terça-feira, 23 de julho de 2024

Inteligência artificial: aprender sem pensar

O investigador português Pedro Domingos, professor da Universidade de Washington (Seattle), é um dos líderes mundiais em aprendizagem automática (machine learning), uma das áreas de investigação mais importantes da Inteligência Artificial. A sua classificação dos principais modelos de aprendizagem automática tornou-se uma referência para quem precisa de um bom mapa na diversidade de algoritmos-mestres que têm vindo a ser propostos. Eis uma compilação feita por mim, com base no seu interessante, e muito informativo, livro A Revolução do Algoritmo Mestre (Manuscrito Editora).


Vale também muito a pena ouvir a estimulante conversa com o José Maria Pimentel. Trata-se do episódio 149 do seu podcast 45 Graus.



sábado, 20 de julho de 2024

Os valores são arbitrários?

Quando os meus alunos me dizem que qualquer lista de virtudes é arbitrária, peço-lhes para se imaginarem como pais dotados da capacidade singular que lhes permite investir magicamente os seus filhos com o conjunto de traços de personalidade que quiserem. Quando eles se entregam a este exercício empenhados no objectivo de que os seus filhos venham a ser bem-sucedidos e que façam bem as coisas em circunstâncias imprevisíveis, invariavelmente chegam a uma lista de traços de personalidade a maioria dos quais Aristóteles certamente reconheceria. E estes resultados levam-nos, então, a reconsiderar criticamente a noção de que qualquer lista de virtudes é puramente arbitrária ou subjectiva. A experiência mental ficcional funciona argumentativamente, ‘entimemeticamente’, para abanar o seu cepticismo ao mobilizar e reorganizar o conhecimento que já possuem.

                                                                                                                                   Noëll Carroll

quinta-feira, 18 de julho de 2024

A confiança da incompetência

Numa passagem do seu ensaio «O triunfo da estupidez», de 1933, Russell afirmou algo que tem sido bastante citado: 

A causa principal da dificuldade que enfrentamos é que, no mundo moderno, os estúpidos estão cheios de certezas, ao passo que os inteligentes estão cheios de dúvidas.

Esta é uma afirmação de carácter empírico, certamente baseada no que o filósofo vinha observando à sua volta. Poderia, no entanto, não passar de uma impressão enganadora. Mas, graças às experiências entretanto levadas a cabo pelos psicólogos sociais americanos David Dunning e Justin Kruger, sabemos agora que Russell não estava errado. Além de um filósofo de primeira linha, parece que Russell foi também um observador perspicaz. 

A intuição de Russell é a de que aqueles que se mostram mais convictos na defesa de certas ideias (ou seja, os que gritam mais alto e de forma mais convicta) tendem a sobrevalorizar a sua competência na matéria em causa. É precisamente o facto de ignorarem os limites da sua ignorância que os leva a sobrevalorizar o pouco que sabem, julgando ser muito. Ou seja, precisariam de ser suficientemente competentes para reconhecerem a sua incompetência. Pelo contrário, aqueles que conhecem muito bem um dado assunto já são suficientemente competentes para admitirem os seus limites, o que os leva a ser mais cautelosos nas suas afirmações.  

Isso é precisamente o que mostra o chamado efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo que leva as pessoas com competências medianas a confiar demasiado no seu desempenho, autoavaliando-o de modo favorável, ao passo que as pessoas com competências acima da média tendem a avaliar mais severamente o seu desempenho, como se pode ver no gráfico elaborado a partir das experiências realizadas por aqueles dois psicólogos (gráfico adaptado da Wikipédia).  


Isto permite explicar a confiança de algumas pessoas ao insistirem convictamente em meia-dúzia de ideias, acreditando que isso basta para vencerem qualquer debate. E explica, por outro lado, o facto de muitas pessoas que conhecem com profundidade um dado assunto se sentirem frequentemente frustradas — ou mesmo derrotadas — ao debater com quem tem um conhecimento mediano do mesmo. 

    

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A desarmante beleza da música de Silvestrov

Talvez nenhum outro compositor contemporâneo tenha conseguido criar peças musicais tão incontestavelmente belas como o ucraniano Valentin Silvestrov. Um bom exemplo disso é a frágil e tocante beleza de Prece Pela Ucrânia, escrita em 2014, uma peça coral aqui adaptada para orquestra — com interpretação da Bamberg Symphony e os arranjos orquestrais de Eduard Resatsch. 

Tanto o coral original como esta adaptação orquestral são de uma beleza delicada e despojada, que nos resgata de um mundo demasiado ruidoso, como quer o compositor. Uma diferença interessante entre a versão coral original e esta versão orquestral é o uso do vento suave das flautas, soando agora como um suspiro apaziguador que acentua a etérea espacialidade desta prece musical. 

A obra de Silvestrov não receia a beleza da música tonal tradicional. Mas, em vez de se fixar no passado, renova a beleza essencial aí anunciada, como uma essência que, numa espécie de «eco do que já existe», desponta entre o que surge e se desvanece. O próprio compositor descreve a sua obra como «silêncio posto em música».

Silvestrov, nascido em 1937, em Kiev, vive agora em Berlim, refugiado da guerra no seu país. Ainda no tempo da União Soviética, a sua música chegou a ser proibida não só por razões políticas (pronunciou-se contra a invasão da Checoslováquia, em 1968) mas também porque não se conformou à estética oficial soviética do realismo socialista nem à sua alternativa modernista, optando antes por uma via pessoal de pendor neoclássico. Daí que a música de Silvestrov represente também um alívio da exaustão vanguardista para a qual ele próprio chegara a contribuir. A beleza do seu Requiem para Larissa, das suas Canções Silenciosas e, em especial, da sua música coral dificilmente nos deixa indiferentes. 

Bamberg Symphony — Prayer for Ukraine (Valentin Silvestrov)

terça-feira, 4 de junho de 2024

Novas Janelas Para a Filosofia acabadas de abrir

Esgotada há muito a edição de Janelas Para a Filosofia, chegou a altura de as janelas se voltarem a abrir. Agora numa edição substancialmente renovada, com uma organização diferente e novas secções, que ampliam e enriquecem o tratamento dos temas, o livro Novas Janelas para a Filosofia acaba de ser publicado.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Lombadas rebeldes

Vejam-se as lombadas destes livros. Quando olhamos para eles nas estantes das livrarias, temos de ler os títulos das lombadas sempre de cima para baixo, sempre na mesma direcção. Seja qual for a editora, é sempre assim.

Que monotonia! E o pior é que o mesmo se passa com os discos compactos, seja qual for a editora e o género musical.

Vejam-se agora as lombadas dos livros editados em Portugal. 


Pelo menos aqui não temos de inclinar a cabeça sempre para o mesmo lado. E nem sequer depende da editora, pois há livros da mesma editora (e até da mesma colecção) que ora se lêem num sentido ora se lêem no outro. A saudável rebeldia da edição portuguesa até nas lombadas se vê. Haja diversidade!


terça-feira, 16 de abril de 2024

Pensar depressa: edições a eito

Vi ontem numa livraria Pensar Depressa e Devagar com um autocolante na capa a anunciar que se tratava da 14.ª edição do livro de Daniel Kahneman. Pensei para comigo: dado que já tenho uma edição anterior, valerá a pena comprar esta nova edição?

No entanto, pareceu-me muitíssimo improvável que um livro originalmente publicado em 2011 tenha tantas edições, tendo em conta que uma nova edição de um livro já existente é uma nova versão desse livro, ou seja, é uma alteração do conteúdo da edição anterior, seja porque algumas partes foram entretanto reescritas, acrescentadas ou eliminadas. 

Claro que, se houver novas secções ou partes do livro reformuladas, pode valer a pena adquirir a nova edição, mesmo que se possua uma edição anterior. Podemos, por exemplo, querer citar num artigo académico uma passagem desta edição e que não se encontra na edição anterior. E mesmo que esteja em ambas, poderá agora encontrar-se numa página diferente, pelo que, para se poder confirmar se a citação é correta, é relevante indicar se estamos a citar a 4.ª edição ou a 14.ª edição.   

Mas será que se trata realmente da 14.ª edição do livro de Kahneman, como se anuncia no autocolante? Se não for isso, que informação está a ser dada? Talvez se trate simplesmente de mais uma reimpressão. Nesse caso, ficamos a saber também que nada no livro foi alterado, salvo uma ou outra gralha pontual, entretanto detectada. Assim, quem já tem a edição original poderá concluir que estaria a esbanjar dinheiro ao comprar a 14.ª reimpressão.

Bem vistas as coisas, talvez não seja incoerente usar o termo «edições» em vez de «reimpressões» (ou «republicações»), pois esse é, entre nós, o negócio dos editores, ao passo que em Inglaterra, por exemplo, é o negócio dos publishers. Afinal, os portugueses editam ao passo que os ingleses publicam. Sendo assim, parece lógico os portugueses chamarem edições ao que os ingleses chamam republicações (ou reimpressões). Tudo bem, estamos esclarecidos.

Só que... qual é, então, a relevância de anunciar que esta é a 14.ª edição, sabendo nós que se trata exatamente da mesma coisa que encontramos na 4.ª edição? Tal informação serve para quê?

Ah, sim, é para dizer que o livro se tem vendido muito e que, portanto, há boas razões para aqueles que ainda não o compraram o comprem agora. Tudo bem, afinal é só publicidade.

Só que... é bom que não se trate de publicidade enganosa. E ela corre o risco de ser enganosa se não se indicar algures qual a tiragem de cada reimpressão. Basta pensar que um livro com apenas uma impressão de dez mil exemplares pode vender mais do que outro com dez reimpressões de oitocentos exemplares. Assim, pode-se anunciar que o livro já tem cinco, dez ou quinze «edições» e, no entanto, ele não vender assim tanto. Portanto, nenhuma informação relevante nos estará a ser dada quando apenas se anuncia que é a 14.ª «edição» do livro. Seria mais correcto dizerem quantos exemplares já foram vendidos. Mas, ao que parece, há quem não queira saber de números mas se impressione com tanta «edição».

 

domingo, 24 de março de 2024

Quando há arte!

Foi com muito gosto que contribuí para o livro de homenagem à saudosa professora Carmo d'Orey, uma das pessoas com quem mais aprendi a reflectir sobre a arte e cuja obra A Exemplificação na Arte é, apesar do seu subtítulo, muito mais do que um estudo sobre Nelson Goodman, com quem ela também trabalhou. Trata-se, em minha opinião, de uma das mais relevantes obras de filosofia da arte jamais escritas em português: pelo inigualável rigor filosófico, pela sua abrangência e pela enorme familiaridade com os diferentes universos da arte. Diria mesmo que, naquelas novecentas páginas, não se encontra um único parágrafo dispensável. 

O livro de homenagem à professora Carmo d'Orey foi organizado por Vítor Guerreiro (U. Porto), Carlos João Correia (U. Lisboa) e Vítor Moura (U. Minho). Conta com dezasseis ensaios, incluindo o meu. Mas todos eles escritos por autores bem mais credenciados do que eu. 

sábado, 23 de março de 2024

Três livros actuais, para pensar e discutir

Há tempos, numa conversa sobre livros com amigos, referi alguns que gostaria de ver traduzidos para português. Felizmente, três deles acabaram mesmo por ser publicados em Portugal.

A Física e as Grandes Questões da Vida, o mais recente livro da física teórica alemã Sabine Hossenfelder é talvez o melhor que li nos últimos tempos. Hossenfelder é uma cientista invulgar. Desemproada e destemida entre os grandes nomes da física contemporânea, Hossenfelder considera que muitos deles acabam por se enredar em confusões conceptuais que um pouco de treino filosófico poderia ajudar a evitar. Mas ela é também muito popular no YouTube, onde tem um dos mais populares canais sobre ciência, além de mostrar a sua faceta de cantora e produtora de música pop electrónica. A sua investigação centra-se nos fundamentos da física e da mecânica quântica. Porém, A Física e as Grandes Questões da Vida não é uma obra de divulgação científica. E também não se destina a um público especializado. É sobretudo um livro de filosofia: trata das questões filosóficas fundamentais com que os físicos teóricos são frequentemente confrontados, as quais se situam nas fronteiras da ciência e da filosofia. São questões como: O que causou o Universo? O que é o tempo? Há lugar para o livre-arbítrio? A consciência é computável? O que somos e de que somos feitos? Há limites para o conhecimento? Hossenfelder procura, de forma desapaixonada e com um subtil mas incisivo toque de humor, mostrar até onde o melhor conhecimento científico disponível nos permite ir na resposta para tais perguntas. Ao fazê-lo, também nos permite compreender melhor os mais recentes desenvolvimentos da física.  


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A Matéria de Que Somos Feitos é a tradução de Material Girls, um dos mais discutidos livros dos últimos tempos no Reino Unido. Foi este livro, algo atípico na produção filosófica de Kathleen Stock, que a tornou amplamente conhecida e que também acabou por a afastar irremediável e definitivamente da Universidade de Sussex, onde fora professora de filosofia da arte. Tudo começou com uma conferência que a autora fora convidada a proferir sobre os conceitos de sexo e género. As reações foram de tal ordem, que decidiu escrever este livro para explicar e defender de forma mais completa e robusta a sua posição de que uma mulher transgénero não é uma mulher e que um homem transgénero não é um homem, não havendo maneira de um homem passar a ser uma mulher nem de uma mulher passar a ser um homem. Apresentou também razões contra a partilha de casas de banho por pessoas de sexos diferentes. A tese central do livro é que o sexo de uma pessoa não é uma questão subjectiva e que isso não pode deixar de depender da matéria biológica de que cada um de nós é feito. Apesar de não ser uma tese particularmente inovadora, o livro gerou uma feroz contestação, sobretudo nos campus universitários ingleses. Foram realizadas manifestações públicas para tentar silenciar Stock onde quer que fosse convidada a apresentar e discutir publicamente as suas ideias. A contestação acabou por levar Stock a abandonar a sua promissora carreira académica, fruto da hostilidade do próprio corpo docente da Universidade de Sussex. Tudo isto parece muito estranho, dado que Stock não tem sido a única a defender as mesmas teses. Porém, há duas características que fazem dela uma caso especial e que a tornam especialmente «perigosa» aos olhos dos seus censores: uma delas prende-se com o facto de Stock ser uma mulher lésbica, casada com outra mulher; a segunda, e talvez mais difícil de digerir, reside no rigor analítico e na clareza da sua argumentação filosófica, solidamente apoiada pelos dados empíricos disponíveis. Trata-se, além do mais, de um excelente exemplo da melhor prática filosófica e de como a filosofia pode ser útil para nos ajudar a compreender melhor o mundo.   


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O último livro de Susan Neiman é uma espécie de alerta sobre a crescente descaracterização da esquerda levada a cabo pelo chamado activismo woke. A Esquerda Não é Woke começa por expor os princípios fundamentais que historicamente têm caracterizado a esquerda e, de seguida, mostrar que o wokismo, apesar de se reclamar de esquerda, viola claramente tais princípios. Segundo Neiman, a esquerda liberal herdou do Iluminismo os seus três princípios políticos fundamentais: o universalismo, por oposição ao particularismo divisionista; a distinção entre poder e justiça, contra a ideia de que a justiça é sempre a razão do mais forte; a crença no progresso social, rejeitando a ideia de que a finalidade de qualquer luta é uma luta pelo poder e nada mais. Neiman procura mostrar que o wokismo é incompatível com esses três princípios ou teses, ao mesmo tempo que identifica a origem de tal degeneração. Neiman concede que o wokismo parte de uma genuína preocupação com aqueles que, ao longo da história, têm sido mais maltratados e desprezados. Contudo, tal preocupação acabou, segundo ela, por ser instrumentalizada e capturada por ideias irracionalistas que pouco ou nada têm que ver com a defesa dos mais fracos e humilhados. Trata-se das ideias de pensadores como Foucault, Carl Schmitt, Heidegger e outros que, apostados em ajustar contas com a história, eram motivados sobretudo pelo combate aos ideais iluministas da racionalidade, da universalidade e do progresso da humanidade. Assim, o wokismo resulta de motivações justas, mas instrumentalizadas por propostas teóricas reacionárias e iliberais. O activismo woke acaba, assim, por ser um subproduto corrompido da esquerda. Não é essa, pois, a esquerda liberal e progressista em que Neiman se reconhece. Até aqui, tudo bem. Mas o problema do raciocínio de Neiman é que o seu ponto de partida não é claro: a esquerda é apenas um conjunto de princípios teóricos ou inclui também as reivindicações concretas dos que actuam em nome dela? Se a prática concreta também for relevante para caracterizar a esquerda, então deixa de ser rigoroso afirmar que a esquerda não é woke. Os termos usados para caracterizar a esquerda não devem, de resto, ser diferentes dos termos usados para caracterizar a direita, pelo que se a prática não contar para um lado, então também não deve contar para o outro. Qual é, então, a verdadeira esquerda? É a esquerda dos princípios, isto é, a tal esquerda ideal? Ou será a dos que, na prática, agem politicamente em nome da esquerda, isto é, a esquerda real? Ou será uma combinação de ambas? Claro que a esquerda que interessa a Neiman é a esquerda dos princípios, que ela designa de esquerda liberal. Mas, nesse caso, o título do livro é enganador, dado que apenas alguma esquerda não é woke.