terça-feira, 7 de abril de 2020

Kant e a possibilidade da metafísica (passo 4)


KANT E A POSSIBILIDADE DA METAFÍSICA
A RAZÃO TEÓRICA E A RAZÃO PRÁTICA

Passo 4 (conhecer e pensar: os limites da razão teórica)


Sensibilidade e entendimento, ligadas pela imaginação, são as únicas faculdades envolvidas no processo de conhecimento?

R: Não, o conhecimento resulta da aplicação dos conceitos do entendimento às intuições empíricas proporcionadas pela sensibilidade. A função do entendimento é dar unidade à diversidade de experiências, por meio de regras. Contudo, essas regras do entendimento precisam elas próprias de ser unificadas, e isso diz respeito a uma outra faculdade superior.



Qual é essa faculdade?

R: Essa faculdade é a RAZÃO.



Qual é a função da razão?

R: Kant responde que “se o entendimento pode ser definido como a faculdade de reduzir os fenómenos à unidade por meio de regras, a razão é a faculdade de reduzir as regras do entendimento por meio de princípios.”

A razão não se aplica, pois, às intuições (sensibilidade), mas aos conceitos (entendimento), de modo a estabelecer uma unidade racional inteiramente a priori.

Trata-se de uma síntese mais elevada: uma unidade intelectual em que a razão procura para o entendimento a totalidade de condições do conhecimento, no sentido em que referem “algo em que toda a experiência se integra, mas que, em si mesmo, não é nunca objecto da experiência”. É também por isso, considera Kant, que os princípios da razão contêm o incondicionado. Nas palavras de Kant, “os conceitos da razão servem para conceber, assim como os conceitos do entendimento servem para entender (as percepções)”.

Por um lado, os conceitos ou princípios da razão são transcendentais, uma vez que “consideram todo o conhecimento determinado por uma totalidade absoluta de condições”. Mas dado que não se aplicam aos objectos e ultrapassam todos os limites da experiência, eles são também transcendentes, isto é, nunca pode surgir um objecto que lhe seja adequado.

Além disso, e uma vez que a faculdade da razão não se aplica directamente à experiência, as suas sínteses não constituem qualquer conhecimento. A razão faz, portanto, sínteses vazias, sem qualquer conteúdo empírico. Tornando isso mais claro, Kant escreve “que a totalidade absoluta dos fenómenos é apenas uma ideia; porque, como jamais, poderemos realizá-la numa imagem, ela permanece um problema sem nenhuma solução”. Em suma, os princípios da razão são apenas ideias.



Quais são essas ideias?

1. A ideia de Eu (alma), como totalidade de fenómenos internos ou unidade absoluta do sujeito pensante [objecto da psicologia racional].

2 . A ideia de Mundo (natureza), como totalidade dos fenómenos externos [objecto da cosmologia racional].

3. A ideia de Deus, como ideal transcendental último ou absoluto [objecto da teologia transcendental].

As ideias da razão são, afinal, o objeto da metafísica. [Note-se que a resposta para questão da liberdade decorre afinal de a totalidade dos fenómenos internos e externos incluir ou não acções livres].

Kant considera, então, que estas ideias estão muito para além do que nos pode ser dado pelos fenómenos (experiência). No entanto, elas ligam o pensamento ao mundo numénico (das coisas em si).



Se às ideias da razão não corresponde nenhum objeto, então elas são supérfluas?

R: Não, apesar de não serem constitutivas do conhecimento, as ideias não são supérfluas. Têm uma função.



Qual é, então, a função das ideias?

R: É elevar o entendimento acima de toda a experiência dada e fazê-lo, assim, ultrapassar-se a si mesmo. Isto equivale a pôr o entendimento perante ideais máximos a atingir e dar uma finalidade a todo o conhecimento.

As ideias da razão têm, pois, uma função reguladora de todo o conhecimento, “servindo ao entendimento como regra que lhe permite alargar o seu uso e torná-lo uniforme”.

Esta regra racional, que estabelece uma finalidade para o conhecimento, não implica, contudo, que tal finalidade venha a ser definitivamente alcançada; mas não deixa, por isso, de ser necessária. Como diz Kant “a experiência nunca satisfaz plenamente a razão”, mas é necessário que a razão exija muito mais do que o que tem ao seu dispor.

Há, assim, uma inclinação natural da razão para sair dos seus limites.



Quando é que a razão acaba por sair dos seus limites?

R: Quando procura aplicar-se aos fenómenos (aos objetos). Esse é um uso errado da razão, ou seja, um uso transcendente (não confundir o uso transcendente das ideias com o facto, bem diferente, de as ideias serem transcendentes).



E quando é que a razão se mantém dentro dos seus limites?

R: Quando se aplica apenas aos conceitos do entendimento para os reduzir à unidade. Esse é o uso correto da razão, isto é, o seu uso imanente.

As ideias da razão não são, pois, ideias de objectos; são apenas ideais orientadores de todo o conhecimento.

Esses ideais não fazem parte do mundo dos fenómenos, pelo que também não podem ser objecto de conhecimento.



Será a metafísica possível enquanto conhecimento (como a matemática ou a física)?

R: Não, porque o conhecimento das ideias de Deus, alma e liberdade (em relação à natureza) não é possível nem os juízos sintéticos a priori proporcionados pela física são, por isso mesmo, possíveis em metafísica.

O conhecimento de Deus, por exemplo, é impossível e a sua existência é, neste domínio, um problema sem solução. Não podemos afirmar a sua existência, por um lado, como não podemos afirmar a sua inexistência, por outro lado. A posição de Kant relativamente à existência de Deus é, portanto, agnóstica.

Mas ainda que Deus seja uma ideia que não pode ser conhecida, ela pode, todavia, ser pensada enquanto coisa-em-si.

Há uma distinção entre conhecer e pensar. É nesta distinção que Kant assenta a sua crítica ao argumento ontológico de Descartes a favor da existência de Deus.

Para Descartes a existência de Deus deriva-se da própria ideia de Deus. Mas Kant argumenta que dar às ideias um papel constitutivo dos objectos, equivale a dar um salto ilegítimo do plano do pensamento (do plano meramente lógico) para o plano da existência (para o plano ontológico).


CONCLUSÃO DA PRIMEIRA PARTE: A metafísica não é possível enquanto conhecimento.


PROBLEMA PARA A SEGUNDA PARTE: Mas será viável pensar nela noutros moldes?

... (continua)

sábado, 4 de abril de 2020

O mais importante defensor da teoria institucional da arte

Acabei de confirmar aqui que faleceu George Dickie, um dos mais destacados filósofos da arte das últimas décadas, conhecido sobretudo pela sua defesa da natureza institucional da arte, uma das teorias acerca da definição da arte mais discutidas dos últimos tempos.

Estava tentado a sublinhar a coincidência de, nestes últimos dias, ter em cima da secretária os seus livros The Art Circle: A Theory of Art (1997) e  Art and Value (1998). Mas, dada a frequência com que os tenho à mão, não se trata definitivamente de uma coincidência. No primeiro desses livros, Dickie defende uma versão refinada da sua anterior definição institucional da arte; no segundo encontramos outro dos seus importantes contributos para a filosofia da arte, desta vez acerca do valor e da avaliação da arte.



Há ainda um outro tema da estética em que Dickie se notabilizou e que foi a sua crítica incisiva ao que ele mesmo designou como o mito da atitude estética. No capítulo sobre estética e filosofia da arte que escrevi para o livro organizado por Pedro Galvão, Filosofia: Uma Introdução por Disciplinas (Ed. 70, 2012), apresento de forma muito abreviada o essencial dessa crítica.

Em homenagem a George Dickie, reproduzo abaixo uma passagem do que aí escrevi (pp.391-393).


De acordo com as teorias da atitude estética temos experiências estéticas porque, diante de muitos artefactos e objectos naturais, adoptamos um modo especial de percepção diferente do normal. Perguntar por que razão temos experiências estéticas em relação a um dado objecto não é uma questão de identificar as propriedades desse objecto que provocam em nós tais experiências, mas antes de tomar em relação a ele uma atitude diferente da atitude prática. Isto explica por que razão, diante do mesmo artefacto ou objecto natural, tanto podemos ter como não ter experiências estéticas: tanto podemos adoptar uma atitude estética como uma atitude normal em relação a eles. A experiência estética é, assim, uma questão de atitude, restando apenas esclarecer em que consiste tal atitude. Isso faz-se, segundo alguns proponentes desta abordagem, identificando os factores psicológicos que nos levam a percepcionar os objectos de modo diferente do habitual. […]

Uma atitude, explica Stolnitz, «é uma maneira de dirigir e controlar a nossa percepção», centrando a nossa atenção de forma selectiva numas coisas em vez de outras. A atitude que adoptamos determina, assim, a forma como percepcionamos o mundo. Mas a atitude mais habitual não é estética; á a atitude prática, que nos leva a encarar as coisas como meios para outros «fins que estão para lá da experiência de as percepcionar». Ao passo que a atitude prática é utilitária, a atitude estética leva-nos a concentrar a nossa atenção exclusivamente no próprio objecto, excluindo qualquer tipo de interesse pessoal ou outro. É neste sentido que Stolnitz fala de atenção desinteressada, procurando também mostrar que a experiência estética deixa de estar associada à beleza, pois é possível descrever como estéticas experiências acerca de coisas que não só não são arte como nem sequer são belas: qualquer coisa se pode tornar um objecto estético e proporcionar experiências estéticas, desde que tenhamos uma atitude estética em relação a ela.

As críticas mais contundentes à teoria da atitude estética foram apresentadas por George Dickie num famoso artigo de 1964 sugestivamente intitulado «Todas as Teorias da Atitude Estética Falham: O Mito da Atitude Estética». A estratégia de Dickie consiste basicamente em pegar em exemplos que alegadamente ilustram a distinção entre atenção interessada e atenção desinteressada para mostrar que eles não mostram o que era suposto mostrarem, concluindo que tal distinção não se justifica. E assim deixa também de haver justificação para falar de atitude estética.

Dickie dá o exemplo de uma estudante do conservatório que ouve atentamente uma dada peça musical com o propósito de se preparar para um exame. Dir-se-ia que, dado haver um propósito ulterior, a sua atenção não é desinteressada, ao contrário daquela pessoa que ouve a mesma peça sem qualquer outro propósito. Mas será que encontramos aqui dois tipos diferentes de atenção? Dickie diz não haver qualquer razão para pensar tal coisa, pois ambos podem prestar atenção aos mesmos aspectos e ambos podem reagir da mesma maneira, gostando do que ouvem ou aborrecendo-se com isso, independentemente dos motivos que os levaram a ouvir essa música. É certo que um pode estar mais atento a certos aspectos do que outro, mas estar mais ou menos atento não é o mesmo que haver diferentes espécies de atenção, pois a natureza da atenção não se altera por isso, do mesmo modo que não estamos perante diferentes espécies de febre quando uma pessoa tem 38º e quando tem 39º de temperatura. Mesmo que o primeiro ouvinte preste atenção a certos pormenores e o segundo não, isso não mostra que eles têm um tipo diferente de atenção, pois não prestar atenção a algo é estar desatento, não é ter um tipo diferente de atenção. Prestar atenção a umas coisas em detrimento de outras apenas mostra que há diferentes motivações e não diferentes tipos de atenção. Assim, quando falamos de interesse e desinteresse estamos a falar de motivação e não de atenção.

Outro exemplo, referido por Dickie, de suposta atenção não desinteressada é o de alguém que, numa exposição de pintura, repara num quadro que lhe evoca situações por que passou, levando-o a deter-se diante dele ao mesmo tempo que recupera memórias antigas. Mais uma vez, e ao contrário do que Stolnitz pensa, não é correcto concluir que há aqui uma espécie de atenção interessada. O que há é desatenção, pois a atenção deslocou-se do quadro para algo diferente: as memórias por ele despertadas. Deste modo, Stolnitz chama erradamente «atenção interessada» à desatenção.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Kant e a possibilidade da metafísica (passo 3)


KANT E A POSSIBILIDADE DA METAFÍSICA
A RAZÃO TEÓRICA E A RAZÃO PRÁTICA

Passo 3 (intuições e conceitos)


Como se forma, então, o conhecimento?

R: Diferentemente do que defendem tanto os empiristas como os racionalistas, Kant considera que o conhecimento não provém apenas de uma fonte principal, argumentando que o “conhecimento procede de duas fontes”: na primeira os objectos são-nos dados; na segunda eles são pensados. O conhecimento, em geral, resulta da aplicação da estrutura a priori do sujeito aos dados da experiência. Porém, para que os objectos sejam conhecidos, eles têm antes de nos ser dados.

Trata-se, neste caso, dos dados da experiência, a que Kant chama intuições empíricas (por vezes, também lhes chama conhecimento a posteriori); aos elementos a priori (por vezes referido como conhecimento a priori) que nos permitem pensar o que nos foi dado chamamos conceitos.

Há, então, no sujeito uma faculdade de receber (receptiva) as impressões dos objectos externos, ou seja, uma capacidade de, ao ser afetado pelos objectos, o sujeito poder formar representações deles. Essa capacidade reside nos nossos sentidos e é, portanto, por aí que os objectos nos são dados enquanto representações empíricas. É aí que eles começam a existir para nós e sem isso eles nada seriam para nós.



Que faculdade receptiva do sujeito é essa?

R: A essa faculdade chama Kant SENSIBILIDADE. A sensibilidade é a capacidade de receber as impressões causadas em nós pelos objectos. E a essas impressões chama Kant SENSAÇÕES.

A sensibilidade é uma faculdade receptiva, com os seus princípios de funcionamento. Esses princípios não derivam dos objectos, pelo que precedem qualquer experiência. São antes as condições para que os objectos nos possam ser dados, as quais representam formas a priori da sensibilidade, isto é, as condições sob as quais os objectos são intuídos e sem as quais eles não poderiam sequer ser percepcionados.



Quais são essas formas a priori da sensibilidade que tornam possível o conhecimento sensível?

R: São as representações puras do espaço e do tempo.

Espaço e tempo não são, portanto, dados pela experiência; existem antes disso, na própria faculdade de perceber os objectos. Kant diz serem puras (no sentido transcendental) por serem “representações em que nada se encontra que pertença à sensação” e são “a forma pura das intuições sensíveis em geral, na qual todo o universo de fenómenos se intui em determinadas condições”. São, assim, INTUIÇÕES PURAS, isto é, não são intuições de alguma coisa (de objetos), existindo independentemente (mesmo que nenhum objeto fosse intuído).

É, pois, o sujeito que insere os objectos numa relação espácio-temporal, como condição da perceptibilidade dos mesmos.

Kant alega que as representações puras a priori do espaço e do tempo são necessárias, não podendo ser extraídas da experiência externa. Por exemplo, acerca do espaço, Kant diz ser perfeitamente “possível pensar que não haja objectos alguns no espaço”, embora “nunca se possa ter uma representação de que não exista espaço”.



Que espécies de intuições há, então?

R: Há as intuições puras e as intuições empíricas.



E o que as distingue?

R: As empíricas distinguem-se das puras porque aquelas são formadas pelas sensações (dadas pela experiência) e tornadas possíveis pelas intuições puras, sendo estas o espaço e o tempo, que existem a priori na sensibilidade. As sensações constituem a matéria (conteúdo) da intuição empírica e espaço e tempo, que são intuições puras a priori, representam a forma da intuição empírica.



Qual é, então, a função da sensibilidade?

R: Produzir intuições empíricas.



Bastam as intuições empíricas para haver conhecimento de objetos?

R: Não. Apesar de serem representações dos objectos (fenómeno) ainda não são conhecimento de objectos.



Porquê?

R: Porque os objetcos apenas nos foram dados. É necessário que sejam agora pensados e isso cabe a uma outra faculdade.



Que faculdade é essa?

R: Essa faculdade é o ENTENDIMENTO. É pelo entendimento, uma faculdade racional e não receptiva, que os objectos são pensados.



O que significa, “pensar” as intuições empíricas?

R: Como a sensibilidade fornece uma diversidade de intuições empíricas, o entendimento organiza-as, ligando-as entre si para as unificar.



De que maneira o entendimento unifica a diversidade de intuições dadas na sensibilidade?

R: Ligando o diverso das intuições num mesmo conceito.



Qual é então o papel do entendimento?

R: O entendimento produz os conceitos, que estabelecem as regras para organizar e unificar as intuições empíricas. Esses conceitos são fruto da espontaneidade do entendimento, pelo que também são a priori.



O que são os conceitos?

R: Antes de mais, não se trata de conceitos de alguma coisa, pois não se referem imediatamente aos objectos. Representam a “simples forma do entendimento”, ou o que encontramos num juízo quando fazemos abstracção do seu conteúdo. Correspondem às categorias da quantidade dos juízos (universais, particulares e singulares), da sua qualidade (afirmativos, negativos e infinitos), da sua relação (categóricos, hipotéticos e disjuntivos) e da sua modalidade (problemáticos, assertóricos e apodícticos).

Uma vez que os conceitos a priori, ou categorias, do entendimento se aplicam aos dados da experiência (às intuições empíricas), eles têm um uso empírico.

Kant resume a relação entre o entendimento e a sensibilidade numa afirmação célebre:

“Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas.”



Que quer isso dizer?

R: Quer dizer que os pensamentos, ou conceitos, têm de se aplicar às intuições para terem conteúdo (para não serem meras formas vazias) e que as intuições necessitam ser pensadas ou unificadas pelos conceitos para constituírem conhecimento. Não há, pois, conhecimento de objectos formado apenas por conceitos nem conhecimento de objectos constituído apenas por intuições. Entendimento e sensibilidade exigem-se e completam-se no processo de conhecimento.



De que modo a sensibilidade e o entendimento se ligam entre si?

R: Por meio de uma faculdade intermédia, a IMAGINAÇÃO. A faculdade da imaginação opera a partir da sensibilidade e está ao serviço do entendimento.



Como funciona a imaginação?

R: A função da imaginação consiste em reter as intuições sensíveis produzidas na sensibilidade e fazer delas sínteses ou esquemas para o entendimento.


É a imaginação que torna possível os conceitos do entendimento serem realmente preenchidos pelas intuições (deixando de ser vazios) e as intuições serem efectivamente pensadas pelos conceitos (deixando de ser cegas).

... (continua)