quarta-feira, 22 de maio de 2019

Ética no quotidiano

Mais um livro da colecção Filosofia Aberta, acabado de sair. Creio que até os alunos do secundário irão gostar, se experimentarem...


A filosofia precisa de chegar a toda as pessoas e não apenas a quem já está suficientemente motivado para o seu estudo. Precisa também de mostrar por que razão ela pode ser útil na vida de cada um. Esse é o principal objectivo deste livro, algo diferente dos livros anteriores desta colecção. Isso fica imediatamente patente no modo como o autor se dirige ao leitor, na sua linguagem acessível, despretensiosa e quase coloquial, na sua estrutura e no constante recurso a casos práticos reais.  

A nossa vida quotidiana coloca-nos mais problemas filosóficos do que geralmente supomos. Mesmo quem está convencido que a filosofia nada mais tem para nos oferecer além de uma mão cheia de teorias incompatíveis entre si acaba por ter de tomar decisões filosóficas, sejam elas bem fundamentadas ou não. A ética é precisamente uma das áreas filosóficas mais fortemente envolvidas em muitas das nossas decisões quotidianas e este livro oferece-nos uma espécie de guia que, aliando a teoria à prática, nos ajuda não tanto a decidir o que fazer em cada situação concreta, mas antes a compreender as diferentes maneiras de decidir.  

Apesar do carácter elementar desta obra, as ideias filosóficas são aqui apresentadas com rigor. Assim, as principais teorias éticas — o contratualismo inspirado em Hobbes, a ética kantiana, o utilitarismo de Bentham e Mill, e a ética das virtudes inspirada em Aristóteles — são brevemente expostas e discutidas, mas sem recurso a caricaturas. E as suas implicações práticas são depois postas à prova a propósito da amizade, do amor romântico, do casamento, da parentalidade, dos negócios, do consumo, do ambiente e da tecnologia. É um livro para todos, sobretudo imprescindível a alunos e professores, tanto de Filosofia como de Cidadania. 

terça-feira, 14 de maio de 2019

Um céptico racional num mundo irracional: em livro e ao vivo

Depois da publicação do mais recente livro de Julian Baggini — o primeiro do filósofo britânico com tradução portuguesa — está também confirmada a sua presença no próximo Encontro Nacional de Professores de Filosofia, em Santarém, no início de Setembro. 

Depois de o ler, vai ser bom poder ouvi-lo e conversar com ele também. Para se ter uma ideia do tom geral do livro de Baggini As Fronteiras da Razão: Um céptico racional num mundo irracional, recentemente publicado na colecção Filosofia Aberta, deixo abaixo uma pequena passagem do início do primeiro capítulo, que é tão surpreendentemente óbvia quanto desconfortavelmente provocadora.  

As grandes questões acerca de Deus e da religião estão entre as mais significativas e importantes que cada um de nós tem de enfrentar. Deus existe? É a ciência compatível com a religião? Pode haver moralidade sem Deus? Embora tenha dado considerável atenção a cada uma destas questões, quando sou convidado para debater alguma delas em público, tenho-me inclinado cada vez menos a aceitar fazê-lo. Tendo visto o que estes eventos envolvem, a tarefa como um todo cada vez mais parece uma charada. Um dos lados apresenta os seus argumentos, seguido pelo outro. As razões são empilhadas para apoiar ambos os casos. Mas no fim, quase toda a gente acredita exactamente naquilo em que acreditava no início. Apenas alguns membros da audiência que estejam genuinamente inseguros ou confusos podem ser influenciados por um lado ou pelo outro. Estes debates são montados como batalhas do intelecto, tribunais filosóficos onde os argumentos são apresentados e avaliados. São, na realidade, como competições desportivas onde toda a gente vem para apoiar a sua própria equipa e se vai embora convencida de que a sua foi a melhor, seja qual for o resultado. Parece-me que o único efeito construtivo destes eventos é fazer a audiência recordar que a discordância cortês é possível e que aqueles aos quais se opõem também podem ser boas pessoas e inteligentes.
            Este sentido de futilidade não se restringe aos debates de suma importância. É ainda mais evocada pelo mundo académico da filosofia da religião. Aí encontramos pessoas muito inteligentes, todas comprometidas em serem tão racionais quanto possível acerca de suas crenças. Escrevem livros e artigos de revistas repletos de argumentos complexos, subtis e arcanos. Claramente, são pessoas que levam a razão muito a sério, de facto. Com que frequência, no entanto, vemos qualquer uma delas mudar de ideias acerca de qualquer uma das grandes questões? Muito raramente. O diálogo académico entre teísmo e ateísmo é virtualmente inexistente. Nas raras ocasiões em que alguém muda de filiação, trata-se de uma grande novidade; a tal ponto que mesmo uma vaga hesitação é vista com trepidação. Quando o famoso ateísta Antony Flew, por exemplo, apareceu já numa idade bastante avançada a endossar um tipo de deísmo, manchetes como «Ateísta famoso agora acredita em Deus» apareceram no mundo inteiro.
            Se esses filósofos da religião estivessem simplesmente a seguir os argumentos até onde quer que conduzissem, poder-se-ia esperar significativamente mais movimento, consoante fossem levados primeiro numa direção, depois na outra. A verdade, contudo, é que estes argumentos parecem levar apenas ao próximo contra-argumento. Quando, por exemplo, um ateísta se depara com uma versão nova e brilhante de um argumento a favor da existência de Deus que não consegue refutar, não diz «Ah! Portanto, agora tenho de acreditar em Deus!». Ao invés, diz: «É brilhante. Tem de haver algo errado com este argumento. Dê-me algum tempo e descobrirei o que é.» De igual modo, um teísta não perderá a sua crença apenas porque não consegue refutar um argumento a favor do ateísmo. Ao invés, esse argumento torna-se-á simplesmente um desafio a ser vencido no momento oportuno.
            Tudo isto pode parecer escandaloso. A moeda da filosofia da religião é supostamente a discussão racional, mas esta moeda não pode comprar a posição oposta a qualquer preço. Contudo, desesperar-se com isto seria equivalente a compreender mal a natureza da discussão racional e a sua importância para os grandes compromissos da vida como o de acreditar em Deus ou não. A razão tem de facto um papel importante a desempenhar aqui, mas não é o de juíza objectiva e independente. O juiz último não é a razão, mas sim o ser que raciocina, para quem a racionalidade é um instrumento, e não um tipo de autoridade.