quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Arte e estética

Que algumas obras de arte não têm de todo qualquer propósito estético é bem diferente de admitir que muitas obras de arte não têm propósitos estéticos importantes. Muitas vezes os teorizadores escorregam demasiado facilmente da última afirmação para a primeira. Além disso, devíamos ser cautelosos acerca da tese de que muitas das grandes obras de arte não têm qualquer propósito estético. Isso não passa de um mito. (Uma das fontes do mito é as pessoas levarem demasiado a sério os "manifestos" dos artistas, que não devem tantas vezes ser tomados com mais seriedade do que qualquer outra peça publicitária.)
Nick Zangwill, Aesthetic Creation 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Parece que isso

Parece que as férias foram longas, mas isso não é verdade. Houve coisas atrasadas para fazer e, claro, este blogue teve de ficar para trás por uns tempos. Chegou a altura do regresso, mas com uma orientação ligeiramente diferente: a ideia já não é tanto apoiar os meus alunos de filosofia, mas ser simplesmente um blogue de filosofia e de outras coisas igualmente interessantes, como música, ciência, livros e filmes. 

Relendo agora o que escrevi atrás, dei-me conta que comecei com uma frase  ambígua. O que queria eu dizer? Que não é verdade que parece que as férias foram longas ou apenas que não é verdade que as férias não foram longas? Tudo depende da interpretação do termo «isso». Eu, que tenho um acesso directo à intenção do falante, estou em condições de desambiguar a frase, esclarecendo que «isso» refere as próprias férias e não o que parece das férias. 

Já agora, seria a interpretação alternativa razoável? A interpretação alternativa dá o seguinte: não é verdade que me parece que as férias foram longas. Mas como pode algo parecer-me de uma maneira e não ser verdade que me parece dessa maneira? Se me parece que foram longas, é verdade que me parece que foram longas. Não posso estar enganado quanto a isso, como diria Descartes. Portanto, esta talvez não seja uma interpretação razoável e talvez a ambiguidade seja meramente aparente. 

Mas será que não estou a fazer aqui alguma confusão? É bem possível. Vejamos. Talvez seja a palavra «parece» que não está a ser usada na primeira pessoa do singular. Pode ser que com este «parece» eu esteja a falar de quem lê e não de mim. Nesse caso, a frase não é assim tão disparatada. À parte a arrogância que é eu estar aqui a dizer o que parece aos outros. Como sei eu o que parece aos outros?

Mas que complicado é tudo isto! E ainda há quem pense que a linguagem pode ser totalmente transparente. E se o não for? Será que devemos deixar tudo como está e não nos preocuparmos com isso?

Mas que maneira de recomeçar... 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Boas Férias!

Espero que, ao contrário do que diz o título desta bela canção de P J Harvey, encontrem muita luz e muito sol nos lugares que procurarem (se for essa a ideia, claro). E boa sorte para os que ainda vão ter de fazer exames.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Humano ou não?

Aqui fica, com a devida autorização da sua autora, Daniela Cabrita, um pequeno ensaio sobre o filme Blade Runner: Perigo Iminente, de Ridley Scott.


Será Deckard humano ou será replicante?
Daniela Cabrita
Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes
Maio de 2014
11º ano, turma M de Filosofia

Neste ensaio discute-se se Deckard, uma personagem do filme Blade Runner – Perigo Iminente, será humano ou replicante. Defendo que Deckard é um replicante.
     No filme, distinguia-se um ser humano de um replicante recorrendo à utilização de uma máquina de teste chamada “Voight-Kampff”. De outra forma, por exemplo, recorrendo ao ADN, os replicantes seriam também considerados humanos. Deckard, que deteta a diferença entre humanos e replicantes recorrendo a esse teste, depara-se com Rachel, que pensa ser humana, quando na realidade não o é. A situação de Rachel pode muito bem assemelhar-se à de Deckard: quem é que lhe garante que ele não é também um replicante? À medida que o filme vai avançando, são vários os fatores que me levam a crer que Deckard é um replicante. Por exemplo, quando Rachel lhe pergunta se este alguma vez realizou o tal teste, este nunca lhe chega a responder. Para além disso, Deckard é quase inexpressivo, neutro, e praticamente não reage a quase tudo o que o envolve. As atitudes que ele tem não condizem com o que, aparentemente, um humano sentiria na mesma situação. Além disso, Gaff (uma espécie de vigilante dos caçadores de replicantes) disse significativamente a Deckard que este fez um “trabalho de homem”. O que quereria ele dizer com isso? Para mim, esta é uma frase bastante importante e que nos pode levar a pensar em todo o filme.
     Aliado a isto está o facto de Deckard ter encontrado o origami de um unicórnio, que já tinha aparecido nos seus sonhos, e que pode ser uma prova de que aquilo pode ser apenas uma memória implantada. Portanto, como pode o próprio Deckard confiar nas suas memórias? Para além disso, porque haveriam de pôr um humano em perigo à procura de replicantes? Tal como é dito no filme, os replicantes faziam trabalho escravo para os humanos, faziam os serviços demasiado arriscados. Algo que se repara no filme é que, num determinado ângulo de luz, os replicantes têm um certo brilho no olhar. Numa cena em que Deckard fala com Rachel ele tem exatamente o mesmo brilho nos olhos que ela. Se Deckard fosse realmente humano, tal não aconteceria.
     Concluindo, do meu ponto de vista, Deckard é um replicante devido a certas atitudes que toma, à maneira como reage e o facto de nunca ter mencionado a sua família, o que me leva a duvidar acerca da sua humanidade.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O que é a arte?

Nietzsche, Schelling, Tolstói, Bell, Collingwood, Goodman, Deleuze, Danto, Carroll e Levinson.

Lá estarei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para apresentar a resposta de Tolstói.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Humanidade

Deixo aqui o início do Capítulo 12 do novo manual 50 Lições de Filosofia, 11.º Ano, de que sou autor, juntamente com Desidério Murcho. É sobre um tema que iremos discutir nas aulas, baseado num filme que é suposto os alunos terem visto. O tema é: tecnologia e humanidade.

Imaginemos que estamos num futuro em que a tecnologia está desenvolvida a ponto de nos permitir colonizar outros planetas. Imaginemos que a tecnologia nos permite criar, em avançados laboratórios de engenharia genética, andróides praticamente iguais aos seres humanos. Imaginemos que esses andróides podem até ser mais fortes, mais resistentes e mais inteligentes do que muitos seres humanos. Imaginemos que criávamos esses andróides para facilitar a nossa vida, pondo-os ao nosso serviço: por exemplo, enviando-os para outros planetas para desempenharem as tarefas mais difíceis e arriscadas; aquelas tarefas mais duras que os seres humanos não estariam dispostos a realizar. Sendo especialmente inteligentes, esses andróides poderiam um dia recusar-se a desempenhar tais tarefas e decidir viver a sua própria vida sem estar ao serviço dos humanos; sendo também fortes, talvez ninguém os conseguisse deter. Imaginemos que, para evitar tais perigos, os andróides foram concebidos e fabricados de maneira a que o seu período de vida fosse limitado a quatro anos. Sendo nós seres humanos, como reagiríamos, caso algum andróide se revoltasse? E se fôssemos andróides, como reagiríamos ao saber que iríamos durar apenas quatro anos, sempre ao serviço dos humanos?
Para nos ajudar a imaginar precisamente este futuro, o melhor é ver Blade Runner: Perigo Iminente, o filme de 1982, realizado pelo inglês Ridley Scott, que se tornou um dos mais destacados filmes de culto da história do cinema.

sábado, 5 de abril de 2014

Boas férias da Páscoa... com música a propósito

aqui tinha sugerido isto há algum tempo, mas volto a insistir. Eu sei que poucos de vós ouvem este tipo de música, mas dêem o benefício da dúvida e experimentem ouvir com atenção. Talvez não seja má ideia ouvir diferentes tipos de música. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Cruel

Como todos os géneros musicais, também a música pop tem coisas boas e coisas más. St. Vincent é pop e é boa. Vale a pena ouvirem outras músicas de St. Vincent. Contrariamente ao que se espera da música pop, talvez não se goste desta à primeira audição, pois soa algo estranha. Mas é quase sempre imaginativa, sobretudo na maneira invulgar como ela usa a guitarra.

domingo, 23 de março de 2014

Hume e as percepções

Retirado do novo manual 50 Lições de Filosofia, 11º Ano (Didáctica Editora)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Aprender filosofia com a história da filosofia


Decorreu esta manhã a XV Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes. O tempo correu depressa e o Professor António Pedro Mesquita, da Universidade de Lisboa, ainda tinha mais para dizer. O destaque foi sobretudo para a teoria da felicidade de Aristóteles, a principal influência das concepções do período helenístico, de que se destacam o epicurismo e o estoicismo. Muitos dos presentes ficaram com vontade de assistir a uma segunda conferência sobre as concepções clássicas da felicidade. Quem sabe se um dia... 

Entre as muitas ideias interessantes que nos foram explicadas, sublinho aquela com que o Professor António Pedro Mesquita iniciou a sua conferência, e que constitui a melhor justificação para o estudo da história da filosofia. Assim, antecipando a resposta para a pergunta sobre a utilidade da história da filosofia, o Professor António Pedro Mesquita argumentou que o seu estudo permite:

  • evitar "abrir portas abertas";
  • descobrir potencialidades não desenvolvidas na teoria original;
  • servir de modelo ou inspiração para novas retomadas de soluções já dadas;
  • em geral, ajudar a mapear um problema e as suas soluções;
  • ou a experimentar a coerência, solidez e força de determinado paradigma filosófico mais ou menos frequente (por exemplo, o aristotélico, o kantiano, etc.)

Como se vê, boas razões não faltam. Resta-nos agradecer, mais uma vez, ao Professor António Pedro Mesquita.