segunda-feira, 15 de maio de 2017

O ano de 2017 é de Yuja

Quem o diz é a Musical America Awards, o que certamente quer dizer algo, mas não tanto como o que se pode ver e ouvir aqui, em que a jovem chinesa Yuja Wang interpreta o magnético segundo andamento (Adagio) do Concerto para Piano em Sol, de Ravel.



Como decidem aqueles que, como eu, não são músicos, nem musicólogos — nem sequer lêem partituras — se esta interpretação é melhor ou pior do que outras da mesma obra? Não estão autorizados a decidir seja o que for sem tais conhecimentos técnicos?

Claro que estão! Muito ficaria por explicar sobre a fruição musical e sobre a própria natureza da música, se as únicas opiniões respeitáveis fossem as dos especialistas com formação musical avançada. Como alguém dizia, não é preciso saber pôr ovos para saber apreciar o seu sabor. E acrescentaria que nem sequer é preciso conhecer a constituição molecular dos ovos para saber apreciá-los. Sem dúvida que conhecer a constituição molecular dos ovos pode ajudar a explicar por que razão os ovos têm o sabor característico que têm. Mas explicar uma coisa é diferente de justificar um juízo de valor sobre essa coisa.

Porém, daí não se segue que todos os juízos de valor sobre uma dada interpretação musical se equivalham. E também não se segue que o conhecimento técnico especializado não ajude a iluminar certos aspectos que explicam por que razão apreciamos mais umas coisas do que outras. O facto de esse conhecimento técnico não ser condição necessária não significa que não possa ser conhecimento útil. Na verdade, quando fazemos um juízo de valor acerca de uma dada interpretação musical, há normalmente algum conhecimento prévio implícito na justificação que apresentamos. Nem que seja o conhecimento de outros casos semelhantes com os quais implicitamente comparamos a interpretação que estamos a avaliar.

Mas, com que critério (ou critérios) uma pessoa sem uma sólida formação musical avalia uma dada interpretação?

A minha sugestão é que, se essa pessoa tem alguma cultura musical (ex: ouve regularmente o tipo de música em causa e essa obra em particular, interessa-se pelo que ouve e tentar perceber porquê, tem algum conhecimento do seu contexto artístico, etc.), mas não tem conhecimentos técnicos avançados, então ela tem tendência para tomar como modelo, ou referência, a interpretação que pela primeira vez a despertou (dado que muitas vezes ouvimos algo sem prestarmos verdadeiramente atenção).

Esta minha sugestão nada tem de filosófico. É apenas uma hipótese empírica baseada na minha observação. Vejo isso repetidamente no meu caso. A primeira vez que me deixei surpreender a ouvir este concerto de Ravel foi numa interpretação ao piano de Arturo Benedetti Michelangeli. A partir daí, e após repetidas audições dessa interpretação, todas as outras interpretações que ouço são mentalmente contrastadas com ela, como se ela fosse a matriz pela qual as outras vão ser avaliadas. E não é fácil evitar isso.

Mesmo assim, dei por mim a pensar que esta interpretação de Yuja Wang não tem a impessoalidade que imagino ao ouvir Michelangeli (impessoalidade no sentido de ser capaz de imaginar os sons de cada nota do piano como se estivessem a ecoar directamente da natureza e não de um agente humano), mas noto a agradável presença de alguém que, ao percorrer o teclado do piano, se deixa misturar com ela. O que me agrada de maneira diferente.

É muita imaginação minha? Certamente. Mas não é principalmente para isso que a música serve?

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