quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Filosofia do amor em Fevereiro

Foram muito poucos os filósofos que reflectiram e escreveram de forma rigorosa e esclarecedora sobre o amor: que tipo de coisa é, como justificar o amor e qual a relação, se alguma existe, entre o amor e a razão, o valor, a ética e o próprio sentido da vida. Por outro lado, entre esses, menos ainda foram capazes de dar conta dos diferentes usos que fazemos do termo amor, misturando indiscriminadamente o amor entre pessoas (seja o amor romântico ou o amor entre pais e filhos), o amor-próprio e aquilo que é geralmente designado como o amor por lugares, por actividades ou por objectos. 

De O Banquete, de Platão, à Metafísica do Amor, de Schopenhauer, passando por algumas páginas de Espinosa, Diderot e poucos mais, nem os clássicos conseguiram lançar grande luz sobre um tema tão central e de tão capital importância para as nossas vidas como o amor. Certamente encontramos neles algumas passagens interessantes, mas ideia que fica é a de uma notória desorientação teórica. 

É certo que, mais recentemente, destacados filósofos da emoção, como Robert Solomon ou Amélie Rorty, enfrentaram o tema de uma forma mais metódica e filosoficamente rigorosa. Mas o que interessa a estes filósofos é sobretudo compreender a natureza emocional do amor, deixando de lado outros aspectos tão importantes como o eventual carácter normativo do amor e suas implicações morais. Aspectos que vieram, de algum modo, a captar a atenção de nomes como Martha Nussbaum, Robert Nozick, Roger Scruton ou Hugh LaFollette, mas de um modo ainda algo fragmentário e disperso. De um modo um pouco mais sistematizado, mas ainda algo impreciso e indefinido, como a própria autora admite, temos o último livro de Carrie Jenkins, publicado há menos de um ano. 

Só faltava mesmo referir o que penso ser, de longe, o melhor de todos os livros de filosofia que conheço sobre o amor, As Razões do Amor, de Harry G. Frankfurt. É o melhor porque alia como nenhum outro a argumentação cuidada a um sereno e robusto senso-comum, oferecendo-nos uma abordagem naturalista sobre o amor. Ainda por cima, sem precisar de recorrer a tecnicismos académicos dispensáveis. 

A tese principal de Frankfurt, que trata apenas do amor entre pessoas, é apresentada logo a abrir o livro: a moral não é a única, nem sequer a principal, fonte humana de normatividade, identificando o amor como o cerne da nossa psicologia moral. Isso explica, em parte, por que razão muitas pessoas ficam algo intrigadas quando, em situações limite, a estrita imparcialidade exigida por algumas perspectivas éticas nos impede de ter uma maior consideração por aqueles que mais amamos do que por quaisquer outros. Um livro que, longe dos estafados panegíricos poético-psicológicos ao amor, nos faz tranquilamente pensar com maior profundidade sobre aquilo que mais prezamos. 

A boa notícia é que o livro estará nas livrarias, com tradução portuguesa, já neste mês de Fevereiro. Aqui fica a imagem da capa.


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