Juiz - Outra vez por cá, senhor Abílio? Está a tornar-se um frequentador assíduo deste tribunal. Parece que voltou a agredir outra pessoa.
Abílio - Teve de ser! Que hei-de eu fazer?
Juiz - Quer dizer que não podia evitar? Como assim? Olhe que há muita gente que nunca agrediu seja quem for. Portanto, não me venha dizer que não tinha como evitar.
Abílio - Pois, há quem nunca tenha agredido ninguém porque nunca se encontrou na mesma situação que eu. Até o senhor doutor juiz faria o mesmo, se estivesse no meu lugar.
Juiz - Mas... diga lá, então, o que aconteceu.
Abílio - Esmurrei uma pessoa que me insultou, chamando-me «bufo». Claro que tive de defender a minha honra.
Juiz - Mas ela ter-lhe chamado bufo, ou delator, não é caso para a esmurrar. Há muitas pessoas que, no seu lugar, não o fariam. Eu, por exemplo, nunca o faria.
Abílio - É porque o senhor doutor juiz não se consegue colocar mesmo no meu lugar.
Juiz - É claro que consigo! E garanto-lhe que nunca procederia assim. Também já disseram de mim coisas bem desagradáveis. E, olhe, nem sequer liguei!
Abílio - Mas isso não significa que se está a imaginar no meu lugar. Pôr-se no meu lugar não é só passar por uma situação semelhante. É também pensar como eu, ter tido a mesma educação que eu, a mesma cultura, as mesmas vivências e até ter as mesmas características genéticas que eu.
Juiz - Bem, por isso é que somos diferentes, claro. Mas explique lá melhor onde quer chegar.
Abílio - Veja bem, provavelmente o senhor doutor foi educado de maneira muito diferente, mas eu fui ensinado desde pequeno a reagir sempre que me insultam. Além disso, no meio em que fui criado, «bufo» é a pior coisa que se pode chamar a uma pessoa, pelo que temos de defender a nossa honra. Caso contrário, somos mal vistos e considerados cobardes pelos nossos amigos, que é do pior que nos pode acontecer. Também lhe digo que a violência sempre fez parte da minha vida, de maneira que passei a encará-la como algo normal e aceitável. Além disso, sou uma pessoa muito nervosa e sou agressivo por natureza. Herdei essas características do meu pai e não tenho culpa disso. Portanto, pôr-se no meu lugar é pôr-se na minha cabeça, ter os pensamentos e desejos que eu tenho, olhar para as coisas com os meus olhos e sentir as coisas como eu as sinto. Não tenho culpa de pensar como penso, de sentir como sinto e de ser como sou.
Juiz - Ora, ora, está a querer dizer que não tinha opção?
Abílio - Dada a maneira como fui educado, o meio em que me movo, as experiências por que passei e a minha própria natureza, não podia ter feito outra coisa. Se o senhor doutor juiz estivesse na minha pele e na minha cabeça, faria exactamente o mesmo.
Juiz - Salvo seja!
Abílio - Lá está! Não consegue pôr-se exactamente no meu lugar. Mas se as circunstâncias fossem exactamente as mesmas, o efeito seria também o mesmo. Portanto, dado as circunstâncias serem essas e não outras, não tive realmente opção.
Juiz - Não me venha com histórias! O senhor fez aquilo que quis fazer.
Abílio - Mas é claro que fiz o que queria fazer. Nunca o neguei. Mas o que digo é que algo que eu não controlo me levou a querer fazer isso. Quis fazer o que fiz, sem dúvida, mas a verdade é que não mando realmente nos meus desejos.
"Não tenho culpa de pensar como penso, de sentir como sinto e de ser como sou." --- Eu sempre pensei nisso para "entender" por que as pessoas fazem determinadas coisas reprováveis, inclusive os crimes; acredito que as pessoas são o que a sociedade faz delas, mas a partir do momento que a pessoa tem a consciência do que é "moralmente correto" ela passa a ter, sim, escolha de ser/fazer diferente... suzanecoutinho@hotmail.com
ResponderEliminarSe assim fosse, niguém poderia ser culpado das coisas que faz.
ResponderEliminarLá porque o pai é agressivo, ou porque tenha tido essa educação, não quer dizer que tenha que agir como tal.
Se assim fosse, todas as pessoas que têm algum problema em casa, com a família, por exemplo, poderia ser agressivo, e como consequêcia disso, viveriamos todos numa "selva", a atacarmos uns aos outros por tudo e por nada, e como violência gera a violência, imaginem como seria a vida.
Nós somos livres, mesmo que tudo esteja a favor de algo, (como ter uma pai violento e ser também violento devido a educação que teve) podemos mudar essa realidade. E assim, podemos agir pela nossa cabeça, e não porque estava determinado que assim fosse.
Como Abílio argumenta, para se defender, ele não controlou a sua acção, esmurrou o sujeito pois foi educado a tal. Segundo o determinismo radical não existe livre-arbítrio e todos os acontecimentos estão determinados. Ora, se não existe livre-arbítrio, Abílio não é moralmente responsável pela sua acção mas dai não se segue que não deva ser castigado pelas suas acções. Isto implica intervir nas cadeias causais. Como por exemplo prender Abílio. Uma vez preso, isolado numa sela, sozinho, não poderá esmurrar ninguém.
ResponderEliminarLuis Cardoso, 10ºJ
( Desculpe a demora até agora na colaboração no blog professor Aires, mas tenho andado bastante ocupado. Tendo teste amanha, vim aqui para procurar questões e discussões que me levassem a entender melhor a matéria estudada )
Obrigado pelo contributo, Luís.
ResponderEliminarSim, essa é uma resposta possível. Ainda que não sejamos moralmente responsáveis pelo que fazemos, como parece implicar o determinismo radical, não se segue que deixe de fazer sentido prender as pessoas que fazem coisas que consideramos más. Podemos prendê-los porque estamos determinados nesse sentido ou simplesmente porque causas anteriores nos levam a procurar protecção prendendo pessoas como o Abílio, de modo a que uma vez preso não volte a esmurrar outras pessoas na rua. Ou seja, prendê-lo não porque mereça castigo, mas sim porque somos levados a proteger-nos dele.