A aula de Filosofia do 11º B da manhã de hoje foi diferente do habitual, pois contou com a participação de Desidério Murcho, através do Skype, directamente de Ouro Preto (Brasil). Os alunos puderam ver e ouvir Desidério Murcho responder, em directo, às suas perguntas sobre o cepticismo e a resposta cartesiana aos argumentos cépticos, mas também sobre o último e o próximo livros do Desidério, Filosofia em Directo e Compreender a Filosofia (a publicar em breve), respectivamente. A conversa foi agradável e instrutiva, sem interferências nem problemas de ordem técnica. Os alunos do 11º B ficaram muito satisfeitos com a aula e até pediram para repetir. Está prometido.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Opiniões
Concordam com o que diz Lady Coco?
| «Afirmar que conhecemos seja o que for revela uma grande ingenuidade. A ingenuidade consiste em não ser capaz de perceber que, qualquer que seja o assunto em discussão, encontramos sempre diferentes opiniões em confronto. E a existência de diferentes opiniões mostra que nenhuma delas é verdadeira, pois se fosse claro que alguma delas era verdadeira não haveria lugar para diferentes opiniões. Assim, o facto de ninguém poder afirmar que diz a verdade mostra que a verdade não pode ser conhecida». Lady Coco |
Etiquetas:
11º ano,
Conhecimento
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Filosofia em Directo
Há quem diga que os jornais portugueses estão cheios de más notícias. Mas o jornal Público de hoje traz uma excelente notícia: filosofia para todos, em discurso directo. Explicando melhor, quem comprar o jornal de hoje poderá também receber, por pouco mais de 3 Euros, o livro Filosofia em Directo, de Desidério Murcho, acabadinho de lançar pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Deixo aqui um pequeno excerto do livro, que até vem mesmo a calhar para o que estamos neste momento a discutir nas aulas do 10º ano.
«Quem pensa que, sem Deus, tudo seria permitido, considera que as nossas preferências não são suficientes para fundamentar o dever. Mas considera que as preferências de Deus o são. Interpretada literalmente, a ideia é implausível. Se a minha preferência, depois de passar pelo crivo do pensamento prudencial cuidadoso, não fundamenta o dever, a preferência de Deus ainda menos o poderia fazer. Se a minha preferência por beber água não me dá uma razão para beber água, a preferência de Deus não pode dar-me uma razão para a beber. Isto porque ou a preferência de Deus pela água é arbitrária, e nesse caso não me dá razão alguma para beber água precisamente por ser arbitrária, ou é razoável, e nesse caso é por ser razoável que me dá uma razão para beber água e não por ser uma preferência de Deus.
Para ser plausível, a ideia de que as preferências de Deus fundamentam o dever tem de ser reinterpretada. A ideia plausível é que um ser sumamente sábio saberá ver que preferências são realmente razoáveis. Esse ser será imune à ilusão humana, que nos faz preferir agora o que mais tarde consideramos desprezível, ou vice-versa. Além disso, sendo sumamente bom, esse Deus não quererá que agridamos alguém injustamente, devido a essa mesma pessoa. E nós teríamos então o dever de não a agredir devido a ela, e não apenas devido a Deus, sendo o desagrado deste apenas um indicador de que algo de errado estaríamos a fazer.
Contudo, nesta versão da ideia não é verdade que sem Deus tudo seria permitido, mas antes que sem Deus não teríamos alguém infalível para nos ajudar a distinguir o que é realmente preferível do que apenas parece que o é. Mesmo sem Deus, continuaríamos a ter preferências. E se são estas preferências o fundamento do dever, a inexistência hipotética de Deus não significaria que tudo era permitido.
Ter uma preferência é valorizar, e ambas são actividades humanas inevitáveis. E não só humanas: são também inevitáveis para qualquer ser que tenha um certo grau de sofisticação cognitiva. Podemos valorizar e preferir melhor ou pior, tendo mais ou menos consciência do que estamos a fazer, e podemos certamente errar muitas vezes, valorizando e preferindo o que depois descobrimos serem ilusões. Mas não podemos evitar valorizar e preferir, porque valorizar e preferir são constitutivas da acção e do pensamento.
Conclui-se daqui que quem declara que «hoje não há valores» está mergulhado em confusão. Há valores hoje como havia há duzentos anos e como haverá daqui a mil anos, se continuar a haver seres humanos ou outros seres capazes de valorizar coisas — porque quem é capaz de valorizar, é incapaz de não valorizar. Não podemos evitar valorizar umas coisas e não outras. Quem declara que não há valores, quer na verdade dizer que a maior parte das pessoas valorizam o que ele não valoriza e não valorizam o que ele valoriza. Mas se começar por nem saber exprimir cuidadosamente o que pensa, é porque não valoriza o pensamento rigoroso — algo que seria avisado valorizar.»
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Conhecimento
Quais das seguintes afirmações são falsas e porquê?
1. Todo o conhecimento é crença.
2. Toda a crença é conhecimento.
3. É possível saber que P e não acreditar que P.
4. É possível acreditar justificadamente que P e não saber que P.
5. Toda a crença verdadeira é conhecimento.
6. É possível saber que P, e P ser falso.
7. Algumas crenças verdadeiras justificadas são conhecimento.
8. Todas as crenças verdadeiras justificadas são conhecimento.
9. Todo o conhecimento é crença verdadeira justificada.
10. Se alguém sabe que P, então sabe que sabe que P.
1. Todo o conhecimento é crença.
2. Toda a crença é conhecimento.
3. É possível saber que P e não acreditar que P.
4. É possível acreditar justificadamente que P e não saber que P.
5. Toda a crença verdadeira é conhecimento.
6. É possível saber que P, e P ser falso.
7. Algumas crenças verdadeiras justificadas são conhecimento.
8. Todas as crenças verdadeiras justificadas são conhecimento.
9. Todo o conhecimento é crença verdadeira justificada.
10. Se alguém sabe que P, então sabe que sabe que P.
Etiquetas:
11º ano,
Conhecimento
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Jovens filósofos em acção
Antes de mais, Questões Básicas deseja um bom ano filosófico a todos.
Deixo aqui uma sugestão para todos os estudantes de filosofia do ensino secundário. Trata-se da segunda edição do prémio Jovem Filósofo, instituído pela Universidade da Beira Interior (Covilhã). O prémio, que se destina exclusivamente a alunos do ensino secundário, será atribuído ao melhor ensaio filosófico. O tema deste ano é «Porque fazemos aquilo que fazemos?» e os ensaios serão avaliados anonimamente por um júri especializado. As candidaturas podem ser apresentadas até ao dia 15 de Julho de 2011.
O regulamento do prémio pode ser lido aqui. Mãos à obra!
Etiquetas:
Divulgação,
Filosofia
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Feliz Natal

Como nos estamos aproximar do Natal, decidimos fazer algo alusivo a esta época. Aqui fica um pequeno-grande problema para debatermos, discutido no livro Que Diria Sócrates?, organizado por Alexander George (Gradiva).
Será moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe? Independentemente da imensa alegria e excitação dos míudos por acreditarem no mito do Pai Natal, trata-se de uma mentira descarada! Quando eles descobrem a verdade, não estaremos a dar a entender ao nossos filhos que não se pode confiar em ninguém, inclusivé nos próprios pais?
Esperamos a vossa colaboração.
E um Feliz Natal para Todos!
Etiquetas:
Ética
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Falácias
Como estamos perto do dia do teste e as dúvidas ainda andam pelo ar, gostávamos de propor aos colegas do 11º ano um exercício de identificação de falácias.Tomem em consideração que as seguintes falácias tanto podem ser formais como informais.
A) Se está a nevar, os aviões não levantam voo.
Os aviões não levantam voo.
Logo, está a nevar.
Os aviões não levantam voo.
Logo, está a nevar.
B) Sr. Dr. Juíz peço-lhe por favor que não me
prenda, porque se o fizer os meus filhos
ficam desamparados.
C) Ainda ninguém provou que Deus existe.
Logo, Deus não existe.
D) Ou te portas bem e tiras boas notas ou então bem podes esquecer as férias de verão.
E) O José Machuca é inteligente ou anormal. Como não se revelou inteligente, logo é anormal.
F) Comeu laranja à noite, antes de se ir deitar, e sentiu-se mal.
Logo, a laranja faz mal ao organismo quando ingerida à noite.
G) Continuas tão egoísta como eras?
H) Se amanha me sair o euromilhões, compro esta vivenda.
Amanhã não me sai o euromilhões.
Logo, não compro esta vivenda.
I) Toda a gente sabe que os políticos são corruptos. Por isso, não faz sentido provar o contrário.
J) É pegar ou largar!
K) Einstein, o maior génio de todos os tempos, gostava de maçãs.
Logo, as maçãs são o melhor alimento do mundo.
Logo, as maçãs são o melhor alimento do mundo.
L) Querem mais escolas abertas? Querem melhores condições no nosso pais? Querem mais emprego, então não votem nesse político.
M) O que é a História? É a ciência que estuda factos históricos.
Etiquetas:
11º ano,
Argumentação
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Derivações: mais um
Bom, a pedido dos alunos do 11º F, aqui fica um último exercício com uma derivação para fazer.
A ∨ ¬ B, ¬ B → A, A → ¬ C ⊢ ¬ C
Só depois de o resolvermos na aula deixarei aqui a resposta.
A ∨ ¬ B, ¬ B → A, A → ¬ C ⊢ ¬ C
Só depois de o resolvermos na aula deixarei aqui a resposta.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Será legítimo fazer a guerra para alcançar a paz?
Miguel Granja, professor da ESMTG
Alguns alunos das minhas turmas do 11º ano manifestaram interesse em discutir um dos textos escritos por outro colega, professor de Filosofia, em resposta a uma questão filosófica que lhe foi colocada, no âmbito da comemoração do dia mundial da filosofia. A questão está formulada no título desta posta e a resposta do professor Miguel Granja está abaixo. Concordam? Porquê?
Hobbes Como Condição de Possibilidade de Kant.
Entre a desonra e a guerra, escolhestes a
desonra e tereis a guerra
Winston CHURCHILL
A dolorosa história da Segunda Guerra Mundial e, em particular, a nossa experiência com o nazismo deviam ter acabado já, de uma vez por todas, com a argumentação pacifista segundo a qual não há «guerras justas». Infelizmente o debate permanece vivo, cobrindo-nos de ridículo e de falência moral. Talvez devêssemos colocar a pergunta do avesso, alterando-a apenas ligeiramente: Será legítima uma paz falsa e injusta para evitar a guerra? A intemporal frase de Churchill que uso em epígrafe é, em si, todo um tratado de filosofia política e foi dirigida, como sabemos, ao pacifista Chamberlain acabadinho de alcançar o pacifista Acordo de Munique, em 1938, com Hitler. Como nos ensinou (e temo que tenha já deixado de nos ensinar) esse vergonhoso episódio pacifista, a paz desejada, infelizmente, não se realiza só porque a desejamos. A paz, tal como a guerra, faz-se. E é um erro pensar que a paz se alcança só porque não se faz a guerra, como se a paz fosse uma consequência natural e lógica do fim da guerra. Não raro, a paz a todo o custo tem um custo demasiado elevado. Custou parte da Checoslováquia, desde logo, aos checoslovacos em nome da nobre vontade de paz dos franceses e dos britânicos: e a vontade de paz de uns é a anexação e opressão dos outros. Portanto, quando a França e a Grã-Bretanha querem a paz com Hitler, quem sofre com isso são os checoslovacos. Em 1939, Hitler, desrespeitando o tratado, invade o resto da Checoslováquia.
Isto devia ensinar-nos que estamos acostumados a pensar que o contrário da guerra é a paz e que essa é, porém, uma ideia errada. O contrário da guerra é, muitas vezes, a injustiça, a repressão, o genocídio, a cumplicidade, e só a guerra, e não a «paz», pode pôr-lhes cobro. O recurso à guerra teria sido desejável para acabar com o genocídio no Ruanda em 1994 e foi esse recurso à guerra, por parte da NATO, em 1999, que acabou com o genocídio em curso por parte de Milošević. Mas, para isso, foi preciso o hobbesiano Clinton fazer o trabalho sujo que a kantiana Europa não foi capaz de fazer, mesmo às suas portas. Em nome da paz, claro. Porque a guerra é sempre estúpida e injusta.
Convém talvez não esquecermos que a primeira «manifestação global» do século XXI, com milhões de pessoas nas ruas de todo o mundo, não foi em 2001, por causa do 11 de Setembro: foi em 2003. Por causa da iminente guerra dos EUA no Iraque. Portanto, porque é preferível manter o povo iraquiano brutalmente oprimido por Saddam Hussein do que fazer a guerra. Como se aqui, mais uma vez, o contrário da guerra fosse a paz. Em 2003, regressámos, em rebanhada global, ao nosso Momento Checoslovaco de 1938. E não temos, parece-me, cessado de regressar a 1938. E é tão confortável ser Kant quando temos Hobbes a guardar-nos a porta de casa. E, no entanto, tão hipócrita. Porque há alturas em que só podemos permanecer kantianos com a ajuda de Hobbes. Eu pelo menos, não gosto de ser ingrato em relação àqueles bravos rapazes que, arriscando a sua vida lá longe, me guardam o sono todas as noites.
Miguel Granja
Etiquetas:
Filosofia política,
Opinião
Subscrever:
Mensagens (Atom)




