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terça-feira, 12 de agosto de 2025

A fotografia é uma das artes?


Não, a fotografia não é uma forma de arte, responde o filósofo da arte Roger Scruton no seu muito discutido artigo «Fotografia e representação», de 1981.

 

Sim, claro que a fotografia é uma forma de arte, considera o filósofo da arte canadiano Dominic McIver Lopes, em reposta a Scruton, no artigo de 2013 «Agora somos todos artistas» e também no livro Quatro Artes da Fotografia, de 2016.

 

A questão não é se uma dada imagem fotográfica pode ser uma obra de arte. Ninguém tem dúvidas que pode. É antes a questão da própria natureza da fotografia, mais precisamente se essa natureza permite classificá-la como uma genuína forma de arte.

 

Apesar de responderem de forma diferente à questão, Scruton e Lopes (e qualquer pessoa sensata) concordam que as duas afirmações seguintes são falsas:

1. Nenhuma fotografia é uma obra de arte. 

2. Todas as fotografias são obras de arte.

 

Ao defender que a fotografia não é, em si, uma forma de arte, Scruton não está a dizer que nenhuma fotografia é uma obra de arte. Claro que há muitas fotografias que são obras de arte, reconhece Scruton, tal como há peças de mobiliário que são obras de arte, apesar de o mobiliário não ser uma forma de arte.

 

Por sua vez, ao defender que a fotografia é, sim, uma forma de arte, Lopes não está a dizer que todas as fotografias são obras de arte. Claro que há muitas fotografias que não são obras de arte, tal como há pinturas que não são obras de arte, apesar de a pintura ser uma forma de arte. 

 

Uma maneira simplista de descrever as duas perspetivas em confronto

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Amor, amor... e mais amor

Jean Vignaud, Abelardo e Heloísa surpreendidos por Fulbert (1819)

Se levarmos a sério o que as pessoas dizem valorizar acima de tudo, o amor é das coisas mais importantes das nossas vidas, senão mesmo a mais importante. Poucos se atrevem, como Nietzsche, a desvalorizar o amor, embora ele o tenha feito em relação a certas concepções comuns do amor, não ao que ele considera ser o amor autêntico.

Mas o que é, afinal, o verdadeiro amor?
 
Esta pergunta pode ser enganadora, pois pressupõe que há apenas um tipo de amor. Os antigos gregos já usavam diferentes termos — eroságape e philia — para falar do que nós dizemos ser amor, concebendo diferentes tipos de amor. Mas, dir-se-á, mesmo que haja diferentes tipos de amor, deve haver algo comum a todas as formas de amor: talvez seja um mesmo tipo de sentimento, ou um objectivo idêntico, ou o mesmo tipo de motivações. Se não houver uma natureza comum a todos os tipos de amor, por que razão usar o mesmo termo para coisas tão distintas?
 
Wittgenstein diria que aplicamos o mesmo conceito a coisas tão diferentes porque muitos dos nossos conceitos não têm limites definidos nem estáveis. Mas ele também acrescentaria que nem por isso temos de deixar de usar tais conceitos, ainda que os apliquemos a coisas tão diferentes, tal como usamos o conceito de jogo para coisas muitíssimo diferentes entre si: lutas (há competição) e paciências (não há competição), golfe (joga-se com bola) e corridas (não há bola), monopólio (jogo de tabuleiro) e corta-mato (joga-se no campo), sudoku (jogo solitário) e futebol (jogo colectivo), escalada (atividade física) e xadrez (atividade mental), esgrima (manejamento de instrumentos) e salto em comprimento (sem uso de instrumentos), corridas de cavalos (jogos com animais) e automobilismo (jogos motorizados), e assim por diante. 
 
Assim, mesmo que não sejamos wittgensteinianos, talvez não seja má ideia começarmos por aceitar a ambiguidade da pergunta «O que é o amor?» e, em vez de falarmos simplesmente do amor, especificarmos antes de que tipo de amor estamos a falar, de modo a não misturarmos tudo. 

Mas de que tipos de amor se pode falar? Há o chamado amor romântico (o eros dos gregos antigos); o amor divino e entre pais e filhos (o ágape dos gregos antigos); o amor pelo próximo e pelos nossos amigos (a philia dos gregos antigos); o amor por ideias, como as de verdade, de liberdade ou de pátria; o amor por lugares, como a terra onde se nasceu; o amor a Deus, para quem tem fé; e o amor-próprio, que uns consideram a forma mais pura de amor e outros uma expressão de narcisismo.

Tudo isso são coisas diferentes. Qualquer pessoa compreende que o amor entre duas pessoas apaixonadas é muito diferente do amor maternal, paternal e filial. Ainda assim, é geralmente o amor romântico que mais tem ocupado poetas, artistas, psicólogos e filósofos. O amor romântico, ou amor-paixão, é o que tem alimentado a arte e a literatura ocidentais. 

O ensaísta e filósofo suiço Denis de Rougemont defende, no seu interessante livro L'Amour et L'Occident, publicado no final dos anos

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Epidemia de metáforas kitsch


As metáforas estão em alta. Sim, na literatura sempre estiveram. Na boa literatura, uma boa metáfora diz, muitas vezes, mais do que uma descrição exaustiva. E, além de ser mais elegante, tem quase sempre a vantagem de ser memorável. Isso ajuda imenso e é agradável.

Mas não é por isso que estão agora em alta; é antes por terem invadido o discurso banal quotidiano. Qualquer conversa se tornou demasiado seca e linear se não for polvilhada por umas quantas metáforas. Tudo bem. Só é pena que sejam tantas vezes as mesmas metáforas, tão batidas e pretensamente interessantes. Algumas tornaram-se uma verdadeira epidemia, tão previsíveis quanto irritantes. Pior, são quase sempre sobre o próprio falante, que as usa de modo indisfarçadamente autoelogioso e autocomplacente. E tão kitsch!

Veja-se quantas pessoas dizem querer pensar fora da caixa. Ficamos, assim, a saber que há multidões de pessoas criativas, que fazem questão de pensar de maneira diferente dos outros, capazes de ver o que mais ninguém descortina, e assim por diante. Todas igualmente criativas e irreverentes. Assim, o conteúdo da caixa há-de tornar-se um mistério e voltaremos a precisar urgentemente de quem consiga olhar para dentro dela. Claro que a conversa de se pensar fora da caixa é tantas vezes uma desculpa para não se ter o trabalho de estudar e de compreender o que mal se compreende e precisa de ser compreendido. Afinal, dentro da caixa deve encontrar-se o que de melhor já se conseguiu. A caixa foi enchendo à custa de muitas pessoas persistentes, estudiosas, cuidadosas, curiosas, mas também de algumas pessoas criativas. Essas foram, afinal, casos excepcionais. Mas agora já nos sentimos todos excepcionais, mesmo quando ignoramos o fundamental. Ok, talvez faça bem à saúde sentirmos-nos todos excepcionais. Mas, a ânsia de passarmos por seres excepcionais funciona, tantas vezes, como um apelo ao adorno da metáfora kitsch

Se aquele que se apresenta como criativo diz querer pensar fora da caixa, o que se apresenta como corajoso e ousado — que costuma ser o mesmo — diz querer sair da sua zona de conforto. E, ao querer sair da sua zona de conforto, acaba por entrar, de novo, na zona kitsch. Por que razão haverá tanta gente a querer sair da sua zona de conforto em vez de simplesmente fazer o que pode fazer bem, usando o conhecimento e a experiência adquiridos? Não é mais sensato, produtivo e preferível fazer uma coisa bem ao desperdício e desconforto de fazer outra mal? Para quê sair da sua zona de conforto? Para quê desperdiçar tempo e energias com o que não se sabe como fazer? Para aprender outras coisas? Muito bem, então basta dizer simplesmente que se quer aprender outras coisas. Isso tem a vantagem de nos poupar a mais uma metáfora kitsch. Mas porquê este apelo do discurso kitsch?

O que responder quando não se sabe a resposta? Fingir que se tem uma resposta, dizendo que essa é a pergunta de um milhão de dólares. E depois falar abundantemente da pergunta de um milhão de dólares. Pensando bem, as perguntas de um milhão de dólares são tantas, que podemos ganhar uma fortuna dando-lhes meias-respostas kitsch.

Claro que os verdadeiros intelectuais, os intelectuais profundos, não alinham nisto; não usam as metáforas da populaça. O seu discurso sofisticado evita a superficialidade quotidiana, procurando ir para lá do ruído do mundo, de modo a compreender a espessura dos dias. Este é todo um outro nível. E tive a sorte de, só na última semana, já me ter deparado mais de uma vez com o ruído do mundo, tendo também embatido na dita espessura dos dias. E não, não li nas crónicas do Pacheco Pereira.

Enfim, cada um com o seu kitsch. Eu também tenho o meu. A prova disso é este texto que me deu na cabeça escrever para mim próprio. Também tenho direito, caramba! 

domingo, 16 de março de 2025

De Wittgenstein a Dickie, via Suits


É bem conhecida a tese de Wittgenstein de que os conceitos não têm conteúdos precisos que possam ser captados por uma definição ou análise em termos de condições necessárias e suficientes. Se prestarmos atenção ao modo como aplicamos os conceitos, o seu uso mostra que, em geral, eles não têm fronteiras nítidas ou claramente delimitadas. Daí que a busca de definições seja, conclui Wittgenstein, uma tarefa condenada ao fracasso. Ele convida-nos a pensar no conceito de jogo e na enorme diversidade de jogos que há, desde jogos de tabuleiro a jogos com cartas, com bola, de corridas, torneios desportivos, etc. O que faz todas essas coisas serem jogos? Uma resposta tentadora é começar por reconhecer que «algo deve ser comum a todos os jogos, caso contrário não se chamariam jogos». Porém, Wittgenstein considera que partir desse princípio é começar mal. O que temos de fazer, diz ele, não é supor que há algo comum a todos os jogos, mas antes olhar para os diferentes jogos e ver se encontramos alguma característica comum a todos. Trata-se antes de olhar e ver, não de pensar. Ora, se olharmos com cuidado, não vemos coisa alguma que seja comum a todos os jogos, e só aos jogos. O conceito de jogo é, diz Wittgenstein, um conceito aberto e, como tal, indefinível. É aberto no sentido em que a sua correcta aplicação não está sujeita a qualquer requisito prévio, ou seja, não depende de condições necessárias e suficientes. Tudo o que vemos é uma rede de semelhanças variáveis entre as diferentes coisas às quais aplicamos esse conceito, isto é, uma teia instável de semelhanças familiares. Não dispomos, portanto, dos ingredientes de uma definição explícita.

 
Certo? Não, errado! Pelo menos, é o que sugere o filósofo americano Bernard Suits no seu maravilhoso livro A Cigarra Filosófica, cuja tradução portuguesa para a Gradiva se encontra esgotada. Suits não está interessado na questão da definição de conceitos em geral, mas apenas na possibilidade de haver uma definição adequada do conceito de jogo. A resposta de Suits é que o conceito de jogo não é aberto, havendo mesmo condições necessárias e conjuntamente suficientes para que algo seja um jogo. É, então, possível dar uma definição explícita, e verdadeira, do conceito de jogo — ou, mais precisamente, do que é jogar um jogo. O próprio avança com tal definição, desafiando-nos seguidamente a procurar contraexemplos. A versão abreviada da definição é a seguinte: um jogo é uma tentativa voluntária de superar obstáculos desnecessários.

Uma versão mais completa e informativa diz o seguinte: jogar um jogo é qualquer actividade que visa alcançar um estado de coisas específico usando unicamente as regras permitidas, as quais são voluntariamente aceites apenas por tornarem possível tal actividade.

domingo, 22 de setembro de 2024

Tolstói sobre a essência da arte

 

Esgotada a anterior edição deste clássico da filosofia da arte, eis que surge agora uma reedição revista. Não só a capa é agora bastante mais sugestiva como a minha introdução à tradução portuguesa (directamente do russo) foi revista e afinada.  

Este ensaio, que o próprio Tolstói considerava um dos livros mais importantes que escreveu, merece até mais do que uma leitura. Aliás, uma característica notável dele é que, passados mais de cento e vinte anos da sua publicação, continua a não deixar o leitor indiferente nem perdeu a sua capacidade para continuar a causar perplexidade nos leitores actuais.

O livro estará nas livrarias já nesta semana. 

Eis um pequeno excerto da minha introdução.

          Publicado em 1898, depois de quinze anos a trabalhar nele, o ensaio O Que é a Arte? surge na parte final de um século marcado por grandes ideologias e ideais revolucionários, por vezes incompatíveis, tanto em termos sociais e políticos como artísticos e estéticos. Como qualquer outro aspecto da vida social, também o papel da arte e o lugar do artista na sociedade acabaram por ter de ser reequacionados. Por isso, os próprios artistas, mais do que os filósofos, sentiram necessidade de justificar a importância da sua actividade e o papel que lhes cabia desempenhar. Não é, pois, de estranhar que as principais teorias acerca do valor e da função da arte  questões claramente filosóficas — tenham como protagonistas mais destacados os artistas ou críticos de arte e não tanto os filósofos profissionais. Daí que algumas das mais influentes ideias estéticas do século XIX estejam normalmente associadas a movimentos artísticos e literários, como o romantismo, o realismo e o esteticismo.

            O romantismo — que começou na literatura, alargando-se depois à pintura, escultura e, por fim, à música — foi, sem dúvida, o mais influente, duradouro e abrangente movimento artístico do século XIX. São muitas as ideias defendidas pelos românticos, algumas das quais vêm de trás. Mas aquela que mais sobressai é a ideia de que a matéria-prima da criação artística é a emoção e o seu carácter estritamente subjectivo. A função do artista, de acordo com o romantismo, não é retratar a realidade objectiva exterior, mas antes penetrar nas profundezas do universo interior de sentimentos de que ele mesmo tem experiência. Descrever a natureza física exterior ou a realidade objectiva era o que a ciência estava já a fazer, aparentemente com enorme sucesso — um sucesso nunca visto até então. Contudo, esse sucesso deixava completamente inexplorado o mundo, não menos complexo, diversificado e importante, dos sentimentos. A compreensão desse mundo só poderia ser alcançada por intermédio da arte e só o artista estaria apto a encontrar a melhor forma de exprimir sentimentos. Sendo assim, torna-se bastante fácil justificar o papel do artista na sociedade e a importância ou o valor da arte: esta é, afinal, uma forma de obter conhecimento acerca daquilo que não está ao alcance da ciência.

            Associada à concepção da arte como expressão de sentimentos, foi-se desenvolvendo uma dada imagem do artista romântico: por um lado, passa a ser visto como uma figura atormentada, obrigada a experimentar, em nome da sinceridade que se lhe exige, os sentimentos que exprime, por mais contraditórios e dilacerantes que sejam; por outro lado, passa também a ser visto como um génio incompreendido, na medida em que exprime o que mais ninguém ousaria exprimir. Isto, por sua vez, acaba por colocar o artista, mais do que a própria obra, no centro das preocupações românticas. 

            Em sentido oposto, surge o realismo. Este movimento, que aparece em meados do século XIX, é uma reacção declarada a uma arte que, como queriam os românticos, fecha os olhos ao que está diante de si, ao que se passa na sociedade e ao mundo das pessoas comuns, incluindo os pobres e os explorados. Ao passo que os românticos se entregam a uma arte sem consciência social, os realistas batem-se por uma arte socialmente responsável. A imagem do artista ensimesmado, própria do romantismo, deveria, pois, dar lugar à do artista socialmente empenhado, senão mesmo do artista revolucionário.

            Como se verá, Tolstói é claramente influenciado por ambos os movimentos, mas está longe de se rever em qualquer deles. A sua teoria da arte como expressão de sentimentos aproxima-o do romantismo, mas em tudo o resto se demarca de forma muito vincada, nomeadamente ao defender que nem todos os tipos de sentimentos contam e, sobretudo, que a finalidade da expressão é moral (é o progresso moral da humanidade) e não epistémica (não é o conhecimento do que se passa no interior do sujeito). A própria ideia do artista romântico como génio incompreendido e ensimesmado o repugna mais do que qualquer outra, alegando que um artista assim não só não serve a arte como lhe é mesmo prejudicial, na medida em que é responsável por colocar simulacros de arte no lugar da arte autêntica. Algumas das páginas mais contundentes de O Que é a Arte? visam precisamente desmascarar de forma impiedosa o que considera ser a falsa arte de algumas das mais sonantes obras do romantismo: a Nona Sinfonia e a Sonata Opus 101, de Beethoven, bem como toda a tetralogia de O Anel, de Wagner.

            Por sua vez, ao defender uma concepção da arte completamente oposta ao tipo de preocupações próprias das classes ricas e de pessoas ociosas, Tolstói aproxima-se do realismo: a arte autêntica, considera ele, dá voz a sentimentos comuns, mas genuínos, das pessoas simples e trabalhadoras do povo. Os poucos exemplos, dados por Tolstói, de arte genuína ou de boas obras de arte da sua época são, na sua maioria, de obras associadas ao realismo: pinturas de Millet e Lhermitte, alguns romances de Dickens e de Dostoievski e Os Miseráveis, de Victor Hugo (refere também canções de embalar, danças e histórias populares, quase sempre de autoria anónima, mas amplamente difundidas entre o povo e as classes trabalhadoras). Mesmo assim, exceptuando aqueles dois pintores, nenhum dos outros são exemplos indisputáveis de realismo. Em contrapartida, refere de forma algo depreciativa autores claramente realistas, como Émile Zola, ignorando completamente Balzac, Stendhal ou Flaubert, e dando o benefício da dúvida a Maupassant. 

            Mas há um outro importante movimento estético do seu tempo com o qual Tolstói não tem mesmo qualquer afinidade, opondo-se-lhe totalmente: o movimento da arte pela arte, encabeçado por Théophile Gauthier, também conhecido como esteticismo. Este movimento baseia-se numa concepção não-funcionalista da arte, isto é, uma concepção da arte segundo a qual ela não serve qualquer outro propósito exterior a si mesma. É a arte que dá a si a sua finalidade, pelo que se justifica por si mesma. A ideia subjacente é que a arte tem valor intrínseco e que isso é, em termos sociais, justificação suficiente para merecer a mais elevada estima. 

            Tolstói considera isto uma completa perversão da arte e dá vários exemplos de arte simbolista que ilustram a vacuidade da teoria da arte pela arte. Obras de Jean Moréas, Baudelaire, Mallarmé, Verlaine e outros são apontadas como meras imitações de arte — nem sequer má arte são. E o mesmo em relação às pinturas simbolistas de Odilon Redon, Puvis de Chavannes e outros. A arte decadentista é outro dos alvos de Tolstói. Os decadentistas, como Oscar Wilde, acreditam que a arte nunca deve ser avaliada por critérios morais. O decadentismo — que, segundo Tolstói, também encontra apoio em algumas ideias de Nietzsche — acaba por ser como que um prolongamento do esteticismo: de acordo com os esteticistas, a arte tem valor autónomo; de acordo com os decadentistas, a arte não só tem valor autónomo como nem sequer pode haver obras de arte morais ou imorais. Para os decadentistas, a arte e a moral são independentes uma da outra. Nada poderia ser mais contrário ao que defende Tolstói, para quem a questão do valor da arte encontra resposta numa forma extrema de moralismo.

            Esta é, muito genericamente, a posição de Tolstói em relação às principais ideias estéticas surgidas no seu conturbado século. Havia ainda concepções estéticas vindas do século anterior e que continuavam a ter os seus adeptos. Entre essas concepções destacavam-se a estética kantiana do belo, entretanto reciclada por Schopenhauer, e a metafísica do belo hegeliana, a qual, nas palavras de Tolstói, o mesmo Schopenhauer mostrou não passar de puro misticismo. Como se verá adiante, Tolstói rejeitava também estas estéticas, as quais padeciam do vício fatal de se basearem nas noções de beleza e de prazer, que, para ele, iam dar ao mesmo. Por sua vez, obras que procuravam um certo equilíbrio formal — outra ideia de inspiração kantiana —, eram igualmente desclassificadas por Tolstói, acusando-as de serem demasiado racionais e por carecerem de algo que é uma condição necessária da arte: a capacidade de contagiar as pessoas com os sentimentos vividos pelo artista.

            Em suma, nem o romantismo, nem o realismo, nem o esteticismo, nem Kant, nem Hegel, nem Schopenhauer, nem Nietzsche conseguem oferecer qualquer resposta minimamente satisfatória para as questões da essência e do valor da arte, que Tolstói pensa estarem estreitamente ligadas. Essa foi, provavelmente, a motivação que o levou a escrever este ensaio, no qual fica bem patente a singularidade do seu pensamento estético num século em que não faltaram teorias estéticas.


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Capas de discos

Entre os discos de vinil e os CD, o que é melhor? Pessoalmente não tenho grandes dúvidas de que o CD ganha em quase todos os aspectos. Menos num: as capas. Mas as capas não são meros invólucros, permitindo unir de forma feliz a arte sonora à arte visual.

Quantas vezes não se compraram discos apenas pelas capas? E quantas capas não acabam por ser um excelente incentivo para ouvir o que está lá dentro? Muitas capas adquiriram uma importância estética que vai além do próprio conteúdo musical, dando origem a um tipo sui generis de arte visual, que tem contado com a inspiração de importantes artistas plásticos contemporâneos, fotógrafos de arte, ilustradores e artistas gráficos de primeiro plano. As próprias capas são matéria de criação artística, como algumas obras do artista plástico Christian Marclay, feitas de colagens de capas de álbuns de pop e rock.

Apresento aqui uma perspectiva pessoal da história das capas, organizada por temas, tentando combinar o gosto pessoal com a relevância histórica e estética. 


As capas anteriores são, por diferentes razões, difíceis de classificar, começando pela primeira capa da história da edição discográfica, concebida em 1940 pelo designer gráfico americano Alex Steinweiss para o disco Smash Hits From Rodgers & Hart, da Columbia Records. Antes disso, os discos eram simplesmente metidos numa espécie de envelope de papel com a indicação dos artistas e obras, até Steinweiss ter a ideia de usar papel duro com uma imagem colorida. Insistiu que isso iria aumentar as vendas dos discos. E teve razão. Curiosamente, vinte e oito anos mais tarde, os Beatles ousaram provocatoriamente regressar à pré-história lançando um álbum duplo com capa totalmente branca e sem qualquer inscrição. Enfim, coisas que, então, só os Beatles ousariam fazer. Uma capa inovadora foi também a de Thick As A Brick, dos Jethro Tull, que o vocalista Ian Anderson diz ter levado mais tempo a produzir do que a própria música do disco. Destaco ainda o simbolismo minimal de Blackstar, a despedida póstuma de David Bowie.   


O primeiro, e talvez mais importante, salto estético no cuidado artístico das capas dos discos foi dado nos anos de 1950-1960 pela Blue Note, a famosa editora americana de jazz. Aí se destacou sobretudo a arte de Reid Miles, muitas vezes trabalhando a partir das fotografias de Francis Wolff. Continuam ainda a ser das melhores e mais inspiradas capas de discos. Inspiraram, por exemplo, artistas posteriores como Joe Jackson (veja-se, por exemplo, a capa do seu álbum Body and Soul, que é uma cópia descarada de Volume 2, de Sonny Rollins). Outro exemplo é o do ilustrador francês Serge Clerc, que cria um belo desenho retro na capa do excelente álbum de Carmel The Drum Is Everything, também inspirado na estética da Blue Note.   


Andy Warhol (Velvet Underground e Rolling Stones), Bridgit Riley (Faust), Keith Haring (Sylvester), Robert Rauschenberg (Talking Heads), Gerhard Richter e Richard Prince (Sonic Youth), Banksy (Blur), Kara Walker (Arto Lindsay) Mr. Brainwash (Madonna), Jenny Savile (Manic Street Preachers), Damien Hirst (Red Hot Chili Peppers), Jeff Koons (Lady Gaga) e Jean-Michel Basquiat (The Strokes) são apenas alguns exemplos de renomados artistas plásticos cujas obras encontramos em capas de discos. Algumas dessas obras foram criadas de propósito.
  

Barney Bubbles (trabalho fotográfico de Twangin..., de Dave Edmunds) e Vaughan Oliver (This Mortal Coil) são dois dos nomes sonantes do uso da fotografia artística nas capas de discos. Por vezes acrescenta-se ao trabalho fotográfico a mão de grandes designers como Peter Saville (Roxy Music) e Storm Thorgerson, do grupo Hipgnosis (Led Zeppelin).


Outros recorrem ao desenho e à pintura originais, mas também ao uso de obras clássicas. Das capas aqui incluídas, aprecio especialmente a simplicidade do desenho dos discos dos Muse e de Paul Bley. Por sua vez, a capa do primeiro álbum dos The Stone Roses reproduz uma tela pintada por John Squire, o guitarrista da banda, que se dedicava também à pintura. Neste caso, o expressionismo abstracto de Pollock foi claramente a inspiração.  


O puro grafismo e a cor passaram a ser amplamente usados, sobretudo depois de The Dark Side Of The Moon (Hipgnosis) e de Autobahn dos Kraftwerk (que não é exactamente a da edição original e que uns atribuem a Barney Bubbles e outros a Johann Zambryski). Mas talvez ninguém se tenha destacado tanto nessa estética como Peter Saville, da Factory (Joy Division, OMD, A Certain Ratio). 


Noutras capas são os nomes e os títulos que se destacam, combinados ou não com outros elementos. Pioneira nesta área é a capa do álbum de 1957, de Elvis Presley, mais tarde imitada pelos The Clash e, com algumas variações, por Tom Waits. Outro exemplo marcante é a capa do álbum dos Sex Pistols, de Jamie Reid. Considero muito feliz a combinação da imagem retro a preto e branco com a estética gráfica soviética dos Franz Ferdinand.  


Os retratos e as caras dos artistas também têm dado excelentes capas de discos, como a de Horses, de Patti Smith, fotografada pelo seu amigo Robert Mapplethorpe ou a foto de Irving Penn para Tutu, de Miles Davis. 


Também as imagens das bandas ou grupos têm proporcionado capas notáveis. Destaco em particular as excelentes fotos das capas dos Abba e dos Oasis. E, mais uma vez, as fotografias de Mapplethorpe para a capa dos Television (já agora, Marquee Moon é, na minha opinião, um dos melhores álbuns de rock de sempre). 


Usar imagens de rua ou de exteriores nem sempre resulta, mas todas estas capas são bastante fortes, começando pela memorável travessia da passadeira de Abbey Road (uma obra-prima da música contemporânea, já agora!), continuando com outra obra-prima de David Bowie e terminando com as cinematográficas capas dos Depeche Mode e do último disco de Caroline Polachek.


No psicadelismo procura-se que as as capas sejam uma ilustração visual da música que está lá dentro (uma ressalva para os casos dos Kinks e The Mothers of Invention, cujo psicadelismo vai pouco além das próprias capas). Não sei se isso foi alguma vez conseguido, pois julgo que ninguém conseguiu esclarecer com precisão o que é o psicadelismo. Dizer que se trata da experiência das alterações perceptivas provocadas pelos ácidos, formando uma espécie de caleidoscópio de cores e formas fluídas, inacessíveis à experiência consciente normal, ou algo do género, parece-me pouco esclarecedor. Mas talvez seja mesmo essa a ideia. Em todo o caso, considero que o psicadelismo não deu origem a capas esteticamente muito interessantes. Nem mesmo a histórica capa de Peter Blake para Sargeant Pepper´s me parece esteticamente impressionante. As capas dos Hollies, dos Cream e principalmente dos MGMT, são francamente más. Incluo-as aqui por serem exemplares de discos psicadélicos de referência e não pelos seus méritos estéticos ou artísticos. 


O chamado rock progressivo costuma distinguir-se também pelas imagens das capas. As capas fantásticas de Roger Dean para os Yes são um exemplo disso. Talvez a capa dos ELP (um dos mais vacuamente extravagantes grupos de música progressiva) seja mais facilmente associada a outros estilos musicais, mas mas a arte de H. R. Geiger não deixa de se destacar. E merece também uma referência o trabalho gráfico com um toque humorístico de Breakfast In America, dos Superaramp, concebido por Michael Doud.


Tanto a música gótica como a metálica têm os seus próprios universos temáticos, em que o som, a imagem e as palavras são pensados como partes de um todo coerente. Claro que góticos e metálicos habitam mundos diferentes, mas convergem em alguns aspectos. Estas capas representam diferentes tendências dentro do mesmo universo, mas as capas de Derek Riggs para os Iron Maiden são imediatamente identificáveis.


Para terminar, algumas capas que não se enquadram em nenhuma das categorias acima, mas merecem um destaque especial. E muitas outras poderiam ser referidas, o que dá uma ideia da riqueza artística das capas de discos. É isto que falta aos CD. 

 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

As falsificações de obras de arte são também obras de arte?

Está agora mais acessível o ensaio que escrevi para o livro de homenagem à professora Maria do Carmo d'Orey, publicado em 2023 pela BookBuilders. O livro foi organizado por Vitor Guerreiro (U. Porto), Carlos João Correia (U. Lisboa) e Vítor Moura (U. Minho) e o seu título é Quando Há Arte! O livro tem vários ensaios muito bons sobre os mais diversos aspectos da estética e filosofia da arte, que merecem a leitura de quem se interessa por esta disciplina filosófica.

O meu ensaio intitula-se «Arte e contrafacção: valor estético e estatuto das falsificações» e pode ser lido aqui.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Investigações estéticas de Jerrold Levinson


O leitor português de filosofia, mais precisamente de filosofia da arte e estética, tem finalmente à sua disposição alguns dos principais ensaios do influente filósofo contemporâneo Jerrold Levinson. 

O primeiro ensaio da colectânea Investigações Estéticas: Ensaios de Filosofia da Arte, acabada de publicar pelas Edições Afrontamento, é «Definir historicamente a arte», provavelmente um dos seus ensaios mais discutidos. A definição de arte aí proposta constitui uma alternativa não-essencialista à famosa definição institucional defendida por George Dickie e outros. Ambas as propostas de definição são, de resto, estudadas e discutidas nas aulas de Filosofia do 11.º ano. A tradução deste texto de Levinson pode, por isso, ser de grande utilidade também para professores e estudantes.

Além deste ensaio, que pretende esclarecer o próprio conceito de arte, há outros que procuram responder a perguntas de carácter menos geral, mas sobre questões não menos intrigantes. 

Por que razão reagimos emocionalmente (chorando, por exemplo) a situações que acreditamos serem ficcionais e que, portanto, sabemos não apresentarem (nem representarem) algo que tenha realmente acontecido? 

Por que razão apreciamos obras de arte que despertam, exprimem ou evocam em nós emoções negativas (como a tristeza, por exemplo), as quais geralmente procuramos evitar?

A apreciação musical de obras de larga escala (sinfonias, por exemplo) exige da parte do ouvinte que ele seja capaz de reconhecer o desenvolvimento da estrutura sonora subjacente à obra em causa?

A intenção do autor ao escrever uma dada obra literária é determinante para uma compreensão apropriada do significado dessa obra?

O que é o humor?

Como distinguir arte erótica de pornografia? E há realmente arte pornográfica?

O que significa algo ter valor intrínseco? Haverá experiências ou objectos intrinsecamente valiosos?

O leitor poderá surpreender-se com algumas respostas. Mas poderá confirmar que todas elas são cuidadosamente fundamentadas. Concordar ou não com elas faz parte do desafio que decorre da leitura deste livro.  

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Definições de arte não-essencialistas

Aqui fica um pequeno excerto (incluindo a imagem abaixo) do meu livro A Definição de Arte: O essencial, recentemente publicado na Plátano Editora. Trata-se de uma passagem em que procuro apresentar os traços gerais da abordagem não-essencialista e daquilo que distingue mais claramente as definições não-essencialistas das definições tradicionais (essencialistas).


A reação [ao ceticismo acerca da possibilidade de definir arte] traduziu-se, assim, na procura de uma definição não-essencialista, capaz de identificar as condições necessárias e suficientes da arte. 

Perante isto, poder-se-á perguntar: mas se as condições necessárias e suficientes não referem características essenciais da arte, hão-de referir o quê? Para melhor se compreender as definições não-essencialistas é útil começar por responder a esta pergunta, fazendo algumas comparações.

A primeira diz respeito à questão da função da arte. As definições essencialistas tendem a identificar a essência da arte com a função que a arte é suposto desempenhar, seja ela representar algo, exprimir emoções ou proporcionar satisfação estética. Assim, de acordo com a teoria representacional, a arte tem como função principal representar a realidade, fazendo-nos ver e compreender melhor aspetos do mundo que, sem ela, nos poderiam passar despercebidos; a teoria expressivista, por sua vez, assenta na ideia de que a função da arte é exprimir sentimentos que aproximem as pessoas entre si — na perspetiva de Tolstói — ou que contribuam para nos compreendermos melhor a nós próprios — na perspetiva de Collingwood —; de acordo com a teoria formalista, a arte tem como função criar padrões interessantes capazes de nos proporcionar satisfação estética. Portanto, o mérito artístico de obras de arte particulares depende substancialmente do modo como cada obra satisfaz os critérios funcionais da teoria considerada correta, os quais decorrem, por sua vez, do que se considera ser a essência da arte. Por exemplo, de acordo com a teoria da representação, as melhores obras são as que conseguem representar melhor ou mais fielmente aquilo que está a ser representado. E o mesmo tipo de critério funcional se aplica às restantes teorias tradicionais. Os não-essencialistas admitem, ao invés, que a arte possa ter as mais variadas funções — alargar o conhecimento, exprimir e explorar emoções, proporcionar experiências compensadoras, divertir, proporcionar prazer, ajudar-nos a ser pessoas melhores, comunicar ideias, criticar a sociedade, transformar o mundo, criar coisas belas, valorizar as nossas vidas, ajudar-nos a suportar os males do mundo, etc. — o que torna inútil procurar nos objetos de arte características permanentes supostamente associadas a funções tão diferentes. Até porque uma mesma obra de arte, consideram os não-essencialistas, pode servir diferentes funções, adquirir diferentes significados, admitir diferentes interpretações ou exprimir sentimentos diferentes, consoante o contexto em que ela é produzida ou apreciada.

Dado que os não-essencialistas não esperam que a definição sirva para determinar os méritos ou a qualidade de obras de arte particulares, o que eles procuram é uma definição que permita simplesmente classificar corretamente certos objetos como arte, sem qualquer preocupação de caráter valorativo. Buscam, portanto,  uma definição que seja compatível com a existência de boas e de más obras de arte.

Tudo isto sugere que as condições necessárias e suficientes da arte não dependem das características internas dos objetos. O não-essencialista considera, em contrapartida, que tais condições são relativas ao contexto em que eles estão inseridos e ao modo como tais objetos adquirem o estatuto de obras de arte. Uma metáfora adequada da perspetiva do não-essencialista é a afirmação atribuída ao escritor Jorge Luís Borges sobre a arte de que "nenhuma obra é uma ilha", no sentido em que é preciso procurar fora da obra — mais precisamente no contexto em que ela se encontra —, aquilo que a torna arte. Assim, a pergunta relevante para o não-essencialista não é "Quais são as características de um dado objeto que fazem esse objeto ser uma obra de arte?" mas antes "Como é que um qualquer objeto adquire o estatuto de obra de arte?" A primeira pergunta aponta para as próprias obras de arte ao passo que a segunda aponta para o seu contexto social. Por isso, os próprios defensores do não-essencialismo consideram ajustado o termo "contextualismo" para classificar o tipo de teorias da definição que eles propõem.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Definir arte

O meu pequeno livro sobre a questão filosófica da definição de arte está já à venda e pode ser encomendado aqui. Deixo também um pequeno excerto do prefácio, com a descrição sumária de cada capítulo do livro.


Dada a importância das artes para os seres humanos e dada a sua enorme relevância social, haverá muitas outras pessoas interessadas nas questões da identificação e da natureza da arte, sejam estudantes de vários níveis e áreas, como professores, agentes artísticos ou apreciadores de arte em geral. Este livro também é para essas pessoas, pelo que a linguagem adotada procurou ser acessível, mas não estritamente escolar, de modo a chegar a todos.
Ainda que os artistas não precisem de quaisquer teorias da arte para produzirem obras de arte, todos temos algum tipo de necessidade de compreender o que é isso da arte e como distinguir o que é arte do que não é. Assim, talvez o conhecido artista americano Barnett Newman tenha dito apenas uma parte da verdade quando afirmou que “a estética [ou teoria da arte] está para o artista como a ornitologia está para os pássaros”. Mesmo que os artistas dispensem as teorias, isso não significa que nós não precisemos delas para compreender o que os artistas criam, tal como estudamos ornitologia para conhecer melhor os pássaros, apesar de os próprios pássaros nada aprenderem com isso. 
Este livro está dividido em cinco partes. A primeira trata de esclarecer o problema da definição de arte: Em que consiste o problema? O que torna o problema difícil? Para quê definir arte? Que tipo de definição se pretende? Esta última secção da primeira parte visa apenas dar as ferramentas técnicas para a discussão subsequente. É talvez mais técnica, mas  é também das mais curtas. Em todo o caso, pretende-se que seja relativamente acessível.
Na segunda parte apresentam-se e discutem-se as três principais teorias essencialistas (da representação, da expressão e da forma significante), isto é, as que partem da ideia de que há uma essência da arte e, por isso, visam apresentar uma definição que descreva essa essência. 
Essas definições foram o alvo de uma forte reação cética. Os céticos não só consideram não haver uma essência da arte como afirmam tratar-se de um conceito indefinível. Pensam, contudo, que isso não é dramático, alegando que também não precisamos de uma definição de arte para nada. Este é o tema da terceira parte.
Por sua vez, os céticos foram alvo das críticas dos contextualistas, que insistem que o conceito de arte pode ser definido, embora em termos não-essencialistas. As definições não-essencialistas (institucional e histórica) são discutidas na parte quatro.
Por fim, na quinta parte, aperesentam-se brevemente algumas alternativas à definição, de modo a não se ficar com a ideia que nada mais há além das definições propostas. 

sábado, 9 de julho de 2016

Cabanas inspiradoras

Que tal passar as férias numa cabana, longe das multidões? Tudo indica que as cabanas são lugares de inspiração e de trabalho criativo. A título de exemplo, refiro aqui algumas cabanas nas quais grandes escritores, filósofos e compositores encontraram inspiração.

O enorme compositor GUSTAV MAHLER (1860-1911) compôs a maior parte das suas obras em cabanas, todas elas na região dos Alpes. 

Na cabana de composição de Steinbach, Mahler compôs parte da Segunda Sinfonia (Ressurreição) e todos os seis andamentos da enorme Terceira Sinfonia. Parece que quando o então jovem maestro Bruno Walter foi visitar o compositor a Steinbach parou à porta da cabana para contemplar a bela paisagem do lago rodeado de montanhas. Mahler terá advertido Walter: "Não precisa de ficar para aí especado a olhar. Eu já compus isso tudo!" Estava, nessa altura Mahler a terminar a sua Terceira Sinfonia.

A cabana de Steinbach, na Áustria

Problemas pessoais levaram Mahler a escolher outra cabana: Marienigg. Foi nesta que ele compôs as Quarta, Quinta, Sexta, Sétima e Oitava sinfonias, além dos maravilhosos ciclos de canções Rückert Lieder e Kindertotenlieder (Canções das Crianças Mortas). Parece que Mahler passava dias inteiros de Verão a compor, dando instruções rigorosas para nunca ser incomodado. A própria criada que, pela manhã, costumava deixar algo para comer na cabana, tinha de ir por um caminho diferente para não se cruzarem quando ele se dirigia para o seu trabalho. 

A cabana de Marienigg, também na Áustria

A terceira cabana de composição de Mahler foi a de Toblach, e foi nela que compôs aquela que é talvez a sua mais irresistível obra: A Canção da Terra.

A cabana de Toblach, que actualmente se chama Dobbiaco e fica na Itália

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Outro grande compositor que encontrou inspiração numa cabana foi o norueguês EDVARD GRIEG (1843-1907), compositor das famosas Suites Peer Gynt e de um excelente Concerto para Piano e Orquestra em Lá menor. A cabana situa-se em Troldhaugen, na Noruega.

A cabana de Grieg

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Mas também há cabanas filosóficas famosas, entre as quais a que LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951) construiu na perdida Skjolden, num remoto fiorde da Noruega. Fo aí que Wittgenstein engendrou o que viria a ser o seu famoso Tractatus.

A cabana de Wittgenstein em Skjolden, na Noruega

Actualmente só já se encontram os restos da cabana de Wittgenstein

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Também não podia faltar a cabana de MARTIN HEIDEGGER (1889-1976) na Floresta Negra, refúgio onde o filósofo alemão certamente se inspirou para escrever o seu Caminhos da Floresta.

A cabana de Heidegger em Todtnauberg, na Floresta Negra da Alemanha

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Também são muitos os escritores que procuraram inspiração na solidão das suas cabanas. O irlandês GEORGE BERNARD SHAW (1856-1950) foi um deles. Autor de Um Socialista Insociável, um dos livros que mais me impressionou na minha adolescência, Bernard Shaw foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1926 e foi também um dos fundadores da prestigiada London School of Economics.

Bernard Shaw saindo de Londres, como ele chamava à sua cabana

A cabana de Shaw continua preservada nos nossos dias

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Outra famosa cabana é a da escritora VIRGÍNIA WOOLF (1882-1941), na qual esta destacada figura do Grupo de Bloomsbury (a que também pertenceram vultos como Clive Bell, Roger Fry, John Maynard Keynes) encontrava o recato indispensável para escrever obras como Mrs. Dalloway ou Orlando.

A cabana de Virginia Woolf, junto a um frondoso castanheiro

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O mais importante poeta galês DYLAN THOMAS (1914-1953) também tinha a sua pequena cabana para escrever, junto ao estuário do rio Taf, no País de Gales. O facto de o boémio Dylan Thomas ter morrido alcoolizado com apenas 39 anos de idade poderia fazer pensar numa vida longe da solidão de uma cabana. Mas foi aí que Thomas (a quem, já agora, o jovem Robert Zimmerman, autor de Blowin' in The Wind, pediu emprestado o apelido) encontrou provavelmente inspiração para o poema que celebra o seu trigésimo aniversário e que começa assim:
 
Era o meu trigésimo rumo ao céu 
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto 
E do bosque ao lado, 
E da praia empoçada de mexilhões 
E sacralizada pelas garças, 
O aceno da manhã.

A cabana de Dylan Thomas junto ao estuário do Taf

Dylan Thomas junto à cabana

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O senhor Samuel Langhorne Clemens, conhecido como MARK TWAIN (1835-1910) usou duas e não apenas uma cabana para escrever. É no estado de Nova Iorque que se situa a cabana em que escreveu o seus mais importantes livros: As Aventuras de Huckleberry Finn e As Aventuras de Tom Sawyer.

A cabana de Mark Twain, no estado de Nova Iorque

Twain à janela da cabana

Menos usada foi a cabana do Colorado, mas onde escreveu também alguns ensaios.

A cabana de Twain no Colorado

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Por fim, refira-se a que é talvez a mais emblemática de todas as cabanas, construída com as próprias mãos de HENRY DAVID THOREAU (1817-1862) no Lago Walden (no Massachussets) para aí viver em completo isolamento da sociedade e em total comunhão com a natureza. Foi num terreno junto a esse pequeno lago, cedido pelo seu amigo Ralph Waldo Emerson, que Thoreau quis viver em regime de auto-suficiência e de que resultou a singular obra autobiográfica Walden ou a Vida nos Bosques, na qual declara: 

Fui para os bosques viver de livre vontade, 
Para sugar todo o tutano da vida... 
Para aniquilar tudo o que não era vida, 
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!

Uma réplica da cabana original de Henry Thoreau

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Sem dúvida que, ficcionais ou não, outras distintas cabanas haverá. Poderia referir, por exemplo, a inspiradora Cabana Junto à Praia, entre as dunas e os canaviais, que José Cid parece nunca ter chegado a esclarecer onde fica exactamente.