quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Filosofia em Directo


Há quem diga que os jornais portugueses estão cheios de más notícias. Mas o jornal Público de hoje traz uma excelente notícia: filosofia para todos, em discurso directo. Explicando melhor, quem comprar o jornal de hoje poderá também receber, por pouco mais de 3 Euros, o livro Filosofia em Directo, de Desidério Murcho, acabadinho de lançar pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Deixo aqui um pequeno excerto do livro, que até vem mesmo a calhar para o que estamos neste momento a discutir nas aulas do 10º ano.

«Quem pensa que, sem Deus, tudo seria permitido, considera que as nossas preferências não são suficientes para fundamentar o dever. Mas considera que as preferências de Deus o são. Interpretada literalmente, a ideia é implausível. Se a minha preferência, depois de passar pelo crivo do pensamento prudencial cuidadoso, não fundamenta o dever, a preferência de Deus ainda menos o poderia fazer. Se a minha preferência por beber água não me dá uma razão para beber água, a preferência de Deus não pode dar-me uma razão para a beber. Isto porque ou a preferência de Deus pela água é arbitrária, e nesse caso não me dá razão alguma para beber água precisamente por ser arbitrária, ou é razoável, e nesse caso é por ser razoável que me dá uma razão para beber água e não por ser uma preferência de Deus.
Para ser plausível, a ideia de que as preferências de Deus fundamentam o dever tem de ser reinterpretada. A ideia plausível é que um ser sumamente sábio saberá ver que preferências são realmente razoáveis. Esse ser será imune à ilusão humana, que nos faz preferir agora o que mais tarde consideramos desprezível, ou vice-versa. Além disso, sendo sumamente bom, esse Deus não quererá que agridamos alguém injustamente, devido a essa mesma pessoa. E nós teríamos então o dever de não a agredir devido a ela, e não apenas devido a Deus, sendo o desagrado deste apenas um indicador de que algo de errado estaríamos a fazer.
Contudo, nesta versão da ideia não é verdade que sem Deus tudo seria permitido, mas antes que sem Deus não teríamos alguém infalível para nos ajudar a distinguir o que é realmente preferível do que apenas parece que o é. Mesmo sem Deus, continuaríamos a ter preferências. E se são estas preferências o fundamento do dever, a inexistência hipotética de Deus não significaria que tudo era permitido.
Ter uma preferência é valorizar, e ambas são actividades humanas inevitáveis. E não só humanas: são também inevitáveis para qualquer ser que tenha um certo grau de sofisticação cognitiva. Podemos valorizar e preferir melhor ou pior, tendo mais ou menos consciência do que estamos a fazer, e podemos certamente errar muitas vezes, valorizando e preferindo o que depois descobrimos serem ilusões. Mas não podemos evitar valorizar e preferir, porque valorizar e preferir são constitutivas da acção e do pensamento.
Conclui-se daqui que quem declara que «hoje não há valores» está mergulhado em confusão. Há valores hoje como havia há duzentos anos e como haverá daqui a mil anos, se continuar a haver seres humanos ou outros seres capazes de valorizar coisas — porque quem é capaz de valorizar, é incapaz de não valorizar. Não podemos evitar valorizar umas coisas e não outras. Quem declara que não há valores, quer na verdade dizer que a maior parte das pessoas valorizam o que ele não valoriza e não valorizam o que ele valoriza. Mas se começar por nem saber exprimir cuidadosamente o que pensa, é porque não valoriza o pensamento rigoroso — algo que seria avisado valorizar.»

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Conhecimento

Quais das seguintes afirmações são falsas e porquê?

1. Todo o conhecimento é crença.

2. Toda a crença é conhecimento.

3. É possível saber que P e não acreditar que P.

4. É possível acreditar justificadamente que P e não saber que P.

5. Toda a crença verdadeira é conhecimento.

6. É possível saber que P, e P ser falso.

7. Algumas crenças verdadeiras justificadas são conhecimento.

8. Todas as crenças verdadeiras justificadas são conhecimento.

9. Todo o conhecimento é crença verdadeira justificada.

10. Se alguém sabe que P, então sabe que sabe que P.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Jovens filósofos em acção


Antes de mais, Questões Básicas deseja um bom ano filosófico a todos.

Deixo aqui uma sugestão para todos os estudantes de filosofia do ensino secundário. Trata-se da segunda edição do prémio Jovem Filósofo, instituído pela Universidade da Beira Interior (Covilhã). O prémio, que se destina exclusivamente a alunos do ensino secundário, será atribuído ao melhor ensaio filosófico. O tema deste ano é «Porque fazemos aquilo que fazemos?» e os ensaios serão avaliados anonimamente por um júri especializado. As candidaturas podem ser apresentadas até ao dia 15 de Julho de 2011.

O regulamento do prémio pode ser lido aqui. Mãos à obra!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Feliz Natal





















Como nos estamos aproximar do Natal, decidimos fazer algo alusivo a esta época. Aqui fica um pequeno-grande problema para debatermos, discutido no livro Que Diria Sócrates?, organizado por Alexander George (Gradiva).

Será moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe? Independentemente da imensa alegria e excitação dos míudos por acreditarem no mito do Pai Natal, trata-se de uma mentira descarada! Quando eles descobrem a verdade, não estaremos a dar a entender ao nossos filhos que não se pode confiar em ninguém, inclusivé nos próprios pais?

Esperamos a vossa colaboração.
E um Feliz Natal para Todos!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A última derivação do ano

Esta é só para o 11º F, está bem?

(A∨B) → ¬C, A ⊢ ¬C

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Falácias

Como estamos perto do dia do teste e as dúvidas ainda andam pelo ar, gostávamos de propor aos colegas do 11º ano um exercício de identificação de falácias.

Tomem em consideração que as seguintes falácias tanto podem ser formais como informais.


A)  Se está a nevar, os aviões não levantam voo.
Os aviões não levantam voo.
Logo, está a nevar.



       B)  Sr. Dr. Juíz peço-lhe por favor que não me     
             prenda, porque se o fizer os meus filhos         
             ficam desamparados.

       C)  Ainda ninguém provou que Deus existe.
     Logo, Deus não existe.

D)  Ou te portas bem e tiras boas notas ou então bem podes esquecer as férias de verão.

E)  O José Machuca é inteligente ou anormal. Como não se revelou inteligente, logo é anormal.

F)  Comeu laranja à noite, antes de se ir deitar, e sentiu-se mal.
     Logo, a laranja faz mal ao organismo quando ingerida à noite.

G)  Continuas tão egoísta como eras?

H)  Se amanha me sair o euromilhões, compro esta vivenda.
      Amanhã não me sai o euromilhões.
      Logo, não compro esta vivenda.

I)  Toda a gente sabe que os políticos são corruptos. Por isso, não faz sentido provar o contrário.

J)  É pegar ou largar!

K) Einstein, o maior génio de todos os tempos, gostava de maçãs.
Logo, as maçãs são o melhor alimento do mundo.

L) Querem mais escolas abertas? Querem melhores condições no nosso pais? Querem mais emprego, então não votem nesse político.

M) O que é a História? É a ciência que estuda factos históricos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Derivações: mais um

Bom, a pedido dos alunos do 11º F, aqui fica um último exercício com uma derivação para fazer.

A ∨ ¬ B, ¬ B → A, A → ¬ C ⊢ ¬ C

Só depois de o resolvermos na aula deixarei aqui a resposta.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Será legítimo fazer a guerra para alcançar a paz?

Miguel Granja, professor da ESMTG

Alguns alunos das minhas turmas do 11º ano manifestaram interesse em discutir um dos textos escritos por outro colega, professor de Filosofia, em resposta a uma questão filosófica que lhe foi colocada, no âmbito da comemoração do dia mundial da filosofia. A questão está formulada no título desta posta e a resposta do professor Miguel Granja está abaixo. Concordam? Porquê?


Hobbes Como Condição de Possibilidade de Kant. 

Entre a desonra e a guerra, escolhestes a
desonra e tereis a guerra
                            Winston CHURCHILL

      A dolorosa história da Segunda Guerra Mundial e, em particular, a nossa experiência com o nazismo deviam ter acabado já, de uma vez por todas, com a argumentação pacifista segundo a qual não há «guerras justas». Infelizmente o debate permanece vivo, cobrindo-nos de ridículo e de falência moral. Talvez devêssemos colocar a pergunta do avesso, alterando-a apenas ligeiramente: Será legítima uma paz falsa e injusta para evitar a guerra? A intemporal frase de Churchill que uso em epígrafe é, em si, todo um tratado de filosofia política e foi dirigida, como sabemos, ao pacifista Chamberlain acabadinho de alcançar o pacifista Acordo de Munique, em 1938, com Hitler. Como nos ensinou (e temo que tenha já deixado de nos ensinar) esse vergonhoso episódio pacifista, a paz desejada, infelizmente, não se realiza só porque a desejamos. A paz, tal como a guerra, faz-se. E é um erro pensar que a paz se alcança só porque não se faz a guerra, como se a paz fosse uma consequência natural e lógica do fim da guerra. Não raro, a paz a todo o custo tem um custo demasiado elevado. Custou parte da Checoslováquia, desde logo, aos checoslovacos em nome da nobre vontade de paz dos franceses e dos britânicos: e a vontade de paz de uns é a anexação e opressão dos outros. Portanto, quando a França e a Grã-Bretanha querem a paz com Hitler, quem sofre com isso são os checoslovacos. Em 1939, Hitler, desrespeitando o tratado, invade o resto da Checoslováquia.
     Isto devia ensinar-nos que estamos acostumados a pensar que o contrário da guerra é a paz e que essa é, porém, uma ideia errada. O contrário da guerra é, muitas vezes, a injustiça, a repressão, o genocídio, a cumplicidade, e só a guerra, e não a «paz», pode pôr-lhes cobro. O recurso à guerra teria sido desejável para acabar com o genocídio no Ruanda em 1994 e foi esse recurso à guerra, por parte da NATO, em 1999, que acabou com o genocídio em curso por parte de Milošević. Mas, para isso, foi preciso o hobbesiano Clinton fazer o trabalho sujo que a kantiana Europa não foi capaz de fazer, mesmo às suas portas. Em nome da paz, claro. Porque a guerra é sempre estúpida e injusta. 
     Convém talvez não esquecermos que a primeira «manifestação global»  do século XXI, com milhões de pessoas nas ruas de todo o mundo, não foi em 2001, por causa do 11 de Setembro: foi em 2003. Por causa da iminente guerra dos EUA no Iraque. Portanto, porque é preferível manter o povo iraquiano brutalmente oprimido por Saddam Hussein do que fazer a guerra. Como se aqui, mais uma vez, o contrário da guerra fosse a paz. Em 2003, regressámos, em rebanhada global, ao nosso Momento Checoslovaco de 1938. E não temos, parece-me, cessado de regressar a 1938. E é tão confortável ser Kant quando temos Hobbes a guardar-nos a porta de casa. E, no entanto, tão hipócrita. Porque há alturas em que só podemos permanecer kantianos com a ajuda de Hobbes. Eu pelo menos, não gosto de ser ingrato em relação àqueles bravos rapazes que, arriscando a sua vida lá longe, me guardam o sono todas as noites.
Miguel Granja 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Mais um exercício de lógica

Eis mais uma derivação para os alunos do 11º ano fazerem:

A ∧ ¬ B, C  B  A ∧ ¬ C


Deixem as vossas respostas na caixa de comentários.


Nota: Por lapso, a versão original do exercício não era a pretendida, pelo que foi alterada.

domingo, 21 de novembro de 2010

O que nos garante que o mundo não é apenas uma ilusão?

Eis uma ideia para os professores de filosofia da mesma escola aplicarem as suas faculdades críticas e funcionarem como uma comunidade de pares intelectualmente activos e verdadeiramente interessados na discussão dos problemas filosóficos. 

A ideia é a seguinte: cada professor escreve uma questão filosófica e um dos seus colegas responde numa folha a essa questão. Pretende-se, assim, que cada um enfrente o problema colocado por um dos seus colegas, sendo cada resposta o ponto de partida para uma boa discussão filosófica. Tudo isto pode e deve ser feito sem rede, isto é, sem ser necessário consultar bibliografia nem pedir ideias emprestadas a outros. Afinal, o professor de Filosofia deve estar sempre apto a pensar nessas coisas, mostrando o que é  pensar por si e apresentando simplesmente o resultado da sua reflexão. 

Essa foi, precisamente, uma das actividades realizadas pelo grupo de filosofia da ESMTG no dia internacional da filosofia. Eis a minha resposta à questão a que me coube responder.

E se o mundo não passasse de uma ilusão? E se nada existisse? O que é que nos garante que o mundo não é apenas uma ilusão? 
Eis uma resposta decepcionante, e talvez inesperada, às duas primeiras perguntas: se o mundo não passasse de uma ilusão, não passaria de uma ilusão; e se o mundo não existisse, não existiria. 
Bom, procurando ser um pouco mais construtivo, diria, por um lado, que se o mundo não passasse de uma ilusão, ficaríamos ainda com o problema aparentemente intratável de explicar a existência de tal ilusão e de compreender como poderia essa mesma ilusão ser algo que não faz parte do mundo. Por outro lado, se o mundo não existisse, não haveria quem perguntasse «E se o mundo não existisse?» Assim, para que estas mesmas perguntas façam sentido é preciso que o mundo exista. Ou, pelo menos, temos de pressupor tal coisa. 
Note-se que disse «pressupor» e não mais do que isso. O que me leva à terceira e, quanto a mim, mais interessante pergunta: o que nos garante que o mundo não é apenas uma ilusão? A minha resposta é que nada nos garante tal coisa. Isto se o mundo a que nos estamos aqui a referir for um mundo exterior e não o meu mundo interior ou mental. A este tenho acesso directo e não preciso de qualquer garantia extra. 
Até aqui creio estar muito bem acompanhado por um senhor escocês falecido há muito, chamado David Hume – se é que este senhor não passa de uma ilusão. Só que o senhor Hume acha que a falta de garantias nos conduz a uma espécie de comichão intelectual que não nos deixa fazer outra coisa senão coçar a cabeça. Mas para grandes males, grandes remédios, pelo que arrumou o assunto decidindo simplesmente fingir que não havia comichão. E é aqui que abandono a companhia do senhor Hume. 
O problema deste escocês foi ser demasiado exigente, pois achava que ter boas razões para acreditar que o mundo exterior existe equivalia a ter garantias disso. Mas ter boas razões para acreditar que P e ter a garantia de que P são coisas diferentes. 
Que garantias temos de que os fósseis com formas de peixe encontrados em locais distantes do mar não foram causados por peixes caídos do céu? A resposta é: nenhuma. E que garantia temos de que os locais onde foram encontrados os fósseis estivessem em tempos muito remotos debaixo do mar? A resposta continua a ser: nenhuma. Também aqui não temos qualquer garantia, mas não deixa de haver boas razões para acreditar nisso. Porquê? Ora, porque comparamos as explicações disponíveis para a existência dos fósseis com forma de peixe e esta é, de longe, mais satisfatória do que qualquer outra. 
Nunca podemos ter a garantia seja do que for, mas seria algo irracional ter melhores razões para acreditar que os fósseis vieram do mar do que o inverso e, apesar disso, não acreditar que vieram do mar por falta de garantias. Assim, temos também boas razões para acreditar que o mundo exterior existe. Podemos estar enganados? Claro que sim, mas temos boas razões para pensar que não.