terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Brincar a Pensar

É já na próxima sexta-feira, às 17:00 horas, a XIV Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes, com Dina Mendonça. Apareçam, pois ficam todos convidados.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Prova Oral em diferido

Aqui está o podcast com a minha participação no programa Prova Oral, de Fernando Alvim e Xana Alves, na Antena 3. Sobre filosofia, claro.

Eu e os temíveis examinadores Fernando Alvim e Xana Alves.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Calendário dos exames nacionais de Filosofia - 2013

Staying by AiresAlmeida

Staying, a photo by AiresAlmeida on Flickr.
Sim, já estão marcadas as datas de ambas as fases dos exames nacionais de Filosofia (714). São as seguintes:

1ª fase:
20 de Junho de 2013 (quinta-feira), às 9:30.

2ª fase:
16 de Julho de 2013 (terça-feira), às 17:00.

Não esquecer que nestas provas são testados conteúdos do 10º e do 11º anos. Não esquecer também que todos os alunos internos e autopropostos em condições de realizar o exame têm de fazer a 1ª fase. Assim, os que faltarem à 1ª fase não poderão fazer a prova da 2ª fase, a não ser em casos excepcionais previstos na lei.

Já agora, aqui ficam também os prazos normais de inscrição:

Para a 1ª fase: de 18 de Fevereiro a 1 de Março de 2013.
Para a 2ª fase: 11 e 12 de Julho de 2013.

Como se sabe o exame de Filosofia é opcional. Já não têm muito tempo para se decidirem, pois o prazo de inscrições termina no fim deste mês.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Arte... para ver e pensar

Veias de Alcatrão é o título da exposição de Baltazar Torres, reportada no vídeo abaixo. Baltazar Torres, um bom amigo, tem gentilmente contribuído para os manuais A Arte de Pensar (Didáctica), de que sou co-autor. A obra de arte reproduzida, por exemplo, na capa de A Arte de Pensar, 11º Ano, é de sua autoria.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Prova oral de filosofia


Quem disse que já não há prova oral de filosofia? Eu serei submetido a uma na próxima segunda-feira, dia 11 de Fevereiro.

A prova é pública, na Antena 3, e os examinadores serão Fernando Alvim e Xana Alves.

Vamos ver se a matéria que vai sair na prova não é difícil.

Espero passar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Saber discordar


Qual é a negação de «O João e a Joana amam-se»?

Parece fácil? Pois, mas não é. Que o digam os alunos do 10º N, que levaram algum tempo perdidos com tentativas falhadas, até chegarem à resposta certa. O que, de resto, mostra que gostam de pensar e de aprender.

Antes de dar a resposta, vale a pena dizer algo mais.

Como seria de esperar, os filósofos passam o tempo a discutir. Discutem porque discordam: aquilo que uns pensam ser verdadeiro outros acreditam ser falso. Isso é o que leva uns a negar o que outros afirmam. Por exemplo, se um filósofo A defender a tese de que temos livre-arbítrio e outro filósofo B negar tal tese, este filósofo B estará, por sua vez, a defender outra tese: a tese de que não temos livre-arbítrio. Neste caso é fácil ver que a negação da afirmação «Temos livre-arbítrio» é «Não temos livre-arbítrio». 

Mas era bom que todas as negações fossem assim tão fáceis de compreender. Algumas teses filosóficas (e não só, claro) são mais complexas, pelo que temos de ter cuidado para não nos enganarmos a negá-las, caso nos pareça que não concordamos com elas.

As teses são aquilo a que se costuma chamar «proposições», as quais são expressas por meio de frases declarativas. A primera coisa que precisamos de compreender para negar correctamente uma dada tese ou proposição é a própria noção de negação. Ora, a negação é uma relação entre proposições, sendo que duas proposições são a negação uma da outra quando não podem ser ambas verdadeiras nem podem ser ambas falsas: a verdade de uma delas implica a falsidade da outra e vice-versa. 

Por exemplo, a negação de «Alguns algarvios são inteligentes» não é, como precipitadamente certos alunos dizem, «Alguns algarvios não são inteligentes», até porque as proposições expressas por estas frases são ambas verdadeiras. Do mesmo modo, a negação da tese de que todo o conhecimento tem origem na experiência não é, como por vezes se lê até em manuais de filosofia, que nenhum conhecimento tem origem na experiência. Isto porque se, por hipótese, for verdade que algum tem origem na experiência e outro não, então ambas as proposições anteriores serão falsas. Ora isso nunca pode ocorrer entre duas proposições que se negam mutuamente.

Mas podemos dar outros exemplos complexos. Há filósofos que defendem, por exemplo, que se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio (já agora, esta é conhecida como «a tese incompatibilista»). E, claro, há filósofos que discordam (os compatibilistas). O que defendem então os compatibilistas? Bom, estes defendem a negação da tese incompatibilista: que o determinismo é verdadeiro e que temos livre-arbítrio.

Regressemos agora à pergunta inicial. Parece que a negação de «O João e a Joana amam-se» é «O João e a Joana não se amam». Pois parece, mas não é!

E não é, porque ambas as proposições expressas pelas frases anteriores podem ser falsas, apesar de não poderem ser ambas verdadeiras. Para compreender melhor isto, imagine-se que o João ama, de facto, a Joana, mas que a Joana se está nas tintas para o João. Neste caso, a proposição de que o João e a Joana se amam seria falsa. Mas assim também a proposição de que o João e a Joana não se amam seria falsa, dado ser falso que o João não ama a Joana. 

Concluindo, só há uma maneira de negar a proposição de que o João e a Joana se amam, que é a seguinte: o João não ama a Joana ou a Joana não ama o João.

Às vezes as pessoas pensam que estão a negar o que outros dizem e não estão a negar coisa alguma. É por isso que precisamos de aprender a discordar.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Somos todos egoístas?

Foto: Aires Almeida

Eis a resposta de um filósofo à pergunta anterior. Pergunta e resposta encontram-se no interessante livro Que Diria Sócrates? (Gradiva), organizado por Alexander George. Podemos ler aí (na p. 237) o seguinte:

PERGUNTA
«Estou convencido de que todas as acções humanas são motivadas por interesse próprio: mesmo as chamadas acções altruístas são levadas a cabo com o objectivo de redimir uma culpa, ou de obter aprovação por parte de outros, ou mesmo para usufruir daquele sentimento agradável que nos preenche quando sabemos que fizemos uma coisa boa (acção que é essencialmente egoísta, considerando que o indivíduo que a pratica recebe uma recompensa espiritual, em vez de uma recompensa material). Como discordariam desta posição?»

RESPOSTA
PETER LIPTON: Há dias, estava eu a almoçar quando um diabinho poderoso me deu a escolher entre duas hipóteses: uma, os meus filhos singrarão numa vida próspera, mas eu viverei convencido de que eles vivem uma vida miserável ( o que faria sentir miseravelmente); a outra, os meus filhos viverão de facto uma vida de miséria, mas eu viverei convencido de que eles singram numa vida próspera ( o que me faria muitíssimo feliz). Assim que eu anunciar a minha escolha, a minha memória de ter feito a escolha esfumar-se-á; aliás, esfumar-se-á inclusive a minha memória de ter almoçado com o diabinho. sabe que mais? Vou escolher a hipótese «filhos felizes, eu miserável». Não sou nenhum anjo, mas este acto é altruísta.


domingo, 25 de novembro de 2012

Argumentos válidos

Foto: Aires Almeida
- Todos os argumentos bons são válidos?
- Sim, a validade é uma condição necessária para um argumento ser bom.
- E todos os argumentos válidos são bons?
- Não, a validade não é uma condição suficiente para um argumento ser bom.

Provavelmente a maior parte dos argumentos válidos não são bons, pois parece mais fácil dar exemplos de argumentos válidos que não são bons do que de argumentos válidos que sejam bons. Eis alguns exemplos de argumentos válidos que não prestam:

Exemplo 1

Deus existe.
Logo, Deus existe.

Exemplo 2

Deus existe e não existe.
Logo, Portugal fica em África.

Exemplo 3

Portugal fica em África.
Logo, Deus existe ou não existe.

Exemplo 4

Portugal fica em África.
Portugal não fica em África.
Logo, Deus existe.

Mas que são válidos, lá isso são.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

É dia da filosofia, vamos ao cinema!

Como tem sido habitual, os professores de Filosofia da ESMTG comemoram o Dia Mundial da Filosofia tentando filosofar um pouco. A ideia é cada um de nós partilhar com os outros a sua breve reflexão sobre um tema com algum interesse filosófico. Achamos que é mais apropriado comemorar o dia tentando praticar o ofício, ainda que modestamente, do que dizer coisas bonitas sobre a importância da filosofia. O tema é diferente todos os anos e neste foi decidido que cada um deveria escolher um filme filosoficamente interessante. Eis o meu texto, sobre um filme bem antigo: Grau de Destruição (Fahrenheit 451), de François Truffaut.


Felizes dos ignorantes?


A que temperatura queima o papel? A resposta é: a 451 graus na escala de Fahrenheit. E essa é também a temperatura a que queimam os livros, que são feitos de papel. Ora, Fahrenheit 451 é precisamente o título original do filme britânico, realizado em 1966 pelo francês François Truffaut, com base no livro do célebre escritor americano Ray Bradbury (falecido no passado mês de Junho). Grau de Destruição é o (infeliz) título do filme em Portugal.

A história desenrola-se numa sociedade futura de grande conforto material, a qual é zelosamente protegida por um governo (referido como a família) cujo único objectivo é manter as pessoas felizes. Está bom de ver que a família (o governo) deve saber o que é a felicidade. Na verdade, a família sabe melhor do que ninguém o que faz os seus membros (os governados) felizes. E sabe também o que perturba a paz social e os torna infelizes. Assim, a família sabe melhor do que ninguém o que, para o bem de todos, tem de ser evitado.

Mas o que poderá perturbar a paz social e a felicidade das pessoas? A família tem a resposta: a paz e a felicidade são perturbados pelo desconforto material, mas também pelo desconforto espiritual. O problema material parece ter sido resolvido, pois as pessoas têm emprego, não passam fome, vivem em boas casas e fazem muitas compras. Mas evitar o desconforto espiritual é bem mais difícil, pois este tem origem não só no desejo insatisfeito como na incerteza da dúvida. Nada pior do que pensar em perguntas difíceis, confrontar-se com ideias divergentes e alternativas ou dar asas a uma imaginação à solta. Quer dizer, a infelicidade encontra-se no pensamento crítico, na filosofia, na literatura, na poesia, na história. Só que é isto que abunda nos livros. Daí que os livros sejam verdadeiramente perigosos, incendiando as ideias e abrindo caminho à infelicidade. Por isso têm de ser banidos. O que as pessoas realmente precisam para entreter as suas mentes é programas de televisão (vistos em enormes e elegantes aparelhos de TV) que não as intranquilizem nem as façam pensar em coisas estranhas e complicadas: por exemplo, devem entreter-se com concursos interactivos em que se tenta acertar nos títulos de canções conhecidas, e coisas do género.

Mas há um problema: não basta proibir os livros, pois podem ser lidos às escondidas. É preciso destruí-los. E essa é a tarefa dos bombeiros, que vão às casas das pessoas suspeitas, procurando-os e queimando-os com jactos de fogo à temperatura de... 451 graus Fahrenheit. É o que faz, com grande dedicação, o bombeiro Guy Montag (Oskar Werner). Até ao dia em que fica incomodado com uma leitora que prefere deixar-se queimar juntamente com os livros do que perdê-los. Intrigado, Montag decide guardar sorrateiramente um dos livros para ver o que leva algumas pessoas a correr o risco de vida por eles. A partir daí, instala-se a dúvida no espírito de Montag. Incentivado pela sua atraente e perigosa amiga Clarisse (Julie Christie), começa a pôr em causa a sua profissão e acaba ele próprio por se tornar um ávido leitor. Só que, não podendo correr o risco de guardar os livros, junta-se a um grupo secreto de resistentes homens-livro, cada um dos quais decorou um livro inteiro. Assim, cada pessoa é um livro e os resistentes são uma biblioteca. «Que livro és?», pergunta-se a um deles. «Sou A República, de Platão, querem ouvir?». Juntam-se à volta de A República e ouvem. O conhecimento e a memória da humanidade são assim preservados secretamente na intimidade dos resistentes.


Mas serão mesmo as ideias contidas nos livros fonte de infelicidade? Seremos mais felizes se nos mantivermos ignorantes e não formos questionadores? Quem sabe, afinal, o que nos faz felizes? Este é um filme que ilustra bem a tese de que, em nome da felicidade geral e de uma concepção oficial do que é o bem, se podem urdir muitos totalitarismos bem intencionados. Como se antevê também em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell e em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.                            

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Heaven (Céu)

Quase apostava que não chega a 1% o número de alunos que conhecem ou ouvem a música dos Talking Heads. Foram uma verdadeira revelação na música rock do fim dos anos 70 do século passado e o seu sucesso confirmou-se amplamente ao longo das duas décadas seguintes. Vale a pena ouvir e, já agora, pensar um pouco na letra desta canção, intitulada Heaven (Céu). David Byrne, o cantor, diz que o Céu é um lugar onde todos querem entrar. Mas acrescenta que é um lugar onde nunca nada acontece. 

Bom, David Byrne está a falar de um bar que se chama Heaven. Mas será que esse bar não poderia, afinal, ser o Céu de que as religiões falam e onde todos querem entrar e ficar para sempre? E se for o Céu da eternidade, terá ele razão ao cantar que é o lugar onde nunca acontece nada? Bem vistas as coisas, se temos toda a eternidade pela frente, porquê fazer já seja o que for? Haverá sempre tempo para o fazer, pelo que se pode esperar infinitamente. Assim, talvez não aconteça mesmo nada e aqueles que dizem ser o Céu um lugar de tédio interminável tenham mesmo razão. Nesse caso, o argumento de que é a vida eterna que nos espera após a morte a dar sentido às nossas vidas não é lá muito persuasivo. Ou será?