sábado, 12 de setembro de 2026

Uma visita ao Muzeu (II)


Penso que o espaço físico é um aspeto importante de um museu. Já me aconteceu visitar museus e galerias que me deram vontade de apressar o passo, sentindo que uma certa liberdade me foi devolvida ao voltar para a rua. Não é o caso do Muzeu, onde o excelente trabalho de reconstrução do interior do edifício e a atenção aos pequenos detalhes é notável, permitindo-nos deambular livremente sem percursos obrigatórios. Por vezes, há janelas que nos convidam a estender o olhar para o exterior. Além disso, nota-se o cuidado de nunca sermos perturbados pelos equipamentos de apoio nem pelos aspetos funcionais. É agradável circular nos seus espaços amplos, onde as obras expostas não se atropelam e podem ser apreciadas de vários ângulos (há apenas um ou dois recantos com obras que facilmente passam desapercebidas, mas são exceções).

Quanto às obras expostas, não fiquei, de forma alguma, dececionado por não apreciar muitas delas. Isso é normal, até porque considero perfeitamente natural que a maior parte da arte contemporânea seja desinteressante, mesmo quando algumas obras são de prestigiados artistas. Seria, de resto, estranho, que a arte fosse uma exceção, dado que também a maior parte da música, dos filmes, dos livros, são desinteressantes. Claro que há aqui alguma subjetividade, embora a subjetividade não seja tudo. Nada disso é trágico, pois tudo isso faz parte do processo natural de adaptação evolutiva: o pintor, o escritor, o compositor, o cantor, o cineasta, são seres, como qualquer outro, que tentam, erram e insistem, melhorando gradualmente as suas aptidões; não são criadores omniscientes e infalíveis, que fazem o favor de nos revelar a verdade ou a beleza do mundo. Todos estamos a tatear e todos estamos num contínuo processo de tentativa e erro quando produzimos ou criamos algo, o que se aplica também aos médicos, aos professores, aos advogados, aos historiadores e aos biólogos. 

Temos, no entanto, cada vez mais arte, mais música, mais cinema, mais literatura, mais medicina, de modo que o pouco que consideramos interessante acaba por ser, ainda assim, muitíssimo mais do que aquilo que conseguimos apreciar. Não temos, portanto, escassez de boa arte. 

Voltando às obras expostas no Muzeu, o que me impressionou menos positivamente foram as obras de Picasso, Francesco Clemente, Jeff Koons, Nan Golding. Não porque não sejam artistas importantes. Seria arrogância negar que o sejam. Mas, sinceramente, não me vejo visitar mais um museu de arte contemporânea para ver mais um desenho de Picasso no meio de tantas outras obras que reclamam atenção. Compreendo a ideia de conferir um certo prestígio social ao museu com a inclusão de obras destes artistas, mas não deixa de me parecer apenas uma espécie de certificado de garantia popular, sem qualquer conexão com tudo o resto. E quanto a Koons e a Francesco Clemente, apenas temos obras pouco representativas e menos relevantes de artistas inegavelmente relevantes.  

Mas prefiro destacar as obras que realmente gostei de ver e que, em alguns casos, me surpreenderam positivamente.

Vou ignorar as obras de Julian Opie, uma das quais podemos ver já na rua, à saída do Muzeu. Confesso que aprecio o minimalismo figurativo e gráfico de Opie, uma espécie de herdeiro contemporâneo da leveza característica da pop. Mas Opie seria, talvez, um artista previsível.  

Destaco antes Herbert Brandl (que morreu recentemente) e esta sua tela enorme, com mais uma das formas vegetais que costuma pintar, contra um fundo negro e opaco. O contraste da cor com o fundo negro, a sugestão do efeito contraluz e a sugestão de movimento do vegetal são algo magnéticos, pois tudo isso é apenas sugerido de forma simultaneamente subtil e visualmente chamativa.

Por sua vez, este quadro do casal Muntean/Rosenblum (não tenho a certeza de que sejam casados) foi dos que me detiveram durante mais tempo. Não só para ler e interpretar a citação de Don Delillo (vim a descobrir depois) que se encontra na parte inferior, mas sobretudo pelo enquadramento e formato próprios de um velho álbum de fotografias. Isso dá a ideia de um instantâneo quotidiano, com reminiscências cinematográficas. O cenário banal, as cores e o desencontro angustiado das personagens fazem-me pensar numa espécie de pop art existencial, uma designação talvez disparatada. Curiosamente, no dia anterior pude apreciar, em casa de amigos, um quadro deste mesmo casal austríaco-israelita. E também aí somos atraídos para essa banalidade aparentemente simplória, mas serenamente intrigante. 


Cristiano Pintaldi foi outra das agradáveis surpresas. Este acrílico sobre tela cativou-me sobretudo pela sua técnica, a que eu chamaria pontilhismo digital. Em vez dos pontos coloridos das telas de Seurat, descobrimos aqui uma trama tricolor de "pixels" que sucessivamente nos convida a afastar e aproximar para ver melhor. Esse exercício de discriminação percetiva, a que acresce uma espécie de olhar de repórter, permite estabelecer conexões com a trama da fotografia jornalística e, ainda mais, com o congelamento da imagem televisiva.


Outra boa surpresa foram estas três obras de Baltazar Torres, um artista que não se deixa catalogar. Não por falta de personalidade artística, mas antes pela sua capacidade de criar um universo artístico e estético muito próprios. Baltazar Torres cria micro-ficções escultóricas, em que ele próprio é protagonista, plenas de interrogações e de significados. É uma arte ecologicamente especulativa e interventiva, mas que não se deixa capturar pela trivialidade dos clichés ativistas. O seu inegável apelo estético reforça a sua capacidade para interpelar mesmo aqueles que, à partida, parecem não ter o tipo de inquietações ecológicas ali suscitadas. Quer isto dizer que tudo começa pelo apelo estético, para ir muito além disso. De resto, é muito interessante ver como estas três obras individuais dialogam entre si como se fossem apenas uma. Há obras que pedem que nos aproximemos e outras que requerem que nos afastemos delas, para melhor as apreciarmos. Neste caso, temos de nos aproximar, de nos afastar e até de nos misturarmos com elas.

Gostei muito desta tela, já antiga, de René Bértholo. Trata-se de um puzzle visual, entre a figuração e abstração. Também aqui se encontra algo muito comum neste artista: os quadros dentro do quadro. O olhar encontra aqui um alimento cheio de vitamina estética. Um poema visual em forma de quadro, diria eu.


E, claro, falta referir a jóia da coroa: a sala inteiramente dedicada a Anselm Kiefer, um dos mais impactantes artistas das últimas décadas. Ali se encontram várias obras de pintura e de escultura. As duas maiores telas são dois excelentes exemplares da obra de Kiefer. 


Para terminar, vale a pena referir também algumas obras muito interessantes de artistas como João Tabarra, Pedro Croft (nomeadamente uma pequena instalação com espelhos, muitíssimo bem exposta) e de Eduardo Arroyo, entre outros.

Vale muito a pena uma visita, sem dúvida. Apesar de me encontrar na ponta sul do país, voltarei lá um dia.

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