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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Wittgenstein e o relativismo

Poderíamos continuar a acumular evidências como as apresentadas para validar a ideia da Revolução Científica, mas muitos estudiosos continuariam a não se sentir convencidos, nem capazes de serem convencidos. A ansiedade que agora perturba os historiadores quando lêem as palavras «científica», «revolução», «moderno» e (a pior de todas) «progresso» em estudos de ciência natural do século XVII, revela não só o medo da linguagem anacrónica. É também um sintoma de uma crise intelectual muito maior, que se expressou num recuo generalizado perante todas as grandes narrativas. O problema das grandes narrativas, diz-se, é que elas privilegiam uma perspetiva sobre outra; e a alternativa é um relativismo que mantém que todas as perspetivas são igualmente válidas. 

Os argumentos mais influentes a favor do relativismo provêm da filosofia de Ludwig Wittgenstein (...). Foi só no final dos anos cinquenta, a seguir à publicação de Investigações Filosóficas, em 1953, que os argumentos inspirados em Wittgenstein começaram a transformar a história e a filosofia da ciência. A sua influência já pode ver-se, por exemplo, em A Estrutura das Revoluções Científicas. A partir daí passou a ser vulgar afirmar-se que Wittgenstein demonstrara que a racionalidade era, no seu todo, culturalmente relativa: a nossa ciência pode ser diferente da dos antigos romanos mas não temos fundamento para afirmar que era melhor, porque o mundo deles era absolutamente diferente do nosso. Não há um padrão que permita comparar os dois. A verdade, segundo a doutrina de Wittgenstein de que o significado é o uso, é a que nós escolhemos; ela exige um consenso social mas não a correspondência entre aquilo que dizemos e o mundo como ele é.  

A primeira vaga de relativismo foi mais tarde complementada por outras tradições intelectuais profundamente diferentes: a filosofia linguística de J. L. Austin, o pós-estruturalismo de Michel Foucault, o pós-modernismo de Jacques Derrida e o pragmatismo de Richard Rorty. A expressão «a viragem linguística» é muitas vezes usada para indicar todas essas diferentes tradições, porque elas partilham um sentido comum, como o explicitou Wittgenstein, em que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo». Como veremos, grande parte dos debates sobre a Revolução Científica provêm das ramificações desta perspetiva.

David Wootton, A Invenção da Ciência. Temas e Debates, 2017, pp. 60-61.               

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A ciência está mesmo em crise

Que a ciência está em crise é um facto inegável, diz a controversa cientista Sabine Hossenfelder. Pelo menos é o que se passa na investigação sobre os fundamentos da física, área de investigação de Hossenfelder. E o pior, garante ela no seu canal do YouTube, é que nem sequer se vislumbra qualquer sinal de progresso nos próximos tempos. 

Mas porquê? A resposta de Hossenfelder é que, desde há mais de 50 anos, os físicos têm tentado fazer progressos recorrendo a métodos que têm falhado sucessivamente, sem sequer se admitir a possibilidade de tais métodos serem simplesmente errados. É a insistência nesses métodos que tem impedido a auto-correcção necessária ao avanço da ciência. 

Mas que métodos são esses? Hossenfelder afirma que se trata de métodos baseados simplesmente na especulação matemática, e na criação de modelos matemáticos que não são testáveis, como é o caso das teorias das cordas, dos multiversos, da super-simetria e da inflação, que Hossenfelder admite serem interessantes, mas não científicas. Trata-se, considera ela, de pseudociência.

O mais grave é que o actual impasse da ciência é, afirma Hossenfelder, um problema sistémico, causado pela maneira como a investigação académica tem sido organizada, a qual assenta no reforço comunitário decorrente do modo como a investigação está a ser financiada. Isso leva os cientistas a optar pela investigação com maior garantia de financiamento e a arriscar pouco, o que tem gerado um fenómeno de auto-replicação e de demasiada especulação pseudocientífica. Por isso, ela diz confiar cada vez menos na ciência. Não porque haja algo melhor para a substituir, mas porque a ciência está simplesmente doente. E isto não acontece apenas no domínio dos fundamentos da física, mas em praticamente todas as áreas científicas, em que a enorme quantidade de investigação e de investigadores actuais não corresponde a um maior número de descobertas substanciais. Como mostra abundantemente noutro vídeo do seu canal, há 50 anos conseguiam-se muito mais resultados científicos substanciais com muitíssimos menos cientistas. A ciência estagnou e algo vai muito mal...

Para quem torce o nariz ao que esta cientista diz, o melhor mesmo é ver os vídeos que todas as semanas publica no seu canal. Em minha opinião, é provavelmente o melhor canal do YouTube: informativo, provocador, corajoso e também humorístico. Tudo isto pode ser confirmado neste vídeo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

O cinzeiro de Kuhn

As discussões filosóficas nem sempre são tão pacíficas como se pensa, havendo mesmo algumas que chegaram a ser fisicamente ameaçadoras. A célebre história do atiçador com que Wittgenstein ameaçou o seu conterrâneo Popper no Clube de Ciência Moral, em Cambridge, não é caso único. Wittgenstein não chegou a vias de facto mas a ameaça parece ter sido séria. Curiosamente, Popper também era, por vezes, pouco meigo, como nos encontros com o positivista lógico Carnap. Diz-se que era quase sempre Popper quem se irritava e perdia a compostura, ao contrário da serenidade de Carnap. Mais radical e descontrolado se mostrou o celebrado autor de A Estrutura das Revoluções Científicas quando, no seu gabinete de Princeton, atirou um cinzeiro com beatas na direcção do seu aluno de doutoramento Errol Morris. Este só teve tempo de se desviar do cinzeiro que passou mesmo ao lado da sua cabeça. Morris acabou por abandonar os estudos de filosofia da ciência em Princeton, tornando-se mais tarde um aclamado realizador de cinema (Werner Herzog e o compositor Philip Glass foram alguns dos nomes que colaboraram em filmes seus). Entretanto, Morris decidiu escrever The Ashtray, publicado em 2018, onde nos conta o episódio do cinzeiro e a tensa, embora curta, relação com o seu orientador de doutoramento Thomas Kuhn. Felizmente, a tradução portuguesa deste notável livro parece estar para breve. 

O livro não se limita a descrever o caricato episódio no gabinete de Kuhn, sendo simultaneamente uma obra de filosofia e uma obra de arte, notável a vários títulos. Seja pelo seu formato de álbum com abundantes e curiosas ilustrações, seja pelas entrevistas originais a  filósofos como Putnam, Chomsky e Kripke, seja pelos oportunos comentários laterais, com referências históricas, artísticas e filosóficas, esta é uma obra verdadeiramente singular. Diria que se trata de um documentário ou reportagem filosófica em forma de livro.

Morris também discute desenvolvidamente as ideias de Kuhn, reforçando as acusações de relativismo e de idealismo, que tanto irritavam o famoso filósofo da ciência. É possível que Morris tenha sido demasiado severo e algo injusto com o pensamento de Kuhn, como sugeriu o filósofo da ciência Philip Kitcher na sua recensão do livro. Mas, ainda assim, não deixamos de estar perante uma obra singular, com muitos pontos de interesse filosófico. Além disso, proporciona uma leitura muito agradável. E, já agora, é também um regalo para os olhos.

E, pelo que sei, a tradução portuguesa procura reproduzir, página por página, a edição original. Boa!

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Uma janela para o problema da demarcação

Eis um pequeno excerto do livro Novas Janelas Para a Filosofia, publicado no final do passado mês de Maio. O excerto é do início do capítulo sobre filosofia da ciência, mais precisamente sobre o problema da demarcação. 

   Distinguir a ciência do que não é ciência tem sido bastante mais difícil do que possa parecer. É um problema que muitos consideram da máxima importância. Karl Popper (1902-1994) classificou-o como o mais importante problema da filosofia da ciência, procurando apresentar uma solução para ele, como veremos. O problema tem, de resto, adquirido uma crescente importância prática, na medida em que se trata também de distinguir a ciência de um tipo particular de não-ciência: a pseudociência. A sua particularidade, como o prefixo pseudo indica, é a de reivindicar ilegitimamente para si o estatuto de ciência genuína. Claro que tal reivindicação seria inútil se não houvesse semelhança alguma entre a ciência e a pseudociência, o que é visto como uma ameaça à própria ciência, tal como a moeda falsa é uma séria ameaça à moeda verdadeira, minando a confiabilidade desta. Como se adivinha, isso acarreta vários outros perigos de cariz social e político.
   Por exemplo, há decisões políticas que precisam de ser baseadas em informação e fundamentadas em explicações científicas, em vez de meras especulações e aparências, pelo que é importante saber quem está em condições de o fazer: em que investigações se deve gastar o dinheiro de todos, o que ensinar nas escolas ou que medidas de saúde devem ser adoptadas numa pandemia? Ao distinguir as fontes de conhecimento mais fiáveis das suas imitações, a demarcação entre ciência e pseudociência permite orientar decisões, tanto na vida pública como na privada: devo consultar um médico ou é melhor ir antes ao homeopata?
   Não tem, no entanto, sido fácil encontrar um critério de demarcação satisfatório. E para isso contribui também o facto de o universo da ciência ser bastante heterogéneo, abrangendo as ciências naturais, as ciências sociais e humanas, as ciências formais, e ainda as novas ciências que vão surgindo, como as ciências computacionais, a sociobiologia, a cibernética, as ciências da Terra e do ambiente, as ciências do trabalho, da comunicação, da educação, etc. E há também quem considere a psicanálise e o marxismo científicos. Em contrapartida, há áreas que já foram amplamente consideradas científicas e que deixaram de o ser, como a astrologia (praticada por Ptolomeu e Kepler), a alquimia (praticada por Paracelso) e a frenologia (fundada pelo médico alemão Franz Joseph Gall). De resto, nenhuma lista de pseudociências é consensual. Exemplos como o criacionismo, o terraplanismo, a homeopatia ou a quirologia são relativamente pacíficos, mas há quem discuta seriamente se a parapsicologia ou a acupunctura merecem ser qualificadas de científicas.
   Se for possível apresentar um critério satisfatório de demarcação entre o que é e o que não é ciência, não só muitos dos perigos representados pelas pseudociências poderão ser mais facilmente enfrentados, como ficaremos com uma maior compreensão da natureza de uma das mais relevantes actividades humanas.
 (pp. 249-250)

terça-feira, 20 de agosto de 2024

A impressionante res cogitans de Descartes

«René Descartes, filósofo e cientista francês do século XVII, ficou muito impressionado com a sua própria mente, e tinha toda a razão. Chamou-lhe res cogitans, ou coisa pensante e, ao refletir, isso impressionou-o como uma capacidade milagrosa. Se alguém tinha o direito de se maravilhar com a sua própria mente era Descartes. Ele foi, sem dúvida, um dos maiores cientistas de todos os tempos, com grande trabalho em matemática, óptica, física e fisiologia. Foi também o inventor de uma das mais valiosas ferramentas de pensamento de todos os tempos, o sistema das «coordenadas cartesianas» que nos permite traduzir álgebra em geometria, abrindo caminho para o cálculo e permitindo-nos traçar quase tudo o que queremos investigar, desde o crescimento do porco-formigueiro às flutuações do preço do zinco. Descartes propôs a primeira TDT (teoria de tudo) original, um protótipo de uma Grande Teoria Unificada, que ele publicou sob o imodesto título Le Monde (O Mundo). Pretendia explicar tudo, desde as órbitas dos planetas e a natureza da luz até às marés, de vulcões a ímanes, por que razão a água forma gotas esféricas, como se obtém fogo através da fricção do sílex, e muito, muito mais. A sua teoria estava quase toda errada, mas aguentou-se surpreendentemente bem e é estranhamente plausível mesmo a partir de uma retrospectiva atual. Foi preciso chegar a Isaac Newton para aparecer uma física melhor, com os seus famosos Principia, uma refutação explícita da teoria de Descartes.»

Não teria já Aristóteles uma TDT também? E, já agora, igualmente errada?

Tenha razão ou não, este tipo continua a escrever com graça. Dá gosto lê-lo.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Justificação e verdade



Quando testemunhamos um acidente, olhamos para o termóstato, misturamos azeite com água na cozinha ou observamos um eclipse raro a olho nu, adquirimos crenças sobre o comportamento das coisas e das pessoas à nossa volta. Em todos estes casos, temos a experiência directa do que acontece, do que vemos ou sentimos, e em grande medida ganhamos essa experiência por via da observação. Mais frequentemente, porém, as nossas crenças provêm de fontes indirectas, algumas mais fiáveis que outras (especialistas destacados, professores, livros, televisão, internet, boatos, tradição, por exemplo). E há, finalmente, crenças que retiramos de crenças anteriores. Se sei que o meu amigo João é alérgico aos camarões e que no banquete há um salteado que contém camarão-tigre, então formo a crença de que o João deve evitar o salteado.

As nossas crenças são justificadas se temos boas razões que sustentem o seu conteúdo. Mas há uma diferença entre verdade e justificação. A minha crença de que amanhã vai chover pode ser justificada — pode, por exemplo, provir de uma fonte fiável — e no entanto acabar por ser falsa. A justificação não garante a verdade. Por outro lado, posso ter uma crença verdadeira, como por exemplo que o meu vizinho é um espião, sem ter a mínima prova que a apoie. O que eu acho ou o que neste caso o meu instinto me disse, coincidiu  por acaso com algo que é verdade, mas a minha crença não é justificada.

Há pelo menos duas razões para nos interessarmos pelas crenças justificadas. Primeiro, por vezes a verdade não chega. Termos uma justificação para as nossas crenças torna mais fácil convencer os outros da sua verdade. No tribunal, por exemplo, o que eu acho e o meu instinto me diz não contam. É preciso provas de que o acusado é culpado ou de que não houve crime. Segundo, é mais provável que, desde que coerentemente organizadas, as nossas crenças justificadas ofereçam uma explicação satisfatória para os fenómenos por que nos interessamos. Dificilmente valorizaríamos um conjunto aleatório de crenças verdadeiras, mas se tivermos fundamentos para elas, é mais provável que vejamos as ligações entre elas e que delas retiremos outras implicações, o que potencialmente alarga o conhecimento.

Por vezes, os sistemas de crenças coerentemente organizados formam teorias. Formamos teorias em contexto muito diferentes, não apenas no contexto das disciplinas científicas formais. Temos teorias sobre toda uma variedade de coisas: por exemplo, sobre como ser bem-sucedido nas entrevistas de emprego, sobre o que originou a tensão no Médio Oriente, sobre o motivo por que John Grisham vende tantos livros.

Lisa Bortolotti, Introdução à Filosofia da Ciência (2008).  Trad. port. Jorge  Beleza. Lisboa: Gradiva, 2013, p. 67-8.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cientificidade

Foto de Aires Almeida

A propósito da solução de Karl Popper  para o chamado "problema da demarcação" um aluno mostrou-me um apontamento colhido não sei bem onde, no qual se dizia o seguinte:

Popper defende que uma teoria é científica se, e só se, for empiricamente falsificável.

A minha pergunta é: acham isto correcto? Será mesmo isso que Popper defende? Eu acho que isto está errado. E o leitor concorda comigo? Porquê?

sábado, 17 de abril de 2010

Filosofia e história das ciências da natureza


Escrevi
este texto para os alunos do 11º ano lerem antes mesmo de começarmos a discutir alguns dos problemas de filosofia da ciência.

Para os orientar na leitura do texto, deixo seguidamente um conjunto de perguntas às quais devem tentar responder. Espera-se por respostas curtas e directas.


1.     Tanto os mitos como a ciência respondem, por vezes, às mesmas perguntas. O que diferencia as respostas científicas das míticas ou religiosas?
2.     Há um aspecto ao qual pela primeira vez Tales de Mileto dá importância e sem o qual a ciência não se teria desenvolvido. Qual é?
3.     Porque é que para alguns filósofos gregos, como Platão, o mundo natural não poderia ser objecto de conhecimento?
4.     Porque é que se diz que Aristóteles deu um passo importante na direcção da ciência tal como a conhecemos?
5.     Em que consistia a ciência para os filósofos cristãos medievais?
6.     Copérnico apresentou uma teoria completamente revolucionária. Quem nome tem e em que consiste?
7.     Qual foi o grande contributo que Bacon deu para a origem da ciência moderna?
8.     Para Bacon a ciência deveria ser activa e operativa. O que quer isso dizer?
9.     Há 3 tipos de razões que fazem de Galileu o pai da ciência moderna. Quais são?
10.  Uma das consequências da ciência moderna é a concepção mecanicista da natureza. O que é o mecanicismo?
11.  O mecanicismo é uma forma de reducionismo. O que é o reducionismo?
12.  A física newtoniana parece não deixar dúvidas sobre o que é e como se faz ciência. Mas Hume chama a atenção para outro problema. Que problema é esse?
13.  O raciocínio de tipo indutivo está na origem de muitas das verdades científicas. Segundo Hume isso é fatal para a própria ciência. Porquê?
14.  O que é o positivismo?
15.  O que é o cientismo?
16.  O que é o fisicalismo?
17.  De todos os nomes que o texto refere, quais pareceram ser os 3 mais importantes para a história e desenvolvimento da ciência?
18.  E para a filosofia da ciência?
19.  Poderá o tipo de explicação fornecido pelas ciências sociais ser idêntico ao das ciências da natureza
20.  O que foi mais difícil de compreender no texto?