sexta-feira, 1 de abril de 2011

A coisa mais perigosa que há

Numa das aulas do 11º ano estava eu a tentar explicar que o conhecimento e a mera crença são coisas muito diferentes, quando uma aluna me perguntou mais ou menos o seguinte:

- Ok, as crenças podem ser falsas e crenças falsas não são conhecimento, mas qual é, afinal, o problema em termos crenças falsas? Por que razão os filósofos se afligem tanto com isso? É certo que podemos estar enganados, mas que mal há em estarmos enganados?

Achei a pergunta bastante oportuna e interessante. Oportuna porque permitiu esclarecer algo que muitas vezes nós, professores, damos inadvertidamente como adquirido. Interessante porque é o género de pergunta tipicamente filosófica: um desafio para discutir questões básicas.

Disse à aluna que havia duas maneiras de lhe responder.

Em primeiro lugar, é importante para os filósofos distinguir o conhecimento da mera crença porque a filosofia consiste, afinal, na procura da verdade. Um filósofo que não se importa com o conhecimento é alguém que provavelmente também não se importa com a verdade, uma vez que a verdade é condição necessária para o conhecimento. Assim, um filósofo que se desinteressa pela verdade acaba por ser um filósofo que não se interessa pela filosofia (por estranho que pareça, há filósofos assim). Claro que esta resposta começa por ser insatisfatória, pois o que a aluna está precisamente a fazer é a pôr em causa (legitimamente, diga-se) o interesse da própria investigação filosófica. Uma resposta mais razoável, sem ter de invocar o valor intrínseco do conhecimento, é sublinhar que este torna a nossa vida mais rica, porque mais autêntica. Viver uma vida baseada em falsidades e enganos é viver uma vida diferente da que pensamos estar a viver; uma vida, de certo modo, fictícia.

Em segundo lugar, é importante evitar ter crenças falsas porque as crenças falsas são a coisa mais perigosa do mundo. Ao contrário do que muitas vezes se diz, a principal causa de morte do mundo não são as guerras nem a pobreza nem a fome nem os acidentes cardiovasculares nem os acidentes de viação. A principal causa de morte no mundo são precisamente as crenças falsas. Morrem a todo o momento pessoas porque têm a crença falsa de que estão de saúde, dispensando-se, por isso, de ir ao médico; porque têm a crença falsa de que determinados alimentos são saudáveis quando são, afinal, venenosos; porque acreditam que conduzir a alta velocidade os faz chegar mais cedo ao destino quando os impede, afinal, de lá chegar; porque crêem firme, mas erradamente, que a sua ideologia política, o seu país ou o seu credo religioso legitimam a eliminação dos seus inimigos. São tantas vezes crenças falsas que levam inocentes ao castigo, e até à pena de morte, deixando tantas vezes criminosos sem castigo. São sempre crenças falsas que estão na origem de tantas injustiças. Foram crenças falsas acerca da natureza supostamente inferior da mulher que causaram a sua submissão aos homens no passado (acreditava-se, por exemplo, que as mulheres, ao contrário dos homens, não tinham alma). Foi a crença falsa de que os negros não passavam de meros animais que justificou durante séculos a sua escravidão. Foi a conjugação de duas crenças falsas, nomeadamente a de que há raças superiores e a de que as pessoas das raças supostamente inferiores não têm os mesmo direitos que as pessoas de raças superiores, que levou os nazis a exterminar milhões de inocentes. Bem vistas as coisas, a maior parte dos males cometidos pelos seres humanos têm origem em crenças falsas. E muitos dos males do passado deixaram de se cometer porque fomos capazes de rever essas crenças. Não tivesse Édipo (lembram-se da tragédia de Sófocles?) crenças falsas acerca de Jocasta, sua mãe, e não teria certamente acabado por furar os seus próprios olhos.

Em suma, evitar ter crenças falsas torna-nos melhores e, portanto, torna também o mundo bastante melhor.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A música é capaz de representar algo?


O Cisne, do compositor francês Camille Saint-Saëns, faz parte da suite musical O Carnaval dos Animais. João Miguel Cunha (na viola de arco) e João Pedro Cunha (no violino) ofereceram-nos uma interpretação desta peça, originalmente composta para dois pianos e orquestra, na abertura da conferência sobre filosofia da música, que se realizou na passada sexta-feira na nossa escola. 

Vale a pena ter em conta o título enquanto se escuta com atenção esta peça. Conseguem relacionar uma coisa com a outra? Será que a música pode representar algo, quer se trate de cisnes ou de outra coisa qualquer? Se pode, de que maneira o faz? Um famoso crítico musical austríaco do séc. XIX, Eduard Hanslick, defende no seu livro Do Belo Musical, considerado o livro fundador da filosofia da música, que a música nada mais representa a não ser ideias musicais. Concordam? Eis mais um exemplo de um problema de filosofia da música. 

terça-feira, 22 de março de 2011

Filosofia da música


O que é a música? Há quem se apresse a responder que a música, ao contrário do simples ruído, é som organizado. Bom, mas quando falamos também estamos a produzir sons organizados e isso não é música. O que distingue, pois, um evento sonoro musical de um evento sonoro não musical? Este é o problema da definição de música. E, apesar de poder interessar também os musicólogos, é um problema filosófico: é um problema de filosofia da música.

Eis outro problema de filosofia da música, mais precisamente de ontologia da música: que tipo de objecto é uma obra musical? Será uma entidade concreta, situada no espaço e no tempo, como o quadro Mona Lisa, por exemplo? Ou será antes algo abstracto, como é, talvez, o caso dos números? Pensemos na 5ª Sinfonia de Beethoven. Se essa obra do compositor alemão for uma entidade concreta (um particular concreto, como dizem os filósofos), onde se encontra ela? Na gravação em CD que tenho agora na minha mão, ou nos milhares de outras gravações diferentes que se encontram nas mãos de outras pessoas? Mas, se está em tantos sítios diferentes ao mesmo tempo, será coerente afirmar que existe apenas uma 5ª Sinfonia de Beethoven? Talvez essa obra se encontre apenas na partitura que todas essas interpretações tomam como referência. Acontece que a partitura é papel pintado e papel pintado não é música. Não será a obra, afinal, o que estava na mente de Beethoven quando ele escreveu a partitura? Bom, mas se a obra estiver na mente do compositor, então ela já não existe, pois o compositor já morreu. Talvez a 5ª Sinfonia de Beethoven seja antes algo que existe e sempre existiu (uma determinada estrutura sonora) e que o compositor alemão se limitou a descobrir. Mas, nesse caso, a obra não é uma criação humana e Beethoven não é realmente um compositor. Problema difícil, este!

Já agora, o que nos permite dizer que uma dada execução musical é uma interpretação da 5ª Sinfonia de  Beethoven? O critério será estar de acordo com a partitura, isto é, com o conjunto das instruções dadas pelo seu autor? Nesse caso, se um executante se enganar numa nota e der um Ré onde, por exemplo, está um Dó, continuaremos perante uma interpretação da mesma obra? Diríamos que sim. Afinal, trata-se apenas de uma nota diferente do que está na partitura. Mas, se uma nota não faz diferença, por que razão duas haveriam de fazer? E, já gora, três? E quatro? E ...? Em que consiste, então, a identidade de uma obra musical? Humm...

Um aspecto que todos destacam na música é o seu poder expressivo: as pessoas falam frequentemente na capacidade de a música exprimir emoções. Mas o que quer isso dizer? Em que sentido a música exprime emoções? Será que há mesmo emoções (como tristeza, alegria, euforia, raiva, etc.) na música? Como assim? As emoções são, ou envolvem, estados mentais e é simplesmente disparatado acreditar que a música tem estados mentais; ela é apenas som. Talvez a música não exprima realmente emoções, mas se limite a despertar emoções no ouvinte e, assim, a tristeza, euforia, alegria, etc. estejam apenas em quem ouve. Nesse caso, diferentes ouvintes poderão ter emoções diferentes perante a mesma obra musical. Só que isso não bate certo com o facto inegável de pessoas diferentes, em estados emocionais diferentes, serem capazes de concordar que determinada peça musical é triste ou que é alegre. Podemos estar alegres e reconhecer que a música que ouvimos é triste; e vice-versa. Parece, afinal, que há qualquer coisa na música que nos faz dizer que é triste ou que é alegre. Mas o quê e como? E, já agora, por que razão havemos de querer ouvir música triste (ou música que nos causa tristeza), apesar de, em condições normais, evitarmos estar tristes?

Como se vê, há aqui muito para discutir. Estas foram precisamente algumas das questões abordadas por Vítor Guerreiro na XII Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes, realizada na passada sexta-feira. A conferência cedo se transformou num animado debate, graças à intervenção empenhada de vários participantes, alunos e professores. E a conversa prolongou-se até ao fim da tarde. 

sábado, 12 de março de 2011

Filosofia e música

Estão todos convidados para a XII Conferência de Filosofia da Teixeira Gomes. A conferência será proferida por Vítor Guerreiro e o tema é a filosofia da música. É já na próxima sexta-feira. 

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quarta-feira, 9 de março de 2011

Teste intermédio: uma opinião

Vale a pena ler aqui a opinião de Carlos Café, professor desta escola, sobre o teste intermédio de filosofia. O artigo avalia os diversos aspectos do teste, seja do ponto de vista de quem o concebeu como do ponto de vista de quem o realizou e também de quem o corrigiu. Devo acrescentar que subscrevo as críticas aí expostas.

Aproveito também para informar que a média dos alunos da nossa escola no teste intermédio foi de 10,4 valores. É, contudo, importante sublinhar que os alunos estrangeiros com dificuldades na língua portuguesa não foram excluídos da realização do teste, o que teve a sua influência na média geral, pois não são assim tão poucos como se possa pensar. O que vos parece?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Teste intermédio: o que vos pareceu?

Agora que o teste intermédio já foi realizado e que já passou algum tempo para pensar melhor no que fizeram, gostava de perguntar: o que vos pareceu? Valeu a pena ou não? O que foi mais acessível e onde tiveram mais dificuldades? E porquê? Deixem as vossas opiniões na caixa de comentários (e identifiquem-se, por favor). Quem quiser ver os critérios de classificação, pode abrir aqui.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Preparar o teste intermédio de Filosofia

Deixo aqui um teste, elaborado por Carlos Café, que pode servir como preparação para o teste intermédio de Filosofia a realizar na próxima terça-feira.

View more documents from cafecarlos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Opiniões sobre "Opiniões"

Eis algumas opiniões sobre a opinião atrás apresentada por Lady Coco. O que pensam de todas estas opiniões?

Opinião da Amélia
Concordo com a conclusão de Lady Coco, isto é, que a verdade não pode ser conhecida, mas não com o argumento. Não é por as pessoas discordarem que a verdade não pode ser conhecida, mas porque as nossas opiniões devem ser justificadas e, se formos rigorosos, encontramos sempre boas razões para duvidar de qualquer justificação. Por exemplo, pode-me parecer inteiramente justificada a crença de que tenho uma folha de papel à frente, pois vejo-a e toco-a, assim como outras pessoas a podem ver e tocar. Mas é sempre possível encontrar razões para duvidar dos nossos sentidos, pelo que a justificação não é satisfatória. Mas se as nossas crenças não forem satisfatoriamente justificadas, também não podemos falar de conhecimento.

Opinião do Belmiro
Não concordo com Lady Coco porque acho o seu argumento fraco. O argumento é fraco porque considero falsa a premissa que diz que as pessoas têm sempre opiniões diferentes acerca do que é ou não verdadeiro. A premissa é falsa, pois há uma enorme quantidade de coisas acerca das quais quase todas as pessoas concordam: que o fogo queima, que a Terra gira à volta do Sol, que Fernando Pessoa não escreveu Os Lusíadas, que três laranjas são mais laranjas que duas, que a França tem uma economia mais forte do que Portugal, etc. Assim, o autor não oferece uma boa razão para concluir o que pretende.

Opinião da Carolina
Não concordo, pois ainda que as pessoas discordem acerca de algo, daí não se segue que nenhuma delas tenha razão; segue-se apenas que não podem ter todas razão. Por exemplo, o facto de haver diferentes teorias acerca do desaparecimento da menina inglesa Maddie, não mostra que essas teorias são todas falsas, mas que não podem ser todas verdadeiras. Assim, uma das teorias pode ser verdadeira, ainda que muitas pessoas discordem dela, tal como era verdadeira a teoria heliocêntrica, mesmo quando a maior parte das pessoas ainda acreditava no geocentrismo. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Aula intercontinental de filosofia


A aula de Filosofia do 11º B da manhã de hoje foi diferente do habitual, pois contou com a participação de Desidério Murcho, através do Skype, directamente de Ouro Preto (Brasil). Os alunos puderam ver e ouvir Desidério Murcho responder, em directo, às suas perguntas sobre o cepticismo e a resposta cartesiana aos argumentos cépticos, mas também sobre o último e o próximo livros do Desidério, Filosofia em Directo e Compreender a Filosofia (a publicar em breve), respectivamente. A conversa foi agradável e instrutiva, sem interferências nem problemas de ordem técnica. Os alunos do 11º B ficaram muito satisfeitos com a aula e até pediram para repetir. Está prometido.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Opiniões




Concordam com o que diz Lady Coco?

«Afirmar que conhecemos seja o que for revela uma grande ingenuidade. A ingenuidade consiste em não ser capaz de perceber que, qualquer que seja o assunto em discussão, encontramos sempre diferentes opiniões em confronto. E a existência de diferentes opiniões mostra que nenhuma delas é verdadeira, pois se fosse claro que alguma delas era verdadeira não haveria lugar para diferentes opiniões. Assim, o facto de ninguém poder afirmar que diz a verdade mostra que a verdade não pode ser conhecida».  Lady Coco