie ora por Ronson; os brilhantes arranjos de Ronson, que conferem a algumas canções uma discreta envolvência orquestral e um lirismo invulgares (Five Years, Moonage Daydream, Starman, Rock 'n' Roll Suicide). E acima disto tudo está a voz de Bowie com os seus graves profundos e os seus agudos fulgurantes, constantemente entre o introspectivo e o descarado, entre o épico e o lírico. Como se diz na contracapa do disco, é para ser ouvido com o volume no máximo. Não há que ter receio de o som sair empastado, pois cada instrumento continua ali bem definido. Apenas se passa a sentir melhor todo o poder e expressividade desta música. Em minha opinião é um dos melhores discos rock de sempre.

Dificilmente o disco seguinte não deixaria algo a desejar. Mesmo não estando à altura dos dois anteriores, Aladdin Sane tem boa música. Na verdade percorre ainda os mesmos caminhos musicais que os anteriores, só que é menos focado e mais disperso. E também acrescenta um toque jazzístico aqui e ali, dado sobretudo pelo novo pianista Mike Garson e pela maior intervenção do sax de Bowie.  Há neste álbum um punhado de boas canções, embora nunca tão intensas como nos álbuns que o precedem. Entre elas conta-se Drive-In Saturday, a lembrar as paródias musicais de Zappa — os coros, por exemplo. Time, por sua vez, parece tirada de uma performance de cabaret e Lady Grinning Soul mostra, mais uma vez, o excelente cantor que Bowie é.

A trilogia seguinte é formada por Diamond Dogs, Young Americans e Station to Station. Isto sem contar com PinUps, um álbum de versões de canções que Bowie ouvia em meados dos anos 1960 (The Who, The Kinks, Pink Floyd, Them, The Yardbirds e outros), sem especial interesse. A música daqueles três discos é, para surpresa e decepção de muitos, substancialmente diferente do que Bowie tinha feito até então. Diamond Dogs é um álbum totalmente inspirado em 1984 de Orwell e pensado para encenação teatral. Musicalmente está muito próximo do rhythm 'n' blues dos Rolling Stones e tem um som mais americanizado do que qualquer outro disco anterior. Está longe do melhor Bowie e penso que é o menos interessante desta trilogia. O álbum seguinte, Young Americans, soa ainda mais americano. Desta vez Bowie surpreende tudo e todos com um disco de música funksoul. Mas é uma soul à maneira de Bowie. O próprio aplicou, com uma honestidade desarmante, o termo plastic soul para caracterizar o que se ouve neste disco. Seja como for, há no disco excelentes nacos de soul plástica como Right, Can You Hear Me e a canção que dá título ao álbum. O melhor desta fase americana encontra-se, contudo, em Station to Station, o último desta trilogia. Ainda se encontra lá a influência funksoul, mas incorpora agora um toque do chamado krautrock alemão. Muitos consideram-no um dos melhores discos de Bowie. Não penso o mesmo, mas reconheço que é um disco com momentos musicalmente inspirados. O próprio Bowie parece não encarar esta fase com grande saudade — diz ter sido dos períodos mais negros e autodestrutivos da sua vida — e os temas abordados nas letras são, de facto, de uma enorme desorientação pessoal e intelectual. Ainda assim, Word on a Wing, uma espécie de prece cristã, é uma das canções em que Bowie canta de forma mais espantosamente expressiva, a rivalizar com a versão de Wild is the Wing que encerra o mesmo disco. 


Em 1977 Bowie instalou-se em Berlim à procura um novo rumo para a sua música e também para a sua vida. Foi aí que, fortemente influenciado pelo som do experimentalismo electrónico alemão — sobretudo dos Neu! e dos Kraftwerk —, criou a trilogia formada por Low, Heroes e Lodger, que muitos consideram um verdadeiro renascimento artístico de Bowie. É difícil dizer qual deles o melhor, mas penso que Low se destaca ligeiramente dos outros. Dele fazem parte instrumentais tão enigmaticamente envolventes como Subterraneans e tão encantadoramente desoladores como Warszawa, em que Bowie combina a gravidade electrónica de fundo com elementos vocais de música folclórica polaca. Mesmo a ligeireza da pop electrónica de Sound and Vision revela uma elegância inesperada que não destoa do resto do disco. Em minha opinião, Low está no pódio dos três melhores álbuns de Bowie. 

Heroes é como que uma continuação do disco anterior e é também o nome da canção, escrita em parceria com Brian Eno, que se tornou uma espécie de hino triunfal ao amor audaz. De facto trata-se de uma das melodias mais simples que Bowie alguma vez cantou, mas que tem uma poderosa massa instrumental electrónica — comandada pelos sintetizadores de Eno e reforçada com os efeitos da guitarra de Robert Fripp e de Carlos Alomar — como que a empurrá-la irresistivelmente para uma espécie e auge libertador. Mas este sucesso de forma alguma devia obscurecer instrumentais como Moss Garden, com o seu toque de exotismo oriental. O terceiro álbum da trilogia, Lodger, mantém o nível do anterior. Mais uma vez Bowie combina deliciosamente a electrónica com elementos de world music, como se verifica em Yassassin — nesta canção é notória a influência dos alemães Can, em particular do seu álbum Flow Motion

A seguir ao período de Berlim, Bowie muda novamente de som com Scary Monsters (And Super Creeps). Trata-se de um álbum de canções com um som algo sujo e duro. Há quem considere que Bowie conseguiu, sem perder qualidade, compensar o relativo insucesso comercial dos três álbuns anteriores. Sem dúvida que teve bastante mais sucesso, mas não concordo que tenha mantido a qualidade. Apesar de não ser um mau disco, acaba por estar uns furos abaixo do melhor Bowie. Ainda assim, o álbum inclui Ashes to Ashes, uma das mais geniais canções de Bowie. Quem se der ao trabalho de tentar ouvir separadamente a voz e cada instrumento por si ficará surpreendido como daqueles esboços de sons desconexos Bowie construiu uma canção tão estranhamente original e, ao mesmo tempo, tão eficaz. Eis uma canção que não está ao alcance de qualquer estrela cadente do rock.  

Depois de Scary Monsters, Bowie voltou a surpreender. Para pior, desta vez. Mas isso não apaga o seu impressionante legado anterior. Até porque um dos méritos de Bowie foi o ter ido abastecer-se fora das margens do rock — as suas mais nítidas influências vêm da teatralidade das canções de Jacques Brel, da música de cabaret, dos musicais e da world music —, e combinar isso com o lado mais excêntrico e experimental do rock — Velvet Underground, Kraftwerk — trazendo tudo isso para o palco principal da música popular urbana dos últimos 50 anos.

Uma palavra: respeito!            

Deixo, para terminar, a minha lista pessoal das 33 melhores músicas de Bowie. De fora ficam ainda muitas canções excelentes. Talvez a lista fosse ligeiramente diferente se elaborada amanhã em vez de hoje. Ligeiramente!

1. Space Oddity   (Space Oddity, 1969)
2. An Occasional Dream   (Space Oddity, 1969)
3. All the Madmen   (The Man Who Sold the World, 1970)
4. The Man Who Sold the World   (The Man Who Sold the World, 1970)
5. Changes   (Hunky Dory, 1971)
6. Life on Mars   (Hunky Dory, 1971)
7. Quicksand   (Hunky Dory, 1971)
8. The Bewlay Brothers   (Hunky Dory, 1971)
9. Soul Love   (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and..., 1972)
10. Moonage Daydream   (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and..., 1972)
11. Starman   (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and..., 1972)
12. Lady Stardust   (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and..., 1972)
13. Ziggy Stardust   (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and..., 1972)
14. Rock 'n' Roll Suicide   (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and..., 1972)
15. Drive-In Saturday   (Aladdin Sane, 1973)
16. Time   (Aladdin Sane, 1973)
17. Lady Grinning Soul   (Aladdin Sane, 1973)
18. Diamond Dogs   (Diamond Dogs, 1974)
19. Right   (Young Americans, 1975)
20. Can You Hear Me   (Young Americans, 1975)
21. Word on a Wing   (Station to Station, 1976)
22. Sound and Vision   (Low, 1977)
23. Warszawa   (Low, 1977)
24. Subterraneans   (Low, 1977)
25. Heroes   (Heroes, 1977)
26. Moss Garden   (Heroes, 1977)
27. Fantastic Voyage   (Lodger, 1979)
28. Yassassin   (Lodger, 1979)
29. Ashes to Ashes   (Scary Monsters, 1980)
30. Buddha of Suburbia   (Buddha of Suburbia, 1993)
31. Something in the Air   ('hours...', 1999)
32. Slip Away   (Heathen, 2002)
33. Lazarus   (Blackstar, 2016)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Wagner, o prodigioso senhor dos anéis

É fácil detestar Wagner. Mas não é menos fácil idolatrá-lo. Talvez haja boas razões de ambos os lados.

Por um lado, a pessoa de Wagner tem aspectos detestáveis, como a ingratidão e, sobretudo, o seu declarado e persistente anti-semitismo. Além disso, embora arrojadas, as suas megalómanas concepções artísticas resultam, não raras vezes, em música aborrecida ou, como teria gracejado Rossini, em momentos encantadores perturbados por quartos de hora insuportáveis. E também é preciso ser um adepto do género para digerir aquele universo mitológico carregado de fadas e feiticeiros, poções e anéis mágicos, cavaleiros e espadas, cisnes e gnomos, grutas, deuses manhosos e santos medievais, cujas tropelias se desenrolam ao longo de óperas de quase quatro horas de duração.

Por outro lado, é indiscutível que Wagner foi um artista invulgarmente inspirado, criador de alguma da mais bela, expressiva e comovente música jamais composta. Foi também um compositor ousado, capaz de desbravar caminhos na música até então inexplorados: seja na riqueza das harmonias como na ampliação dos recursos orquestrais, nas luminosas e irresistíveis progressões melódicas ou nas transições entre temas musicais.

Vem isto a propósito de um dos últimos livros que li, precisamente sobre a vida e a obra de Wagner. Trata-se de um livro que comprei há anos quase só por curiosidade, até porque o preço era bastante convidativo (creio não ter chegado aos 15€) e vinha acompanhado por dois CD's da Naxos com música do compositor alemão. O livro foi publicado pela Bizâncio e o seu autor é o musicólogo e crítico musical inglês Stephen Jonhson, que eu desconhecia de todo. Comprei ainda mais dois livros desta coleção, um sobre Mahler e o outro sobre Beethoven (mas há mais: Mozart, Haydn, Dvorak e outros), dentro dos mesmos preços e também com dois CD's cada um.


As minhas expectativas eram relativamente baixas, imaginando que, à parte um ou outro pormenor interessante, pouco mais iria encontrar do que as banalidades habituais que tantas vezes se lêem em livros sobre a vida e a obra de grandes vultos da história da arte. Enfim, esperava pouco mais do que aquilo que se pode descobrir, por exemplo, numa breve pesquisa na Internet.

Não podia estar mais enganado, e a surpresa acabou por ser muito agradável. É um livro realmente informativo para quem conheça, como é o meu caso, pouco mais do que o essencial sobre a vida e a obra de Wagner.

O livro é informativo não tanto porque se limita a descrever os factos da vida do compositor e as características da sua obra, mas sobretudo porque tais factos são contextualizados de forma pertinente e esclarecedora, tanto em termos históricos e políticos, como artísticos e filosóficos. É, aliás, reconfortante verificar o sólido conhecimento, da parte do autor, das ideias de filósofos como Schopenhauer, cuja influência na estética wagneriana é devidamente ilustrada e que foi, de resto, enfaticamente assumida por Wagner, ao ponto de este compor a sua audaciosa ópera Tristão e Isolda com as ideias de Schopenhauer sempre em mente. Mas também as ideias artísticas e musicais de carácter mais técnico são elegantemente explicadas e exemplificadas (muitas vezes, remetendo para os CD's com excertos das obras de Wagner).

Uma boa maneira de avaliar um livro deste género é ver se ele é capaz de nos motivar para descobrir mais sobre o compositor e a sua música. Ora, foi isto mesmo que aconteceu comigo e me fez passar praticamente as duas últimas semanas a ouvir as principais óperas de Wagner. O que não é coisa pouca, dado que só para escutar o ciclo completo de O Anel do Nibelungo, com as suas quatro óperas, são precisas nada mais nada menos do que 15 horas (mas confesso que não resisti a saltar uma ou outra cena). O que é relevante é que a leitura da segunda parte do livro (que tem duas partes, a primeira das quais sobre a vida de Wagner e a segunda sobre a sua música) pode mesmo ajudar a ouvir as óperas de Wagner com uma melhor compreensão do que se ouve e, assim, proporcionar uma apreciação estética mais rica.

Outro aspecto a salientar é que o autor, Stephen Johnson, não cai no pecado fatal, típico em livros de divulgação deste género, de nos brindar com uma narrativa de pendor hagiográfico. Assim, em vez de incensar o artista herói imaculado, o autor não deixa de revelar os aspectos mais sombrios do carácter pessoal de Wagner, nem deixa de referir as opiniões mais críticas de alguns dos seus mais ilustres pares, como foi o caso de Debussy, que caracterizou a revolução wagneriana como «um belo ocaso confundido como uma aurora», ou de Charles Ives, que descreveu Wagner como «um bichano invertebrado e sensualista».

Pessoalmente, posso dizer que, depois de duas semanas exposto ao pathos musical wagneriano, acho dispensáveis muitas das ideias megalómanas acerca da ópera como arte total, até porque me limitei a ouvir música sem sequer entender a maior parte das palavras cantadas. E também me parece musicalmente irrelevante todo aquele prodigioso universo medievalista semelhante ao descrito nos livros de Tolkien. Talvez por isso nenhuma das quatro óperas do Anel esteja entre as minhas preferidas. Entre estas estão Lohengrin, Os Mestres Cantores de Nuremberga e Tristão e Isolda. Lohengrin porque é das que se consegue ouvir sem ter vontade de passar à frente e porque, nesta ópera, Wagner consegue aliar beleza e arrojo musical como talvez em nenhuma outra (o Prelúdio ao Acto I e o início do Acto III, incluindo o Prelúdio, são os melhores exemplos disso). Os Mestres Cantores de Nuremberga por ser a menos tipicamente wagneriana das suas óperas (a não ser no tamanho, pois é a mais longa de todas). Talvez por se tratar de uma ópera satírica, a música é mais solta e familiar. E, ao fim de cerca de quatro horas, descobrimos que a ópera acaba exactamente da forma empolgante como começou. Enfim, Tristão e Isolda por ser a musicalmente mais ousada, com harmonias surpreendentes, a roçar os limites da dissonância, e com momentos de uma enorme intensidade expressiva, como a da cena final em que Isolda morre de amor.  


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Música ambulante

O hábito de ouvir música tranquilamente sentado em frente de um bom sistema de alta fidelidade parece cada vez mais um luxo reservado aos audiófilos praticantes. Mas também não é preciso ser audiófilo para dar a devida atenção à qualidade sonora da música que ouvimos. Felizmente, já há boas alternativas portáteis — e não demasiado dispendiosas— capazes de nos proporcionar uma audição musical com alguma qualidade.

Tudo o que precisamos é de uma boa fonte sonora e de uns bons auscultadores.

A fonte sonora depende, por sua vez, da qualidade do ficheiro áudio e, como é óbvio, do leitor que o reproduz. Dado que estamos a falar de suportes digitais, a qualidade do ficheiro depende sobretudo da sua taxa de compressão. A taxa de compressão padrão é de 128Kbps, mas o mais recomendável para uma boa qualidade sonora é uma taxa de compressão maior, digamos de 256Kbps (muitas gravações de CD's originais usam uma taxa de 320Kbps). Quanto aos leitores, já se encontram smartphones e leitores Mp3 com boa qualidade, como os mais recentes iPod, iPhone e outros.

Mas de nada serve ter um bom leitor e ficheiros qualidade sem uns bons auscultadores. Claro que o inverso também se aplica: de nada serve ter uns auscultadores supra-sumo sem uma fonte sonora de qualidade. Gastar dinheiro apenas numa destas coisas é esbanjá-lo.

Em todo o caso, o mais difícil é mesmo escolher uns bons auscultadores, não só porque a variedade de oferta é imensa mas também porque depende do tipo de música que mais ouvimos e porque é, em parte, uma questão de gosto pessoal. Como já usei uns quantos auscultadores de qualidade muito variável, acho que tenho alguma experiência nessa matéria, pelo que atrevo-me a expor aqui o que aprendi com ela.

A primeira coisa que posso dizer é que nunca ouvi auscultadores minimamente aceitáveis abaixo dos 40€. Esses talvez sirvam bem para muitos outros fins, mas não são adequados para quem dá importância à qualidade do som. Para abreviar, irei aqui referir apenas auscultadores supra-aurais dobráveis, entre os 40€ e os 80€, que eu próprio já usei abundantemente e que considero excelentes, tendo em conta que se trata de auscultadores portáteis.

São os seguintes: Koss Porta Pro, que usei durante cerca de três anos; Sennheiser PX100, que usei durante outros três anos aproximadamente; AKG K451, que uso intensamente há cerca de uma semana (uma generosa prenda de Natal). Devo dizer que a crítica especializada também parece unânime quanto à excelência destes auscultadores, colocando-os geralmente a par de auscultadores que custam entre 150 e 200 Euros, quando não até mais.

Apesar de estar muito longe de ser um entendido na matéria, costumo ser suficientemente curioso e atrevido para fazer os meus próprios testes de amador. Claro que não pude compará-los directamente, pois os Koss e os Sennheiser já foram para reciclagem há muito. Mas se usarmos músicas que conhecemos bem, é possível fazer, ainda que de memória, algumas comparações. Assim, tenho ouvido insistentemente nos novos AKG três músicas muito diferentes entre si, que já tinha ouvido antes vezes sem conta: Pink Moon, de Nick Drake (na qual predominam os tons médios da guitarra e da voz tímida de Drake), Elevation, dos Television (uma espécie de tricot de guitarras eléctricas, com uma voz aguda e secção rítmica de baixo e bateria rica em pormenores), e o segundo andamento, com o Adágio da Sinfonia N.º 3 de Bruckner, dirigido por Sergiu Celibidache (pela riqueza orquestral). Enfim, trata-se de uma balada simples e introspectiva, de rock eléctrico e de música clássica, respectivamente.


Por norma, começo por ouvir cada uma das músicas com o volume de som a meio, prestando especial atenção ao equilíbrio entre os graves, os agudos e os médios. Tal como os hambúrgueres das cadeias de fast food são concebidos para agradar ao palato mais distraído, carregando com os inevitáveis sal e açúcar, também os auscultadores medíocres têm tendência para destacar os graves e os agudos em detrimento dos médios, o que fica bem mais barato e agrada a quem não tem paciência para subtilezas nem detalhes. Também dá para prestar atenção a aspectos como o palco sonoro, isto é, à percepção da espacialidade dos diferentes instrumentos. Nos maus auscultadores o som é demasiado compacto e todos os instrumentos parecem brotar indistintamente do mesmo local, ao passo que em auscultadores melhores há a sensação de uns estarem mais atrás ou mais à frente, mais de um lado ou mais de outro, etc. 

Seguidamente, ouço tudo outra vez num volume de som muito próximo do mínimo. Para mim, este é um dos testes mais fiáveis, pois permite ver o que se perdeu em relação à audição com um som mais forte. Os maus auscultadores, quando estão com o volume no mínimo, deixam-nos quase só com graves e agudos, perdendo-se quase todo o detalhe, ao passo que os bons preservam a diversidade e detalhe da audição anterior. 

Para terminar, ouço tudo outra vez praticamente com o volume no máximo. Este teste é o mais fácil de todos, pois os maus auscultadores tornam-se simplesmente insuportáveis: distorção (quando ela não está intencionalmente na gravação original, como é o caso de alguma música rock), agudos demasiado agressivos e o chamado "efeito muro de som". Por sua vez, os bons auscultadores são capazes de se aguentar bem quase no máximo, permitindo ao ouvido distinguir tudo o que lá está em vez de nos entregarem uma massa indistinta e pastosa de som. 

Quanto ao resto, que é muito, é uma questão de gostarmos de um som mais "quente" e envolvente ou de um mais "frio" e detalhado, de um palco mais distante ou de um palco mais próximo, de baixos mais sóbrios ou de baixos mais exuberantes, etc.

Eis o meu pódio.

AKG K451. Estes auscultadores da marca austríaca são de 2012, custam cerca de 80€ na FNAC (mas na Alemanha conseguem-se por cerca de 55 €), e foram premiados com cinco estrelas pela revista What Hi-Fi (como anunciado na própria caixa). 

Mal abri a caixa na noite de Natal, fiquei muito bem impressionado com a sua robustez e simplicidade do desenho. Traz também um utilíssimo estojo — o melhor dos três aqui referidos —, pois permite transportá-los descontraidamente sem receio de se partirem. Além disso, somos brindados com dois cabos (o que acontece quase só com auscultadores muito mais caros). Trata-se, portanto, de cabos amovíveis, ao contrário dos Koss e dos Sennheiser. Um dos cabos tem comando e microfone incorporados, compatíveis com os iPhone, iPod e iPad. 
Ao fim de várias horas seguidas de uso, já posso dizer que são muito confortáveis. Este é um aspecto muito importante para quem ouve música durante mais de uma hora seguida, aproximadamente — ainda recordo o desconforto que sobretudo os Koss me causavam ao fim de algum tempo, tanto nas têmporas como nas orelhas, obrigando-me a suspender a audição. 
Quanto ao som, fiquei imediatamente impressionado com eles, e ainda continuo: têm um som algo "quente" e uns baixos não exageradamente encorpados. O palco parece estar bastante mais próximo do que nos outros, mas sem se perderem as relações espaciais entre os instrumentos. Gostei especialmente de ouvir os médios da guitarra e da voz de Nick Drake, que parece estar ali mesmo a tocar para nós ao vivo. Mas também permitem saborear todos os detalhes do sussurrar do início do adágio de Bruckner. Por sua vez, o baixo de Fred Smith em Elevation é simultaneamente limpo, presente e musical, mas o que mais mais sobressai são os pormenores rítmicos do prato de choques da bateria de Billy Fica enquanto acompanha o memorável solo de guitarra de Richard Lloyd. Fiquei simplesmente surpreendido ao verificar que, mesmo com o volume no máximo, esta música electrificante dos Television se aguenta com todos os seus condimentos e quase sem uma pontinha de distorção. UAU!
Para terminar, destaco um outro aspecto em que estes auscultadores são melhores do que os outros dois: a fuga de som para o exterior (a que os entendidos chamam leaking). É muito desagradável para as pessoas que estão perto de nós o terem de "gramar" com o escape poluente da música que estamos a ouvir. É certo que nenhum auscultador supra-aural consegue evitar totalmente este efeito indesejável, mas, tendo isso em conta, estes K451 até se portam bem acima da média.  


KOSS Porta Pro. Estes auscultadores americanos de 1984 são os mais antigos de todos e o seu estrondoso sucesso faz deles uma referência neste segmento, até porque os cerca de 45€ que custam tornam-nos quase irresistíveis, dada a indiscutível qualidade de som que oferecem. Em 2012 saíram os Porta Pro KTC, que são exactamente iguais, tendo-lhes sido apenas acrescentados o micro e o controlo para iPod, iPhone e iPad. Mas esta versão custa mais cerca de 20€. 
O seu desenho característico dos anos 80 permaneceu inalterado, o que lhes confere um estilo algo retro, muito próprio (eu não desgosto). São os mais leves dos três, mas têm esponjas frágeis, embora seja fácil encontrar substitutas (eu substitui-as umas três vezes enquanto os usei). 
Como referi atrás, são algo desconfortáveis em audições mais longas, apesar de terem esponjas de amortecimento acima das orelhas e de terem um botão regulador da pressão (com três posições), que não me parece muito eficaz. Mas o problema talvez seja a minha anatomia; talvez seja cabeçudo e outras pessoas não sintam o mesmo. Também não gostei da desajeitada taleiga de cabedal onde se guardam, que sempre me pareceu pouco prática. Ao contrário dos outros, estes têm um cabo ligado a cada um dos lados, tendo de se enrolar os fios à volta do arco de alumínio quando se dobram. Devo ainda dizer que são os que têm mais problemas de fuga de som para o exterior.
Quanto ao som, são de facto impressionantes em equilíbrio e detalhe e, talvez por isso, também soam ligeiramente mais "frios" do que os outros. Apesar de muito versáteis, é na música clássica que eles mostram o melhor de si. Outro aspecto notável é também o modo como aguentam um elevado volume sonoro sem distorção e sem o efeito muro de som. 
Deixei de os usar porque, ao fim de três anos de uso intenso, um dos canais deixou de funcionar. Como o fabricante anuncia garantia vitalícia, tentei enviá-los para o distribuidor português, de modo a resolver o problema. Na FNAC acabaram por me informar, com surpresa, que a marca tinha deixado de ter representante em Portugal e que estava agora tudo centrado em Espanha. Enviei os auscultadores para o representante em Valência, mas não cheguei a obter resposta. Decidi, então, substituí-los pelos Sennheiser.


SENNHEISER PX100ii. Estes auscultadores do prestigiado fabricante alemão são de 2010 e custam cerca de 50€ na FNAC. Têm um cabo fixo ao lado esquerdo, com microfone e comandos compatíveis com iPod, iPhone e iPad. 
Na verdade, os que usei foram os PX100, que são praticamente iguais a estes PX100ii. São mais confortáveis do que os Koss, mas trazem uma taleiga para os guardar ainda mais fraca do que a dos Koss.
Os baixos são mais salientes do que nos Koss, aproximando-se mais, neste aspecto, aos AKG. Mas deixam respirar bem os médios e os agudos nunca são agressivos, mantendo um equilíbrio muito bom. Se os Koss dão o seu melhor na música clássica, estes Sennheiser dão o seu melhor no rock, embora sejam também muito bons para ouvir clássica e jazz

Em conclusão, são três excelentes auscultadores portáteis e todos são suficientemente versáteis para ouvir todo o tipo de música. Do que me apercebo, são o trio maravilha dentro destes preços e bem melhores do que grande parte dos auscultadores com o dobro, ou mesmo o triplo, do preço. A título de exemplo, comparei cuidadosamente os AKG com uns KEF M500, de uma gama de preços muito superior (a rondar os 300€) e estes não se destacam tanto como o preço faz crer, sendo em alguns aspectos muito difícil detectar diferenças. Neste momento estou vidrado nos AKG, mas a minha memória dos outros dois pode bem atraiçoar-me. 

As minhas preferências colocam em primeiro lugar os AKG, mas a relação preço-qualidade não deixa de pender para os Koss. Contudo, por uma questão de conforto e porque me desagrada a deficiente contenção da fuga do som para o exterior, mais facilmente compraria novamente os Sennheiser. 

Não é de admirar que estas três marcas tenham a melhor oferta, pois trata-se de marcas cujo prestígio se deve precisamente aos seus auscultadores, ao contrário da Sony, da Philips, da Pioneer, da Bose, etc., que se dedicam a muitas coisas ao mesmo tempo. Isso não impede, contudo, estas marcas de fabricarem também excelentes auscultadores.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sobrevalorizados

aqui referi alguns discos de pop-rock cujo sucesso (junto do público, da crítica ou de ambos) esteve aquém do que, em minha opinião, mereciam. Mas também há os que penso serem frequentemente sobrevalorizados.

Claro que dizer que um dado disco tem sido sobrevalorizado não equivale a dizer que esse disco seja mau; pode simplesmente não ser tão bom como se diz. Seja como for, isto são apenas as opiniões de quem se esforça por ouvir a música sem ideias preconcebidas, se é que isso é mesmo possível. Espero, ainda que de modo algo telegráfico, ser capaz de justificar minimamente as minhas opiniões.


Slowhand, Eric Clapton (1977)
Um dos maiores sucessos de Eric Clapton, mas também um disco sem o mais pequeno rasgo de inspiração. É verdade que Clapton é um grande guitarrista, mas neste disco tudo soa demasiado previsível e sensaborão, onde nem sequer faltam canções xaroposas como o popularíssimo Wonderful Tonight. Este Clapton nem parece o intérprete e compositor inspirado e emocionante dos Derek and the Dominos. Uma pena.

The Wall, de Pink Floyd (1979)
A este pomposo duplo album falta a robusta placidez reflexiva que, desde a entrada de David Gilmour, tinha feito da música dos Pink Floyd um caso singular. Em vez disso, os Pink Floyd optam aqui por uma espécie de espectáculo operático, repleto de um pedantismo musical que muitas vezes chega a roçar o histriónico. A voz metálica e afirmativa, quando não indignada, de Waters sobrepõe-se quase sempre à doce tranquilidade da voz de Gilmour, tão característica dos velhos Pink Floyd. Enfim, os Pink Floyd rendidos ao aparato e à vulgaridade do pathos musical imposto por Waters.

Born in the U.S.A., Bruce Springsteen (1984)
Custa acreditar como um músico que, até então, não tinha conseguido gravar um único mau disco, consegue fazer um disco onde dificilmente se encontra uma canção inspirada. Neste caso, pouco mais há do que Bruce Springsteen a macaquear-se a si próprio em versão fast food musical, com muita batida forte e muita economia de acordes. A capa está ao nível do conteúdo. E vendeu que se fartou!

Nevermind, Nirvana (1991)
O disco tem algumas canções simples e eficazes, mas não creio que se justifique o coro de elogios que tem recebido. Nota-se uma certa autenticidade expressiva na voz e na música de Kurt Cobain. Mas isso não é tudo o que se espera da boa música, até porque quando a gama de emoções expressas é muito limitada, também pode resultar em monotonia, como me parece ser aqui o caso. Não é raro a voz de Cobain soar irritantemente afectada, confundindo expressividade com gritaria inconsequente.

Blue Lines, Massive Attack (1991)
Um disco muito bem produzido, mas muito chato como quase todo o chamado trip-hop. É certo que por vezes consegue ser envolvente, mas apenas quando estamos algo distraídos ou então quando somos adeptos incondicionais deste som. Não é o meu caso. 

Use Your Illusion, Guns n' Roses (1991)
Disse que um disco sobrevalorizado não tem de ser um mau disco, mas acho que este é mesmo tão mau quanto sobrevalorizado. Quase tudo soa a plástico, destacando-se a insuportável voz de adolescente rebelde mimado de Axl Rose e as melodias açucaradas de fazer derreter as pedras da calçada, sobretudo quando Rose saca da garganta o seu arrebicado vibrato. Imperdoável foi mesmo o que os GnR fizeram no segundo volume deste álbum ao clássico de Bob Dylan Knockin' on Heaven's Door. Apesar de não ser das melhores canções de Dylan, esta versão consegue transformá-la numa grotesca caricatura do original. No fundo, os GnR não passam de uns Bon Jovi armados em rapazes mal comportados. 

Definitely Maybe, Oasis (1994)
Confesso que nunca compreendi o estrondoso sucesso deste disco (o sucesso de crítica, não o sucesso de vendas, claro). As melodias imberbes são mais do que batidas; os três ou quatro acordes do costume são tocados como de costume, nos ritmos do costume. Ao fim das três primeiras músicas já se fica com a sensação de que se está a ouvir sempre a mesma coisa disfarçada de coisa diferente. Não se encontra aqui nada que os Stone Roses, por exemplo, não tenham feito de forma infinitamente superior, mais de uma década antes. Uma belíssima capa (isso sim!) não pode explicar tudo.

Mellon Collie and the Infinite Sadness, The Smashing Pumpkins (1995)
Um disco demasiado longo e confuso, com muitas músicas para esquecer (a começar pelo pobre instrumental pianístico inicial), e uma ou outra boa canção pelo meio. É pouquíssimo para o alarido que suscitou quando saíu. O pior mesmo é a voz cansativa e algo forçada e adolescente de Billy Corghan. 

The Fat of the Land, Prodigy (1997)
Sem dúvida que os Prodigy criaram um som instrumental próprio, com uma desenvoltura e poder rítmico algo hipnótico e ritualisticamente eficaz. Há nesta música frenética algo de ancestralmente selvagem e, ao mesmo tempo, futurista. The Fat of the Land é, sem dúvida, o disco dos Prodigy onde isso foi melhor conseguido. Porém, este som algo alucinante e aparentemente ameaçador não deixa de resultar também algo maçador, tornando-se frequentemente previsível. Basta ver que o ritmo das músicas —mais acelerado ou menos acelerado — acaba por ser quase sempre o mesmo. Mas tem também uma capa muito bem esgalhada.  

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Três livros

Com o ano a terminar, posso dizer que me deu muita satisfação estar, de diferentes maneiras, envolvido na publicação destes três excelentes livros de filosofia:

O Medo do Conhecimento, de Paul Boghossian, publicado pela Gradiva (colecção Filosofia Aberta) em Abril de 2015, com tradução de Pedro Elói Duarte. Ver aqui uma breve apresentação do livro, por Carlos Vaz Marques.



Filosofia da Matemática, de Stewart Shapiro, publicado pelas Edições 70 (colecção O Saber da Filosofia) em Junho de 2015, com tradução e notas do Professor Augusto Franco de Oliveira.



Liberdade de Expressão: Uma breve introdução, de Nigel Warburton, publicado pela Gradiva (colecção Filosofia Aberta) em Junho de 2015, com tradução de Vítor Guerreiro. Ver aqui uma recensão, por Aluízio Couto.


domingo, 20 de dezembro de 2015

Cultura de lombada



Sócrates, o filósofo grego do século V a. C., ficou conhecido pela sua estratégia de argumentação que levava os outros ao desespero. Atacava tudo e todos, punha em causa aquilo que era dado como adquirido, destruía com uma facilidade incrível as convicções mais enraizadas. N'O Banquete (e noutros diálogos de Platão), através de perguntas aparentemente inofensivas, consegue apanhar em falso os seus interlocutores e levá-los a aceitar como verdadeiro o contrário do que antes defendiam.
Sócrates, o ex-primeiro ministro, também é um orador exímio e provocador.
José Cabrita Saraiva (no semanário Sol, de 19 de Dezembro de 2015)

Este é um bom exemplo daquilo que poderíamos designar como "cultura de lombada". Muitas pessoas decoram as estantes das suas casas e escritórios com lombadas de livros que nunca leram (quando não se trata de meras lombadas). O objectivo é exibir a cultura que não se tem para levar os outros a pensar que se está perante uma mente profunda e intelectualmente respeitável. A cultura de lombada exemplifica uma certa forma de encarar a cultura e o conhecimento: a cultura como mero adereço social ao serviço do prestígio pessoal. 

Mas a cultura de lombada pode manifestar-se de várias maneiras, mesmo sem lombadas: por exemplo, quando, em vez de se decorarem as estantes, se decoram os discursos com supostas referências eruditas. Quando num curtíssimo artigo de opinião a propósito da entrevista ao ex-primeiro-ministro José Sócrates se escreve o que se lê acima, estamos provavelmente perante uma manifestação da cultura de lombada. Sobretudo quando as referências culturais são forçadas ou quando não servem para esclarecer seja o que for, como parece ser o caso. 

Até porque, como a cultura de lombada não passa de pseudo-cultura — pois trata-se da aparência de um conhecimento que realmente não se tem —, é muito frequente o lombadista meter o pé na argola. Assim, afirmar que o filósofo Sócrates, no diálogo O Banquete, consegue, com perguntas inofensivas, levar os seus interlocutores ao desespero, fazendo-os «aceitar como verdadeiro o contrário do que antes defendiam», só pode ser entendido como cultura de lombada. Na verdade, não pode haver pior exemplo do método socrático (e, em particular, da fase preparatória da famosa maiêutica) do que precisamente O Banquete, onde os diálogos são meramente acessórios. O Banquete é pouco mais do que uma sucessão de belos discursos (de Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates e, finalmente, Alcibíades) sobre Eros, sem lugar para os célebres interrogatórios socráticos (o único e breve vislumbre disso ocorre imediatamente após o discurso de Agatão). 

Não sei se JCS leu há muito O Banquete e já não se lembra bem ou se foi o primeiro diálogo platónico que lhe ocorreu. Mas, se não é, parece mesmo cultura de lombada. Ainda assim, seria exagerado pensar que há algo de especialmente grave nisto. A não ser quando se trata de mais um exemplo a juntar a tantos outros que, a propósito e a despropósito, ouvimos e lemos nas TVs e nos jornais.   

A triste e bafienta cultura de lombada parece continuar, como em outros tempos, a florescer entre nós. Coitados de nós.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Kurt Masur


Morreu hoje o maestro Kurt Masur. Relembro aqui Im Abendrot (Ao Entardecer), uma das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss, magneticamente interpretada por Jessye Norman e pela Gewandhausorchester Leipzig, dirigida precisamente por Kurt Masur. Este disco (Philips) é talvez um dos que mais vezes ouvi na minha vida, pelo que aqui fica o meu agradecimento.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Stoner, de John Williams

Há muito que, à semelhança de tantos outros antes de mim, concluí — com base numa simples projecção estatística da minha própria experiência de leitor não exageradamente exigente — que a maior parte dos livros que se publicam é de pouca ou nenhuma qualidade literária e científica. São demasiados os livros cujo interesse estético, cognitivo ou meramente lúdico, de modo algum compensam o tempo que se perde com eles. 

Contudo, isso não nos dá razões para sermos pessimistas, pois ainda sobra uma imensa minoria de livros que merecem a nossa atenção. São, felizmente, mais do que aqueles que qualquer leitor, mesmo o mais compulsivo, consegue ler. Por isso é que precisamos de algum tipo de indicação que nos leve a pensar que vale a pena ler um dado livro. Uma vez que a maior parte das criticas e recensões literárias dos jornais e revistas portuguesas não me têm sido particularmente úteis, sigo normalmente a sugestão de amigos e outras pessoas cujas opiniões se têm revelado confiáveis.

Foi isso que me levou a encomendar Stoner, um romance do escritor americano John Williams, que me chegou há dias e que acabei hoje mesmo de ler.


Stoner é um livro simultaneamente desolador e consolador. Parece contraditório, mas é isso mesmo que experimentamos ao seguir a banalíssima história de William Stoner, um simples professor de literatura inglesa de uma quase desconhecida universidade de província, oriundo de uma pequena e modestíssima família de camponeses do Missouri. Não se encontram, pelo meio, personagens ou acontecimentos especialmente marcantes, nem reviravoltas dramáticas e muito menos rasgos emocionais surpreendentes. Apenas encontramos uma sucessão de factos triviais da vida de uma pessoa comum: o trabalho, o estudo, o casamento, a família, o amor conjugal e extra-conjugal, além das inevitáveis intrigas e compensações profissionais, da doença e da morte. Como pano de fundo, há duas guerras — a história da vida de William Stoner começa antes da Primeira Guerra Mundial e termina depois da Segunda Guerra Mundial — e a crise financeira de 1929. E tudo isso nos é apresentado numa prosa serenamente descritiva, concisa e sem grandes rodeios, que por vezes chega mesmo a ser fria e seca. 

Confesso que por volta dos capítulos 4 ou 5 (o livro tem 17 capítulos) me pareceu que a perspectiva de algo realmente invulgar e entusiasmante na vida de Stoner vir a acontecer se tornava cada vez mais distante. E dei comigo a pensar: como fará o autor de uma prosa tão limpa e directa para encher a dúzia de capítulos que sobram acerca de uma vida que se adivinha banal? Algo verdadeiramente surpreendente terá de acontecer, pensei. Mas não. À medida que se avança, vai-se descobrindo que nada de verdadeiramente surpreendente acontece e que, ainda assim, algo nos impele a prosseguir com um interesse estranhamente renovado: o que nos prende é, afinal, a desarmante probidade com que Stoner encara cada um dos factos que constituem a sua história pessoal.  

William Stoner parece nunca ser verdadeiramente dono da sua própria vida. Dá a ideia que as suas decisões, apesar de conscientes, acabam sempre por ser fruto de algo alheio à sua vontade, como se elas fossem inevitáveis. Stoner sente-se, no fundo, apanhado numa teia de constrangimentos naturais e circunstanciais que o impedem de proceder de modo diferente. Esta espécie de determinismo radical é um dos traços mais desoladores do romance.

Mas, embora as nossas acções sejam determinadas por causas exteriores, Stoner parece querer convencer-nos pelo seu exemplo que o modo como vivemos esse facto bruto depende de cada um de nós. Apesar de não sermos livres quanto ao que fazemos, cabe-nos decidir se aceitamos essa condição de forma mais digna ou menos digna. A dignidade com que Stoner aceita o inevitável acaba, assim, por revelar um animador vislumbre de liberdade redentora. E é precisamente esse o aspecto consolador da história de Stoner, cuja dignidade se manifesta quando reage serenamente à frígida indiferença da sua mulher, às mesquinhas acusações de incompetência do seu colega de profissão, à gravidez involuntária da sua filha ou à notícia de que, devido a doença, lhe resta pouco tempo de vida. Até na sua infidelidade conjugal há uma certa dignidade. Como há quando, depois, se vê obrigado a pôr-lhe termo.

A história de Stoner não vive de actos heróicos nem de emoções intensas — o único e breve momento com uma carga emotiva mais evidente é quando Stoner descobre que a sua ex-namorada lhe dedica o livro que, anos mais tarde, ela acabara por publicar. Mas há nesta história uma tristeza que vai moendo, a que nos vamos afeiçoando e que persiste até depois do fim.

Um livro excelente, que merece bem os elogios que tem recebido.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Destruir obras de arte em nome da arte



Muitas pessoas consideram criminoso destruir, danificar ou simplesmente alterar obras de arte, argumentando que a arte é algo sagrado e que cada obra de arte, sendo fruto de um acto criador irrepetível, é única e insubstituível. Esta ideia baseia-se também na convicção de que a arte nos oferece algo que de nenhum outro modo pode ser obtido, nisso consistindo o seu incomparável valor. Assim, ao destruir ou adulterar uma obra de arte original, estar-se-ia a privar toda a humanidade — e não apenas o proprietário dessa obra — de algo insubstituível que só nela se poderia encontrar.

Mas terão essas pessoas razão? Uma das coisas que a história da arte dos últimos cem anos parece mostrar é que os artistas modernos estão apostados em tirar a razão a todos os que pensam ter algo importante a dizer sobre arte. Dá a ideia que qualquer teoria acerca da arte e do seu valor acaba, mais cedo ou mais tarde, por ser refutada pela própria arte.

Um bom exemplo disso é o provocador quadro Erased de Kooning Drawing (Desenho de de Kooning Apagado), do célebre artista americano Robert Rauschenberg. Esta obra de 1953, adquirida pelo Museu de Arte Moderna de São Francisco, parece refutar de forma desarmante a ideia de que é errado destruir, desfazer ou alterar intencionalmente obras de arte, ainda que as obras em causa tenham sido criadas pelos mais destacados e reconhecidos artistas mundiais.

Não basta olhar atentamente para o quadro de Rauschenberg para descobrirmos isso, pelo que também não estamos perante um quadro que — ao contrário do que muitos pensam acerca das artes plásticas — se destina à mera contemplação estética. O essencial está, pois, no que não se vê quando se olha para ele. Precisamos mesmo de conhecer a história da origem deste quadro.

Rauschenberg, que já nos anos 50 do século XX se tinha afirmado como um dos mais destacados artistas americanos de vanguarda, começou por essa altura a fazer algumas experiências em que a borracha — em vez dos habituais pincéis, lápis, paus de carvão, barras de pastel, etc. — se tornava o principal utensílio de criação artística. Em vez de pintar ou desenhar, o objectivo artístico de Rauschenberg era apagar desenhos já feitos. Mas Rauschenberg queria, além disso, que os desenhos apagados fossem eles próprios obras de arte. Assim, não bastava apagar os seus próprios desenhos ou pinturas, caso em que só passariam a ser arte depois do processo terminado, ou seja, depois de os ter apagado. O objetivo de Rauschenberg era, pois, apagar verdadeiras obras de arte; obras de arte pré-existentes e cujo estatuto artístico fosse indisputável. Foi assim que Rauschenberg procurou o mais sonante e respeitado artista americano do seu tempo, o expressionista abstrato Willem de Kooning, a quem explicou a ideia, pedindo-lhe uma obra para esse fim.

De Kooning compreendeu a ideia de Rauschenberg e, após alguma hesitação, decidiu ceder-lhe um desenho para este apagar e, desse modo, criar uma obra de arte diferente. De Kooning escolheu propositadamente uma obra muito difícil de apagar; um desenho feito com carvão, óleo, pastel e outros materiais bastante resistentes. Rauschenberg diz ter levado mais de um mês de trabalho intenso para fazer desaparecer totalmente a obra de de Kooning. Tratando-se agora de uma obra totalmente nova, Rauschenberg deu-lhe um novo título, Desenho de de Kooning Apagado, e pediu a outro prestigiado artista americano, Jasper Johns, para escrever o título no próprio quadro.

Alguns críticos de arte da altura interpretaram Erased de Kooning Drawing como um gesto de protesto contra o expressionismo abstrato, de que de Kooning era um dos maiores representantes. Outros interpretaram-no simplesmente como um acto destrutivo de puro vandalismo. Mas quando perguntaram a Rauschenberg como interpretava o que ele próprio fez, a sua resposta foi: «é poesia». 

Estamos, portanto, perante uma obra de arte que resulta da destruição definitiva de outra obra de arte — e até parece ter havido o cuidado de nem sequer se preservarem imagens da obra de arte apagada.
Quem disse, pois, que é inaceitável destruir obras de arte? Como se vê, a própria história da arte nos mostra de forma contundente que destruir obras de arte pode até ser um acto artístico. Afinal, a arte será mesmo sagrada? Ou será que só não é sagrada para os artistas?

Nota: Este texto foi escrito para a comemoração do Dia Mundial de Filosofia de 2015 na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de acordo com o tema proposto: uma pequena reflexão filosófica sobre um quadro ou escultura.