quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cientificidade

Foto de Aires Almeida

A propósito da solução de Karl Popper  para o chamado "problema da demarcação" um aluno mostrou-me um apontamento colhido não sei bem onde, no qual se dizia o seguinte:

Popper defende que uma teoria é científica se, e só se, for empiricamente falsificável.

A minha pergunta é: acham isto correcto? Será mesmo isso que Popper defende? Eu acho que isto está errado. E o leitor concorda comigo? Porquê?

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sonho dos Outros

Não sou muito dado a estas coisas de comoções públicas, mas faço aqui uma excepção, pois fiquei realmente triste ao saber da morte precoce de Bernardo Sassetti, um bom músico e pianista português de apenas 41 anos. Vi-o tocar ao vivo não há muito tempo, com mais dois outros pianistas: Pedro Burmester e Mário Laginha. Também estes são bons pianistas, mas o que melhor impressão me causou foi precisamente Sassetti: menos previsível que Laginha e mais espontâneo que Burmester. 

Sassetti morreu hoje ao cair de uma falésia, perto da Praia do Guincho, enquanto tirava fotografias, que era uma das coisas que gostava muito de fazer. 

Aqui fica um pouco da boa música composta e tocada por Sassetti. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O objecto do conhecimento

Foto: Aires Almeida

Ainda a propósito do teste intermédio do 11º ano, gostaria de pôr à consideração dos leitores a resposta de uma aluna à pergunta 1 do Grupo III.

Eis o que se pede na pergunta.

1. Leia o texto seguinte.

Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior, como erroneamente se supõe na linguagem vulgar, quando se opõe mundo «mundo objectivo» a «mundo subjectivo». Uma ideia pode ser objecto de conhecimento, como esta mesa; uma dor e um sonho podem ser, por exemplo, objectos de conhecimento, sem, com isso, necessitarem de pertencer ao mundo exterior. «Objectivo» diz respeito ao objecto e não implica a existência do mundo exterior.
Delfim Santos, «Da Filosofia» in Obras Completas I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982 (página não indicada)

Esclareça o sentido da frase «Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior».


A resposta da aluna foi a seguinte:

O sentido da frase «ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior» é o seguinte: nós não temos acesso, como defende David Hume, aos próprios objectos exteriores, se é que existem, mas apenas às percepções, que são impressões dos sentidos e ideias formadas a partir dessas impressões. Ora, como todas as percepções são conteúdos da nossa mente, nem sequer podemos dizer que há algo fora da mente. Logo, o autor está a dar razão a David Hume.


A cotação destinada a esta pergunta é de 20 pontos. Aos alunos pergunto se a acham uma boa resposta e porquê. Aos professores que eventualmente visitem o Questões Básicas pergunto o mesmo e mais outra coisa: como classificariam a resposta, tendo em conta os cenários de resposta e os descritores apresentados nos critérios gerais de classificação?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Escrever ensaios

Alguns alunos têm colocado dúvidas sobre a redacção de ensaios filosóficos. Para facilitar as coisas, remeto-os para este texto de Artur Polónio, que vos oferece instruções ainda mais detalhadas do que aquelas que encontram no final do 2º volume do manual do 10º ano e no caderno A Arte de Aprender a Pensar, do manual do 11º ano.

sábado, 21 de abril de 2012

Opiniões sobre o teste intermédio

Foto de Ana Filipa

Convido os leitores, em especial os alunos do 11º ano, a deixarem na caixa de comentários as suas opiniões ou impressões sobre o teste intermédio de Filosofia, realizado na passada sexta-feira. De preferência, procurem justificar minimamente as vossas opiniões recorrendo a exemplos.

Já agora, aproveito também para vos remeter para os critérios de classificação

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Teste intermédio de Filosofia



Vários alunos me têm perguntado onde podem encontrar informações sobre o teste intermédio de Filosofia - 11º ano, que se realiza já no próximo dia 20 de Abril. Não é preciso dar mais voltas, basta clicar aqui!

Bom estudo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Tempo de voltar ao estudo.

céu ralado by AiresAlmeida

céu ralado, a photo by AiresAlmeida on Flickr.
O tempo está assim, bom para voltar às aulas neste início do 3º período. Bom estudo!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Quem se atreve a gostar disto?


A Paixão Segundo São Mateus é uma obra musical (a que se dá o nome de "oratório") escrita pelo compositor alemão Johann Sebastian Bach. Nesta obra revive-se, através da música e das palavras cantadas, o sofrimento que conduziu Jesus Cristo à cruz, onde acabou por morrer pregado. Para quem é cristão, não pode, portanto, haver música mais adequada para esta altura do ano: o período de quaresma que antecede a Páscoa é precisamente a altura em que se celebra a paixão (termo de origem grega, que significa sofrimento) de Cristo. A paixão de Jesus Cristo é descrita nos quatro evangelhos, um dos quais foi escrito por Mateus. Foi, pois, aí que Bach se baseou para escrever esta obra-prima da história da música.

Diz-se, pelas razões apontadas atrás, que A Paixão Segundo São Mateus é música religiosa. Mas o que é exactamente isso de a música ser religiosa? Será mesmo correcto chamar-lhe religiosa? E será que só quem é religioso poderá apreciar esta obra musical? E, já agora, qual dos leitores que não são cristãos nem sintam qualquer impulso religioso se atreve a gostar disto?  


segunda-feira, 12 de março de 2012

Moral, para que te quero? Outra vez

Foto: Aires Almeida

A resposta referida na postagem anterior, é uma boa resposta? 

Note-se que não basta afirmar algo verdadeiro para que a resposta seja satisfatória. É também preciso que responda ao que, de facto, está em causa. Por exemplo, se alguém me perguntar qual é o atleta mais veloz do mundo e receber como resposta que Francis Obikwelu é um atleta muito veloz, não obtenho a resposta correcta, apesar de a afirmação ser verdadeira. 

Ora, passa-se algo semelhante com a resposta do aluno à pergunta sobre se haveria alguma razão para não roubar, caso ele tivesse a garantia de que ninguém iria alguma vez descobrir tal coisa. A resposta do aluno foi que, caso ninguém soubesse disso, não seria vergonha roubar. 

Em primeiro lugar, é verdade que vergonha não é roubar, mas sim roubar sem ser apanhado. Isto é assim porque o sentimento de vergonha por algo que fazemos envolve sempre a crença de que alguém sabe que fomos nós a fazê-lo. Portanto, se não acreditamos que alguém sabe disso, também não há qualquer razão para ter vergonha. O mesmo se passa, por exemplo, com o medo. Eu só posso ter medo de ser atacado se acreditar que há algo ou alguém que me pode atacar. Se acreditar mesmo que não há por perto qualquer ser que me possa atacar, então deixa de haver qualquer razão para ter medo. 

Só que o aluno ainda não está a responder à pergunta colocada, pois esta não é sobre se isso é ou não é vergonhoso, mas sobre se há ou não razões para o não fazer mesmo que tenhamos a certeza de que não seremos apanhados. Claro que podemos dizer que ele está no fundo a defender que a única razão para não roubar seria apanhar uma grande vergonha e que, visto estar livre de a apanhar, deixa de haver razão para não roubar. Logo, caso tivesse o anel de Giges colocado, não veria qualquer justificação para agir moralmente (não roubando, não mentindo, não faltando às suas promessas, etc.) No fundo, não teríamos qualquer razão para ser morais. 

Contudo, isto não é ainda satisfatório, pois podemos agora perguntar ao aluno por que razão haveria ele de sentir vergonha por ser apanhado a roubar. Por causa da censura dos outros? Mas não poderia estar-se nas tintas para o que os outros pensam disso? E, já agora, por que razão hão-de os outros achar vergonhoso roubar? Enquanto não conseguir dar uma resposta satisfatória a estas perguntas, o aluno ainda não terá conseguido defender adequadamente a sua ideia de que não há qualquer razão para sermos morais. 

Em suma, o aluno disse algo verdadeiro, mas ainda não respondeu adequadamente à pergunta. Seja qual for a resposta correcta.

Concordam?

quarta-feira, 7 de março de 2012

Moral, para que te quero?

Foto: Aires Almeida

Por que razão havemos de ser morais, se isso parece ser muitas vezes desvantajoso para nós próprios? Não é verdade que, por vezes, seria vantajoso para nós não cumprirmos as nossas promessas? Não seria muitas vezes vantajoso para nós mentir ou até roubar?

Algumas pessoas respondem que, ao contrário do que parece, nunca é vantajoso para nós roubar, mentir ou deixar de cumprir as nossas promessas. Bem vistas as coisas, dizem, nunca podemos estar seguros de que os outros não venham a descobrir isso, pelo que isso acabará, mais tarde ou mais cedo, por se voltar contra nós próprios: sermos presos, não sermos levados a sério pelas outras pessoas ou elas deixarem de se relacionar connosco.

E se tivéssemos a certeza absoluta de que as pessoas nunca iriam descobrir que roubávamos, que mentíamos e que não cumpríamos as nossas promessas? E se tivéssemos, como refere o filósofo Platão, uma espécie de anel mágico -- o anel de Giges -- que quando é colocado no dedo torna as nossas acções indetectáveis pelos outros? Poderíamos, então, fazer tudo o que fosse mais vantajoso para nós, desde roubar, mentir ou não cumprir as promessas feitas sem qualquer receio de virmos a ser descobertos. Será que, nesse caso, não teríamos qualquer razão para não roubar, não mentir e não faltar à nossa palavra? 

Fiz esta pergunta aos alunos do 10º ano numa aula. E, ao contrário do que alguns possam esperar, as respostas não foram todas no mesmo sentido -- o que não é novidade. Houve mesmo quem afirmasse seriamente que, caso tivesse a certeza absoluta que não seria apanhado, não via qualquer razão que o impedisse de roubar, de mentir e de faltar à sua palavra. A ideia é que não há qualquer razão para sermos morais, a não ser o receio de os outros levarem isso a mal e de, assim, nos complicarem a vida.

Procurando certificar-me melhor da posição do aluno, perguntei: 
-- Serias capaz de roubar algumas das pessoas que estão aqui, caso tivesses a certeza absoluta que não serias apanhado?
-- Na boa! -- esclareceu o aluno.
-- Sem qualquer problema?
-- Problema porquê, professor? Aprendi que não é vergonha roubar; vergonha é roubar e ser apanhado.
Terá o aluno razão? Se não tiver, como se lhe pode responder?

A minha resposta fica para outra postagem. Adianto apenas que a última afirmação do aluno é verdadeira, mas não tem razão. Estranho? E qual é a vossa opinião?