segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os 100 melhores de sempre?

Um amigo que se considera melómano dizia-me há tempos não ter paciência para a chamada música rock e seus derivados. Parecia-lhe quase toda igual e quase toda primária. Reconheceu haver algumas excepções, como sempre existem, mas que quase tudo o resto que ouvia por aí acidentalmente era pouco mais do que ruído desinteressante.

Para começar, concordei que a maior parte da música que se ouve por aí é desinteressante. Mas também acrescentei que isso não é uma especialidade da música rock. Provavelmente, a maior parte de tudo o que se cria, seja em que área e de que género for, é pouco estimulante: a maior parte dos filmes, das peças de teatro, das esculturas, das pinturas, dos livros, dos concertos são para esquecer. E isso não me parece trágico, por duas razões principais: a primeira é que decorre da própria natureza da criação produzirem-se muitas obras falhadas e sofríveis antes de se conseguir algo notável e duradouro; a segunda é que a quantidade de obras criadas é tanta, que mesmo uma pequena percentagem de casos bem-sucedidos é mais do que suficiente para não termos razões de queixa.  

Também concordo que a maior parte da música rock (mas não só a música rock) se imita a si mesma. Mas já não concordo que não haja diversidade em quantidade suficiente. E também não concordo que ser primária, seja lá isso o que for, tenha de ser um defeito. Não vejo por que razão não poderá haver boa música primária, secundária ou terciária. Há boa música e má música de todas as maneiras e feitios, seja ela simples ou complexa, enérgica ou contemplativa, exigente ou acessível. Por isso, também não consigo descortinar uma boa justificação para a ideia de que apenas certos géneros musicais são dignos de atenção, embora admita que certos géneros musicais mais facilmente esgotam os seus recursos criativos. Seja como for, o que torna a música boa ou má não é certamente o seu género musical.

O meu amigo acabou por me dar o benefício da dúvida e pediu-me para lhe indicar uma boa variedade de discos que o pudessem convencer a ouvir música rock, sem ter de apanhar com todo o entulho musical que por aí circula. Para satisfazer o seu pedido, decidi ir fazendo aos poucos uma lista dos que penso serem os 100 melhores discos da história do rock (nalguns casos são simplesmente os mais representativos de um dado sub-género), procurando dar uma ideia de toda a diversidade de estilos, tendências e influências que se pode encontrar (folk, country, blues, jazz, soul, pop, electrónico, progressivo, alternativo, punk, hard, kraut, etc.). Claro que se voltasse a fazer a lista daqui a uns dias (acabei de fazer agora mais duas alterações), ela já seria diferente, até porque há muitos outros discos excelentes que não couberam nesta. Mas diria que em 90% dos casos não haveria alteração. 

Uma curiosidade: de acordo com esta lista, que exprime a minha avaliação pessoal, os três melhores anos foram os de 1967, 1977 e 1980. Admitem-se, e até se incentivam, discordâncias.

1965
            1.    Bob Dylan, Highway 61 Revisited
            2.    The Beatles, Rubber Soul
            3.    Otis Redding, Otis Blue

1966

            4.    The Beatles, Revolver
        5.    The Beach Boys, Pet Sounds

1967

            6.    The Beatles, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band
            7.    The Velvet Underground and Nico
            8.    The Doors, The Doors
            9.    Leonard Cohen, Songs of Leonard Cohen
           10.  Jimi Hendrix Experience, Are You Experienced?
           11.  The Kinks, Something Else by the Kinks

1968
           12. Van Morrison, Astral Weeks

1969

            13. Fairport Convention, Liege and Lief
            14. The Beatles, Abbey Road
            15. King Crimson, In The Court of the Crimson King
            16. Led Zeppelin, II 
            17. The Flying Burrito Brothers, The Gilded Palace of Sin

1970

            18. Simon and Garfunkel, Bridge Over Troubled Water
            19. Pink Floyd, Atom Heart Mother
            20. Van Der Graaf Generator, H To He Who Am The Only One
            21. Derek & the Dominos, Layla and Other Assorted Love Songs

1971

               22. Joni Mitchell, Blue 
            23. The Rolling Stones, Sticky Fingers
            24. The Who, Who’s Next
            25. David Bowie, Hunky Dory

1972

              26. Can, Ege Bamyasi
           27. David Bowie, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The    
                 Spiders from Mars
           28. Deep Purple, Machine Head
           29. Yes, Fragile
           30. Genesis, Foxtrot
           31. Jethro Tull, Thick as a Brick
           32. Nick Drake, Pink Moon
           33. Lou Reed, Transformer

1973

              34. Frank Zappa, Over-Nite Sensation
           35. Stevie Wonder, Innervisions
           36. Gentle Giant, In a Glass House
           37. Genesis, Selling England by the Pound
           38. Pink Floyd, The Dark Side of the Moon

1974 
           39. Kraftwerk, Autobahn
           40. Tangerine Dream, Phaedra
           41. Electric Light Orchestra, Eldorado

1975

              42. Roxy Music, Siren
           43. Brian Eno, Another Green World
           44. Bruce Springsteen, Born To Run
           45. Patti Smith, Horses

1976
           46. Tom Waits, Small Change

1977

              47. Television, Marquee Moon
           48. Talking Heads, 77
           49. Brian Eno, Before and After Science
           50. Kraftwerk, Trans Europe Express
           51. Sex Pistols, Never Mind the Bollocks
           52. The Clash, The Clash
           53. Ian Dury and The Blockheads, New Boots and Painties

1978
           54. Talking Heads, More Songs About Buildings and Food
           55. Television, Adventure
           56. Patti Smith, Easter
       57. Annette Peacock, X-Dreams
           58.  Blondie, Paralel Lines
           59. The Police, Outlandos D’Amour

1979

                60. The Clash, London Calling
           61. Elvis Costello, Armed Forces
           62. Joe Jackson, Look Sharp!
           63. Nina Hagen Band, Nina Hagen Band
           64. The Durutti Column, The Return of the Durutti Column

1980

                65. The Feelies, Crazy Rythms
           66. Joy Division, Closer
           67. Young Marble Giants, Colossal Youth
           68. Talking Heads, Remain in Light

1981
           69. Romeo Void, It´s a Condition

1982

              70. John Cale, Music For a New Society
           71. Laurie Anderson, Big Science

1984 
72. Echo and The Bunnymen, Ocean Rain
73. Cocteau Twins, Treasure
74. Lloyd Cole and The Commotions, Rattlesnakes

1985

75. Tom Waits, Rain Dogs
76. Prefab Sprout, Steve McQueen
77. The Style Council, Our Favourite Shop
78. The Jesus and Mary Chain, Psychocandy
79. Einsturzende Neubauten, ½ Mensch
80. The Cure, The Head on the Door

1986

              81. David Sylvian, Gone to Earth
           82. The Smiths, The Queen is Dead
   
1987
           83. The Smiths, Strangeways Here We Come

1988
           84. Sonic Youth, Daydream Nation

1989

            85. The Blue Nile, Hats
            86. The Stone Roses, The Stone Roses
            87.  The Young Gods, L’Eau Rouge
            88. Pixies, Doolittle

1992
            89. Rage Against The Machine, Rage Against The Machine


1993
     90. Bjork, Debut

1994
            91. Jeff Buckley, Grace

1995
            92. Blur, The Great Escape

1996
      93. The Divine Comedy, Casanova

1997 
            94. Radiohead, OK Computer
            95. Nick Cave and The Bad Seeds, The Boatman's Call

2001 
      96. The Strokes, Is This It

2003
97. Opeth, Damnation

2010
98. Field Music, Measure

2011 
99. PJ Harvey, Let England Shake


2023 
100. Daft Punk, Random Access Memories (10th Anniversary Edition)

sábado, 21 de julho de 2018

Conhecimento experiencial

Os filósofos distinguem frequentemente três noções de conhecimento: o conhecimento proposicional (o saber que), o conhecimento prático (o saber como) e o conhecimento por contacto.  A investigação e o estudo da generalidade das ciências (humanas ou da natureza) consiste em obter conhecimento proposicional, expresso por meio de frases declarativas.

Isso é diferente do chamado conhecimento prático, mediante o qual se relaciona um sujeito não com uma proposição mas antes com uma dada acção. É o que se passa quando dizemos saber como lidar com situações de grande pressão ou como andar de patins ou como tocar bateria. Este tipo de conhecimento exige sobretudo treino e não envolve as noções de verdadeiro e falso; antes as de correcto e incorrecto.

O conhecimento por contacto tem sido redefinido por alguns autores como conhecimento experiencial, enfatizando-se que quando alguém diz «sei o que é estar apaixonado e não ser correspondido» ou «sei o que é estar desesperado», não se verifica qualquer relação entre um sujeito e uma acção mas entre um sujeito e certo tipo de experiência. Claro que a experiência é, muitas vezes, a de estar num certo lugar, a de conviver com uma dada pessoa ou de ter visto uma determinada coisa.

O psicólogo americano David Kolb considera que, no domínio da aprendizagem, o conhecimento experiencial é o mais significativo. Ele diz haver duas dimensões básicas do processo de aprendizagem: preensão e transformação. 


A preensão inclui, por sua vez, dois modos de aquisição de experiência: a apreensão, que é um modo directo, imediato e concreto de aquisição de experiência e a compreensão, que é um modo indirecto e simbólico de representação da experiência adquirida. 

A transformação também pode ter dois sentidos: a reflexão (introversão) e a acção (extroversão). 

Com base nesta categorização, Kolb diz haver quatro diferentes orientações individuais com vista à aprendizagem:


Poderíamos resumir designando-as simplesmente como a orientação para a espontaneidade, a orientação para a ponderação, a orientação para a teorização e a orientação para a realização (concretização), respectivamente. Isto torna claro que as quatro orientações assentam nas principais características psicológicas ou capacidades individuais de cada um. A aprendizagem consistiria, por sua vez, em transformar essas características ou capacidades em competências operacionais.

Claro que este tipo de aprendizagem (ou de conhecimento experiencial) de modo algum substitui o pedagogicamente tradicional saber que. Por isso, nenhum sistema educativo poderá alguma vez pôr de parte o conhecimento proposicional. Mas o reverso também parece ser verdadeiro: não há conhecimento proposicional que torne dispensável o chamado conhecimento experiencial. 

Assim, cabe perguntar: por que razão a maior parte dos sistemas educativos estão quase totalmente centrados no saber que e, vá lá, um pouco no saber como, mas nada ou quase nada no conhecimento experiencial? 

Depois de pensar um pouco, parece-me que a melhor explicação é que o saber que fica bastante mais barato: não só porque o seu custo é mais baixo mas também porque produz menos desperdício. Será mesmo?   

sábado, 30 de junho de 2018

domingo, 10 de junho de 2018

Conhecimento por contacto e conhecimento por descrição


É suposto os termos "conhecimento por contacto" e "conhecimento por descrição" designarem dois tipos de conhecimento, o primeiro dos quais diz respeito ao conhecimento directo e não inferencial e o segundo ao conhecimento indirecto e inferencial. Esta distinção é geralmente atribuída a Bertrand Russell, como se pode ler nos artigos sobre o assunto da Stanford Encyclopedia of Philosophy e também da Internet Encyclopedia of Philosophy, para dar só dois exemplos. De acordo com o que aí se lê, a distinção foi originalmente introduzida por Russell, num artigo de 1911 precisamente intitulado "Knowledge by acquaintance and knowledge by description", o qual viria, no ano seguinte, a dar origem ao famoso Capítulo 5 de The Problems of Philosophy (Os Problemas da Filosofia). 

Contudo, seria mais justo e rigoroso creditar tal distinção ao psicólogo e filósofo pragmatista William James, que no seu The Principles of Psychology (1890, Vol I), já tinha distinguido claramente dois tipos de conhecimento: knowledge of acquaintance e knowledge-about. 

James começa por sublinhar que muitas práticas linguísticas expressam tal distinção, dando os exemplos do francês, com os verbos connaître e savoir, e do alemão, com os verbos kennen e wissen, mas a que também poderíamos acrescentar o português, com os verbos conhecer e saber, respectivamente. 

No caso do conhecimento por contacto, James refere as pessoas ou coisas acerca das quais sabemos muito pouco, a não ser que já estivemos na sua presença. Ou também os casos das cores e dos sabores, cujo conhecimento não resulta de uma descrição verbal acerca do que sentimos quando experimentamos essas coisas, mas da experiência directa de as sentirmos quando estamos em contacto com elas. É certamente por isso que não se ensina a uma criança o que é a cor vermelha descrevendo-a verbalmente, nem dizendo coisas acerca dela ou do que sentimos acerca dela. A única maneira eficaz de uma criança que não sabe o que é a cor vermelha ficar a sabê-lo é entrar em contacto directo com objectos vermelhos e ter a experiência imediata de os ver. E qualquer pessoa consegue dar-se conta de que está perante algo vermelho, mesmo que seja incapaz de dizer o que faz isso ser vermelho. É por isso, sublinha James, que não se pode partilhar o conhecimento de certas coisas a não ser com quem já tenha tido também contacto directo com elas. Isso aplica-se, por exemplo, ao caso dos cegos de nascença, que são incapazes de saber o que é a cor vermelha, mesmo que lha tentemos descrever da melhor maneira que conseguimos. Mas tudo é bem diferente quanto ao saber-acerca-de (knowledge-about), que decorre de analisar as coisas e descrevê-las verbalmente — e que, portanto, se assemelha muito ao que Russell dirá acerca do conhecimento por descrição. 

James refere que a forma verbal por meio da qual se exprime a tomada de consciência do primeiro tipo de conhecimento é gramaticalmente minimalista, levando-nos a usar simples interjeições – there! voilà! ecco! – ou então meros demonstrativos – it, this, that. Isto é assim, segundo James, porque o knowledge of acquaintance é uma tomada de consciência por meio do sentimento (feeling) — com Russell passará a ser a sensação —, ao passo que o knowledge-about está associado ao pensamento reflexivo (thought). Contudo, James considera não serem tipos de conhecimento opostos, como fica patente quando escreve: "pelos sentimentos entramos em contacto com as coisas, mas só pelos nossos pensamentos sabemos mesmo algo sobre elas. Os sentimentos são a seiva e o ponto de partida da cognição, os pensamentos são a árvore desenvolvida" [through feelings we become acquainted with things, but only by our thoughts do we know about them. Feelings are the gem and starting point of cognition, thoughts the developed tree].

Sem dúvida que Russell afinou esta distinção e lhe deu um tratamento bastante mais preciso e desenvolvido. Mas isso não nos deve impedir de dar o seu a seu dono.


Adenda: Entretanto fiquei a saber que a distinção é ainda anterior a James, como refere Desidério Murcho em comentário a este meu texto. Reforça-se, assim, a ideia de que Russell está longe de ser original no que diz respeito à distinção entre conhecimento por contacto e conhecimento por descrição, ao contrário do que se costuma ler mesmo nos mais respeitáveis livros de filosofia.  
        

sábado, 12 de maio de 2018

Filosofia em banda desenhada


Introdução à Filosofia em Banda Desenhada, com tradução de Vítor Guerreiro, estará nas livrarias ainda este mês de Maio. Aí encontramos uma forma diferente, estimulante e descontraída, de acompanhar o irresistível fluxo de algumas das mais importantes ideias e questões que, desde os alvores do século IV a. C. até aos nossos dias, abastecem o sempre renovado rio da filosofia. 

Pela mão do premiado ilustrador Kevin Cannon e do filósofo Michael Patton, somos convidados para uma aliciante viagem, guiada pelo célebre filósofo Heraclito. Ao longo dessa viagem, o vetusto e sagaz filósofo vai saltando de embarcação em embarcação, atraído pelos grandes debates acerca do nosso conhecimento do mundo, da natureza da mente, da existência de Deus e do livre-arbítrio, sem esquecer a questão da validade dos nossos raciocínios e também a questão valorativa sobre o que torna as nossas acções moralmente boas ou más. À medida que descemos o rio sinuoso da filosofia, deparamo-nos com os seus mais audazes navegadores. Tudo começa com os filósofos ditos pré-socráticos, que primeiro questionaram a mitologia e se perguntaram sobre o mundo ao seu redor, mas não ignora importantes filósofos vivos, como David Chalmers e a sua explicação da consciência. Pelo meio deparamo-nos com gigantes filosóficos como Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Locke, Hume, Kant, Mill e Nietzsche, entre outros.

Um livro para todos, começando pelos amantes de banda desenhada, de filosofia, e sobretudo para quem acredita que as ideias sérias e importantes podem ser apresentadas e discutidas de forma alegre e divertida.