quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Aristóteles, Ford e a ficção


Na passada sexta-feira, dia 20, o realizador António-Pedro Vasconcelos (APV) esteve na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes como orador na XVI Conferência de Filosofia (organizada pelo grupo de filosofia da escola), no âmbito da qual proferiu uma interessante palestra sobre o que entende ser a natureza do cinema e da ficção em geral.

Segundo APV, Aristóteles ainda continua a ser quem, na sua obra Poética, melhor nos permite compreender a natureza representacional da ficção. Por sua vez, os filmes de John Ford são, na opinião de APV, os exemplos mais óbvios que a arte cinematográfica nos dá dessa natureza representacional (ou mimética). 

É certo que, na Poética, Aristóteles está a falar sobretudo das formas de arte mais importantes do seu tempo: a poesia e, em especial, a tragédia (tanto na poesia como no teatro). Mas, considera APV, o que este filósofo diz pode ser aplicado às mais diversas formas de ficção, mesmo às formas de arte ficcional que vieram a surgir muito mais tarde, como o cinema. Assim, uma passagem como a seguinte, pode perfeitamente ser aplicada à compreensão dos filmes de John Ford — que tudo indica nunca ter lido Aristóteles — e, em geral, à sétima arte:

Não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é antes o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verosimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa [...] — diferem, sim, em que um diz as coisas que sucederam e o outro as que poderiam suceder. Por isso, a poesia é algo de mais filosófico e de mais sério do que a história, pois aquela refere principalmente o universal e esta o particular. Por "referir o universal" entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e acções que, por vínculo de necessidade e verosimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal assim entendido visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens [...]. 
(Poética, 1451a-1451b)

Como APV parece ter sugerido, onde Aristóteles fala de poesia poder-se-ia falar da arte cinematográfica. E a diferença entre a arte cinematográfica propriamente dita e o cinema documental corresponde à diferença apontada por Aristóteles entre poesia e história. Assim, a ideia que APV veio defender é que o cinema é uma arte ficcional e, portanto, representacional. Mas a representação não deve ser entendida como simples imitação do que ocorre na natureza, como o próprio Aristóteles sublinha.

Neste sentido, a perspectiva aristotélica sobre o cinema defendida por APV, admite os mais diversificados recursos narrativos, mas não acolhe com bons olhos a completa ausência de narrativa: como arte ficcional, o cinema deve ter algo para contar, ainda que o que está a ser contado nunca tenha acontecido realmente. O mais difícil, considera APV, é ter uma boa história e saber contá-la bem. Não basta, pois, ter uma boa história e não a saber contar, nem saber contar uma má história. E, claro, o que não parece caber na ficção é o nem sequer ter uma história para contar. 

Além do aspecto representacional da ficção, há ainda o aspecto emocional também destacado por Aristóteles. Assim, também para APV, a ficção, e o cinema em particular, não visam apenas a representação pela representação: esta deve dirigir-se às emoções das pessoas. APV defende que um bom filme visa levar o espectador à suspensão da descrença (suspender a crença de que se está perante uma situação ficcional) para o fazer experimentar as emoções promovidas pelo autor. 

Em suma, os bons filmes, como os de John Ford, caracterizam-se pelo seu conteúdo narrativo e pela sua capacidade de provocar certo tipo de emoções.

Foi muito bom ver um realizador de cinema experiente, como António-Pedro Vasconcelos, reflectir sobre estas questões, mesmo não sendo um filósofo profissional. Além disso, o cineasta soube fazer muitas e curiosas incursões pelas várias artes, conseguindo prender a atenção do auditório também com interessantes short stories que circulam no mundo da sétima arte.

O director da AE Manuel Teixeira Gomes, Telmo Soares, dando as boas-vindas a todos.

Sala cheia

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sábado com Janelas

Janelas Para a Filosofia está escrito de uma maneira clara e simples e pode ser compreendido por leitores que pouco ou nada saibam de filosofia. Está escrito de maneira simples mas não simplista, conseguindo um notável equilíbrio entre o rigor conceptual e a simplicidade requerida por uma obra destinada a leitores não especialistas.
É a opinião de Carlos Pires, expressa na sua recensão do meu livro e do Desidério, Janelas para a Filosofia, publicada na edição on-line do dia 19 de Fevereiro da revista semanal Sábado.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O platonismo de um ex-punk alaudista

Não sei se o alaudista ex-punk holandês Jozef van Wissen estudou filosofia da música. Seja como for, numa recente entrevista ao jornal Público — a propósito da sua passagem por Portugal para dar vários concertos — dá uma boa ideia do que é o platonismo musical. 

O platonismo musical é uma perspectiva acerca do tipo de coisa que as obras musicais são. Trata-se de uma perspectiva acerca da ontologia da música, de acordo com a qual as obras musicais são objectos abstractos, não tendo, portanto, uma existência espácio-temporal: as obras propriamente ditas não se encontram na partitura, nem na gravação em disco, nem na sala de concertos, nem sequer na mente do compositor. Uma obra musical é, de acordo com o platonismo radical (há outros tipos de platonismo), uma estrutura puramente sonora, eterna e incriada. Assim, uma dada obra musical é descoberta pelo "compositor", não criada, pois existe antes dele e continuará a existir para sempre. 

É, no fundo, a esta perspectiva — talvez a mais comum entre os filósofos da música, de que se destacam Peter Kivy e Julian Dodd — que van Wissen dá voz quando diz:

Toco tanto ao vivo que não preciso de praticar — antes pelo contrário. Em casa toco algum repertório clássico, só para ginasticar os dedos, mas as melodias que acabam nos meus discos apanhos-as do ar. 
Neste momento sinto que o ideal para uma composição é encontrar a melhor melodia possível. Não é fácil encontrar uma melodia que fique no ouvido de toda a gente. Isso é um presente divino. O que sinto é que sou uma parte de algo que canaliza as melodias que já existem.

Ele fala das melodias que acabam nos seus discos e não nas melodias que compõe ou que inventa, tornando mais clara esta ideia ao sublinhar que as apanha do ar, como algo que lhe foi oferecido, limitando-se a exemplificá-las espácio-temporalmente. Quer dizer, ele não cria, não inventa nem é verdadeiramente o autor dessas obras; apenas descobre e exemplifica estruturas puramente sonoras pré-existentes. Chama-se a isto platonismo musical extremo — ou também sonicismo puro.

Não tenho a certeza de que haja pressupostos filosóficos presentes na mera fruição musical. Mas eles são inevitáveis quando procuramos compreender a música.

Aqui fica uma gravação com van Wissen a canalizar para nós melodias que descobriu em nenhum lugar e que faz parte da banda sonora de um dos filmes do realizador Jim Jarmusch. Não creio que van Wissen seja um grande descobridor, mas esta melodia é, ainda assim, das melhores descobertas que lhe conheço. 




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Nebraska

Uma viagem aparentemente absurda, com um fim desconfortavelmente feliz. É assim que eu resumo este filme de Alexander Payne. Filmado a preto e branco, pois a cor aqui ficaria a destoar. Desolador e consolador, ao mesmo tempo. Um bom filme.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Obrigado

Agradeço aos que se atreveram a enfrentar a carga de água que caiu ontem à tarde em Lisboa para comparecerem na livraria Bertrand das Amoreiras para o lançamento do meu livro e do Desidério Janelas Para a Filosofia (col. Filosofia Aberta, da Gradiva). Um agradecimento muito especial a Carlos Fiolhais, que apresentou o livro.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Definição de arte


O artigo que escrevi sobre a definição de arte para o Compêndio em Linha de Problemas de Filosofia Analítica, organizado por João Branquinho e Ricardo Santos, já está disponível na página do LanCog Group, no âmbito do qual o projecto foi desenvolvido. 

O artigo visa dar uma perspectiva do estado actual da discussão sobre o problema da definição de arte.

Podem ainda ser lidos outros artigos já publicados sobre tópicos discutidos em filosofia da arte, nomeadamente o artigo sobre ontologia da arte, de António Lopes, e o artigo sobre entidades ficcionais, de Fiora Salis.

Mas há muitos outros artigos sobre outros tópicos. Por exemplo, sobre identidade pessoal, por Pedro Galvão, sobre regressões ao infinito, por João Branquinho e Guido Imaguire, sobre nomes vazios, por Manuel Gracia-Carpintero e Teresa Marques, sobre o contingente a priori, por Marco Ruffino, ou sobre a distinção facto/valor, por Rui Silva, para falar apenas dos que já li. 

E o número de artigos continua a aumentar, pelo que vale a pena ir espreitando.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Filosofia e literatura: Lolita

Aí está mais um dia mundial da filosofia. Desta vez foi-me pedido para escrever sobre uma obra literária que levante questões filosóficas. Escrevi o seguinte texto sobre o romance Lolita, de Vladimir Nabokov.

 
Pode a literatura substituir a filosofia? E a filosofia, pode substituir a literatura? A resposta é, em ambos os casos, negativa. Felizmente, seja para quem aprecia literatura, seja para quem se interessa realmente pelas questões filosóficas. Mas do facto de literatura e filosofia não serem a mesma coisa, não se segue que cada uma delas não possa dar importantes contributos para a outra. A literatura pode fecundar a filosofia tanto como a filosofia pode tornar a literatura fecunda, cada uma no seu próprio domínio. 

Embora os filósofos criem por vezes cenários ficcionais — como o fizeram Platão com a alegoria da caverna e o anel de Giges, Descartes com o génio maligno, Rawls com a posição original, Nozick com a máquina de experiências, Searle com o quarto chinês ou Putnam com a Terra gémea e o cérebro numa cuba, entre outros exemplos —, eles estão sobretudo interessados em desenvolver respostas para certo tipo de questões. Essas respostas consistem em teorias desejavelmente suportadas por bons argumentos. A tarefa do filósofo é, pois, essencialmente teórica. O poeta e o romancista, por sua vez, tipicamente não visam resolver problemas nem desenvolver teorias. Mas, quando se trata de boa filosofia e de grande literatura, tanto o filósofo como o poeta e o romancista nos desafiam e nos deixam a pensar, impelindo-nos a rever algumas das nossas ideias e convicções aparentemente mais firmes. 

A grande literatura é aquela que consegue testar as nossas intuições mais básicas: as nossas crenças morais, estéticas, políticas, religiosas, etc. Não é tanto aquela que afaga os nossos preconceitos e vai de encontro ao que já damos como garantido. É certo que pode ilustrar de forma luminosa algumas ideias que temos e que ainda não estão completamente claras para nós, mas torna-se filosoficamente fecunda sobretudo quando nos consegue incomodar e nos quer tirar a razão, surpreendendo-nos sobre nós próprios e as nossas reacções, fazendo-nos vacilar e pensar novamente. Quando consegue fazê-lo com elegância e subtileza, sem nos dizer o que devemos pensar ou o que devemos sentir, a literatura adquire uma eficácia inigualável, o que só está ao alcance de uns quantos génios literários. É por isso que os romances em que o narrador se põe a pensar pelo leitor me parecem insuportáveis. E isso explica por que razão os romances moralizadores — que não é a mesma coisa que os romances com conteúdo moral — só convencem os já convencidos. Ora, um desses romances não é certamente Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov. 

Lolita, originalmente escrito em inglês mas publicado pela primeira vez em França no ano de 1955, é um romance irresistivelmente perturbador. Não foi, de resto, por acaso que a sua publicação foi proibida em muitos países europeus — e não só — e que nunca deixou de gerar polémica. Não só porque nos conta a história de uma personagem moralmente sórdida, mas porque Nabokov o faz com tal requinte, que chega a levar o leitor a simpatizar com tal personagem, fazendo estremecer as convicções morais mesmo do leitor mais distanciado. 

O livro conta a história de um professor de literatura, Humbert Humbert, que vai da Europa para os Estados Unidos para ensinar literatura numa universidade americana. Acaba por arrendar um quarto na casa de uma mulher viúva, onde vive com a sua filha de 12 anos, Dolores Haze, a quem a mãe chama Lolita — o diminutivo de Dolores. O professor fica imediatamente apaixonado por Lolita, fantasiando o mais improvável e voluptuoso romance com aquela «sua» ninfita. A mãe de Lolita começa, por sua vez, a sentir-se atraída pelo professor. Humbert Humbert acha a mãe de Lolita completamente desinteressante senão mesmo detestável, mas acaba por se casar com ela com o intuito de ficar para sempre perto de Lolita. Mas isso não é suficiente, pois deseja ficar apenas com Lolita, o que o leva a cismar em matar a sua insuportável mulher. O problema é que não só não tem coragem como lhe parece imprudente e mesmo indigno de uma pessoa refinada como ele ter de manusear armas ou dar-se ao trabalho de misturar veneno na comida da sua mulher. Ainda assim, o destino dá-lhe caprichosamente uma ajuda: num belo dia, recebe a feliz notícia de que a sua mulher foi atropelada mortalmente, deixando-o como único responsável pelo sustento e pela educação da sua ninfita. Fica, assim, o caminho livre para desenvolver uma relação incestuosa e pedófila com Lolita. 

Ora, tudo isto é moralmente repugnante. Contudo, só um escritor genial consegue tornar uma história destas irresistível, a ponto de deixar o leitor ávido, surpreendido e mesmo irritado com a sua própria complacência em relação a uma personagem tão execrável. E este é o aspecto filosoficamente mais interessante do romance, na medida em que funciona como um teste às nossas intuições morais mais básicas, tal como os filósofos imaginam situações hipotéticas para testar as nossas convicções e as suas teorias. As teorias filosóficas não podem ser testadas com experiências reais. Felizmente, a boa literatura é capaz de gerar as mais vivas experiências ficcionais. Mas estas experiências só são eficazes se tiverem impacto real no leitor. Isso é tarefa para os grandes génios da literatura, como Sófocles, Shakespeare, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, George Orwell ou... Vladimir Nabokov. 

Outra questão filosófica interessante que Lolita sugere é a da avaliação da arte, em particular a relação entre arte e moralidade: será que a grande arte pode ser imoral? Tolstói considerava a arte como algo valioso por contribuir para o aperfeiçoamento moral de quem a aprecia. Assim, uma falha moral numa obra implica sempre, segundo ele, uma falha artística, comprometendo irremediavelmente o seu valor qua arte. Esta posição é conhecida como moralismo. A perspectiva de Tolstói é de tal modo exigente que ele próprio conclui que quase nenhum dos seus romances — Guerra e Paz e Ana Karenina, por exemplo — tem valor artístico precisamente por os considerar moralmente fúteis. De acordo com Tolstói, talvez Lolita fosse uma obra literária falhada. Em sentido oposto, o autonomismo é a perspectiva filosófica segundo a qual nenhum defeito moral é um defeito artístico, na medida em que a arte é autónoma e, portanto, independente da moral. O esteticismo é uma forma de autonomismo e o decadentismo uma forma extrema de esteticismo, de acordo com a qual a estética se sobrepõe sempre à moral: qualquer imoralidade é justificável se for cometida em nome da arte. 

Resta saber se Lolita é mesmo uma obra imoral. Se encararmos Lolita como uma espécie de experiência ficcional destinada a testar a firmeza das nossas convicções morais, então talvez seja uma obra com um grande interesse moral e filosófico. Há quem, como eu, pense que é este o caso e que é precisamente isso que faz de Lolita um dos mais importantes romances do século XX. É por isso que ler Lolita é um desafio intelectual, um teste moral e... um inesquecível prazer estético.