segunda-feira, 15 de maio de 2017

Como avaliar um interpretação musical sem saber música?

Quem o diz é a Musical America Awards, o que certamente quer dizer algo, mas não tanto como o que se pode ver e ouvir aqui, em que a jovem chinesa Yuja Wang interpreta o magnético segundo andamento (Adagio) do Concerto para Piano em Sol, de Ravel.


Como decidem aqueles que, como eu, não são músicos, nem musicólogos — nem sequer lêem partituras — se esta interpretação é melhor ou pior do que outras da mesma obra? Não estão autorizados a decidir seja o que for sem tais conhecimentos técnicos?

Claro que estão! Muito ficaria por explicar sobre a fruição musical e sobre a própria natureza da música se as únicas opiniões respeitáveis fossem as dos especialistas com formação musical avançada. Como alguém dizia, não é preciso ser capaz de pôr ovos para saber apreciar o seu sabor. E, para se estar apto a apreciá-los, também não é preciso conhecer a constituição molecular dos ovos. Sem dúvida que conhecer a constituição molecular dos ovos pode ajudar a explicar por que razão os ovos têm o sabor característico que têm. Mas explicar uma coisa é diferente de justificar um juízo de valor sobre essa coisa.

Porém, daí não se segue que todos os juízos de valor sobre uma dada interpretação musical se equivalham. E também não se segue que o conhecimento técnico especializado não ajude a iluminar certos aspectos que explicam por que razão apreciamos mais umas coisas do que outras. O facto de esse conhecimento técnico não ser condição necessária não significa que não possa ser conhecimento útil. Na verdade, quando fazemos um juízo de valor acerca de uma dada interpretação musical, há normalmente algum conhecimento prévio implícito na justificação que apresentamos. Nem que seja o conhecimento de outros casos semelhantes com os quais comparamos, mesmo que inconscientemente, a interpretação que estamos a avaliar.

Mas, com que critério (ou critérios) uma pessoa sem uma sólida formação musical avalia uma dada interpretação?

A minha sugestão é que, se essa pessoa tem alguma cultura musical (ex: ouve regularmente o tipo de música em causa ou essa obra em particular, interessa-se pelo que ouve e tentar perceber porquê, tem algum conhecimento do contexto artístico em que a obra foi criada, etc.), mas não tem conhecimentos técnicos avançados, então ela tem tendência para tomar como modelo, ou referência, a interpretação que pela primeira vez a despertou (dado que muitas vezes ouvimos algo sem prestarmos verdadeiramente atenção).

Esta minha sugestão nada tem de filosófico. É apenas uma hipótese empírica baseada na minha observação. Vejo isso repetidamente no meu caso. A primeira vez que me detive a ouvir este concerto de Ravel foi numa interpretação de Arturo Benedetti Michelangeli ao piano. A partir daí, e após repetidas audições dessa interpretação, todas as outras interpretações que ouço são mentalmente contrastadas com ela, como se ela fosse a matriz pela qual as outras vão ser avaliadas. E não é fácil evitar isso.

Mesmo assim, dei por mim a pensar que esta interpretação de Yuja Wang não tem a impessoalidade que imagino ao ouvir Michelangeli (impessoalidade no sentido de ser capaz de imaginar os sons de cada nota do piano como se estivessem a ecoar directamente da natureza e não de um agente humano), mas noto a agradável presença de alguém que, ao percorrer o teclado do piano, se deixa envolver com ele. O que me agrada de maneira diferente.

É muita imaginação minha? Certamente. Mas não é principalmente para isso que a música serve?

sábado, 29 de abril de 2017

Deus, o Universo e tudo o que existe



PEDRO: Parou de chover, graças a Deus.

HELOÍSA: Qual deus?

PEDRO: O único, o Deus criador.

HELOÍSA: Criador de quê?

PEDRO: Ora, criador de tudo!

HELOÍSA: Mas tudo é muita coisa.

PEDRO: Pois é. Por isso é que Deus é único, em muitos aspectos, incluindo quanto ao seu ilimitado poder. Foi com esse poder que criou tudo quanto existe. Assim, ele é o criador tanto do que se vê como do que existe mesmo sem se poder ver.

HELOÍSA: Vejo os sapatos que tenho calçados. Foi Deus que os criou? Consigo ver a Torre Eiffel. Foi Deus que a criou? E não consigo ver, mas sou capaz de ouvir, a Quinta Sinfonia de Beethoven. Afinal o seu criador foi Deus e não Beethoven?

PEDRO: Estou a ver que estás a interpretar "tudo quanto existe" de uma forma algo diferente do que se pretende. Não devemos fazer caricaturas.

HELOÍSA: Como devo interpretar, então, essa expressão?

PEDRO: Ok, talvez seja mais adequado dizer antes que Deus é o criador do Universo. Compreendes agora o que queria dizer?

HELOÍSA: Mas consultei um vulgar dicionário de português e lá diz que o Universo é tudo o que existe. Ora isso inclui na mesma os meus sapatos, a Torre Eiffel e a Quinta Sinfonia de Beethoven, pelo que não encontro diferença.

PEDRO: Estou a ver a tua dificuldade. Mas, em certo sentido, é correcto dizer que Deus criou os teus sapatos, a Torre Eiffel e a Quinta Sinfonia de Beethoven.

HELOÍSA: Em certo sentido? Que sentido é esse?

PEDRO: No sentido em que ele é a causa primeira do Universo e que, portanto, é indirectamente a causa de tudo o resto. Sem ele, os teus sapatos, a Torre Eiffel e a Quinta Sinfonia de Beethoven não poderiam sequer existir.

HELOÍSA: Estou a ver. Nesse mesmo sentido, é também correcto dizer que a minha bisavó materna, que nem a própria filha chegou a conhecer, criou o desenho que acabei mesmo agora de fazer. E os antepassados dos trabalhadores da fábrica de calçado onde estes sapatos foram criados também foram, indirectamente, criadores dos sapatos. E, quem sabe, talvez mesmo D. Afonso Henriques tenha sido também um dos criadores indirectos destes sapatos. E, já agora, não seria totalmente disparatado dizer que, a terem existido realmente, talvez Adão e Eva sejam criadores indirectos da Torre Eiffel e da Quinta Sinfonia de Beethoven.

PEDRO: Por favor, nada de caricaturas!

HELOÍSA: Limito-me a seguir o teu raciocínio. Aliás, de acordo com ele, quanto mais antiga for uma pessoa e quanto mais descendência tiver deixado, mais coisas essa pessoa criou, ainda que indirectamente. E daí chegamos a Deus, o primeiro de todos, que desencadeou todas as criações que conhecemos.

PEDRO: Calma aí! Não estás certamente a levar em conta um poder que apenas Deus tem.

HELOÍSA: Que poder é esse?

PEDRO: É o poder de, a todo o momento saber tudo o que se passa no mundo e de, a todo o momento, intervir para que umas coisas aconteçam e outras não cheguem a acontecer.

HELOÍSA: Estou a ver, os meus sapatos existem porque, de alguma maneira misteriosa para nós, foi Deus que quis que eles existissem.

PEDRO: Mais ou menos isso. E também que foi Deus que inspirou Eiffel a projectar a torre que se encontra em Paris e inspirou Beethoven a descobrir aquela estrutura sonora que constitui a Quinta Sinfonia. E dizemos que a sinfonia é de Beethoven apenas porque Beethoven nos parece a causa mais próxima. Também dizemos que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, quando havia pessoas que já lá estavam antes disso. Não nos devemos deixar levar pela maneira como frequentemente falamos, que nem sempre tem de ser precisa.

HELOÍSA: Percebo. Estás no fundo a referir aquilo a que outros chamam simplesmente inspiração, sem precisar de meter Deus na conversa. Só que, além de isto me parecer muito pouco, deixa-me algo intrigada.

PEDRO: Com o quê?

HELOÍSA: Imagina a quantidade de disparates produzidos por seres humanos, do lixo às armas nucleares, de obras que agridem outros seres humanos e a Natureza a obras que supostamente insultam o próprio Deus. Será também Deus o inspirador e criador indirecto dessas coisas?

PEDRO: Nunca ouviste dizer que essas coisas manifestamente más, feitas exclusivamente por seres humanos, resultam de uma coisa em si mesma boa, que nos foi concedida por Deus?

HELOÍSA: Estás a falar de quê?

PEDRO: Estou a falar do livre-arbítrio, claro. Se Deus interviesse em rigorosamente tudo o que fazemos, não deixaria lugar para o nosso livre-arbítrio, que é uma coisa boa, embora muitas vezes a apliquemos mal.

HELOÍSA: Nesse caso o que defendeste atrás de nada serve, pois Deus não é, afinal o criador de tudo quanto existe — ou, se preferires, do Universo, que vai dar ao mesmo.

PEDRO: Bom, talvez não vá dar ao mesmo. Reconheço que tenho de precisar melhor o que se entende por "Universo".

HELOÍSA: Mas não tínhamos dito que o Universo é tudo quanto existe?

PEDRO: Sim, mas não fomos suficientemente precisos.

HELOÍSA: Então?

PEDRO: O Universo não é tudo o que existe mas antes o lugar onde tudo existe.

HELOÍSA: Ah, mas isso já é outra coisa. Confirmas, então, que de nada serviu grande parte da nossa conversa anterior.

PEDRO: Bem, às vezes temos de começar por ideias imprecisas para chegar a bom porto. Aprende-se sempre algo pelo caminho, mesmo que este dê voltas estranhas.

HELOÍSA: Podemos, então resumir o que tens estado a dizer em duas frases: 1) Deus é criador do Universo e 2) O Universo é o lugar onde tudo existe.

PEDRO: Certíssimo.

HELOÍSA: Logo, Deus não é criador de tudo quanto existe.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Frederico Lourenço sobre Atenas e Jerusalém


Quem se encontrava em Portimão na sexta-feira passada, teve a sorte de poder de assistir, no confortável auditório do Museu Municipal, à excelente conferência de Frederico Lourenço intitulada "Bíblia, História e Filosofia". 

Não será exagero afirmar que tanto os crentes como os não-crentes na mensagem bíblica, tiveram a oportunidade de descobrir muitos aspectos interessantes, e até então ocultos, para quem nunca teve a possibilidade de ler as palavras do Novo Testamento no original grego. Com o seu gigantesco trabalho de tradução, Frederico Lourenço tem prestado um inestimável serviço a todos os que não desistem de compreender a verdadeira mensagem dessa obra marcante da história da humanidade, sem deixar de nos permitir apreciar o seu real valor literário. 

A tradução de Frederico Lourenço do Novo Testamento não está comprometida com qualquer tipo de abordagem ou interpretação, procurando apenas aproximar-nos tanto quanto possível das palavras originais e deixando em aberto as mais variadas interpretações, sejam elas teológicas, filosóficas ou estritamente históricas. Dado que as abordagens essencialmente teológicas têm sido largamente difundidas, Frederico Lourenço apresentou na sua conferência várias ideias que podem orientar uma leitura histórica e filosófica.

Entre os muitos aspectos interessantes, refiro aqui apenas um. Talvez poucas pessoas saibam que, em toda a Bíblia, a palavra "filosofia" ocorre apenas uma vez e que a palavra "filósofos" ocorre também uma só vez. Em ambas as ocorrências fica bem patente o quanto Atenas e Jerusalém estavam inicialmente de costas voltadas, como refere Frederico Lourenço numa das suas numerosas e sempre instrutivas notas, citando o pensador cristão do século II, Tertuliano.    

A palavra "filósofos" ocorre em Actos dos Apóstolos (17:18), escrito pelo evangelista Lucas, a propósito da visita de Paulo a Atenas. E diz-se mesmo que filósofos são esses: os epicuristas e estoicos. O que não é de estranhar, dada a influência destas duas escolas filosóficas durante boa parte do chamado período helenístico. Neste caso, o que ficamos a saber é que o ambiente intelectual em Atenas era adverso à mensagem cristã e que esses filósofos encaravam Paulo como um fala-barato. A palavra surge na seguinte passagem.

    Quando os judeus de Tessalónica souberam que também em Bereia a palavra de Deus fora anunciada por Paulo, para lá se dirigiram, provocando e agitando as multidões. De imediato, os irmãos mandaram Paulo em direção ao mar; Silas e Timóteo ficaram lá. Os acompanhantes levaram Paulo a Atenas e, tendo recebido a incumbência de transmitir a Silas e a Timóteo que fossem ter com Paulo o mais rapidamente possível, regressaram. 
    Estando Paulo em Atenas à espera deles, irritava-se-lhe o espírito ao ver quão idólatra era a cidade. Discutia na sinagoga com os judeus e com os que veneravam a Deus,  assim como diariamente na praça pública com quem ele lá encontrava.
    Alguns filósofos epicuristas e estoicos conversavam com ele. Uns diziam: "O que queria dizer este fala-barato?" Outros diziam: "Parece ser um pregoeiro de divindades estranhas." Isto porque Paulo anunciava a boa-nova de Jesus e da ressurreição. Levando-o com eles até ao Areópago, dizem-lhe: "Podemos saber que nova doutrina é esta, por ti falada?" Pois lanças ideias estranhas contra os nossos ouvidos. Queremos saber, portanto, o que isto pretende ser." Todos os atenienses e os estrangeiros residentes em Atenas noutra coisa não se alegravam que não fosse dizer ou ouvir algo de novo.
  Paulo, de pé no meio do Areópago, disse: "Homens atenienses! Em tudo eu vejo que sois muito religiosos. Percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar no qual fora escrito:
    A um desconhecido deus.
   Aquilo que, desconhecedores, venerais, é isso que eu vos anuncio.
Actos dos Apóstolos, 17:12-23

Frederico Lourenço adverte-nos, num texto que entretanto escreveu, que o autor dos Actos dos Apóstolos nunca leu sequer uma linha das cartas de Paulo. Ainda assim, a passagem não deixa de fazer jus à fama de Paulo como orador impressionantemente sagaz e persuasivo — um aspecto que também impressionou Frederico Lourenço, como sublinhou na sua conferência. Veja-se como, nesta passagem, Lucas relata a resposta de Paulo a quem acusa o apóstolo de ser fala-barato. Paulo inverte inteligentemente a direcção da acusação ao sugerir que os idólatras são os atenienses, e que é  precisamente ele, Paulo, quem os convida a não serem tão idólatras e a venerarem o deus que já eles mesmos pressentiam, sem o saber nomear: o desconhecido deus.  

Quanto à palavra "filosofia", ela ocorre na Carta aos Colossenses (2:8), cuja autoria, por vezes atribuída a Paulo, permanece muito duvidosa, como esclarece Frederico Lourenço na sua introdução a esta epístola. Também aqui encontramos um contexto acusatório. Mas a acusada é agora a filosofia, cujo "discurso convincente" leva ao "logro" e não à verdade. Esta surge da autoridade da palavra de Cristo e não da tradição filosófica. A passagem é a seguinte.

    Quero que saibais quão grande é a luta que travo por vós e por aqueles na Laodiceia, e por quantos não viram o meu rosto em carne, para que os seus corações fiquem encorajados, tendo sido ligados em amor e para toda a riqueza da abundante convicção do entendimento, para conhecimento do mistério de Deus, que é Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.
   Digo isto, para que ninguém vos iluda com um discurso convincente. Se estou ausente pela carne, por outro lado estou convosco pelo espírito, alegrando-me e observando a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo. 
   Por conseguinte, tal como recebestes de Cristo Jesus, o Senhor, caminhai nele, enraizados e edificados nele, fortalecidos na fé, tal como fostes ensinados, abundando em ação de graças. Vede para que ninguém seja vosso captor através da filosofia e do logro vazio segundo a tradição dos homens, segundo os princípios do mundo e não os de Cristo. Pois nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente, e nele sois plenos — ele que é a cabeça de todo o poder e autoridade.   
                                                                                                     Carta aos Colossenses, 2:1-10 

Mas ainda que a filosofia e o cristianismo primitivo estivessem de costas voltadas, a união entre Atenas e Jerusalém não deixou de se tornar um dos mais marcantes factos históricos do chamado mundo ocidental. Há quem diga que pertencemos a uma civilização de matriz judaico-cristã e há quem prefira dizer que se trata de uma matriz greco-romana. Talvez não fosse menos adequado falar antes de uma matriz greco-cristã.

Este foi apenas um pequeno apontamento entre tantas reflexões que a conferência de Frederico Lourenço despertou em quem teve a sorte de o ouvir. Resta-nos agradecer mais uma vez e esperar que volte em breve.


Aspecto do auditório um pouco antes do início da conferência



domingo, 16 de abril de 2017

Filósofos, boas pessoas e disparates


Certo dia, um conhecido filósofo americano, eu e uma amiga candidata a filósofa fomos a uma espécie de café-concerto de fim de tarde no CCB onde a cantora de jazz Maria Viana actuava com a sua banda. À saída, decidimos ir aos pastéis de Belém, ali ao pé. Estávamos prestes a aviar a primeira dose de calorias quando a candidata a filósofa se vira para o filósofo e pergunta:

— Acha que os filósofos são melhores pessoas do que a maior parte das outras pessoas?
— Por que razão haveriam de o ser? — retorquiu o filósofo.
— Precisamente por serem filósofos. Estão melhor apetrechados do que ninguém para discernir o que é bom e distinguir o certo do errado — esclareceu ela.
— Estou a ver. Ainda assim, acho que não — respondeu o filósofo, depois de parar um pouco para pensar. — Na verdade,  digo isto com base apenas nos indícios que a minha experiência pessoal me parece mostrar — acrescentou.

Claro que se a candidata a filósofa tivesse perguntado a Sócrates, este teria respondido que sim. É bem conhecida a perspectiva socrática de que a virtude é conhecimento e que, portanto, a ignorância é a fonte do erro. Ora, se a filosofia for, como pensam tantos filósofos, a procura do conhecimento, então dedicarmos-nos à filosofia equivale a tornarmo-nos pessoas virtuosas. E mesmo que os filósofos não consigam obter o conhecimento que procuram, esforçam-se por isso mais do que quaisquer outras pessoas, pelo que se esforçam mais do que as outras por ser pessoas virtuosas. E é, no mínimo, expectável que as pessoas que mais se esforçam por ser virtuosas e que mais motivadas estão para o serem, acabem também por ser mais virtuosas. Assim, infere-se socraticamente que os filósofos são, em geral, melhores pessoas do que as outras pessoas.

Para que lado penderá a verdade? Será o argumento a priori de Sócrates mais convincente do que os indícios empíricos referidos pelo filósofo americano? Sócrates poderia descartar tais indícios alegando que não são acerca de verdadeiros filósofos. Mas o filósofo americano poderia alegar, como Hume, que a razão, embora o possa mostrar, não motiva necessariamente para o bem. E poderia exemplificar com alguns dos nomes mais sonantes da história da filosofia, que foram reconhecidamente más pessoas: Jean-Jacques Rousseau (um traste ingrato, mesmo com aqueles que mais o ajudaram nas horas difíceis), Wittgenstein (para quem os outros eram sempre um incómodo), Heidegger (para quem parecia haver seres superiores e inferiores consoante a sua origem). E muitos outros exemplos poderiam ser dados, incluindo de filósofos actuais. Colin McGinn refere o caso do filósofo da mente britânico Christopher Peacocke, capaz de passar por cima dos seus colegas para atingir os seus objectivos pessoais.

Seja como for, o raciocínio subjacente à pergunta da minha amiga candidata a filósofa é amplamente partilhado. Pode ser que os filósofos sejam, em princípio, melhores pessoas do que as outras e que talvez Rousseau, Wittgenstein, Heidegger ou Peacocke tivessem sido ainda piores pessoas caso não tivessem abraçado a reflexão filosófica.

Entretanto, lembrei-me do post anterior e ocorreu-me perguntar se o tipo de raciocínio socrático aqui apresentado não poderia servir também para concluir que os filósofos — pelo menos os melhores — dificilmente poderiam defender ideias disparatadas.

Sem dúvida que há aqui uma dificuldade acrescida, pois aquele que defende uma dada ideia nunca irá concordar que se trata de um disparate, por muito disparatada que ela pareça a outros. Por exemplo, o brilhante filósofo Alvin Plantinga defende a ideia de que Deus é uma pessoa em três, isto é, que a pessoa do pai, a pessoa do seu próprio filho e a pessoa do Espírito Santo são, real e literalmente, uma só pessoa. Em suma, a ideia é que, no caso do dogma da trindade, 1=3. Dizer a Plantinga — e, já agora, a outros brilhantes filósofos antes dele — que isso não passa de um disparate seria, em sua opinião, completamente disparatado. E seria também disparatado pensar que um filósofo com os pergaminhos de Plantinga não dispõe de razões para defender tal ideia.

Assim, se uma ideia disparatada fosse uma ideia em defesa da qual não são apresentadas razões, então praticamente não haveria ideias filosóficas disparatadas e este qualificativo não faria qualquer sentido neste contexto. Contudo, julgo não ser descabido considerar disparatadas as ideias de Schopenhauer ou de Nietzsche acerca da suposta natureza das mulheres, mesmo que disponham de algum tipo de justificação nesse sentido.

Num sentido fraco, mas que também é mais do que uma mera força de expressão, parece-me razoável qualificar como disparatadas certas ideias ou teorias defendidas por filósofos. Estou a pensar em teorias com um carácter notoriamente instrumental e cuja plausibilidade é reconhecida apenas por quem as aceitaria sem precisar de razões. Por exemplo, parece-me disparatado defender que os direitos das pessoas dependem da sua origem ou etnia; que os homens são moralmente superiores às mulheres; que há anjos; que não há um mundo exterior. Em contrapartida, nem o mais inflexível defensor da ética kantiana considera o utilitarismo uma teoria disparatada — e vice-versa — apesar de estarem aqui em confronto ideias bem diferentes.   

Penso, pois, que mesmo os melhores filósofos podem defender teorias ou ideias disparatadas e que um bom exemplo disso talvez seja Alvin Plantinga. Tive em tempos a oportunidade de estudar o seu livro The Nature of Necessity (1974), e confesso que fiquei impressionado com o seu brilhantismo filosófico. E, embora o tema central do livro seja a modalidade, não deixa de incluir alguma da mais rigorosa e sofisticada filosofia da religião que já li. Mas também penso que Plantinga foi filosoficamente longe de mais em outras obras, nomeadamente no seu bem mais recente Warranted Christian Belief (2000). Longe de mim pensar que se trata de ideias disparatadas do ponto de vista da teologia dogmática. Certamente que terão a sua justificação religiosa e provavelmente uma função simbólica muito relevante. Mas a defesa filosófica de algumas das ideias que aí encontramos manifestamente persuade apenas quem de algum modo não precisa de ser persuadido.

Se o que digo for minimamente plausível, então surge uma outra questão intrigante: o que leva grandes filósofos a defender ideias ou teorias disparatadas aos olhos de muitos? Além da busca da verdade, nada impede que os filósofos tenham também outras motivações muito fortes e profundas, seja de carácter religioso, estético, social ou político. Talvez a resposta resida nesse tipo de motivações profundas, que surgem a par da motivação para a verdade.

Mas talvez o que aqui tenho estado a sugerir seja apenas mais um disparate. 


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Filosofia da religião à la carte


Acerca de Deus, os filósofos costumam levantar vários problemas. Há, para começar, o mais básico e central de todos: o problema metafísico da sua existência. Outro problema metafísico —  conceptualmente relacionado com este, mas apesar disso diferente — é o da natureza da divindade: quais os atributos de Deus e, portanto, o que define tal divindade? E podemos ainda ligar estes dois problemas a um terceiro, de carácter epistémico: o do nosso conhecimento de Deus.

Claro que há outros problemas de filosofia da religião, mas limito-me a referir apenas os mais básicos e filosoficamente mais urgentes. Quase todos reconhecem — incluindo filósofos teístas — que, de tão difíceis que são, qualquer destes problemas dá pano filosófico para mangas intermináveis. Só o problema da existência de Deus tem, ao longo de séculos de debate filosófico, mobilizado praticamente todos os filósofos teístas. E, embora todos estes filósofos concordem que Deus existe, frequentemente discordam sobre as razões que legitimam tal conclusão.

Mas também há quem, desassombrado diante de tais problemas, avance respostas para questões ainda mais espinhosas, na medida em que são duplamente problemáticas: são-no em si mesmas e são-no também porque a solução para elas depende da resposta que se dá aos problemas anteriores. Ainda assim, nem isso impede que alguns filósofos (como Plantinga e Swinburne, para referir apenas os mais destacados), não demasiado impressionados com a dificuldade dos problemas da existência, da natureza e do nosso conhecimento de Deus, tenham avançado com complicadas teorias filosóficas sobre a trindade de Deus, a presença de Cristo na eucaristia, a transubstanciação ou a ressurreição do corpo de Cristo, entre outras questões que não dizem respeito à religião em geral, mas apenas a certas religiões — mais particularmente à religião católica. 

Sem dúvida que os problemas da existência, da natureza e do conhecimento de Deus dizem, de algum modo, respeito a todas as religiões monoteístas. E praticamente nenhuma delas pode prescindir de uma resposta para essas questões, dado que a existência da divindade, seja sob que forma for, é um elemento definidor da religião. Ainda assim, é apenas uma condição necessária, não suficiente. 

Outra condição necessária é dada pelo ritual que transforma meros crentes numa comunidade religiosa. Dado que o fenómeno religioso é um fenómeno comunitário, dificilmente as religiões teriam surgido e se teriam mantido sem a sua componente ritualística. Celebrações litúrgicas ou missas, procissões e peregrinações, são práticas que ligam, por um lado, os crentes com o objecto da crença e ligam, por outro lado, os crentes entre si enquanto comunidade. É a dimensão ritualística — uma actividade estritamente simbólica — que dá vida às religiões, mantendo simultaneamente a crença acesa e a comunidade activa. 

Simplificando um pouco, mas não demasiado, qualquer religião é constituída por dois ingredientes essenciais: um conjunto de crenças acerca de algum tipo de divindade e um conjunto de rituais simbólicos que visam dar vida e preservar essas crenças. Assim, o que distingue as religiões entre si é o tipo de divindade em que se acredita ou o tipo de rituais praticados — ou ambos. E aqui pode haver um mundo de diferenças. 

Tudo isto parece apontar no sentido de a verdadeira tarefa do filósofo teísta ser a de proporcionar boas respostas para as questões da existência, da natureza e do nosso conhecimento de Deus, deixando o aspecto ritualístico de constituir matéria filosófica, na medida em que pode ser explicado de forma coerente em termos estritamente simbólicos. Sem dúvida que mesmo as práticas simbólicas têm um fundamento e precisam de uma justificação, mas isso cabe mais à teologia dogmática do que à filosofia.   

Ora, o que tentam fazer filósofos como Plantinga e Swinburne é legitimar filosoficamente todo e qualquer aspecto particular da sua religião, nem que para isso tenham de encarar problemas filosóficos — isto é, questões abertas como a existência ou a natureza de Deus — como questões fechadas. E nem que para isso tenham também de multiplicar entidades, na tentativa de substancializar metafisicamente práticas meramente simbólicas. Ou seja, estamos perante um apoteótico festim metafísico onde, a haver lugar para qualquer coisa parecida à navalha de Ockham, ela parece estar completamente romba. Enfim, é a filosofia ao serviço da religião. E nem sequer está ao serviço da religião em geral, mas de religiões particulares. 

Filosofia da religião à la carte?



segunda-feira, 27 de março de 2017

A cigarra que canta maravilhosamente


Ele aí está finalmente disponível, este livro excepcional. E muita satisfação me dá estar ligado à sua publicação entre nós. Não me lembro, aliás, de um livro que me tenha dado mais gozo ler. Por ser um livro inteligente, divertido, filosoficamente profundo, intelectualmente provocador e surpreendente, sem esquecer a elegância da escrita.

É, de resto, um livro que sabe ainda melhor de cada vez que se relê, tantas são as subtilezas que lá descobrimos Por isso, não tarda que volte a lê-lo pela quinta ou sexta vez. E subscrevo cada palavra destes senhores:

«Este livro único deixou-me intelectualmente maravilhado. É um deslumbrante festim literário. Bernard Suits torna a filosofia agradável, como ela deve ser, e fá-lo sem comprometer de forma alguma a verdadeira profundidade. Discute não só Wittgenstein, mas a própria vida humana ao mais alto nível, num livro que desafia as ortodoxias filosóficas, ao mesmo tempo que flui como mel.»
Simon Blackburn, Universidade de Cambridge

«A Cigarra Filosófica é um livro espantoso. Filosoficamente profundo, porém genuinamente divertido. Ao mesmo tempo que faz sobretudo a articulação e a defesa de uma definição muitíssimo plausível dos jogos, consegue também fazer algumas das perguntas mais profundas e intrigantes acerca do sentido da vida. Tudo na forma de diálogos entre um insecto e os seus discípulos! Nada há que simplesmente se lhe assemelhe.»
Shelly Kagan, Universidade de Yale

«Inteligente e profundo. Como é estimulante verificar que mesmo no interior da mais árida tradição filosófica universitária um livro assim possa ter sido escrito. Um livro delicioso.»

Nigel Warburton, filósofo free-lancer e co-editor de Philosophy Bites

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O que é um formalista?

A resposta foi dada por uma mente brilhante, que recentemente se apagou: o lógico, filósofo, pianista e mágico americano Raymond Smullyan. É a seguinte:

Um formalista é aquele que não consegue entender uma teoria a não ser que ela não tenha sentido. 




Smullyan, que sempre foi uma pessoa divertida, contou também como a lógica o ajudou em tempos a arrancar um beijo a uma encantadora rapariga música de Nova Iorque logo no primeiro encontro que teve com ela. O diálogo que levou ao beijo foi mais ou menos o seguinte:

Ele: Pode fazer-me um favor?
Ela: Diga primeiro qual é.
Ele: Vou fazer uma afirmação acerca de si e que apenas exige um pouco de lógica para determinar se é verdadeira ou se é falsa. Se essa afirmação for verdadeira, dá-me um autógrafo; mas se a afirmação for falsa, dá-me um beijo.
Ela: Humm... diga lá. Qual é a afirmação?
Ele: Não me vai dar um autógrafo nem um beijo.

A encantadora jovem música reflectiu e, como também era inteligente, concluiu que não tinha outro remédio senão dar um beijo a Smullyan, para não ter de cair em contradição.

Como se vê, a lógica é bem mais útil do que muitos pensam e tem aplicações que mal imaginam.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O meu primeiro teste de Filosofia

Com a devida autorização do seu autor, o meu colega João Carlos Silva, reproduzo aqui esta sua interessante história. Com algumas mudanças aqui e ali (o professor de História em vez do professor de Filosofia; o professor padre em vez do professor ateu), talvez alguns de nós reconheçamos esta história como algo pessoal também. Eis a história, contada na primeira pessoa.

O meu primeiro professor de filosofia era um senhor um tanto ou quanto excêntrico e, talvez, um tanto ou quanto louco - embora, para alguns, dizer isto seja já redundante -, que logo na primeira aula nos informou, divertido, que a razão pela qual tinha escolhido cursar filosofia prendia-se com o facto de a fila das matrículas para o curso de Direito ser demasiado grande, enquanto que a de filosofia não tinha ninguém, o que teria determinado a sua decisão. Também nos informou, desde logo, que a nota máxima a que poderíamos almejar na disciplina seria de 15, na escala de 0 a 20. Para além disso, as suas aulas eram caóticas, tanto do ponto de vista filosófico como pedagógico, uma vez que o senhor, para além de ser extremamente dogmático e não possuir qualquer método de ensino, era também completamente paranóico, desconfiando de tudo e de todos, dizendo-se perseguido pelos seus próprios correlegionários políticos e ideológicos locais, os quais identificarei dentro em pouco, para não estragar a surpresa. Em suma, gritava connosco, não sabia ensinar, não ensinava nada e parecia detestar-nos e à disciplina que "ensinava", tendo da disciplina uma visão dogmática e puramente ideológica, que tentava passar aos alunos com base na autoridade e no medo. Como podem calcular, com um cenário destes, conseguiu que toda a gente - com excepção de mim mesmo, como é evidente - desenvolvesse um ódio à primeira vista em relação à disciplina, coisa que não parecia propriamente atormentá-lo, antes lhe proporcionando até uma espécie de gozo sádico, que era manifesto nos seus sorrisos e esgares. Portanto, quando chegou a hora de realizar o primeiro teste, não é de surpreender que toda a gente se sentisse em pânico - menos eu, mais uma vez, por razões que já explicarei adiante - com a perspectiva de ter de o fazer, ainda para mais sem ninguém sequer conseguir imaginar que diabo iria sair no teste e como seria ele feito, já para não falar do modo da sua correcção. E como não poderia deixar de ser, o senhor professor de filosofia não nos desiludiu e esteve à altura das nossas piores expectativas. Quando chegou o dia do teste, o senhor limitou-se a escrever dois pequenos textos no quadro, um do papa João XXIII, que dizia qualquer coisa como isto: "Só Jesus Cristo salva e a Igreja Católica é a sua representante na Terra, portanto quem quiser ser salvo deve ter fé em Cristo e converter-se ao catolicismo" (cito de memória), enquanto o outro era a famosa citação de Karl Marx, essa sim fácil de citar com exactidão, pois é aquela que diz que "A religião é o ópio do povo". Ora bem, transcritas as duas citações, ficámos então a saber o que nos cumpria fazer com elas: deveríamos escolher aquela com a qual estivéssemos de acordo e justificar porquê. Acontece, porém, que o senhor professor de filosofia se esqueceu de nos informar previamente que era marxista e ateu dogmático, pois embora nós já soubessemos que ele era dogmático e autoritário - apesar de não ter autoridade nenhuma, ou talvez por isso mesmo -, aquando da realização do primeiro teste ele ainda não tinha aberto completamente o jogo, coisa que só fez mais tarde, talvez para não nos facilitar a vida e poder tramar-nos ainda melhor. Por isso, quando os testes foram entregues aos seus destinatários, rapidamente nos apercebemos que o critério de correcção do mesmo tinha sido extremamente simples: quem fosse ateu, tivesse tido a sorte de concordar com Marx e tivesse apresentado uma justificação filosófica para esse concordância, teve boa nota; quem, pelo contrário, fosse católico e tivesse tido o azar de concordar com a afirmação papal, mesmo que o tivesse justificado, teve uma má nota. Felizmente, eu fui um dos sortudos, pois já naquela altura era ateu e concordava com essa afirmação, tendo por isso sido agraciado com a nota máxima atribuída pelo senhor. Escusado será dizer que, após este episódio, o pessoal aprendeu a lição e o "amor" ao senhor professor de filosofia e à disciplina que ele representava "aumentou exponencialmente", contribuindo decisivamente para a "boa fama" que a disciplina já tinha na escola, naquele tempo em que esta era popularmente definida entre os alunos como "aquela ciência com a qual ou sem a qual ficamos todos tal e qual". 
E pronto, aqui têm a história do meu primeiro teste de filosofia, restando apenas explicar porque é que, apesar de tudo, eu não fazia parte dos assustados com o 1º teste nem me juntei ao coro dos "traumatizados de guerra" que passaram a odiar visceralmente a disciplina. A razão é simples: é que a vocação filosófica já cá estava desde o princípio, embora ainda sem ser devidamente nomeada e idenficada como tal, tendo eu já lido um manual de filosofia do antigo liceu, O Pequeno Manual de Filosofia, do professor Magalhães Vilhena, o qual só era pequeno no nome, dado que era um pequeno tijolo de algumas 500 páginas que servia de manual escolar para os antigos 6ª e 7º anos liceais. Como tenho uma prima que é 5 anos mais velha do que eu, curioso com a disciplina nova que iria ter no 10º ano, pedi-lho emprestado para o ler nas férias do 9º para o 10º ano, tendo sido amor à primeira vista, uma vez que me reconheci imediatamente nos temas e problemas ali abordados. Para além disso, como o meu pai, apesar de só ter podido estudar até ao nível do ensino médio, era um leitor compulsivo e, sendo marxista, possuia uma pequena biblioteca filosófica marxista, onde se contavam os famosos Princípios Elementares da Filosofia e os Princípios Fundamentais da Filosofia, do filósofo marxista francês de origem húngara, Georges Politzer, juntamente com dois manuais universitários soviéticos de filosofia, um dedicado ao materialismo dialéctico e outro ao materialismo histórico, que eram os manuais oficiais do ensino da filosofia na União Soviética por essa altura, eu já conhecia essa bibliografia, facto que me colocou em óbvia vantagem quando me deparei com o dito cujo professor e o seu peculiar e idiossincrático "sistema de ensino e avaliação". 
Enfim, para não me alongar e não os maçar mais com uma história que provavelmente só interessará a uns poucos, permitem-me apenas que acrescente, em jeito de conclusão ou moral da história, que o dito senhor, sem querer e de forma perversa, acabou por ter um papel importante na minha vida, não tanto por me ter inspirado a seguir-lhe as pegadas ou por ter contribuído para o meu amor à sabedoria. Muito pelo contrário, foi por ele me ter servido de exemplo negativo quanto àquilo que idealmente um professor deve ser e ao modo como deve ensinar, já que, ao contrário do que costuma suceder nestes casos, não foi propriamente por causa dele que resolvi dedicar-me à filosofia e tornar-me professor da mesma, mas sim apesar dele que o decidi fazer. Ora, não são apenas as pessoas que nos inspiram pela positiva a querer ser como elas quando formos grandes que são importantes para nós, também aquelas que nos inspiram pela negativa a não querermos ser como elas quando crescermos o são. Portanto, apesar de na altura estar muito longe de mim a ideia de vir a ser professor de filosofia (nessa altura ainda queria ser cientista, que era o meu sonho de infância) e de o meu professor de filosofia ter sido, sem qualquer exagero, simplesmente um dos piores professores que tive em toda a minha vida escolar como aluno, senão mesmo o pior, a verdade é que tenho de lhe agradecer por me ter ensinado muito daquilo que um professor não deve ser nem fazer. E é por essa razão que, quando os meus alunos sofrem antecipadamente com a perspectiva do primeiro teste da disciplina, não tanto por não saberem o que lhes vai sair à rifa, mas antes por não saberem como serão as perguntas e por recearem o pior quanto a uma possível subjectividade arbitrária ou tendenciosa na avaliação das mesmas, eu lhes conto esta história para os tentar tranquilizar. Como é evidente, por mais que eu tente explicar-lhes que não têm nenhuma razão objectiva para estarem em pânico com o 1º teste de filosofia, essa tranquilidade só se torna real depois de o fazerem e o receberem, só então compreendendo que a disciplina, o seu professor e a sua avaliação não são propriamente bichos papões que devam recear nem sofrer de maior angústia do que aquela sofrida pelos guarda-redes antes do penalty.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Os meus 3 livros do ano

O ano que acaba não me deixa grandes saudades. Mas nem tudo foi mau, claro. Destaco três livros da colecção Filosofia Aberta, que dirijo na Gradiva, e cuja publicação muito gosto me deu.


Este pequeno livro é uma serena e ponderada defesa moral do socialismo, levada a cabo por um filósofo contemporâneo de peso. O seu autor, G. A. Cohen (1941-2009), foi o mais persuasivo, influente e respeitado defensor contemporâneo do pensamento político da esquerda marxista e também um dos mais importantes filósofos políticos das últimas décadas, a par de figuras como John Rawls, Robert Nozick, Ronald Dworkin ou Michael Sandel. Nasceu em Montreal (Canadá), mas foi em Inglaterra que acabou por ensinar a maior parte do tempo, primeiro no University College of London e depois na Universidade de Oxford, onde se veio a tornar emeritus fellow do All Souls College. É autor de vários livros, entre os quais Karl Marx’s Theory of History: A Defence, If You Are an Egalitarian, How Come You’re So Rich?, Rescuing Justice and Equality e este Socialismo.Porque não?, que foi o último escrito, antes de falecer em 2009, em Oxford.


Este livro é a resposta ao livro de Cohen, em que um acutilante filósofo libertário argumenta não tanto contra o socialismo mas antes a favor da superioridade moral do capitalismo em relação ao socialismo. Jason Brennan doutorou-se em filosofia pela Universidade do Arizona, ensinou na Universidade de Brown e é actualmente professor associado de Estratégia, Economia, Ética e Políticas Públicas na Universidade de Georgetown. É autor de Compulsory Voting: For and Against, com Lisa Hill, Libertarianism: What Everyone Needs to Know, The Ethics of Voting, A Brief History of Liberty, com David Schmidtz e Against Democracy (a publicar brevemente na colecção Filosofia Aberta, com o título Contra a Democracia). A filosofia política e a ética aplicada são as suas duas principais áreas de investigação.



Neste curto ensaio filosófico de um dos grandes filósofos contemporâneos, argumenta-se que somos moralmente obrigados a eliminar a pobreza mas não a diminuir a desigualdade, e que o combate à desigualdade, quando não decorre do combate à pobreza, pode até ser humanamente alienante. Harry G. Frankfurt quase dispensa apresentações. Este Professor Emérito de Filosofia na Princeton University reparte a sua importante obra filosófica principalmente pelas áreas da filosofia moral, da filosofia da mente e da filosofia da acção. Os seus contributos para a discussão do problema do livre-arbítrio fazem dele uma referência nesse domínio. Da sua obra, destacam-se ainda os sucessos de vendas On Bullshit (Da Treta) e The Reasons of Love (a publicar brevemente na colecção Filosofia Aberta, com o título As Razões do Amor).

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O mundo é uma narrativa divina?

E Deus disse: haja luz; e houve luz. E Deus chamou à luz dia; e às trevas chamou noite.                         
                           
                                                                                                                             Génesis, 1: 3-4

No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiam por ação dele e sem ele existiu nem uma só coisa que existiu. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz.
                                                                                                                                            João, 1: 1-5


Como começa por nos explicar João no seu evangelho, foi com palavras (verbo) que tudo foi criado: a luz, o dia, as trevas, a noite e tudo o mais que existe no mundo.
Como surgiu e o que fez surgir a luz? O Génesis dá a resposta: foram as palavras criadoras “haja luz”. E como se explica que dia e luz sejam o mesmo? Mais uma vez, lemos no Génesis, foi Deus — que é verbo — ter chamado dia à luz.
Assim, tudo o que existe passou a existir graças à ação da palavra e o mundo é literalmente feito com palavras. Por isso lemos que “Deus disse” e “Deus chamou”, em vez de “Deus pensou”, “Deus construiu” ou sequer “Deus fez”. O próprio criador, adverte João, era o verbo, a palavra criadora.
A palavra dita — não o pensamento, nem a imaginação nem sequer a vontade — é, pois, a razão de ser de tudo. Porque tudo vem de Deus e Deus é verbo e o verbo é o logos. E sem a palavra fundadora, nada chega a existir. Razão e palavra (ou verbo) são, afinal, a mesma coisa. Talvez por isso seja indiferente traduzir o termo original grego — logos — da mais antiga versão da  Bíblia por razão ou por palavra (ou verbo).
João sugere, deste modo, que o ímpeto gerador de tudo quanto é real se deve ao logos e não, como muitos têm defendido, à procura da perfeição nem à satisfação do desejo, e muito menos à necessidade ou à vontade transformadora manifestas na práxis (prática) e na téchnê (habilidade). Neste sentido, não apenas “razão” e “palavra”, mas também “realidade” significam o mesmo, o que parece concordar com o que alguns espíritos aparentemente obscuros, como Heraclito e Hegel, têm afirmado: tudo é logos, sustenta o obscuro filósofo pré-socrático; e tudo o que é real é manifestação divina da Razão Absoluta, acrescenta por sua vez o seu distante, e igualmente obscuro, discípulo alemão. Para muitos, isto tem a vantagem de preservar o mistério divino — e, desse modo, a inexplicável grandeza do criador, que é verbo — que consiste em compreender como podem as palavras “haja luz”, sem mais, gerar luz. Será que o mundo mais não é, afinal, do que uma narrativa divina, uma criação literária de Deus?
Os adeptos da tese de que a verdade não passa de uma narrativa poderiam até socorrer-se da teoria dos actos ilocutórios de J. L. Austin, exposta em Como Fazer Coisas com Palavras (publicado postumamente em 1962). Este filósofo da linguagem comum explicou aí como se podem fazer coisas com palavras. Faz todo o sentido perguntarmos o que, além de produzir sons articulados, está uma pessoa a fazer quando fala. Sem dúvida que essa pessoa pode estar a fazer coisas diferentes: pode estar a dar uma informação (sobre a hora da reunião de amanhã) ou a fazer uma promessa (prometendo ir à reunião); a dar uma ordem (é o juiz que dá ordem de prisão) ou a estabelecer algo (declarar um dia como feriado nacional ou baptizar alguém, dando-lhe um nome). Tudo isto é fazer coisas diferentes, usando apenas palavras. Com elas se proíbe e se insulta; se ajuda e se destrói; se condena e se liberta alguém; se passa de solteiro a casado e de estudante a doutor. Alguém que usa as palavras para difamar uma pessoa está a fazer algo diferente daquele que usa palavras para a consolar. Assim, tal como realizamos diferentes ações com as mãos — cumprimentar alguém, disparar uma arma, coçar a cabeça, etc. —, também realizamos diferentes ações com palavras.
Não custa, pois, admitir a possibilidade de alguém com autoridade suficiente ter determinado que algo é censurável declarando apenas “Isto é mau” ou “Não deves fazer isso” ou “Eu não aprovo isso”. E não só no Êxodo (20: 1-17) Moisés procura transmitir isso ao seu povo — “Não matarás”, “Honrarás pai e mãe”, etc. — como é reafirmado nos evangelhos pela voz do verbo divino incarnado, que Jesus diz ser. A ideia de que a distinção entre bem e mal resulta da palavra de Deus, de que a moral se funda nos mandamentos divinos, é demasiado popular para soar estranha. Pode ser uma ideia errada, mas não é inconcebível.
Todavia, a ideia de que não apenas a moral mas tudo quanto existe é feito de palavras, exige um falante com um poder da palavra inaudito. Ainda que se trate de palavras divinas, a realidade parece incluir muito mais do que a teoria dos actos de fala de Austin pode abarcar. O crente no mundo como mera narrativa divina e que não se satisfaz totalmente com a ideia de que os mistérios de Deus são insondáveis, precisa talvez de uma super-teoria dos actos de fala, que inclua actos de fala divinos.
Apesar da grandeza e criatividade de muitas obras de arte literárias — como é, para muitos, o caso da Bíblia — talvez o mundo seja algo mais do que literatura.
Sem dúvida que se fazem coisas com palavras. Mas não se vê bem como consegue Deus escrever a sua narrativa sem usar caneta. Nem como consegue fazer canetas só com palavras.