Numa breve passagem por Braga, aproveitei para visitar o Muzeu (sim, com Z), a nova coqueluche cultural da cidade. E não só!
O Muzeu - Pensamento e Arte Contemporânea dst, foi inagurado há poucos meses com alguma pompa e circunstância. Trata-se de uma notável iniciativa privada do colecionador de arte José Teixeira e do seu grupo empresarial, o DST Group, que é uma das maiores empresas de Braga. Li algures que o investimento inicial foi de cerca de 40 milhões de euros e que o orçamento anual é de cerca de 3 milhões.
Como o nome completo indica, não se trata apenas de um museu de arte contemporânea. Também desenvolve outras iniciativas culturais, como apresentações musicais, debates e até tem uma oficina de filosofia para crianças. Daí a referência ao pensamento no próprio nome.
No entanto, apenas posso falar do espaço e das colecções de arte, que foi o que consegui apreciar. Talvez o pensamento aí desenvolvido seja interessante, mas não me senti esclarecido ao ler, na sua página oficial, que o Muzeu «tem como missão a promoção do pensamento crítico e do ativismo social». Nada contra o pensamento crítico, que merece ser desenvolvido. Porém, a promoção do «ativismo social» deixou-me intrigado. Qual é exatamente a ideia?
Claro que depende do que se quer dizer com isso. Mas o que se quer dizer com isso não é claro. Pode haver um sentido fraco de ativismo, mas não muito comum, que consiste em interpelar as pessoas através da arte e de outros meios culturais para o livre exercício do pensamento crítico. Mas não tem sido esse o sentido habitual de «ativismo social». Diria até que muito do ativismo social contemporâneo requer frequentemente a suspensão temporária do pensamento. Em muitos casos isso é útil, eficaz e talvez até necessário. Mas em muitos outros casos não o é. Uma certa dose de dogmatismo é muitas vezes a característica mais saliente de um certo ativismo, tantas vezes incompatível com o debate crítico e com o confronto racional de ideias. Portanto, nem todo o ativismo social é uma boa ideia.
Talvez se esteja a pensar num ativismo de pendor marxista, à maneira de Gramsci, em que o chamado intelectual orgânico usa a cultura, e em particular a arte, como instrumento de transformação social, minando a hegemonia cultural do poder dominante. Se assim for, trata-se de ativismo no sentido ideológico puro e duro. E isso torna-se completamente claro quando lemos o seguinte, a propósito, da visão anunciada: «valorizando a atividade dos artistas e dos intelectuais, seremos um motor da transformação do mundo». Isto poderia ter sido escrito por Gramsci, sem tirar nem pôr. Mas é possível que seja apenas aquele linguajar inconsciente e pseudo-erudito, muito comum entre curadores.
Seja como for, considero lamentável muito do discurso de curadoria e de crítica de arte, tantas vezes destinado ao próprio umbigo de curadores e críticos, sempre em circuito fechado. Imagino que aprendam uns com os outros e que isso resulte numa espécie de discurso automático. Em vez de despertarem o interesse do público para as obras de arte, promovendo a sua apreciação crítica e dando-lhe informação relevante para tal, fazem muitas vezes questão de, com a profusão de referências obscuras, o verbo pastoso e a confusão conceptual, tornar o acesso à arte algo penoso. Basta ver a profusão de referências a Walter Benjamin, Clement Greenberg ou Michel Foucault em textos de curadoria que deveriam destacar diretamente a própria a obra dos artistas sobre os quais escrevem. São quase sempre os mesmos autores, obscuros, de um passado já muito distante da arte contemporânea — Benjamin, por exemplo, praticamente não chegou a conhecer nenhum dos grandes movimentos da arte contemporânea: nem o expressionismo abstrato, nem a pop art, nem o minimalismo, nem a arte conceptual, nem a op art, nem o hiper-realismo, nem o neo-plasticismo, nem tantos outros movimentos e correntes artísticas das últimas décadas. O que têm aqueles seus escritos confusos e algo místicos sobre a relação entre auras e a dita era da reprodutibilidade mecânica de esclarecedor sobre a maior parte das obras de arte contemporâneas? É possível que haja aí alguma intuição interessante. Não descarto isso, claro. Já li e não encontrei, mas admito a minha falta de perspicácia intelectual. Ainda assim, dificilmente se encontra aí algo que justifique uma constante referência a Benjamin, como se ele nos tivesse oferecido a chave conceptual para a compreensão de toda a arte.
Pode ser que o catálogo, a publicar em breve, surpreenda e não se encontre lá esse tipo de discurso automático sugerido nas curtas palavras sobre a visão que orienta o Muzeu.
Quer isto dizer que não vale a pena visitar o museu? Longe disso. É, de facto, um excelente museu de arte. Diria que é mesmo um dos melhores museus de arte contemporânea em Portugal. E sem dúvida que é o melhor museu privado.
Mas como a conversa já vai longa, deixo para o próximo post as minhas impressões sobre as obras que mais gostei de ver neste notável Muzeu. Apresentarei razões para os meus destaques, claro.
