Quando testemunhamos um acidente, olhamos para o termóstato,
misturamos azeite com água na cozinha ou observamos um eclipse raro a olho nu,
adquirimos crenças sobre o comportamento das coisas e das pessoas à nossa
volta. Em todos estes casos, temos a experiência directa do
que acontece, do que vemos ou sentimos, e em grande medida ganhamos essa
experiência por via da observação. Mais frequentemente, porém, as nossas
crenças provêm de fontes indirectas, algumas mais fiáveis que outras (especialistas destacados, professores, livros, televisão, internet, boatos, tradição, por
exemplo). E há, finalmente, crenças que retiramos de crenças anteriores. Se sei
que o meu amigo João é alérgico aos camarões e que no banquete há um salteado que
contém camarão-tigre, então formo a crença de que o João deve evitar o
salteado.
As nossas crenças são justificadas se temos boas razões
que sustentem o seu conteúdo. Mas há uma diferença entre verdade e justificação.
A minha crença de que amanhã vai chover pode ser justificada — pode, por exemplo,
provir de uma fonte fiável — e no entanto acabar por ser falsa. A justificação
não garante a verdade. Por outro lado, posso ter uma crença verdadeira, como
por exemplo que o meu vizinho é um espião, sem ter a mínima prova que a apoie.
O que eu acho ou o que neste caso o meu instinto me disse, coincidiu por acaso com algo que é
verdade, mas a minha crença não é justificada.
Há pelo menos duas razões para nos interessarmos pelas
crenças justificadas. Primeiro, por vezes a verdade não chega. Termos
uma justificação para as nossas crenças torna mais fácil convencer os outros da
sua verdade. No tribunal, por exemplo, o que eu acho e o meu instinto me diz não
contam. É preciso provas de que o acusado é culpado ou de que
não houve crime. Segundo, é mais provável que, desde que coerentemente organizadas, as nossas crenças justificadas ofereçam
uma explicação satisfatória para os fenómenos por que nos interessamos. Dificilmente valorizaríamos um conjunto
aleatório de crenças verdadeiras, mas se tivermos fundamentos para elas, é mais
provável que vejamos as ligações entre elas e que delas retiremos outras
implicações, o que potencialmente alarga o conhecimento.
Por vezes, os sistemas de crenças coerentemente
organizados formam teorias. Formamos teorias em contexto muito diferentes, não
apenas no contexto das disciplinas científicas formais. Temos teorias sobre
toda uma variedade de coisas: por exemplo, sobre como ser bem-sucedido nas
entrevistas de emprego, sobre o que originou a tensão no Médio Oriente, sobre o
motivo por que John Grisham vende tantos livros.
Lisa Bortolotti, Introdução à Filosofia da Ciência (2008). Trad. port. Jorge Beleza. Lisboa: Gradiva, 2013, p. 67-8.
Em especial para os meus alunos do 11º M, que me pediram sugestões de boa música para descobrir nestas férias. Se não gostarem, quero que me digam porquê.
A propósito da V Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes realizada em Março de 2004, fiz, por iniciativa do grupo de Filosofia da escola, uma curta entrevista à conferencista desse ano, a professora Adriana Silva Graça (Universidade de Lisboa). Uma vez que o sítio onde foi publicada está desactivado, disponibilizo-a agora aqui, pois seria uma pena não estar acessível.
Na conferência que proferiu disse
que o problema do conhecimento é um problema epistemológico. Qual é, então, a
diferença entre epistemologia, gnosiologia e teoria do conhecimento?
As três designações são usadas com
significados ligeiramente diferentes em tradições filosóficas distintas. Na
tradição filosófica à qual eu pertenço, o primeiro e o terceiro desses termos
são basicamente sinónimos; o segundo, não é praticamente usado.
Qual é a importância que o estudo da
epistemologia tem numa boa formação filosófica?
Os temas filosóficos pertencentes à
Epistemologia ou Teoria da Conhecimento sempre foram fulcrais ao longo da
História da Filosofia, ao lado dos temas pertencentes à Metafísica. É crucial
que tenhamos uma ideia o mais precisa possível de como e se é possível conhecer
a realidade.
Quais são os principais problemas da
epistemologia que merecem mais atenção por parte dos filósofos actuais, além do
problema da definição de conhecimento? E quais são as teorias mais destacadas?
Por exemplo, i) se, de todo em
todo, o conhecimento é possível; ii) como o conhecimento se deixa analisar;
iii) se existe conhecimento a priori, ou se todo o conhecimento começa com a
experiência; iii) como se deixa organizar um certo conjunto de crenças, do
ponto de vista da sua justificação; iv) quais são as fontes de
conhecimento; v) aquilo a que se tem acesso cognitivo no acto perceptivo.
Para a primeira questão, é
necessário desenvolver boas maneira de refutar o argumento céptico; Descartes e
Putnam têm boas formas, muito diferentes entre si, de o fazer. Relativamente ao
terceiro tema destacam-se as respostas racionalista e empirista (na sua forma
moderada ou radical). Quanto ao quarto problema, temos as teorias
fundacionalistas e coerentistas em debate. Finalmente, quanto ao quinto, temos
as teorias directas e indirectas da percepção, bem como o idealismo e o
fenomenalismo.
Como é que encara a actividade
filosófica na actualidade? Vê o filósofo como uma pessoa que opina sobre
quase todos os assuntos para as pessoas em geral ou, pelo contrário, vê-o antes como um especialista que fala de coisas para a compreensão das quais se exige o
domínio de técnicas próprias?
Vejo o filósofo mais como um
especialista, cuja especialidade é o lado mais abstracto das diferentes
questões. Vejo a filosofia como estando em continuidade com as diferentes
ciências e diferentes conjuntos organizados de crenças, mas preocupando-se em
fundamentar (e discutir) o que todos os outros tomam por óbvio. É claro que a
análise filosófica exige o domínio de técnicas próprias.
Tem uma disciplina filosófica pela
qual se interesse mais? Qual é e porquê?
Sim. É a Filosofia da Linguagem.
Porque é uma disciplina filosófica que faz fronteira com a Epistemologia, a
Metafísica e a Filosofia da Mente, fazendo girar em torno dela uma diversidade
grande de problemas filosóficos muito interessantes. Interessam-me
particularmente os problemas do sentido e da referência de expressões
linguísticas (frases ou certos tipos de termos como termos gerais, termos
singulares, termos indexicais, termos descritivos etc.), bem como os problemas
relacionados com a relevância do contexto para a determinação daquilo que é
dito por meio de certas elocuções de frases. A Filosofia da Linguagem é em
grande parte responsável pelo desenvolvimento de boa parte dos conceitos que
hoje são usados na prática filosófica corrente (como os conceitos de a priori,
de necessário e de analítico). É efectivamente a minha área preferida de
estudo.
Tem algum ou alguns filósofos
preferidos? Porquê?
Tenho alguns: Aristóteles, Leibniz e
Russell. Os três inteiramente originais, com grande poder argumentativo,
criadores de sistemas filosóficos geniais para a sua época. Preocuparam-se - os
três - em construir um edifício cujos alicerces tornaram explícitos.
O que é fazer investigação em
filosofia?
É ter muito trabalho pela frente!
Ler muito, tentar descobrir uma nova ideia, ou porque é que uma certa teoria
não serve, ou porque é que teorias tidas por inconsistentes afinal não o são.
Mas é muito difícil fazê-lo, pois, por um lado, não temos dados empíricos
(temos unicamente algumas intuições, que podem sempre ser disputadas), e por
outro, há muita gente a trabalhar na comunidade internacional e é difícil, com
as condições que temos, competir com eles.
O que a levou à filosofia?
O gosto pelos problemas na sua
formulação mais abstracta e uma professora do ensino secundário, por quem tenho
ainda hoje grande estima: Adelaide Galvão Teles.
Gosta de ensinar filosofia? Porquê?
Muito. Gosto de sentir que os alunos
se interessam por questões importantes, gosto de observar o seu desenvolvimento
e há sempre aqueles alunos que compensam o trabalho de preparar uma aula.
Sempre que é possível, confronto as minhas próprias ideias com os alunos na
aula (nas últimas aulas da disciplina, após eles já terem algum controle dos
problemas em discussão).
Será que é possível haver uma
colaboração mais estreita, no que diz respeito ao ensino da filosofia, entre os
professores do ensino superior e do ensino secundário?
Julgo que sim. Ela ocorrerá sempre
que houver vontade para isso. Julgo que todos temos a ganhar.
Ao fazer uma limpeza num velho disco externo, encontrei mais uns quantos textos escritos para a comemoração do Dia Mundial da Filosofia. Deixo aqui o de 2006, sem qualquer alteração. Recordo-me que a ideia naquele ano foi cada professor do grupo escrever um texto de um página sobre um dos nossos filósofos preferidos, apresentando-o e justificando a escolha. Nesse ano escrevi dois textos. Este é sobre David Hume, cujas ideias sobre o conhecimento iremos estudar e discutir já no próximo período.
DAVID HUME
O CEPTICISMO NO SEU MELHOR
Ler David Hume é uma experiência intelectual
desconcertante. Começa – num espírito bem socrático – por destruir muitas das
nossas ideias e convicções mais básicas, para terminar – talvez pouco
socraticamente – por devolver o que nos tinha tirado. Só que, uma vez
recuperadas as nossas crenças iniciais, elas perderam, nas mãos de Hume, o seu
valor facial primitivo: elas continuam a ser-nos caras, até porque não dispomos
de alternativas melhores, mas a certeza nelas depositada ficou irremediavelmente
arruinada.
Um dos maiores
representatntes do iluminismo escocês – nasceu em Edimburgo, em 1711, e aí veio
a morrer em 1776 –, Hume defendia que «devemos acreditar apenas naquilo em que
temos boas razões para acreditar». Mas em que teríamos nós boas razões para
acreditar? Temos boas razões para acreditar que o Sol aquece? Que havemos de
morrer um dia? Que Deus existe? Que há coisas realmente belas? Que a razão nos
diz o que é certo e o que é errado? Que existe o mundo exterior?
A resposta de Hume para
todas estas perguntas é, insisto, desconcertante: nada nos permite ter a
certeza em qualquer destas crenças. Acontece apenas que algumas delas são
simplesmente inevitáveis, pois fazem parte do nosso instinto natural de
sobrevivência e não conseguimos viver sem elas. Tudo o que podemos dizer é que
há impressões dos sentidos e que, supostamente,
estas seriam explicadas pela existência de objectos
exteriores. Mas nada nos garante tal coisa. Também não podemos dizer que o Sol aquece, pois tudo o que realmente sabemos é que temos a impressão de ver o Sol e a sensação de calor. A conexão entre uma coisa e outra é algo que não
observamos, pelo que tudo se resume ao hábito de associarmos essas
impressões. Mas do facto de haver uma conjunção constante entre duas coisas não
se segue que uma não possa existir sem a outra. Analogamente, também não se
compreende, a não ser pelo hábito, por que razão dizemos que iremos morrer um
dia, coisa que ninguém ainda observou. Claro que até agora todas as pessoas
abaixo de uma certa idade morreram. Mas, a não ser que saibamos que a natureza
é regular e uniforme, não podemos saber que nós também iremos morrer. Só que
não podemos saber que a natureza é regular e uniforme a não ser porque vimos
muitas vezes coisas como, por exemplo, todas as pessoas abaixo de uma certa
idade morrerem. Ora, isto é andar aos círculos, pelo que a explicação não serve
– este é o célebre problema da indução, pela primeira vez levantado por Hume.
Além disso, também não
há qualquer razão para acreditarmos que Deus existe; como não há qualquer
razão para acreditarmos em milagres; como não temos boas razões para afirmar
que a beleza está nas próprias coisas; como não se consegue explicar em que
sentido poderá a moral fundar-se na razão em vez do
sentimento.
Perante tudo isto,
poderíamos pensar que Hume é um céptico pessimista. Mas isso não é correcto. É
ceptico, mas não é pessimista. O seu cepticismo é resgatado por uma espécie de
senso-comum sofisticado: certas ideias são tão vivas que não podemos viver como
se fossem simplesmente falsas. O que não garante que sejam verdadeiras. Por
isso, não nos podemos deixar dormir no nosso sono dogmático – o próprio Kant confessou que foi despertado do seu sono dogmático pela leitura de Hume.
A filosofia seria hoje
irreconhecível sem Hume. Ele obrigou muitos filósofos, políticos, artistas,
cientistas e até crentes religiosos a pensar melhor, a rever e a justificar
cuidadosamente as suas ideias. A sua influência é enorme em praticamente todas
as disciplinas filosóficas. Mas ainda assim, Hume não se esqueceu do que mais
importa: «sê um filósofo, mas no meio de toda a tua filosofia, não deixes de
ser um homem».
Tropecei mesmo agora com o texto que escrevi para o Dia Mundial da Filosofia de 2008. Ainda me lembro bem da conversa que deu origem ao texto. E, de vez em quando, ainda me cruzo na rua com o colega de Matemática, há muito reformado, que teve essa conversa comigo.
Aqui fica o texto.
Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega
mais velho de Matemática, entretanto reformado, me disse na sala de professores. Além do seu cachimbo — nessa altura ainda se fumava nas escolas —, esse colega era conhecidopor assumir frequentemente uma atitude intelectualmente provocadora
e até politicamente incorrecta, como agora se diz. Estava, então, eu a
lamentar-me baixinho pelo facto de tantas pessoas pensarem que os filósofos são
aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega, que ainda mal conhecia, se virou para
mim e disse: «olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres,
dos pseudo-revolucionários ou dos poetas lunáticos.»
Fiquei
intrigado com o comentário dele e perguntei o que queria dizer com aquilo. «Ora,
voltou ele à carga, todos os professores de Filosofia que conheci ou pareciam padres
ou pseudo-revolucionários de esquerda ou tolinhos armados em poetas lunáticos.» Achei
a generalização algo abusiva, mas quis saber como caracterizava ele cada um
desses grupos. A resposta foi, mais ou menos, nestes termos: «os padres ensinam
filosofia como se fosse catequese e têm aquele ar muito cinzentinho; os pseudo-revolucionários de esquerda não estão
interessados em ensinar seja o que for, mas a levar a rapaziada a mandar bocas contra o sistema; os pseudo-poetas são aqueles que, sem paciência para raciocinar disciplinadamente, querem é liberdade para dizer a primeira parvoíce
que lhes passe pela tola.»
Penso
que o comentário do colega foi injusto, pois felizmente não se aplica a muitos professores
de Filosofia. Mas, ainda assim, não deixou de me fazer pensar. A verdade é que
ele estava a tentar denunciar aquilo em que a filosofia não se pode tornar e
que, a ser assim, a tornaria dispensável. O colega queria, no fundo, protestar
contra a ideia de que a filosofia é um conjunto de preceitos que se transmitem
dogmaticamente (os padres); ou um gesto de pura contestação, seja
contra o que for (os revolucionários); ou ainda um pretexto para cada um
exprimir o que lhe vai na alma, seja lá isso o que for (os poetas). Sem
desprimor para os verdadeiros padres, revolucionários e poetas.
Ora
bem, esta ideia não é totalmente uma invenção dele. A verdade é que a tentação para muitos
de nós santificarmos ou idolatrarmos os nossos filósofos preferidos pode
fazer-nos deslizar facilmente do campo do exercício crítico que caracteriza a
filosofia para o campo da catequese quase religiosa. Assim como é fácil ser
impaciente e criticar sem antes ter compreendido, ou confundir a ausência de
dogmas com a livre expressão de sentimentos e o reino do vale tudo. A filosofia
não é religião, não é política e não é poesia. A filosofia ocupa-se dos seus
próprios problemas, apesar de alguns deles serem acerca da religião, da
política e da poesia. E ainda bem para a filosofia, para a política e para a
poesia que é assim.
É
certo que estes domínios por vezes se contaminam, tal como se pode misturar
água com café. Mas, tal como a água não passa a ser café e o café não passa a
ser água, também a filosofia não passa a ser poesia nem a poesia filosofia. E também
não é de estranhar que a melhor filosofia se manifeste na discussão directa com
os filósofos, pois afinal são eles os profissionais do ofício, os que mais
treinados estão para formular correctamente e discutir criticamente os
problemas filosóficos.
A
filosofia não precisa de se tornar literatura, poesia ou outra coisa qualquer
para ter dignidade. Só quem não vê valor intrínseco na filosofia precisa de o
ir buscar a outro lado. E a literatura e a poesia também não precisam da
filosofia para nos deleitarem. Seria tudo muito mais pobre e desinteressante se
não fosse assim.
O grupo de Filosofia da ESMTG celebra, mais uma vez, o Dia Mundial da Filosofia. E os membros do grupo continuam a pensar que a maneira mais adequada de celebrar tal dia é cada um de nós tentar filosofar um pouco, fora dos limites dos programas escolares. Felizmente, matéria de reflexão filosófica fora dos programas é coisa que não falta. Neste ano, os professores do grupo decidiram tentar reflectir filosoficamente sobre... música. Isso mesmo, escrever um texto (é muito importante que os professores escrevam e partilhem o que escrevem) sobre alguma música ou canção à escolha de cada um.
Aqui fica o texto que escrevi. Optei por música clássica como poderia ter escolhido uma canção pop, de heavy metal ou de jazz. Não porque considere esse estilo ou tradição musical superior a outros. São apenas diferentes. E ainda bem para quem aprecia realmente música.
SEPTEMBER
RICHARD STRAUSS
Que relação há entre filosofia e música? Parece
óbvio que a música não tem conteúdo filosófico: ela não responde a problemas
filosóficos, não apresenta teses nem argumentos e muito menos esclarece os
conceitos que usamos para pensarmos sobre o mundo. Isso é mau? Não, desde que
seja boa música.
Todavia,
determinar o que faz a música ser boa já é uma questão filosófica. Podemos não
aprender filosofia ao ouvir música, mas a música pode dar muito que pensar aos
filósofos. Mesmo que não haja música filosófica, a filosofia da música está de
saúde e recomenda-se. Dos muitos problemas filosóficos que se colocam acerca da
música, um dos mais intrigantes é o da relação entre a música e as emoções, que
é conhecido como «o problema da expressão musical».
A relação
entre música e emoção é demasiado óbvia, levando muitas pessoas a concluir que
a música é a expressão de emoções. Coisa estranha, pois as emoções envolvem
estados psicológicos e a música é composta por nada mais que sons. Só seres
sencientes, com uma mente, podem sentir emoções. Portanto, só seres sencientes
podem exprimir emoções, dado que exprimir algo é exteriorizar o que se encontra
lá dentro. Dizer que os sons de uma música exprimem emoções é como dizer que os
espinafres sentem inveja dos pepinos. A música — como os espinafres — não sente
seja o que for; quem sente são as pessoas que a apreciam. Por isso, alguns
filósofos defendem que a música não exprime emoções, mas antes causa (ou
suscita, ou provoca) em nós emoções: de tristeza, alegria, euforia,
tranquilidade, arrebatamento, paixão, etc. Assim, a música não pode literalmente
ser triste, nem alegre, nem eufórica, etc.; as pessoas é que podem ficar
tristes, alegres, eufóricas, etc., quando a ouvem.
Mas como
acontece tal coisa? Isso levanta, por sua vez, novas questões não menos difíceis,
que não cabe aqui expor. Fico-me com a minha teoria preferida, sem a explicar:
a música não exprime emoções, nem causa em nós emoções; ela pode muitas vezes
representar emoções. Como o faz? Resumidamente: a sequência de sons de uma
música está concebida de modo a criar certas expectativas nos ouvintes, as
quais podem ser satisfeitas, frustradas ou adiadas parcial ou totalmente,
criando neles certos estados psicofisiológicos de tensão, relaxamento, suspense, ansiedade, surpresa,
resolução, choque, etc., idênticos aos que sentimos quando estamos tristes,
alegres, surpreendidos, eufóricos, etc.
Nem toda
a música o consegue fazer com sucesso, mas há algumas que fazem de nós,
ouvintes atentos, o que «querem». É, pessoalmente, o caso de September, uma das emocionantes Quatro
Últimas Canções (Vier Letzte Lieder),
escrita em 1948 pelo compositor alemão Richard Strauss. As quatro canções são
provavelmente das canções mais belas jamais escritas e são um comovente
testamento musical do genial compositor alemão, que viria a morrer um ano
depois de as ter composto.
Escolhi September como poderia ter escolhido
qualquer das outras três, em especial Beim
Schlafengehen (Indo dormir) ou Im
Abendrot (No Crepúsculo). September
é uma canção para soprano e orquestra, baseada num poema de Hermann Hesse.
Para usufruir
de toda a riqueza emocional de September
é preciso entregarmo-nos totalmente à sua escuta, pois é incompatível com
outras ocupações. Ouvir esta música enquanto se faz outras coisas é
maltratá-la. E algo maltratado é sempre algo desagradável. Assim, recomendo ao
leitor destas palavras que não tente ouvi-la se estiver com pressa; nem sequer
quando está à espera que o tempo passe. Não, ela tem de ser ouvida com a mente
completamente limpa e disponível. Ela precisa da nossa mente aberta para entrar
e a preencher totalmente. Entrar no seu universo é entrar num universo
exclusivo, e isso impõe certas condições.
Uma vez
disponíveis para ela, o que tem para nos dar? Não se espere um festival
patético de emoções nem dores de alma bacocas. É tudo muito sereno, subtil e
contido, mas intenso e sugestivo na sua contenção.
A canção
abre com as cordas e sopros da orquestra de forma aparentemente hesitante,
tornando-se súbita, mas também docemente, mais afirmativa. Começa, então, o
soprano: O jardim está de luto. A chuva
cai fria sobre as flores. O Verão estremece em silêncio, aguardando o seu
fim. A melodia é encantadoramente sinuosa e imprevisível, enquanto as
cordas da orquestra se desdobram nos seus diferentes naipes e timbres, em harmonias
subtilmente caprichosas: violinos, violas e violoncelos parecem divergir
harmoniosamente para, inesperadamente, se voltarem a encontrar.
De uma
forma mais assertiva, mas ainda tranquila, surgem os versos da segunda estrofe,
com sopros de flautas como que escondidos por detrás da paisagem orquestral: Douradas, folha após folha caem do alto pé
de acácia. O Verão sorri, surpreso e lânguido, no sonho moribundo do jardim.
A melodia do soprano muda de rumo noinício do terceiro verso (Sommer
lächelt / O Verão sorri), criando um momento de pura e inesperada felicidade
auditiva. A concluir a segunda estrofe, somos mais uma vez surpreendidos com o envolvente
percurso melódico de uma orquestra luminosa e colorida. Surge a terceira
estrofe. A voz
flutuante do soprano canta:
Muito tempo
ainda junto às rosas ele se detém, aspirando ao repouso. Lentamente ele
fecha seus olhos cansados. A palavra Langsam
(Lentamente), com que se inicia o terceiro verso, é cantada muito lenta e
gravemente, transportando-nos devagar até nos fazer sentir como que a levitar.
O sentimento de paz e tranquilidade é simplesmente indescritível. Mas, enquanto
a última sílaba se vai lentamente desvanecendo na voz do soprano, eis que surge
sorrateiramente, a rematar, o som quente, calmo e reconciliador de uma trompa,
como que a afagar-nos com os últimos raios de sol do Verão que se despede.
Quase paramos de respirar. Isto dá cabo de uma pessoa! É altura de limpar
discretamente o canto do olho.
Talvez não me tenha emocionado, mas pareceu mesmo que sim.
Não faltam gravações desta obra-prima da música do século XX (e não
só), interpretada pelos mais variados sopranos e com orquestras dirigidas por
outros tantos maestros. Já ouvi muitas, mas nenhuma me satisfaz tanto como a
gravação da Philips, com o soprano Jessye Norman e com a Gewandhausorchester
Leipzig, dirigida por Kurt Masur.
Deixo aqui uma sugestão musical para descontrair nesta altura de testes. Não se trata de nenhuma boys band nem das habituais Gaga, Adele, Rihanna e Anastasia. É algo mais simples e cru: uma voz e uma guitarra. Já agora, para quem quer ver o que Anna Calvi consegue tocar com uma guitarra eléctrica nas mãos e esteja perto do Porto ou de Lisboa, não perca os seus concertos (16 de Dezembro na Casa da Música e 17 de Dezembro na Aula Magna).
Sugiro, em especial aos alunos do 11º ano, que vejam a apresentação que disponibilizei aqui. É sobre os diferentes tipos de argumentos e inclui exemplos. Pode ser muito útil para compreender melhor a matéria que estão agora a aprender nas aulas.