Em geral, parece que acreditamos que temos livre-arbítrio.
Porém, vários cientistas têm dito que, se prestarmos a devida atenção aos resultados das suas investigações, temos boas razões para considerar tal crença injustificada.
E os filósofos, em que acreditam eles?
Como seria de esperar, os filósofos dividem-se. Mas dividem-se como?
Bem, é melhor perguntar-lhes.
E foi precisamente isso que o PhilPapers Survey 2020 fez. Perguntou a cerca de 1800 filósofos profissionais de todos os quadrantes e das principais universidades do mundo (bem, apenas aos falantes de inglês, dado que o inquérito foi em língua inglesa) e publicou os resultados. O inquérito foi dirigido por dois filósofos: David Bourget (da Western University) e David Chalmers (da New York University).
O inquérito não é apenas sobre o livre-arbítrio, passando também pelos principais temas e áreas da filosofia: da metafísica à epistemologia, da ética à estética e à filosofia política, da filosofia da mente e da linguagem à filosofia da lógica e da ciência, perguntando qual a posição dos filósofos sobre questões muito precisas.
Quanto ao livre-arbítrio, as opiniões dos filósofos dividiram-se do modo que se vê tabela abaixo. A tabela foi feita por mim, sendo apenas uma pequena selecção da enorme quantidade de dados disponíveis.
Como se pode ver, a maior parte dos filósofos concordam, ou tendem a concordar, com o compatibilismo (59%). Note-se que as opções de resposta, além das três principais que encontram na tabela, incluíam, entre outras, "Não tenho opinião sobre isso, ou estou indeciso" e também "Defendo uma posição alternativa a essas", qualquer delas com pouca expressão.
Vale a pena esclarecer o que significa escolher cada uma daquelas três opções: "Compatibilismo", "Libertismo" e "Não há livre-arbítrio".
O compatibilismo é a posição segundo a qual há livre-arbítrio mesmo que tudo esteja causalmente determinado. Os filósofos que se consideraram compatibilistas juntam-se, assim, a outros filósofos ilustres como Hobbes e Hume, mas também a Daniel Dennett e Harry Frankfurt, só para dar alguns exemplos.
O libertismo é a perspectiva incompatibilista segundo a qual há livre-arbítrio e nem tudo está causalmente determinado. Os que escolheram esta resposta juntam-se a Descartes e Kant, mas também a Peter van Inwagen, Robert Kane e Carl Ginet, por exemplo.
Por fim, a posição de que não há livre-arbítrio não deve ser confundida com o determinismo radical, uma posição incompatibilista hoje minoritária entre quem defende que não há livre-arbítrio. Isto porque se pode defender, como tem sido mais frequente, que não há livre-arbítrio independentemente de tudo estar ou não causalmente determinado. Esta é a posição dos incompatibilistas radicais (por vezes chamados pessimistas), para quem não temos livre-arbítrio, quer o determinismo causal seja verdadeiro quer seja falso. Estes filósofos deixam para os cientistas a questão de apurar se tudo está ou não causalmente determinado, sendo certo que é indiferente que esteja ou não tudo causalmente determinado: qualquer dos casos é incompatível com o livre-arbítrio. Assim, quem responde que não há livre-arbítrio, estará a associar-se a nomes como Espinosa e Nietzsche (estes sim, alegadamente deterministas radicais), mas também a incompatibilistas como Galen Strawson e Derk Pereboom.
Quanto aos resultados do inquérito, não é de todo surpreendente que a maioria dos filósofos da religião fujam ao padrão, considerando-se maioritariamente libertistas. Também não é surpreendente que os filósofos da ciência sejam os que, pelo contrário, menos aderem ao libertismo. E talvez também não seja muito surpreendente que os especialistas na chamada "filosofia continental" sejam os que menos respondem que não há livre-arbítrio. Mais surpreendente é os filósofos da física serem dos que, percentualmente, mais aderem ao compatibilismo.

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