«O álbum de rock mais profético de sempre» — Rolling Stone
Este artigo de 2018 foi traduzido do inglês por mim, com a devida autorização do seu autor, Nuno Almeida, que também autorizou a sua publicação aqui. Obrigado, Nuno.
Porque é que The Velvet Underground & Nico é um álbum culturalmente tão significativo? Procurarei aqui avaliar o impacto do álbum The Velvet Underground & Nico na cultura popular, mostrando por que razão esta obra seminal do rock abriu caminho a algumas das mais marcantes manifestações da música de culto moderna e das tendências artísticas urbanas que surgiram desde o seu lançamento. Apesar do seu fracasso comercial (Sounes, 2015), The Velvet Underground & Nico contribuiu igualmente para dar forma e voz, em termos musicais e de atitude estética, a um determinado ambiente cultural, próprio de um lugar e de uma época específicos — Nova Iorque nos anos 60 — cujas primeiras manifestações já se tinham feito sentir noutras formas de arte, sobretudo nas artes visuais.
Em primeiro lugar, é necessário compreender o conceito de «cultura», em particular a cultura popular urbana da qual os The Velvet Underground emergiram e na qual se tornaram protagonistas de relevo. Embora não exista uma definição consensual e inteiramente satisfatória de cultura, uma vez que o termo é utilizado em múltiplos sentidos, é possível apresentar uma caracterização suficientemente abrangente e aproximada. Payne e Barbera, por exemplo, consideram que cultura é «um termo de aplicação praticamente ilimitada, que pode ser inicialmente entendido como referindo-se a tudo aquilo que é produzido pelos seres humanos, por oposição a tudo o que faz parte da natureza» (2013, 168). Isto significa, essencialmente, que tudo aquilo que é criado pelos seres humanos e que não pertence à natureza — por exemplo, edifícios, vestuário, culinária, música e livros — é considerado cultura.
Contudo, para obter uma ideia suficientemente clara da especificidade cultural da cultura popular, esta primeira caracterização revela-se algo insuficiente. É necessária uma definição mais precisa. Assim, Storey, baseando-se em Raymond Williams, distingue três utilizações diferentes do termo «cultura»: a primeira refere-se às grandes realizações intelectuais, espirituais e estéticas — aquilo a que por vezes se chama «alta cultura»; a segunda refere-se ao modo de vida particular de um povo, grupo ou período — ao contrário da primeira aceção, esta inclui também atividades como o desporto, as férias e o culto religioso; a terceira refere-se às obras e práticas que resultam da atividade intelectual, destinadas a produzir significado. Um exemplo de cultura apresentado por Storey, de acordo com a segunda aceção, é a subcultura juvenil de uma determinada época. Como exemplos da terceira aceção temos as telenovelas, as histórias aos quadradinhos e a música pop. São, portanto, estas duas últimas utilizações que são necessárias para compreender o que é a cultura popular (Storey, 2018, 1-2).
Para circunscrever a aplicação do conceito àquilo que aqui está em causa — mais precisamente, ao segmento da produção e atividade humanas designado por cultura pop — será útil explicitar o significado do qualificativo «pop» quando acrescentado ao termo «cultura». Rojek salienta que, recentemente, «alguns autores, especialmente musicólogos tradicionais, se opuseram à utilização de “pop” como sinónimo de “popular”» (2011, 1), enquanto Shuker explica que a cultura popular «teve duas fontes principais: uma cultura orientada para o comércio e uma cultura do povo e para o povo» (2002, 87). Ambas as fontes indicam que a cultura popular se distingue da chamada alta cultura ou da cultura mais restrita das elites. A abreviatura «pop» é geralmente reservada para formas urbanas de cultura veiculadas pelos modernos meios de comunicação de massas.
Note-se, no entanto que, no contexto dos estudos culturais, as considerações sobre a qualidade estética que estão na base da distinção entre alta e baixa cultura não são as mais relevantes. Mais importante é a forma como os públicos e consumidores da cultura popular atribuem significado aos seus produtos. Como resume Barker, «a cultura popular pode ser entendida como os significados e práticas produzidos pelos públicos populares no momento do consumo» e «os juízos sobre a cultura popular não dizem respeito a questões de valor cultural ou estético per se, mas a questões de classificação e poder» (2004, 148). Neste sentido, mostrar-se-á que, para além da qualidade estética intrínseca da música dos The Velvet Underground, a banda contribuiu decisivamente para introduzir no universo da cultura pop temas e significados que pareciam estranhos ou interditos, obrigando a reconfigurar classificações anteriormente estabelecidas.
