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sábado, 7 de maio de 2016

O que se ensina nos cursos de filosofia?

Há, salvo erro, oito universidades públicas portuguesas onde se pode estudar filosofia. Escolha é coisa que parece não faltar, até porque os planos curriculares dos cursos são bastante diversificados: há-os mais abertos e mais fechados, mais actuais e mais tradicionalistas, mais contidos e mais abrangentes, mais históricos e mais filosóficos, etc. E há também coincidências e ausências curiosas. 

Os quadros aqui apresentados foram elaborados por mim com base na consulta dos planos curriculares de licenciatura que se encontram nas páginas oficiais das universidades: UL, UP, UC, UM, UBI, UA, UE e UNL. Não sei se todas estas universidades tiveram procura suficiente para terem actualmente o curso de licenciatura a funcionar, mas esse é outro assunto. 

O primeiro quadro abaixo mostra a oferta das principais disciplinas filosóficas, as mais centrais. Claro que não há consenso quanto à centralidade de algumas destas disciplinas. Se a História da Filosofia, a Metafísica, a Teoria do Conhecimento, a Ética e a Lógica não levantam grandes dúvidas, talvez não seja o caso da Estética, da Filosofia Política, da Filosofia da Religião, da Filosofia da Ciência, da Filosofia da Mente e da Filosofia da Linguagem. Contudo, a quantidade de publicações nas diversas áreas filosóficas e uma breve visita aos planos curriculares das mais conceituadas universidades mundiais apontam claramente para o elenco de disciplinas aqui listadas.

A bola branca significa que a disciplina é obrigatória; a bola preta que nem sequer é oferecida; o X indica que se trata de uma disciplina opcional.

A primeira coisa que sobressai é que, exceptuando a História da Filosofia (antiga, medieval, moderna e contemporânea), nenhuma outra disciplina é obrigatória em todas as universidades. A Teoria do Conhecimento, a Lógica e a Ética são, depois da História da Filosofia, as mais consensualmente obrigatórias. 

Em sentido oposto, surpreende que uma das disciplinas filosóficas em que a discussão tem sido mais intensa nas últimas décadas, a Filosofia da Mente, nem sequer como opção aparece em cinco das oito universidades portuguesas. E algo parecido se passa com a Filosofia da Linguagem, que nem opção é em três delas.

Mais surpreendente ainda é a Metafísica ser obrigatória em apenas duas universidades e nem como opção constar em três outras universidades. É certo que estas oferecem Ontologia, que faz parte da metafísica, como disciplina obrigatória. Mas a ontologia deixa de fora problemas metafísicos importantes como os do livre-arbítrio, causalidade e determinismo, mas também as questões do espaço e do tempo, da identidade e persistência ao longo do tempo ou ainda da modalidade, entre outras questões.

Quanto às universidades, destaca-se a de Coimbra, em que só a História da Filosofia (antiga, medieval, moderna e contemporânea) é obrigatória. É certo que o elenco de disciplinas opcionais é relativamente restrito, mas não deixa de ser possível alguém concluir a licenciatura sem ter estudado Teoria do Conhecimento, Ética, Lógica e Filosofia Política, por exemplo. 

Inversamente, nos Açores e na Beira Interior há uma extensa lista de disciplinas obrigatórias, com um reduzido peso de disciplinas opcionais — isto torna-se mais claro quando se consultam também os dois quadros abaixo.

A Universidade de Lisboa é a que, em minha opinião, oferece uma melhor combinação de disciplinas obrigatórias — as que são realmente mais centrais — e opcionais.

O quadro seguinte inclui disciplinas que algumas universidades dão como obrigatórias, outras como opcionais e outras que nem sequer as têm para oferecer. 

Duas disciplinas se destacam neste quadro: a Antropologia Filosófica e a Filosofia em Portugal. Posso estar mal informado, mas não tenho conhecimento de grande produção ou discussão filosófica na área da antropologia filosófica — se comparada com outras áreas disciplinares. Contudo, as universidades portuguesas atribuem-lhe mais importância do que à Metafísica, à Filosofia da Ciência ou à Filosofia da Mente. E será que a filosofia em Portugal é também mais relevante do que estas disciplinas? Será, por exemplo, que os cursos das universidades brasileiras incluem uma disciplina de Filosofia no Brasil? Nas universidades inglesas não encontrei qualquer disciplina de Filosofia em Inglaterra ou de Filosofia Britânica. E o mesmo se passa nos cursos de filosofia das universidades francesas.

A Universidade dos Açores tem a particularidade de incluir como disciplinas obrigatórias a História de Portugal (de diferentes períodos), a Literatura Portuguesa, a História dos Açores e Estudos Culturais. Mas isso acontece porque não se trata de um curso de filosofia apenas, mas de Filosofia e Cultura Portuguesa. 

O quadro seguinte inclui apenas algumas das numerosas disciplinas opcionais nas diferentes universidades.

Algumas universidades, como a de Évora, oferecem um extenso leque de disciplinas opcionais. Certamente que este leque de disciplinas acaba, na prática, por se reduzir bastante, pois terá de haver um número mínimo de inscritos para o seu funcionamento, mas a oferta não deixa de ser exuberante. Outras universidades, como a do Minho, oferecem também um extenso leque de disciplinas opcionais não filosóficas (por exemplo, línguas estrangeiras, economia, etc.), que não cabem neste resumido quadro. 

Finalmente, fiquei surpreendido por não ter encontrado sequer como opção a disciplina de Filosofia do Ambiente em nenhuma universidade, que supunha ser bastante popular. O mais próximo disso é a disciplina de Filosofia do Habitat, como opção na UBI.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

As melhores cidades do mundo para estudar

Tendo em conta os resultados referidos nos dois posts anteriores, fiz uma lista com as melhores cidades do mundo para estudar. A lista tem em conta a classificação das universidades nas diferentes áreas de estudo e o número de boas opções que cada cidade oferece. Mas também tive especialmente em conta a oferta na área da filosofia.

























Pensando em quem se interessa sobretudo por filosofia, não é arriscado afirmar que Nova Iorque é imbatível. A quantidade de filósofos de primeiríssima linha dos diferentes ramos da filosofia que aí ensinam é impressionante: Saul Kripke, Noël Carroll, Graham Priest, Michael Devitt (CUNY); Thomas Nagel, Ned Block, Paul Boghossian, Kit Fine, David Chalmers, Crispin Wright, Kwame Anthony Appiah, Hartry Field (NYU); Christopher Peacocke, Lydia Goehr, Philip Kitcher (Columbia); Jerry Fodor, Alvin Goldman, Peter Kivy, Ernest Sosa (Rutgers).

Nem em Boston (Hilary Putnam, Michael Sandel, Derek Parfit, Robert Stalnaker, Amartya Sen, etc.), nem em San Francisco (John Searle, John Perry, Barry Stroud, etc.) se encontra uma constelação assim. Claro que Oxford, Cambridge e Londres também formam um triângulo que impressiona pela quantidade de filósofos marcantes (Timothy Williamson, Simon Blackburn, Roger Scruton, A. C. Grayling, Anthony Kenny, Newton-Smith, Tim Crane, Roger Crisp, David Papineau, etc.). Ainda assim, Nova Iorque tornou-se, sem dúvida, na capital mundial da filosofia contemporânea.

Seja como for, em todas as cidades desta lista se pode estudar boa filosofia... ou outra coisa qualquer. E, além destas, há outras boas cidades para estudar, incluindo cidades portuguesas.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

As melhores universidades do mundo... e de Portugal

Depois de ter apresentado os resultados mais recentes sobre a filosofia, deixo agora os resultados gerais, isto é, relativos a todos os cursos (de todas as áreas) que são ensinados em cada universidade. Eis a lista com as 12 melhores do mundo. 


A lista seguinte apresenta apenas as 15 melhores da Europa.


E, seguidamente, as 5 melhores de Portugal (diga-se que estas são as únicas portuguesas que constam das 650 do ranking geral).


A lista seguinte apresenta dados sobre as universidades portuguesas em certas áreas de estudo: biologia, física, engenharias, medicina, matemática, geografia, etc. (como sucede com a filosofia, há áreas em que nenhuma universidade portuguesa consta dos rankings: é o caso da sociologia, da história e da arquitectura, para dar apenas alguns exemplos).


Mais uma vez, a caixa de comentários está à disposição de que quiser deixar as suas reflexões. 

Estudar filosofia: as melhores universidades

No ano passado escrevi aqui sobre o conhecido ranking anual QS de universidades. Como disse então, este tipo de rankings, mesmo que elaborados de forma cuidada e criteriosa, não devem ser encarados dogmaticamente. Tendo isso em conta, eles não deixam de ser um bom guia da qualidade geral das universidades. 

Neste post falarei apenas do que se passa com a filosofia, em que são listadas as 200 melhores universidades do mundo da área. Claro que uma universidade pode estar bem classificada nos cursos de filosofia, mesmo que no conjunto dos cursos oferecidos esteja mal classificada. E vice-versa. Deixo as classificações gerais para um segundo post.

Algumas tabelas foram feitas por mim, com base numa pesquisa rápida dos resultados disponibilizados.

Eis a lista ordenada das melhores do mundo deste ano em filosofia, com a Universidade de Nova Iorque novamente no topo.


A seguir apresenta-se a lista só com as melhores da Europa, a primeira das quais é a da Oxford, que está em quarto lugar no ranking mundial (registe-se que as cinco melhores europeias são britânicas).


Para se ficar com uma ideia do que acontece com as universidades de outros países europeus, fiz dois gráficos: um para os países mais pequenos (os que têm uma dimensão aproximada da de Portugal) e outra para os maiores países europeus (registei com surpresa que a França tem apenas 3 universidades entre as 200 melhores do mundo em filosofia, o que é menos do que a Espanha, que tem 4). 


Entre os países pequenos, como se pode ver a seguir, a Holanda tem 7 entre as 200 melhores de filosofia do mundo.


Para terminar, deixo uma tabela com as melhores do mundo e da Europa em filosofia, praticada nas diferentes línguas.


Quem quiser deixar as suas reflexões sobre o assunto, pode usar a caixa de comentários.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Obrigado

Agradeço aos que se atreveram a enfrentar a carga de água que caiu ontem à tarde em Lisboa para comparecerem na livraria Bertrand das Amoreiras para o lançamento do meu livro e do Desidério Janelas Para a Filosofia (col. Filosofia Aberta, da Gradiva). Um agradecimento muito especial a Carlos Fiolhais, que apresentou o livro.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um dia mundial da filosofia musical


SEPTEMBER

RICHARD STRAUSS

Que relação há entre filosofia e música? Parece óbvio que a música não tem conteúdo filosófico: ela não responde a problemas filosóficos, não apresenta teses nem argumentos e muito menos esclarece os conceitos que usamos para pensarmos sobre o mundo. Isso é mau? Não, desde que seja boa música.

Todavia, determinar o que faz a música ser boa já é uma questão filosófica. Podemos não aprender filosofia ao ouvir música, mas a música pode dar muito que pensar aos filósofos. Mesmo que não haja música filosófica, a filosofia da música está de saúde e recomenda-se. Dos muitos problemas filosóficos que se colocam acerca da música, um dos mais intrigantes é o da relação entre a música e as emoções, que é conhecido como «o problema da expressão musical».

A relação entre música e emoção é demasiado óbvia, levando muitas pessoas a concluir que a música é a expressão de emoções. Coisa estranha, pois as emoções envolvem estados psicológicos e a música é composta por nada mais que sons. Só seres sencientes, com uma mente, podem sentir emoções. Portanto, só seres sencientes podem exprimir emoções, dado que exprimir algo é exteriorizar o que se encontra lá dentro. Dizer que os sons de uma música exprimem emoções é como dizer que os espinafres sentem inveja dos pepinos. A música — como os espinafres — não sente seja o que for; quem sente são as pessoas que a apreciam. Por isso, alguns filósofos defendem que a música não exprime emoções, mas antes causa (ou suscita, ou provoca) em nós emoções: de tristeza, alegria, euforia, tranquilidade, arrebatamento, paixão, etc. Assim, a música não pode literalmente ser triste, nem alegre, nem eufórica, etc.; as pessoas é que podem ficar tristes, alegres, eufóricas, etc., quando a ouvem.

Mas como acontece tal coisa? Isso levanta, por sua vez, novas questões não menos difíceis, que não cabe aqui expor. Fico-me com a minha teoria preferida, sem a explicar: a música não exprime emoções, nem causa em nós emoções; ela pode muitas vezes representar emoções. Como o faz? Resumidamente: a sequência de sons de uma música está concebida de modo a criar certas expectativas nos ouvintes, as quais podem ser satisfeitas, frustradas ou adiadas parcial ou totalmente, criando neles certos estados psicofisiológicos de tensão, relaxamento, suspense, ansiedade, surpresa, resolução, choque, etc., idênticos aos que sentimos quando estamos tristes, alegres, surpreendidos, eufóricos, etc.

Nem toda a música o consegue fazer com sucesso, mas há algumas que fazem de nós, ouvintes atentos, o que «querem». É, pessoalmente, o caso de September, uma das emocionantes Quatro Últimas Canções (Vier Letzte Lieder), escrita em 1948 pelo compositor alemão Richard Strauss. As quatro canções são provavelmente das canções mais belas jamais escritas e são um comovente testamento musical do genial compositor alemão, que viria a morrer um ano depois de as ter composto.

Escolhi September como poderia ter escolhido qualquer das outras três, em especial Beim Schlafengehen (Indo dormir) ou Im Abendrot (No Crepúsculo). September é uma canção para soprano e orquestra, baseada num poema de Hermann Hesse.

Para usufruir de toda a riqueza emocional de September é preciso entregarmo-nos totalmente à sua escuta, pois é incompatível com outras ocupações. Ouvir esta música enquanto se faz outras coisas é maltratá-la. E algo maltratado é sempre algo desagradável. Assim, recomendo ao leitor destas palavras que não tente ouvi-la se estiver com pressa; nem sequer quando está à espera que o tempo passe. Não, ela tem de ser ouvida com a mente completamente limpa e disponível. Ela precisa da nossa mente aberta para entrar e a preencher totalmente. Entrar no seu universo é entrar num universo exclusivo, e isso impõe certas condições. 
  
Uma vez disponíveis para ela, o que tem para nos dar? Não se espere um festival patético de emoções nem dores de alma bacocas. É tudo muito sereno, subtil e contido, mas intenso e sugestivo na sua contenção.

A canção abre com as cordas e sopros da orquestra de forma aparentemente hesitante, tornando-se súbita, mas também docemente, mais afirmativa. Começa, então, o soprano: 

O jardim está de luto.  
A chuva cai fria sobre as flores.  
O Verão estremece em silêncio, 
aguardando o seu fim. 

A melodia é encantadoramente sinuosa e imprevisível, enquanto as cordas da orquestra se desdobram nos seus diferentes naipes e timbres, em harmonias subtilmente caprichosas: violinos, violas e violoncelos parecem divergir harmoniosamente para, inesperadamente, se voltarem a encontrar.

De uma forma mais assertiva, mas ainda tranquila, surgem os versos da segunda estrofe, com sopros de flautas como que escondidos por detrás da paisagem orquestral: 

Douradas, folha após folha caem  
do alto pé de acácia.  
O Verão sorri, surpreso e lânguido,  
no sonho moribundo do jardim.

A melodia do soprano muda de rumo no início do terceiro verso (Sommer lächelt / O Verão sorri), criando um momento de pura e inesperada felicidade auditiva. A concluir a segunda estrofe, somos mais uma vez surpreendidos com o envolvente percurso melódico de uma orquestra luminosa e colorida. 

Surge a terceira estrofe. A voz flutuante do soprano canta:

Muito tempo ainda junto às rosas  
ele se detém, aspirando ao repouso.  
Lentamente ele fecha  
seus olhos cansados. 

A palavra Langsam (Lentamente), com que se inicia o terceiro verso, é cantada muito lenta e gravemente, transportando-nos devagar até nos fazer sentir como que a levitar. O sentimento de paz e tranquilidade é simplesmente indescritível. Mas, enquanto a última sílaba se vai lentamente desvanecendo na voz do soprano, eis que surge sorrateiramente, a rematar, o som quente, calmo e reconciliador de uma trompa, como que a afagar-nos com os últimos raios de sol do Verão que se despede. Quase paramos de respirar. Isto dá cabo de uma pessoa! É altura de limpar discretamente o canto do olho.

Talvez não me tenha emocionado, mas pareceu mesmo que sim.


Não faltam gravações desta obra-prima da música do século XX (e não só), interpretada pelos mais variados sopranos e com orquestras dirigidas por outros tantos maestros. Já ouvi muitas, mas nenhuma me satisfaz tanto como a gravação da Philips, com o soprano Jessye Norman e com a Gewandhausorchester Leipzig, dirigida por Kurt Masur.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

A verdade a virtude

Rui Cunha ensinou para a verdade e a virtude, como defende Locke. Isto é algo que espero ter ficado registado na apresentação que fiz do livro de um amigo, que continuará a ser sempre um exemplo e uma inspiração.

Obrigado ao fantástico grupo de filosofia da minha escola pela iniciativa, à Biblioteca Municipal de Portimão pelo acolhimento, à Biblioteca da ESMTG pelo empenho, ao director da ESMTG Telmo Soares pela presença e à Drª Fernanda Virgínia Cunha pelo exemplo.

E a todos os presentes por terem feito questão de estarem lá. 


domingo, 26 de maio de 2013

Educar para a Verdade e a Virtude

Estão todos convidados para a apresentação do livro Educar Para a Verdade e a Virtude, de Rui Cunha.

A inciativa é do grupo de Filosofia da Escola Secundária Teixeira Gomes e conta com a colaboração da  Biblioteca Municipal de Portimão, local onde se realizará a apresentação, no próximo dia 31 de Maio, pelas 18:00.

Rui Cunha, que infelizmente já não está entre nós, foi professor de Filosofia desta escola, tendo deixado muitas saudades, tanto pela pessoa que era como pelas suas capacidades intelectuais. O livro é um estudo sobre a filosofia da educação de John Locke, o filósofo empirista inglês, e será apresentado por mim.

Aqui fica o convite.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Prova Oral em diferido

Aqui está o podcast com a minha participação no programa Prova Oral, de Fernando Alvim e Xana Alves, na Antena 3. Sobre filosofia, claro.

Eu e os temíveis examinadores Fernando Alvim e Xana Alves.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Felizes dos ignorantes?




A que temperatura queima o papel? A resposta é: a 451 graus na escala de Fahrenheit. E essa é também a temperatura a que queimam os livros, que são feitos de papel. Ora, Fahrenheit 451 é precisamente o título original do filme britânico, realizado em 1966 pelo francês François Truffaut, com base no livro do célebre escritor americano Ray Bradbury (falecido no passado mês de Junho). Grau de Destruição é o (infeliz) título do filme em Portugal.

A história desenrola-se numa sociedade futura de grande conforto material, a qual é zelosamente protegida por um governo (referido como a família) cujo único objectivo é manter as pessoas felizes. Está bom de ver que a família (o governo) deve saber o que é a felicidade. Na verdade, a família sabe melhor do que ninguém o que faz os seus membros (os governados) felizes. E sabe também o que perturba a paz social e os torna infelizes. Assim, a família sabe melhor do que ninguém o que, para o bem de todos, tem de ser evitado.

Mas o que poderá perturbar a paz social e a felicidade das pessoas? A família tem a resposta: a paz e a felicidade são perturbados pelo desconforto material, mas também pelo desconforto espiritual. O problema material parece ter sido resolvido, pois as pessoas têm emprego, não passam fome, vivem em boas casas e fazem muitas compras. Mas evitar o desconforto espiritual é bem mais difícil, pois este tem origem não só no desejo insatisfeito como na incerteza da dúvida. Nada pior do que pensar em perguntas difíceis, confrontar-se com ideias divergentes e alternativas ou dar asas a uma imaginação à solta. Quer dizer, a infelicidade encontra-se no pensamento crítico, na filosofia, na literatura, na poesia, na história. Só que é isto que abunda nos livros. Daí que os livros sejam verdadeiramente perigosos, incendiando as ideias e abrindo caminho à infelicidade. Por isso têm de ser banidos. O que as pessoas realmente precisam para entreter as suas mentes é programas de televisão (vistos em enormes e elegantes aparelhos de TV) que não as intranquilizem nem as façam pensar em coisas estranhas e complicadas: por exemplo, devem entreter-se com concursos interactivos em que se tenta acertar nos títulos de canções conhecidas, e coisas do género.

Mas há um problema: não basta proibir os livros, pois podem ser lidos às escondidas. É preciso destruí-los. E essa é a tarefa dos bombeiros, que vão às casas das pessoas suspeitas, procurando-os e queimando-os com jactos de fogo à temperatura de... 451 graus Fahrenheit. É o que faz, com grande dedicação, o bombeiro Guy Montag (Oskar Werner). Até ao dia em que fica incomodado com uma leitora que prefere deixar-se queimar juntamente com os livros do que perdê-los. Intrigado, Montag decide guardar sorrateiramente um dos livros para ver o que leva algumas pessoas a correr o risco de vida por eles. A partir daí, instala-se a dúvida no espírito de Montag. Incentivado pela sua atraente e perigosa amiga Clarisse (Julie Christie), começa a pôr em causa a sua profissão e acaba ele próprio por se tornar um ávido leitor. Só que, não podendo correr o risco de guardar os livros, junta-se a um grupo secreto de resistentes homens-livro, cada um dos quais decorou um livro inteiro. Assim, cada pessoa é um livro e os resistentes são uma biblioteca. «Que livro és?», pergunta-se a um deles. «Sou A República, de Platão, querem ouvir?». Juntam-se à volta de A República e ouvem. O conhecimento e a memória da humanidade são assim preservados secretamente na intimidade dos resistentes.

Mas serão mesmo as ideias contidas nos livros fonte de infelicidade? Seremos mais felizes se nos mantivermos ignorantes e não formos questionadores? Quem sabe, afinal, o que nos faz felizes? Este é um filme que ilustra bem a tese de que, em nome da felicidade geral e de uma concepção oficial do que é o bem, se podem urdir muitos totalitarismos bem intencionados. Como se antevê também em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell e em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.                            

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Viena: viveiro do pensamento contemporâneo

Foto de Aires Almeida
Talvez nenhum outro lugar no mundo moderno tenha conseguido ser tão intelectual e culturalmente excitante como a cidade de Viena entre o início dos anos 10 e meados dos 30 do século passado. Da pintura e da arquitectura à matemática e à ciência, passado pela literatura e pela música, o fulgor de Viena não teve rival no mundo ocidental dessa época.
Durante esse período Viena não era só a capital de movimentos artísticos, como o Jugendstill – a Arte Nova austríaca – em que já se tinham destacado pintores como Gustav Klimt e Egon Schiele ou arquitetos como Otto Wagner. Era também o umbigo do modernismo em arquitetura, que se opunha radicalmente ao Jugendstill e que tinha como figura de proa Adolf Loos, um dos mais controversos arquitectos do século XX. 
Era ainda palco de dramaturgos, escritores e ensaístas como o elegante Hugo Von Hofmannsthal, o singular Robert Musil, o provocatório Arthur Schnitzler, além do temido – e sempre actual – Karl Kraus. Essa mesma Viena assistiu à maior revolução musical do século, a chamada Segunda Escola de Viena (a primeira tinha surgido no séc. XVIII, com Mozart, Haydn e Beethoven), encabeçada pelo visionário compositor Arnold Schoenberg, e desenvolvida por Alban Berg e Anton Webern, todos eles influenciados por Gustav Mahler, outro vulto maior da Viena do início do século XX.
Tudo isto enquanto Sigmund Freud fazia nascer a psicanálise e escandalizava o mundo com os seus livros sobre a estreita relação entre o comportamento humano, o inconsciente e a sexualidade, ao mesmo tempo que recebia e analisava a alta sociedade vienense no seu consultório, no nº 13 de Berggasse.
Nessa mesma altura, o físico vienense Erwin Schrödinger começava a dar as suas primeiras contribuições para a física quântica e Kurt Gödel marcava definitivamente, a partir de Viena, a lógica matemática, tornando-se seguramente um dos maiores lógicos de sempre. Isto sem esquecer figuras como o ilustre etologista Konrad Lorenz e aquele que ainda é talvez o mais influente historiador da arte do último século, Ernst Gombrich.
Foi ainda por essa altura que a teoria económica e a economia política viram nascer, com Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, as primeiras ideias liberais que estiveram na base da conhecida e influente Escola Austríaca. 
Tudo isto é impressionante, mas ainda nem sequer se falou do panorama filosófico. Ora, não será exagero afirmar que essa Viena foi precisamente um dos mais importantes viveiros da filosofia contemporânea. Não só porque foi a cidade onde nasceu um dos movimentos filosóficos mais abrangentes e influentes do último século, o célebre Círculo de Viena, a que estiveram ligados alguns dos vultos anteriores (Gödel, por exemplo), mas também a cidade natal de gigantes da história da filosofia contemporânea como Ludwig Wittgenstein e  Karl Popper.
Não é errado dizer, por um lado, que uma boa parte da filosofia contemporânea visa uma de duas coisas: desenvolver as ideias centrais do Círculo de Viena ou, pelo contrário, desembaraçar-se delas. Seja como for, o Círculo de Viena, onde se destacou acima de todos Rudolf Carnap, contribuiu para libertar a filosofia do pântano místico e idealista em que se estava a atolar, dando-lhe rigor, precisão e algum tino. Por outro lado, há quem considere, talvez com algum exagero, que há uma filosofia anterior a Wittgenstein e outra que tem em conta Wittgenstein, por muitos encarado como o maior filósofo do último século. Quanto a Popper, arriscaria dizer que a sua filosofia política e a sua filosofia da ciência se tornaram hoje uma espécie de senso comum académico. Popper, que tanto se opôs ao Círculo de Viena como ao seu conterrâneo Wittgenstein, a ponto de este, no meio de uma animada discussão filosófica entre ambos, o ter ameaçado com o atiçador de uma certa lareira em Cambridge.
Viena não é, pois, apenas a cidade das valsas, da ópera, da psicanálise e dos requintados cafés. É também uma das capitais mundiais da filosofia, o que não é, afinal, de espantar, pois a filosofia não nasce da reflexão solitária, mas do confronto aberto de todo o tipo de ideias. Pena é que o ódio nazi à pluralidade de ideias tenha posto fim ao esplendor intelectual de Viena, levando a que quase todas essas figuras se vissem forçadas a fugir da barbárie, procurando abrigo noutras paragens.


Wittgenstein, filho de um dos maiores milionários da Europa, era também um arquitecto amador. Esta é a casa que o filósofo desenhou para a sua irmã Margaret, em Kundmanngasse, Viena. Trata-se de uma obra assumidamente influenciada pelas recentes ideias modernistas de Adolf Loos.