sábado, 16 de março de 2019

Filosofar sobre música

Raramente tenho visto compositores, e músicos em geral, a dizer algo realmente interessante sobre questões de filosofia da música. Isso é perfeitamente natural, pois o que se espera de músicos e compositores é que toquem bem e componham boa música, não que sejam capazes de filosofar sobre o assunto. Por isso, foi uma boa surpresa ver a excelente entrevista que Ricardo Lopes, autor do não menos surpreendente canal The Dissenter, fez ao compositor Samuel Andreyev, e em que este avança com várias respostas filosoficamente bem interessantes, dignas de um bom filósofo da música.

O tema geral da entrevista é o da avaliação musical, mas acabam também por ser abordadas as questões da definição da música, da representação musical e, ainda que de forma implícita, da ontologia da música (a este respeito Andreyev parece ser um anti-platonista).

Como disse, as respostas são quase sempre interessantes, mesmo quando não me parecem inteiramente correctas. Por exemplo, quando Ricardo Lopes diz que a música não pode ser simplesmente um conjunto de sons (intencionalmente) organizados uma vez que o discurso oral (speech) não é música, apesar de ser também um conjunto de sons organizados, Andreyev responde que a música e o discurso oral são muito mais próximos do que pode parecer, acabando por afirmar que a única diferença relevante entre a música e discurso oral é que no discurso, ao contrário da música, não há tom (pitch). E isto sugere a ideia, muito comum, mas que me parece errada, de que a música é, como o discurso oral, uma espécie de linguagem. Se pensarmos numa linguagem articulada, em sentido robusto, então parece-me claro que a música não é uma linguagem, pois apesar de ter uma sintaxe (um conjunto de regras a que obedece) carece de uma semântica. Sem dúvida que se pode defender que a música tem a capacidade de representação, mas aquilo que eventualmente representa é de tal forma impreciso e instável, que não seria correto falarmos de uma semântica.



Esta entrevista de Ricardo Lopes levou-me a ver outras (há uma anterior, igualmente interessante, com Andreyev) do canal The Dissenter, nomeadamente com Colin McGinn, Patricia Churchland, Simon Blackburn, Michael Ruse, David Benatar, Alex Rosenberg, Frans de Waal, e muitos outros de diferentes áreas de investigação. É um serviço notável de Ricardo Lopes e um canal que merece muito ser apoiado (por exemplo, para acrescentar legendas em português para os ouvintes que não compreendem o inglês).

Entretanto, embalado pelas entrevistas a Andreyev, decidi visitar o canal deste compositor, também ele excelente. A propósito da questão da avaliação da música, partilho aqui o vídeo abaixo em que faz uma avaliação do album Swordfishtrombones, de Tom Waits. Um magnífico exemplo.


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