domingo, 25 de novembro de 2012

Argumentos válidos

Foto: Aires Almeida
- Todos os argumentos bons são válidos?
- Sim, a validade é uma condição necessária para um argumento ser bom.
- E todos os argumentos válidos são bons?
- Não, a validade não é uma condição suficiente para um argumento ser bom.

Provavelmente a maior parte dos argumentos válidos não são bons, pois parece mais fácil dar exemplos de argumentos válidos que não são bons do que de argumentos válidos que sejam bons. Eis alguns exemplos de argumentos válidos que não prestam:

Exemplo 1

Deus existe.
Logo, Deus existe.

Exemplo 2

Deus existe e não existe.
Logo, Portugal fica em África.

Exemplo 3

Portugal fica em África.
Logo, Deus existe ou não existe.

Exemplo 4

Portugal fica em África.
Portugal não fica em África.
Logo, Deus existe.

Mas que são válidos, lá isso são.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

É dia da filosofia, vamos ao cinema!

Como tem sido habitual, os professores de Filosofia da ESMTG comemoram o Dia Mundial da Filosofia tentando filosofar um pouco. A ideia é cada um de nós partilhar com os outros a sua breve reflexão sobre um tema com algum interesse filosófico. Achamos que é mais apropriado comemorar o dia tentando praticar o ofício, ainda que modestamente, do que dizer coisas bonitas sobre a importância da filosofia. O tema é diferente todos os anos e neste foi decidido que cada um deveria escolher um filme filosoficamente interessante. Eis o meu texto, sobre um filme bem antigo: Grau de Destruição (Fahrenheit 451), de François Truffaut.


Felizes dos ignorantes?


A que temperatura queima o papel? A resposta é: a 451 graus na escala de Fahrenheit. E essa é também a temperatura a que queimam os livros, que são feitos de papel. Ora, Fahrenheit 451 é precisamente o título original do filme britânico, realizado em 1966 pelo francês François Truffaut, com base no livro do célebre escritor americano Ray Bradbury (falecido no passado mês de Junho). Grau de Destruição é o (infeliz) título do filme em Portugal.

A história desenrola-se numa sociedade futura de grande conforto material, a qual é zelosamente protegida por um governo (referido como a família) cujo único objectivo é manter as pessoas felizes. Está bom de ver que a família (o governo) deve saber o que é a felicidade. Na verdade, a família sabe melhor do que ninguém o que faz os seus membros (os governados) felizes. E sabe também o que perturba a paz social e os torna infelizes. Assim, a família sabe melhor do que ninguém o que, para o bem de todos, tem de ser evitado.

Mas o que poderá perturbar a paz social e a felicidade das pessoas? A família tem a resposta: a paz e a felicidade são perturbados pelo desconforto material, mas também pelo desconforto espiritual. O problema material parece ter sido resolvido, pois as pessoas têm emprego, não passam fome, vivem em boas casas e fazem muitas compras. Mas evitar o desconforto espiritual é bem mais difícil, pois este tem origem não só no desejo insatisfeito como na incerteza da dúvida. Nada pior do que pensar em perguntas difíceis, confrontar-se com ideias divergentes e alternativas ou dar asas a uma imaginação à solta. Quer dizer, a infelicidade encontra-se no pensamento crítico, na filosofia, na literatura, na poesia, na história. Só que é isto que abunda nos livros. Daí que os livros sejam verdadeiramente perigosos, incendiando as ideias e abrindo caminho à infelicidade. Por isso têm de ser banidos. O que as pessoas realmente precisam para entreter as suas mentes é programas de televisão (vistos em enormes e elegantes aparelhos de TV) que não as intranquilizem nem as façam pensar em coisas estranhas e complicadas: por exemplo, devem entreter-se com concursos interactivos em que se tenta acertar nos títulos de canções conhecidas, e coisas do género.

Mas há um problema: não basta proibir os livros, pois podem ser lidos às escondidas. É preciso destruí-los. E essa é a tarefa dos bombeiros, que vão às casas das pessoas suspeitas, procurando-os e queimando-os com jactos de fogo à temperatura de... 451 graus Fahrenheit. É o que faz, com grande dedicação, o bombeiro Guy Montag (Oskar Werner). Até ao dia em que fica incomodado com uma leitora que prefere deixar-se queimar juntamente com os livros do que perdê-los. Intrigado, Montag decide guardar sorrateiramente um dos livros para ver o que leva algumas pessoas a correr o risco de vida por eles. A partir daí, instala-se a dúvida no espírito de Montag. Incentivado pela sua atraente e perigosa amiga Clarisse (Julie Christie), começa a pôr em causa a sua profissão e acaba ele próprio por se tornar um ávido leitor. Só que, não podendo correr o risco de guardar os livros, junta-se a um grupo secreto de resistentes homens-livro, cada um dos quais decorou um livro inteiro. Assim, cada pessoa é um livro e os resistentes são uma biblioteca. «Que livro és?», pergunta-se a um deles. «Sou A República, de Platão, querem ouvir?». Juntam-se à volta de A República e ouvem. O conhecimento e a memória da humanidade são assim preservados secretamente na intimidade dos resistentes.


Mas serão mesmo as ideias contidas nos livros fonte de infelicidade? Seremos mais felizes se nos mantivermos ignorantes e não formos questionadores? Quem sabe, afinal, o que nos faz felizes? Este é um filme que ilustra bem a tese de que, em nome da felicidade geral e de uma concepção oficial do que é o bem, se podem urdir muitos totalitarismos bem intencionados. Como se antevê também em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell e em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.                            

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Heaven (Céu)

Quase apostava que não chega a 1% o número de alunos que conhecem ou ouvem a música dos Talking Heads. Foram uma verdadeira revelação na música rock do fim dos anos 70 do século passado e o seu sucesso confirmou-se amplamente ao longo das duas décadas seguintes. Vale a pena ouvir e, já agora, pensar um pouco na letra desta canção, intitulada Heaven (Céu). David Byrne, o cantor, diz que o Céu é um lugar onde todos querem entrar. Mas acrescenta que é um lugar onde nunca nada acontece. 

Bom, David Byrne está a falar de um bar que se chama Heaven. Mas será que esse bar não poderia, afinal, ser o Céu de que as religiões falam e onde todos querem entrar e ficar para sempre? E se for o Céu da eternidade, terá ele razão ao cantar que é o lugar onde nunca acontece nada? Bem vistas as coisas, se temos toda a eternidade pela frente, porquê fazer já seja o que for? Haverá sempre tempo para o fazer, pelo que se pode esperar infinitamente. Assim, talvez não aconteça mesmo nada e aqueles que dizem ser o Céu um lugar de tédio interminável tenham mesmo razão. Nesse caso, o argumento de que é a vida eterna que nos espera após a morte a dar sentido às nossas vidas não é lá muito persuasivo. Ou será?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cepticismo radical: o solipsismo.


Uma forma radical de cepticismo é o solipsismo. Mas há outras formas radicais de cepticismo. Talvez volte a esta ideia mais tarde. Por agora, deixo um texto sobre o cepticismo acerca do mundo exterior defendido pelos solipsistas, retirado do excelente livro Que Quer Dizer Tudo Isto? (Gradiva), do filósofo Thomas Nagel. A passagem encontra-se no capítulo 2, intitulado: Como sabemos seja o que for? (páginas 12-15)

Seja o que for em que acredites -- quer seja sobre o Sol, a Lua e as estrelas, a casa e o bairro em que vives, a história, a ciência, as outras pessoas, até mesmo a existência do teu próprio corpo --, é baseado nas tuas experiências e pensamentos, sentimentos e impressões dos sentidos. É só a isso que tens acesso directo, quer vejas o livro nas tuas mãos, sintas o chão debaixo dos teus pés, ou te lembres que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal, ou que a água é H20. Tudo o resto está mais afastado de ti do que as tuas experiências e pensamentos internos e é só através destes que te alcança.
Normalmente não tens dúvidas sobre a existência do chão debaixo dos teus pés, ou da árvore que está lá fora, ou dos teus próprios dentes. De facto, a maior parte do tempo nem sequer pensas nos estados mentais que te tornam consciente dessas coisas: parece que tens consciência directa delas. Mas como sabes que elas existem realmente?
Se tentares argumentar que tem de existir um mundo físico exterior porque não verias prédios, pessoas ou estrelas, a menos que existissem coisas lá fora que reflectissem ou lançassem luz para os teus olhos, causando assim as tuas experiências visuais, a resposta é óbvia: como sabes isso? Trata-se apenas de outra afirmação acerca do mundo exterior e da tua relação com ele, que tem de ser baseada nos dados dos teus sentidos. Mas só podes confiar nesses dados específicos acerca de como as experiências visuais são causadas se já puderes confiar em geral nos conteúdos da tua mente como fonte de informação acerca do mundo exterior. E isso é exactamente o que está a ser questionado. Se tentas provar a credibilidade das tuas impressões apelando para as tuas impressões, estás a argumentar de forma circular e não chegas a lado algum. 
Será que as coisas te pareceriam diferentes se de facto tudo existisse apenas na tua mente -- se tudo o que tomas como o mundo real exterior fosse apenas um sonho gigante, ou uma alucinação, de que nunca vais acordar? Se assim fosse, então é claro que não poderias acordar, tal como acontece quando sonhas porque não haveria qualquer mundo «real» no qual pudesses acordar. Portanto, não seria exactamente como num sonho normal ou numa alucinação. Usualmente, pensamos que os sonhos têm lugar em mentes de pessoas que estão de facto deitadas numa cama real numa casa real, mesmo que no sonho estejam a fugir de uma máquina de aparar relva homicida pelas ruas de Sobral de Montagraço. Admitimos igualmente que os sonhos normais dependem do que está a acontecer no cérebro do sonhador enquanto dorme.
Mas não poderiam todas as tuas experiências ser como um sonho gigante, sem nenhum mundo exterior fora dele? Como podes saber que não é o que se passa? Se toda a tua experiência fosse um sonho sem nada lá fora, então todos os dados que tentasses usar para provar a ti próprio que existe um mundo exterior seriam apenas parte do sonho. Se batesses na mesa ou se te beliscasses, ouvirias o som e sentirias o beliscão, mas isso seria apenas mais uma ocorrência no interior da tua mente, tal como tudo o resto. Não vale a pena: quando queres saber se o que está dentro da tua mente pode ser um guia para o que está fora dela, não podes apoiar-te na maneira como as coisas parecem -- a partir do interior da tua mente -- para te darem a resposta.
Mas em que mais podes apoiar-te? Todos os teus dados acerca do que quer que seja têm de vir através da tua mente -- quer na forma de percepção, de testemunhos de livros e de outras pessoas, ou da memória -- e tudo aquilo de que tens consciência é inteiramente consistente com a hipótese de que não existe absolutamente nada além do interior da tua mente.
É mesmo possível que não tenhas um corpo nem um cérebro -- uma vez que as tuas crenças acerca disso vêm unicamente dos dados dos teus sentidos. Nuca viste o teu cérebro -- admites apenas que toda a gente tem um --, mas, mesmo que o tivesses visto, ou pensado que o tinhas visto, isso teria sido apenas mais uma experiência visual. Talvez tu, o sujeito dessa experiência, sejas a única coisa que existe, e, de qualquer modo, talvez não exista mundo físico -- nenhumas estrelas, nenhuma terra, nenhuns corpos humanos. Talvez nem sequer exista qualquer espaço.
A conclusão mais radical a tirar daqui seria a de que a tua mente é a única coisa que existe. Esta posição chama-se solipsismo. É uma posição muito solitária, e não houve muitas pessoas que a sustentassem. Como podes aperceber-te por este comentário, eu próprio não a sustento. Se fosse solipsista, provavelmente não estaria a escrever este livro, uma vez que não acreditaria que existem pessoas para o lerem. Por outro lado, talvez o escrevesse para tornar a minha vida interior mais interessante, incluindo, assim, a impressão da aparência do livro publicado, de outras pessoas a lê-lo e a comunicarem-me as suas reacções, e assim sucessivamente. Poderia até ter a impressão de receber direitos de autor, se tivesse sorte.
Talvez tu sejas um solipsista: nesse caso, considerarás este livro como um produto da tua própria mente, começando a existir na tua experiência à medida que o fores lendo. Obviamente, nada do que eu possa dizer poderá provar-te que existo realmente, ou que o livro existe enquanto objecto físico.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Cônsul de Bordéus e a desobediência civil

Haverá casos em que violar a lei é moralmente justificado? Esta é uma questão filosófica e é conhecida como a questão da desobediência civil. Há vários filmes que abordam este problema e o Cônsul de Bordéus, de Francisco Manso e João Correa, talvez seja um deles. A estreia do filme nas salas de cinema está anunciada para breve e conta a história do diplomata português Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal na cidade francesa de Bordéus durante a Segunda Guerra Mundial. Muito resumidamente, Aristides Sousa Mendes passou milhares de vistos a judeus perseguidos pelos nazis, de modo a poderem fugir aos campos de concentração e às câmaras de gás, salvando assim milhares de vidas. Mas para isso teve de desobedecer repetidamente ao governo português, sabendo que iria ser severamente punido, como veio depois a acontecer.  

Entretanto, ficam aqui com algumas imagens do filme. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Teste intermédio 2013


Já se encontram disponíveis aqui as informações (caracterização do teste, conteúdos e capacidades a avaliar, critérios de classificação, tipos de perguntas, etc.) para o teste intermédio de Filosofia, a realizar no dia 17 de Abril de 2013 pelos alunos do 11º ano.   

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Teses sobre o livre-arbítrio

Foto: Aires Almeida

Vi há dias num daqueles livrinhos de preparação para os exames que os deterministas moderados (ou compatibilistas) aceitam a tese de que os nossos actos são livres.

Atenção, isto é falso!

O que os deterministas moderados defendem é que alguns dos nossos actos são livres.
Os libertistas é que, esses sim, defendem que os nossos actos (todos, portanto) são livres.
Já agora, os deterministas radicais defendem que nenhum dos nossos actos é livre.

Parecem pormenores, mas não são. Além de que não há pensamento rigoroso que se dê ao luxo de desprezar os pormenores.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Paragem forçada

Os leitores meus alunos já sabem por que razão este blog tem estado parado nas últimas semanas. Pois é, não se pensa nem se escreve com as pernas, mas por vezes as pernas impedem-nos de escrever e de pensar. É precisamente o que se tem passado comigo, depois de ter partido os dois ossos da perna direita. Daí o silêncio dos últimos dias (sim, a operação correu bem, até porque estive sempre em boas mãos). 

Agora que regressei a casa, procurarei ir postando algumas ideias aqui no Questões Básicas, mas o ritmo será certamente mais lento, pois a perna ainda me dá muito trabalho. A propósito, deixo aqui uma pergunta para pensarem: pensamos apenas com o cérebro ou isso depende também do resto do corpo?

Fico à espera das vossas reflexões na caixa de comentários.

Ah, e cuidado com as motas! Fala-vos quem sabe: às vezes pequenas quedas dão grandes dores de cabeça. E quem diz cabeça, diz pernas. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pensar de A a Z


Saber pensar é das coisas mais importantes na filosofia. Não só na filosofia, claro, mas a filosofia não dispõe de melhor método senão pensar intensa e correctamente. 

Este livro de Nigel Warburton (autor de outros excelentes livros de divulgação filosófica) é uma bom recurso para nos ajudar a pensar e a argumentar bem. Pensar de A a Z percorre alfabeticamente os mais importantes aspectos da argumentação e mostrando como se podem evitar muitos erros argumentativos. Aí o leitor pode encontrar, numa linguagem muito acessível, esclarecimento sobre as mais importantes falácias, sobre os diferentes tipos de definições, sobre os argumentos e sua validade, entre outros. É um livro especialmente indicado para estudantes de filosofia do secundário.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Data do teste intermédio de Filosofia

Já está marcada a data do teste intermédio de Filosofia: dia 16 de Abril de 2013, terça-feira.

O teste destina-se a todos os alunos do 11º ano das escolas que decidirem aderir. Posso adiantar que, à semelhança de anos anteriores, todos os alunos do 11º ano da Teixeira Gomes irão fazer o teste. Entretanto, ficamos a aguardar as habituais orientações que irão chegar do GAVE.