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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Inventário sonoro de 2025

Ouvi bastante música nova no ano que está a terminar. Como o ano anterior, penso que este também não foi musicalmente muito entusiasmante, sobretudo no que diz respeito a álbuns. Claro que há alguns bons álbuns, mas não especialmente memoráveis. Em todo o caso, consegui ouvir uma boa mão-cheia de boas canções. 

Fiz uma pequena lista, para partilhar aqui, com algumas das canções que mais me prenderam a atenção. Enquanto pensava numa curta justificação para tais escolhas, ocorreu-me perguntar a uma IA, mais precisamente à Gemini (da Google), que razões ela daria para tais escolhas. A Gemini respondeu «com todo o gosto». 

Deixo abaixo a resposta da Gemini, a que acrescentei os meus comentários (a castanho). Trata-se, portanto, de uma pareceria, mas nem sempre concordamos.

A minha playlist de 2025 é a seguinte:

E, a seguir, a reposta da Gemini: 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Mellotron: a pequena orquestra

Os tempos áureos do mellotron, um instrumento de tecla inventado em Inglaterra no início da década de 60 do século passado, form relativamente breves. Mas também foram marcantes, sobretudo após Paul McCartney usar, contra a opinião do produtor George Martin, esse novo instrumento em Strawberry Fields Forever, uma canção escrita por Lennon. Depois disso, foram os Rolling Stones, David Bowie, Elton John e sobretudo os Moody Blues, King Crimson, Genesis, Tangerine Dream, e até os Led Zeppelin e os Black Sabbath a recorrer ao som envolvente e melancólico do mellotron, conferindo uma espacialidade sonora e um toque de lirismo às suas músicas. 

O mellotron é um teclado com uma espécie de mini-orquestra escondida. O som que sai quando se pressionam as suas teclas resulta, na verdade, da leitura de fitas magnéticas pré-gravadas. Algo parecido a pressionar a tecla de um leitor de cassetes, em que cada fita tinha inicialmente a duração de apenas 8 segundos, tendo de se pressionar novamente para voltar ao início. Cada fita tinha o som pré-gravado de certos timbres (instrumentos), correspondente à nota de cada tecla (altura). Inicialmente, os sons pré-gravados podiam ser de quatro timbres diferentes: flautas, cordas (violinos), vozes (femininas ou masculinas) e também sopros metálicos. O teclista tinha de selecionar um dos timbres, mas alguns instrumentos tinham dois teclados lado a lado, podendo usar dois timbres ao mesmo tempo. Era como que uma espécie de pequena orquestra em forma de teclado. Mas, dado que o som produzido não tem qualquer variação de altura, por mais pequena que seja, também não se ouve aquele efeito de vibrato tão característico das orquestras. Daí produzir um som único e facilmente reconhecível. 



Em Strawberry Fields Forever, McCartney opta por aquele característico som de flautas, tal como, de resto, os Led Zeppelin virão a usar também em Stairway to Heaven, com John Paul Jones a tocar mellotron. Por sua vez, The Moody Blues, King Crimson e outros grupos de rock progressivo optam mais frequentemente pelo timbre das cordas, especialmente do violino. 

Para se ter uma ideia do que o uso do mellotron pode fazer por uma canção, veja-se a atípica e calma Changes, dos Black Sabbath, em que há apenas piano, voz e mellotron. Sem o mellotron, certamente esta belíssima canção ficaria demasiado repetitiva e sem envolvência. 

O mellotron é um instrumento tecnicamente delicado e de difícil manutenção, cujo transporte causa frequentemente problemas mecânicos. Daí que não seja aconselhável andar com ele de um lado para o outro, não se vendo muito em concertos ao vivo. Além disso, os sintetizadores portáteis começaram a incluir, principalmente a partir dos anos 1980, a emulação de uma enorme variedade de sons, incluindo cordas, vozes, madeiras e metais, acabando por substituir o mellotron. No entanto, músicos como os Oasis, Radiohead, Muse e Opeth continuaram a incluir em algumas das suas canções o som vintage do mellotron.

Uma curiosidade. José Cid foi dos poucos músicos portugueses em que o mellotron teve uma presença importante, nomeadamente no seu álbum 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte

Eis uma lista de audição com 20 músicas em que se usa o mellotron. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Dez boas canções pop-rock de 2024

Estas foram as 10 canções pop-rock de 2024 que me ficaram na memória (playlist abaixo). Claro que deu para ouvir apenas uma pequeníssima fracção do que foi produzido no ano que terminou. São sobretudo canções pop, mais do que rock, talvez porque encontro canções mais inventivas e interessantes na música pop do que propriamente no rock, que parece estar a envelhecer rapidamente. 

Talvez nem todas estas 10 canções sejam inesquecíveis. Por exemplo, o timbre do cantor dos suecos Kite pode tornar-se algo irritante após várias audições, assim como soa algo cansativa a guitarra de John Squire (o excelente guitarrista dos saudosos Stone Roses), ao contrário da voz de Liam Gallagher, que continua fantástica. Estas duas canções estão uns furos abaixo das restantes. 

Os álbuns de que estas canções fazem parte nem sempre são grande coisa, como é o caso de All Born Screaming, de St. Vincent, bastante fraquinho. É, de resto, curioso verificar que ela tem várias canções brilhantes e não consegue fazer um único álbum notável. É a mania de querer soar constantemente estranha e disruptiva. Em contrapartida, o álbum Charm, de Clairo, é bom do princípio ao fim. É uma espécie de versão pop do jazz de fusão de Annete Peacock. E há que realçar o surpreendente Nick Cave, que faz cada vez melhor música. Longe vão os tempos de juventude, em que Cave se perdia em vacuidades musicais, como as dos Birthday Party (sim, sim, era um murro no estômago, como se isso fosse uma categoria estética!). Wild God é, sem dúvida do melhor de 2024. E destaco ainda os Lo Moon, que trazem reminiscências dos esquecidos Bread, mas para melhor.

Registe-se ainda o regresso dos alemães Propaganda e também dos A Certain Radio. É agora a pop, com um toque de electrónica, a mostrar que não está esgotada. 

Rock and Roll is not dead, dizem. Certo, mas só porque tem andado a receber oxigénio da pop.  

domingo, 19 de janeiro de 2025

O musicólogo da mathesis universalis

Musicae Compendium (Compêndio de Música) foi o primeiro livro que escreveu. E foi, afinal, o primeiro passo do ambicioso projecto que viria a ser designado de mathesis universalis. Lá se tenta mostrar como a união da matemática com a mecânica conseguem despertar certas paixões da alma. 

Nasceu em França, viveu vários anos na Holanda e morreu na Suécia. Em pouco mais de 50 anos de vida conseguiu revolucionar o pensamento filosófico. Mas licenciou-se em direito, não em filosofia. A sua mãe, Jeanne, faleceu quando ele era uma criança e o seu pai, Joachim, foi um parlamentar. Apesar de nunca ter casado, foi pai da menina Francine (uma filha ilegítima, como se dizia então), que morreu aos 5 anos de idade, causando-lhe o maior desgosto da sua vida.

De resto, foi um oficial militar orgulhoso, apesar de não ter chegado a combater. Também dava muita importância ao modo de vestir e preferia a companhia dos homens de negócios aos académicos e eruditos. O seu inimigo letal foi o rigoroso Inverno de Estocolmo, que o matou com uma pneumonia, em 1650. E foi assim que a rainha Cristina ficou sem o mestre particular de filosofia, que a muito custo ela convencera a rumar à Suécia.

Poucos sabem que ele escreveu sobre música. No entanto, o seu compêndio influenciou o célebre compositor Jean-Philippe Rameau, que também escreveu um Tratado da Harmonia Reduzido aos seus Princípios Naturais. Por outro lado, o compêndio foi criticado pelo filósofo e compositor Jean-Jacques Rousseau, o que não é de espantar, tendo em conta que Rousseau tinha a tendência para desprezar tudo o que não brotasse da sua mente brilhante. 

Claro que a produção posterior ao Compêndio acabou por ofuscar irremediavelmente esta pequena obra de estreia. E assim se tem mantido na penumbra. Contudo, não deixa de ser a primeira peça da tal mathesis universalis.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Capas de discos

Entre os discos de vinil e os CD, o que é melhor? Pessoalmente não tenho grandes dúvidas de que o CD ganha em quase todos os aspectos. Menos num: as capas. Mas as capas não são meros invólucros, permitindo unir de forma feliz a arte sonora à arte visual.

Quantas vezes não se compraram discos apenas pelas capas? E quantas capas não acabam por ser um excelente incentivo para ouvir o que está lá dentro? Muitas capas adquiriram uma importância estética que vai além do próprio conteúdo musical, dando origem a um tipo sui generis de arte visual, que tem contado com a inspiração de importantes artistas plásticos contemporâneos, fotógrafos de arte, ilustradores e artistas gráficos de primeiro plano. As próprias capas são matéria de criação artística, como algumas obras do artista plástico Christian Marclay, feitas de colagens de capas de álbuns de pop e rock.

Apresento aqui uma perspectiva pessoal da história das capas, organizada por temas, tentando combinar o gosto pessoal com a relevância histórica e estética. 


As capas anteriores são, por diferentes razões, difíceis de classificar, começando pela primeira capa da história da edição discográfica, concebida em 1940 pelo designer gráfico americano Alex Steinweiss para o disco Smash Hits From Rodgers & Hart, da Columbia Records. Antes disso, os discos eram simplesmente metidos numa espécie de envelope de papel com a indicação dos artistas e obras, até Steinweiss ter a ideia de usar papel duro com uma imagem colorida. Insistiu que isso iria aumentar as vendas dos discos. E teve razão. Curiosamente, vinte e oito anos mais tarde, os Beatles ousaram provocatoriamente regressar à pré-história lançando um álbum duplo com capa totalmente branca e sem qualquer inscrição. Enfim, coisas que, então, só os Beatles ousariam fazer. Uma capa inovadora foi também a de Thick As A Brick, dos Jethro Tull, que o vocalista Ian Anderson diz ter levado mais tempo a produzir do que a própria música do disco. Destaco ainda o simbolismo minimal de Blackstar, a despedida póstuma de David Bowie.   


O primeiro, e talvez mais importante, salto estético no cuidado artístico das capas dos discos foi dado nos anos de 1950-1960 pela Blue Note, a famosa editora americana de jazz. Aí se destacou sobretudo a arte de Reid Miles, muitas vezes trabalhando a partir das fotografias de Francis Wolff. Continuam ainda a ser das melhores e mais inspiradas capas de discos. Inspiraram, por exemplo, artistas posteriores como Joe Jackson (veja-se, por exemplo, a capa do seu álbum Body and Soul, que é uma cópia descarada de Volume 2, de Sonny Rollins). Outro exemplo é o do ilustrador francês Serge Clerc, que cria um belo desenho retro na capa do excelente álbum de Carmel The Drum Is Everything, também inspirado na estética da Blue Note.   


Andy Warhol (Velvet Underground e Rolling Stones), Bridgit Riley (Faust), Keith Haring (Sylvester), Robert Rauschenberg (Talking Heads), Gerhard Richter e Richard Prince (Sonic Youth), Banksy (Blur), Kara Walker (Arto Lindsay) Mr. Brainwash (Madonna), Jenny Savile (Manic Street Preachers), Damien Hirst (Red Hot Chili Peppers), Jeff Koons (Lady Gaga) e Jean-Michel Basquiat (The Strokes) são apenas alguns exemplos de renomados artistas plásticos cujas obras encontramos em capas de discos. Algumas dessas obras foram criadas de propósito.
  

Barney Bubbles (trabalho fotográfico de Twangin..., de Dave Edmunds) e Vaughan Oliver (This Mortal Coil) são dois dos nomes sonantes do uso da fotografia artística nas capas de discos. Por vezes acrescenta-se ao trabalho fotográfico a mão de grandes designers como Peter Saville (Roxy Music) e Storm Thorgerson, do grupo Hipgnosis (Led Zeppelin).


Outros recorrem ao desenho e à pintura originais, mas também ao uso de obras clássicas. Das capas aqui incluídas, aprecio especialmente a simplicidade do desenho dos discos dos Muse e de Paul Bley. Por sua vez, a capa do primeiro álbum dos The Stone Roses reproduz uma tela pintada por John Squire, o guitarrista da banda, que se dedicava também à pintura. Neste caso, o expressionismo abstracto de Pollock foi claramente a inspiração.  


O puro grafismo e a cor passaram a ser amplamente usados, sobretudo depois de The Dark Side Of The Moon (Hipgnosis) e de Autobahn dos Kraftwerk (que não é exactamente a da edição original e que uns atribuem a Barney Bubbles e outros a Johann Zambryski). Mas talvez ninguém se tenha destacado tanto nessa estética como Peter Saville, da Factory (Joy Division, OMD, A Certain Ratio). 


Noutras capas são os nomes e os títulos que se destacam, combinados ou não com outros elementos. Pioneira nesta área é a capa do álbum de 1957, de Elvis Presley, mais tarde imitada pelos The Clash e, com algumas variações, por Tom Waits. Outro exemplo marcante é a capa do álbum dos Sex Pistols, de Jamie Reid. Considero muito feliz a combinação da imagem retro a preto e branco com a estética gráfica soviética dos Franz Ferdinand.  


Os retratos e as caras dos artistas também têm dado excelentes capas de discos, como a de Horses, de Patti Smith, fotografada pelo seu amigo Robert Mapplethorpe ou a foto de Irving Penn para Tutu, de Miles Davis. 


Também as imagens das bandas ou grupos têm proporcionado capas notáveis. Destaco em particular as excelentes fotos das capas dos Abba e dos Oasis. E, mais uma vez, as fotografias de Mapplethorpe para a capa dos Television (já agora, Marquee Moon é, na minha opinião, um dos melhores álbuns de rock de sempre). 


Usar imagens de rua ou de exteriores nem sempre resulta, mas todas estas capas são bastante fortes, começando pela memorável travessia da passadeira de Abbey Road (uma obra-prima da música contemporânea, já agora!), continuando com outra obra-prima de David Bowie e terminando com as cinematográficas capas dos Depeche Mode e do último disco de Caroline Polachek.


No psicadelismo procura-se que as as capas sejam uma ilustração visual da música que está lá dentro (uma ressalva para os casos dos Kinks e The Mothers of Invention, cujo psicadelismo vai pouco além das próprias capas). Não sei se isso foi alguma vez conseguido, pois julgo que ninguém conseguiu esclarecer com precisão o que é o psicadelismo. Dizer que se trata da experiência das alterações perceptivas provocadas pelos ácidos, formando uma espécie de caleidoscópio de cores e formas fluídas, inacessíveis à experiência consciente normal, ou algo do género, parece-me pouco esclarecedor. Mas talvez seja mesmo essa a ideia. Em todo o caso, considero que o psicadelismo não deu origem a capas esteticamente muito interessantes. Nem mesmo a histórica capa de Peter Blake para Sargeant Pepper´s me parece esteticamente impressionante. As capas dos Hollies, dos Cream e principalmente dos MGMT, são francamente más. Incluo-as aqui por serem exemplares de discos psicadélicos de referência e não pelos seus méritos estéticos ou artísticos. 


O chamado rock progressivo costuma distinguir-se também pelas imagens das capas. As capas fantásticas de Roger Dean para os Yes são um exemplo disso. Talvez a capa dos ELP (um dos mais vacuamente extravagantes grupos de música progressiva) seja mais facilmente associada a outros estilos musicais, mas mas a arte de H. R. Geiger não deixa de se destacar. E merece também uma referência o trabalho gráfico com um toque humorístico de Breakfast In America, dos Superaramp, concebido por Michael Doud.


Tanto a música gótica como a metálica têm os seus próprios universos temáticos, em que o som, a imagem e as palavras são pensados como partes de um todo coerente. Claro que góticos e metálicos habitam mundos diferentes, mas convergem em alguns aspectos. Estas capas representam diferentes tendências dentro do mesmo universo, mas as capas de Derek Riggs para os Iron Maiden são imediatamente identificáveis.


Para terminar, algumas capas que não se enquadram em nenhuma das categorias acima, mas merecem um destaque especial. E muitas outras poderiam ser referidas, o que dá uma ideia da riqueza artística das capas de discos. É isto que falta aos CD. 

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Olha que dois!

Duas lendas, dois amigos e duas aves raras, interpretando o delicado, preguiçoso e sensual segundo andamento do concerto para piano em Sol, de Ravel. O lendário Arturo Benedetti Michelangeli ao piano e o não menos lendário Sergiu Celibidache à frente da orquestra. Vale a pena ver a gravação ao vivo de 1982, em Londres, até porque as aparições em público de ambos não abundam. Michelangeli era conhecido por não gostar de dar concertos e só tocava num dos seus dois pianos pessoais, que tinham de viajar com ele para todo o lado. Destacava-se também por ter cancelado quase tantos concertos como os que deu. Consta que chegou a cancelar um concerto esgotado, em Londres, ao saber que iria haver na sala um grupo de turistas cujos bilhetes estavam incluídos no pacote turístico da sua viagem. O pianista italiano (falecido em 1995) raramente dava entrevistas e nunca respondia a perguntas sobre a sua vida pessoal nem sobre a sua pessoa, que considerava assuntos irrelevantes para os outros. O seu amigo Celibidache também não gostava de aparecer e, pior, pediu aos descendentes para que as muitas gravações suas ainda não publicadas (algumas das quais consideradas históricas) nunca o viessem a ser, nem depois da sua morte (morreu um ano depois de Michelangeli). Felizmente, a família acabou por não lhe fazer a vontade.

Mas, mais importante do que o carácter destes figurões, o que interessa é, acima de tudo, a belíssima música de Ravel. 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A desarmante beleza da música de Silvestrov

Talvez nenhum outro compositor contemporâneo tenha conseguido criar peças musicais tão incontestavelmente belas como o ucraniano Valentin Silvestrov. Um bom exemplo disso é a frágil e tocante beleza de Prece Pela Ucrânia, escrita em 2014, uma peça coral aqui adaptada para orquestra — com interpretação da Bamberg Symphony e os arranjos orquestrais de Eduard Resatsch. 

Tanto o coral original como esta adaptação orquestral são de uma beleza delicada e despojada, que nos resgata de um mundo demasiado ruidoso, como quer o compositor. Uma diferença interessante entre a versão coral original e esta versão orquestral é o uso do vento suave das flautas, soando agora como um suspiro apaziguador que acentua a etérea espacialidade desta prece musical. 

A obra de Silvestrov não receia a beleza da música tonal tradicional. Mas, em vez de se fixar no passado, renova a beleza essencial aí anunciada, como uma essência que, numa espécie de «eco do que já existe», desponta entre o que surge e se desvanece. O próprio compositor descreve a sua obra como «silêncio posto em música».

Silvestrov, nascido em 1937, em Kiev, vive agora em Berlim, refugiado da guerra no seu país. Ainda no tempo da União Soviética, a sua música chegou a ser proibida não só por razões políticas (pronunciou-se contra a invasão da Checoslováquia, em 1968) mas também porque não se conformou à estética oficial soviética do realismo socialista nem à sua alternativa modernista, optando antes por uma via pessoal de pendor neoclássico. Daí que a música de Silvestrov represente também um alívio da exaustão vanguardista para a qual ele próprio chegara a contribuir. A beleza do seu Requiem para Larissa, das suas Canções Silenciosas e, em especial, da sua música coral dificilmente nos deixa indiferentes. 

Bamberg Symphony — Prayer for Ukraine (Valentin Silvestrov)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Investigações estéticas de Jerrold Levinson


O leitor português de filosofia, mais precisamente de filosofia da arte e estética, tem finalmente à sua disposição alguns dos principais ensaios do influente filósofo contemporâneo Jerrold Levinson. 

O primeiro ensaio da colectânea Investigações Estéticas: Ensaios de Filosofia da Arte, acabada de publicar pelas Edições Afrontamento, é «Definir historicamente a arte», provavelmente um dos seus ensaios mais discutidos. A definição de arte aí proposta constitui uma alternativa não-essencialista à famosa definição institucional defendida por George Dickie e outros. Ambas as propostas de definição são, de resto, estudadas e discutidas nas aulas de Filosofia do 11.º ano. A tradução deste texto de Levinson pode, por isso, ser de grande utilidade também para professores e estudantes.

Além deste ensaio, que pretende esclarecer o próprio conceito de arte, há outros que procuram responder a perguntas de carácter menos geral, mas sobre questões não menos intrigantes. 

Por que razão reagimos emocionalmente (chorando, por exemplo) a situações que acreditamos serem ficcionais e que, portanto, sabemos não apresentarem (nem representarem) algo que tenha realmente acontecido? 

Por que razão apreciamos obras de arte que despertam, exprimem ou evocam em nós emoções negativas (como a tristeza, por exemplo), as quais geralmente procuramos evitar?

A apreciação musical de obras de larga escala (sinfonias, por exemplo) exige da parte do ouvinte que ele seja capaz de reconhecer o desenvolvimento da estrutura sonora subjacente à obra em causa?

A intenção do autor ao escrever uma dada obra literária é determinante para uma compreensão apropriada do significado dessa obra?

O que é o humor?

Como distinguir arte erótica de pornografia? E há realmente arte pornográfica?

O que significa algo ter valor intrínseco? Haverá experiências ou objectos intrinsecamente valiosos?

O leitor poderá surpreender-se com algumas respostas. Mas poderá confirmar que todas elas são cuidadosamente fundamentadas. Concordar ou não com elas faz parte do desafio que decorre da leitura deste livro.  

sábado, 16 de março de 2019

Filosofar sobre música

Raramente tenho visto compositores, e músicos em geral, a dizer algo realmente interessante sobre questões de filosofia da música. Isso é perfeitamente natural, pois o que se espera de músicos e compositores é que toquem bem e componham boa música, não que sejam capazes de filosofar sobre o assunto. Por isso, foi uma boa surpresa ver a excelente entrevista que Ricardo Lopes, autor do não menos surpreendente canal The Dissenter, fez ao compositor Samuel Andreyev, e em que este avança com várias respostas filosoficamente bem interessantes, dignas de um bom filósofo da música.

O tema geral da entrevista é o da avaliação musical, mas acabam também por ser abordadas as questões da definição da música, da representação musical e, ainda que de forma implícita, da ontologia da música (a este respeito Andreyev parece ser um anti-platonista).

Como disse, as respostas são quase sempre interessantes, mesmo quando não me parecem inteiramente correctas. Por exemplo, quando Ricardo Lopes diz que a música não pode ser simplesmente um conjunto de sons (intencionalmente) organizados uma vez que o discurso oral (speech) não é música, apesar de ser também um conjunto de sons organizados, Andreyev responde que a música e o discurso oral são muito mais próximos do que pode parecer, acabando por afirmar que a única diferença relevante entre a música e discurso oral é que no discurso, ao contrário da música, não há tom (pitch). E isto sugere a ideia, muito comum, mas que me parece errada, de que a música é, como o discurso oral, uma espécie de linguagem. Se pensarmos numa linguagem articulada, em sentido robusto, então parece-me claro que a música não é uma linguagem, pois apesar de ter uma sintaxe (um conjunto de regras a que obedece) carece de uma semântica. Sem dúvida que se pode defender que a música tem a capacidade de representação, mas aquilo que eventualmente representa é de tal forma impreciso e instável, que não seria correto falarmos de uma semântica.


Esta entrevista de Ricardo Lopes levou-me a ver outras (há uma anterior, igualmente interessante, com Andreyev) do canal The Dissenter, nomeadamente com Colin McGinn, Patricia Churchland, Simon Blackburn, Michael Ruse, David Benatar, Alex Rosenberg, Frans de Waal, e muitos outros de diferentes áreas de investigação. É um serviço notável de Ricardo Lopes e um canal que merece muito ser apoiado (por exemplo, para acrescentar legendas em português para os ouvintes que não compreendem o inglês).

Entretanto, embalado pelas entrevistas a Andreyev, decidi visitar o canal deste compositor, também ele excelente. A propósito da questão da avaliação da música, partilho aqui o vídeo abaixo em que faz uma avaliação do album Swordfishtrombones, de Tom Waits. Um magnífico exemplo.


sábado, 15 de setembro de 2018

As melhores 15 sinfonias?

Ao pôr em ordem os CDs que tinha aqui desarrumados, reparei nas várias gravações das sinfonias e ocorreu-me destacar as minhas preferidas. Claro que há muitas sinfonias que não conheço ou de que não tenho qualquer gravação em disco. Penso, contudo, que tenho uma razoável colecção, incluindo diferentes gravações e intérpretes das principais obras.

A foto abaixo mostra as que, na minha atrevida opinião de leigo, são as 15 melhores sinfonias. É um gosto pessoal, claro, e como quase todos os gostos, eles dificilmente surgem do mero acaso, sendo antes cultivados e moldados pelo que se vai ouvindo, lendo e conversando sobre o assunto.

Algumas pessoas mais entendidas poderão achar estranho esta lista não incluir qualquer sinfonia de Haydn, por exemplo, que compôs mais de uma centena. Tenho de confessar que, ao contrário dos seus maravilhosos quartetos de cordas, não sou grande apreciador das sinfonias de Haydn, que me parecem quase todas iguais e algo aborrecidas. 

Em contrapartida, há sinfonias de outros compositores de que também gosto muito e que não couberam aqui. Destaco, por exemplo, a N.º 9 de Dvorak, a N.º 7 de Sibelius, a N.º 6 de Tchaikovsky ou a belíssima N.º 2 de Glazunov, para dar apenas alguns exemplos.

As quinze preferidas são, enquanto não mudar de opinião, as seguintes (por ordem aproximadamente cronológica).


1. Mozart, Sinfonia N.º 41 (Júpiter). O disco da foto inclui as duas últimas sinfonias do génio de Salzburgo, a N.º 40 e a N.º 41, ambas dirigidas por Georg Solti (DECCA). Também gosto muito da N.º 40, mas a grandiosidade da Júpiter parece trazer algo de novo, apontando já para o romantismo.

2. Beethoven, Sinfonia N.º 3 (Heróica). Por falar em romantismo, é nesta sinfonia que o romantismo musical começa por se afirmar claramente. Nesta gravação da foto, a Cleveland Orchestra é dirigida por George Szell (Sony).

3. Beethoven, Sinfonia N.º 9 (Coral). Claro que esta obra impressionante não poderia faltar, numa gravação histórica de Karajan dirigindo a Filarmónica de Berlim (DG).

4. Berlioz, Sinfonia Fantástica. Também esta é uma obra única, aqui numa gravação de referência, com Colin Davis à frente do Concertgebouw de Amsterdão (Philips). Tive o enorme prazer de ver ao vivo Colin Davis, já na fase final da sua carreira, a interpretar esta sinfonia. Foi marcante.

5. Bruckner, Sinfonia N.º 3, na interpretação do legendário Celibidache à frente da Filarmónica de Munique (EMI). Ainda bem que, após a morte do maestro, a família não manteve a sua decisão de não publicar as interpretações que tinha gravado ao vivo. A interpretação de Celibidache destaca-se de quase todas as outras, sobretudo por optar por um tempo claramente mais lento.

6. Bruckner, Sinfonia N.º 4 (Romântica). Não gosto menos desta sinfonia de Bruckner do que da anterior. Neste caso, a gravação que mais aprecio é a de Otto Klemperer com a Orquestra Sinfónica da Rádio da Baviera (EMI).

7. Bruckner, Sinfonia N.º 8. Não podia deixar de incluir esta gigantesca sinfonia de Bruckner, numa gravação histórica (2 CD) de Karajan com a Filarmónica de Berlim (DG). É preciso ter a disposição certa para os mais de oitenta minutos que nos esperam, ainda por cima quando o característico estilo de Bruckner, que parece incluir uma espécie de colagem de mini-andamentos dentro do mesmo andamento — bem, isto é apenas um leigo a falar — exige algum fôlego auditivo. Mas, mesmo os ouvintes mais renitentes serão incapazes de resistir ao incomparável adágio do terceiro andamento. Quase nos faz levitar.

8. Brahms, Sinfonia N.º 4. Todas as quatro sinfonias de Brahms são belíssimas, mas a última consegue destacar-se. A contenção e equilíbrio das sinfonias de Brahms fazem um bom contraste com a opulência de Bruckner e outros compositores românticos. Proponho a gravação da Filarmónica de Viena, dirigida por Carlos Kleiber (DG).

9. Mahler, Sinfonia N.º 2 (Ressurreição). Eis outra sinfonia com mais de oitenta minutos, pelo menos nesta interpretação de Simon Rattle, quando ainda dirigia a Orquestra Sinfónica da Cidade de Birmingham e com o Coro da mesma cidade, contando também com o soprano Arleen Augér e o mezzo-soprano Janet Baker (EMI). Que eu conheça, poucas sinfonias começam de uma forma tão magnética. Esta é uma gravação de referência. Tive a felicidade de ver ao vivo a mesma obra dirigida por Claudio Abbado, com perto de duzentos intérpretes em palco, e também foi memorável.

10. Mahler, Sinfonia N.º 5. Não, não é apenas por causa do famosíssimo adagietto do terceiro andamento (celebrizado também pelo filme de Visconti Morte em Veneza). O meu andamento preferido é, de resto, a envolvente marcha fúnebre do primeiro andamento. A gravação que aqui proponho é a de John Barbirolli à frente da New Philharmonia Orchestra (EMI).

11. Janácek, Sinfonietta. É o caso que me deixa mais dúvidas quanto à inclusão nesta lista. Mas talvez se justifique por ser bastante diferente das sinfonias anteriores, destacando-se o seu optimismo, a começar pela fanfarra do primeiro andamento, em que as cordas não participam. A gravação cuja capa se vê na foto é dirigida Rafael Kubelik, à frente da Orquestra Sinfónica da Radio da Baviera, uma gravação aclamada pela sua qualidade (DG).

12. Stravinsky, Sinfonia em Dó. Foi no período neoclássico que Stravinsky compôs três das suas quatro sinfonias. A Sinfonia em Dó tem dois andamentos compostos quando ainda vivia na Europa e outros dois compostos quando já estava nos Estados Unidos. O disco aqui proposto inclui dois CDs com as quatro sinfonias de Stravinsky, dirigidas pelo próprio compositor e também interessantes gravações de conversas e de ensaios dele com a Columbia Symponhy Orchestra. Na Sinfonia em Dó Stravinsky dirige a CBC Symphony Orchestra (Sony). Além desta sinfonia, destaco ainda, no mesmo disco, a belíssima Sinfonia de Salmos.

13. Chostakovich, Sinfonia N.º 5. Sem dúvida, uma das minhas sinfonias preferidas, a quinta de Chostakovich está aparentemente repleta de ambiguidades desconcertantes: ora parece a voz de uma certa amargura ora de um incontido entusiasmo, ora hesitante ora afirmativa, ora contemplativa e melancólica ora irrequieta, exuberante e até festiva, tudo isso urdido de forma brilhante. Consta que, nesta obra, Chostakovich tinha urgentemente de dar provas de fidelidade a um ideário estético oficial e de, assim, ser também forçado a camuflar as suas próprias convicções musicais. O resultado desta condição artística algo esquizofrénica foi uma verdadeira obra-prima. A gravação aqui proposta é dirigida por Leonard Bernstein à frente da Filarmónica de Nova Iorque (Sony).

14. Messiaen, Turangalîla-Symphonie. Entre os vários aspectos interessantes desta sinfonia em 10 andamentos destaco o uso inovador das ondas Martenot, o instrumento electrónico que mais tarde viria também a ser usado em várias canções do album Kid A, dos Radiohead, assumidamente influenciados pelo compositor francês. Destaco também o belíssimo, envolvente e amoroso sexto andamento, intitulado precisamente Jardin du sommeil d'amour. No disco aqui proposto a Royal Concertgebouw de Amsterdão é dirigida por Riccardo Chailly (DECCA).

15. Górecki, Sinfonia N.º 3. Termino com aquela que é, sem dúvida, a mais popular sinfonia composta no último meio-século, um verdadeiro best seller musical em vários países. Depois de uma fase mais vanguardista, como quase todos os compositores da sua geração, o compositor polaco envereda nesta sinfonia em três andamentos pela composição tonal. O resultado é uma obra simultaneamente intensa e apaziguadora. O segundo andamento, cantado neste disco pelo soprano Dawn Upshaw, é talvez a melhor ilustração do nome por que esta sinfonia também é conhecida: Sinfonia das Canções Tristes. Aqui David Zinman dirige a London Sinfonietta (Elektra Nonesuch).

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os 100 melhores de sempre?

Um amigo que se considera melómano dizia-me há tempos não ter paciência para a chamada música rock e seus derivados. Parecia-lhe quase toda igual e quase toda primária. Reconheceu haver algumas excepções, como sempre existem, mas que quase tudo o resto que ouvia por aí acidentalmente era pouco mais do que ruído desinteressante.

Para começar, concordei que a maior parte da música que se ouve por aí é desinteressante. Mas também acrescentei que isso não é uma especialidade da música rock. Provavelmente, a maior parte de tudo o que se cria, seja em que área e de que género for, é pouco estimulante: a maior parte dos filmes, das peças de teatro, das esculturas, das pinturas, dos livros, dos concertos são para esquecer. E isso não me parece trágico, por duas razões principais: a primeira é que decorre da própria natureza da criação produzirem-se muitas obras falhadas e sofríveis antes de se conseguir algo notável e duradouro; a segunda é que a quantidade de obras criadas é tanta, que mesmo uma pequena percentagem de casos bem-sucedidos é mais do que suficiente para não termos razões de queixa.  

Também concordo que a maior parte da música rock (mas não só a música rock) se imita a si mesma. Mas já não concordo que não haja diversidade em quantidade suficiente. E também não concordo que ser primária, seja lá isso o que for, tenha de ser um defeito. Não vejo por que razão não poderá haver boa música primária, secundária ou terciária. Há boa música e má música de todas as maneiras e feitios, seja ela simples ou complexa, enérgica ou contemplativa, exigente ou acessível. Por isso, também não consigo descortinar uma boa justificação para a ideia de que apenas certos géneros musicais são dignos de atenção, embora admita que certos géneros musicais mais facilmente esgotam os seus recursos criativos. Seja como for, o que torna a música boa ou má não é certamente o seu género musical.

O meu amigo acabou por me dar o benefício da dúvida e pediu-me para lhe indicar uma boa variedade de discos que o pudessem convencer a ouvir música rock, sem ter de apanhar com todo o entulho musical que por aí circula. Para satisfazer o seu pedido, decidi ir fazendo aos poucos uma lista dos que penso serem os 100 melhores discos da história do rock (nalguns casos são simplesmente os mais representativos de um dado sub-género), procurando dar uma ideia de toda a diversidade de estilos, tendências e influências que se pode encontrar (folk, country, blues, jazz, soul, pop, electrónico, progressivo, alternativo, punk, hard, kraut, etc.). Claro que se voltasse a fazer a lista daqui a uns dias (acabei de fazer agora mais duas alterações), ela já seria diferente, até porque há muitos outros discos excelentes que não couberam nesta. Mas diria que em 90% dos casos não haveria alteração. 

Uma curiosidade: de acordo com esta lista, que exprime a minha avaliação pessoal, os três melhores anos foram os de 1967, 1977 e 1980. Admitem-se, e até se incentivam, discordâncias.

1965
            1.    Bob Dylan, Highway 61 Revisited
            2.    The Beatles, Rubber Soul
            3.    Otis Redding, Otis Blue

1966

            4.    The Beatles, Revolver
        5.    The Beach Boys, Pet Sounds

1967

            6.    The Beatles, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band
            7.    The Velvet Underground and Nico
            8.    The Doors, The Doors
            9.    Leonard Cohen, Songs of Leonard Cohen
           10.  Jimi Hendrix Experience, Are You Experienced?
           11.  The Kinks, Something Else by the Kinks

1968
           12. Van Morrison, Astral Weeks

1969

            13. Fairport Convention, Liege and Lief
            14. The Beatles, Abbey Road
            15. King Crimson, In The Court of the Crimson King
            16. Led Zeppelin, II 
            17. The Flying Burrito Brothers, The Gilded Palace of Sin

1970

            18. Simon and Garfunkel, Bridge Over Troubled Water
            19. Pink Floyd, Atom Heart Mother
            20. Van Der Graaf Generator, H To He Who Am The Only One
            21. Derek & the Dominos, Layla and Other Assorted Love Songs

1971

               22. Joni Mitchell, Blue 
            23. The Rolling Stones, Sticky Fingers
            24. The Who, Who’s Next
            25. David Bowie, Hunky Dory

1972

              26. Can, Ege Bamyasi
           27. David Bowie, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The    
                 Spiders from Mars
           28. Deep Purple, Machine Head
           29. Yes, Fragile
           30. Genesis, Foxtrot
           31. Jethro Tull, Thick as a Brick
           32Nick Drake, Pink Moon
           33. Lou Reed, Transformer

1973

              34. Frank Zappa, Over-Nite Sensation
           35. Stevie Wonder, Innervisions
           36. Gentle Giant, In a Glass House
           37. Genesis, Selling England by the Pound
           38. Pink Floyd, The Dark Side of the Moon

1974 
           39. Kraftwerk, Autobahn
           40. Tangerine Dream, Phaedra
           41. Electric Light Orchestra, Eldorado

1975

              42. Roxy Music, Siren
           43. Brian Eno, Another Green World
           44. Bruce Springsteen, Born To Run
           45. Patti Smith, Horses

1976
           46. Tom Waits, Small Change

1977

              47. Television, Marquee Moon
           48. Talking Heads, 77
           49. Brian Eno, Before and After Science
           50. Kraftwerk, Trans Europe Express
           51. Sex Pistols, Never Mind the Bollocks
           52. The Clash, The Clash
           53. Ian Dury and The Blockheads, New Boots and Painties

1978
           54. Talking Heads, More Songs About Buildings and Food
           55. Television, Adventure
           56. Patti Smith, Easter
       57. Annette Peacock, X-Dreams
           58.  Blondie, Paralel Lines
           59. The Police, Outlandos D’Amour

1979

                60. The Clash, London Calling
           61. Elvis Costello, Armed Forces
           62. Joe Jackson, Look Sharp!
           63. Nina Hagen Band, Nina Hagen Band
           64. The Durutti Column, The Return of the Durutti Column

1980

                65. The Feelies, Crazy Rythms
           66. Joy Division, Closer
           67. Young Marble Giants, Colossal Youth
           68. Talking Heads, Remain in Light

1981
           69. Romeo Void, It´s a Condition

1982

              70. John Cale, Music For a New Society
           71. Laurie Anderson, Big Science

1984 
72. Echo and The Bunnymen, Ocean Rain
73. Cocteau Twins, Treasure
74. Lloyd Cole and The Commotions, Rattlesnakes

1985

75. Tom Waits, Rain Dogs
76. Prefab Sprout, Steve McQueen
77. The Style Council, Our Favourite Shop
78. The Jesus and Mary Chain, Psychocandy
79. Einsturzende Neubauten, ½ Mensch
80. The Cure, The Head on the Door

1986

              81. David Sylvian, Gone to Earth
           82. The Smiths, The Queen is Dead
   
1987
           83. The Smiths, Strangeways Here We Come

1988
           84. Sonic Youth, Daydream Nation

1989

            85. The Blue Nile, Hats
            86. The Stone Roses, The Stone Roses
            87.  The Young Gods, L’Eau Rouge
            88. Pixies, Doolittle

1992
            89. Rage Against The Machine, Rage Against The Machine


1993
     90. Bjork, Debut

1994
            91. Jeff Buckley, Grace

1995
            92. Blur, The Great Escape

1996
      93. The Divine ComedyCasanova

1997 
            94. Radiohead, OK Computer
            95. Nick Cave and The Bad Seeds, The Boatman's Call

2001 
      96. The Strokes, Is This It

2003
97. Opeth, Damnation

2010
98. Field Music, Measure

2011 
99. PJ Harvey, Let England Shake


2023 
100. Daft Punk, Random Access Memories (10th Anniversary Edition)