sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O bom professor de Filosofia

Ontem foi dia mundial da filosofia e, como é habitual em algumas escolas, também o grupo de professores de Filosofia da Teixeira Gomes decidiu assinalar o dia com algumas iniciativas. Desta vez, o grupo decidiu aproveitar para celebrar a filosofia homenageando um bom professor de Filosofia que tivemos a sorte de ter como colega de grupo e amigo, e que recentemente deixou de estar entre nós: Rui Cunha. Eis o meu texto de homenagem ao Rui e, através dele, também à filosofia.


Não é fácil definir um bom professor de Filosofia, como não é fácil definir um bom professor, seja de que disciplina for. Há, contudo, algumas características que nenhum bom professor de Filosofia pode deixar de exemplificar. Destaco três que me parecem fundamentais.
Em primeiro lugar, um bom professor de Filosofia tem de ter um genuíno interesse por aquilo que ensina. Quem não acredita realmente no valor do que ensina também não conseguirá fazer os estudantes acreditar nisso, pelo que dificilmente se sentirão motivados para aprender. O entusiasmo dos estudantes por determinadas matérias é, em boa parte, reflexo do entusiasmo dos seus professores. 
Em segundo lugar, nenhum professor passa da mediania se não tiver uma compreensão profunda do que ensina. Mesmo para explicar o mais simples é frequentemente preciso ter um domínio do mais complexo, seja para esclarecer uma dúvida mais subtil, para responder a uma dificuldade inesperada ou para satisfazer a legítima curiosidade do aluno mais exigente. Por vezes, o mais simples e óbvio é também o mais difícil de explicar: precisamente por parecer óbvio se ignoram as suas razões. Ora, o domínio do que se ensina exige, além do interesse referido atrás, estudo, informação e actualização constantes. O professor que considera já saber tudo desde que terminou o seu curso ou que acha suficiente o que se encontra no manual dificilmente poderá ser mais do que um mero funcionário do ensino. É, de resto, o domínio científico do que se ensina que, em boa parte, confere ao bom professor a serenidade e descontracção necessárias a um clima de aprendizagem sem grandes sobressaltos e a uma relação pedagogicamente saudável com os seus alunos.
Em terceiro lugar, nenhum professor de Filosofia (e não só) é realmente um bom professor se, mesmo dominando cientificamente as matérias que ensina, não for uma pessoa informada sobre o que de mais importante se passa nas artes, nas ciências e na história em geral. Até porque talvez nem sequer seja possível ser cientificamente competente em Filosofia ignorando o que de mais relevante se passa em outras áreas do saber, pois é frequentemente nessas áreas que se encontra a matéria-prima da reflexão filosófica e fonte importante de perplexidade filosófica. 
Mas será que há muitos professores de Filosofia assim? Não fiz qualquer investigação empírica sobre o assunto, pelo que não sei qual é a resposta. Mas sei que conheci um assim e que tive o prazer de o ter como colega na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes. Não precisei de assistir às suas aulas para apreciar o seu contagiante entusiasmo pela filosofia, o seu invulgar conhecimento científico e a sua enorme bagagem cultural. Esse professor foi Rui Daniel Cunha.
E nem sequer referi outras qualidades importantíssimas que o Rui também tinha: qualidades humanas como a simpatia, a boa disposição e a atenção aos outros. 
Muitas saudades, Rui.

sábado, 13 de novembro de 2010

Derivações: um exercício de lógica

A ver quem é o primeiro aluno do 11º ano a fazer a seguinte derivação:


A (B C), ¬ C, ¬ B ¬ A

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Humor filosófico: será tudo relativo?

Eis duas piadas filosóficas tiradas deste livro e que têm em comum o ilustrarem a mesma ideia. Que ideia é essa?

A primeira piada:

Um homem está a rezar a Deus.
- Senhor, gostaria de te fazer uma pergunta.
O Senhor responde:
- Não há problema. Podes perguntar.
- Senhor, é verdade que, para ti, um milhão de anos é apenas um segundo?
- Sim, é verdade.
- Bem, nesse caso o que é um milhão de dólares para ti?
- Para mim, um milhão de dólares é apenas um cêntimo.
-Ah, nesse caso, Senhor - diz o homem -, podes dar-me um cêntimo?
- Claro - responde o Senhor -, só um segundo.

A segunda:

Um francês entra num bar. Traz um papagaio com um smoking empoleirado no ombro.
- Uau, que giro. Onde é que arranjou isso? - pergunta o empregado do bar.
- Em França - responde o papagaio. - Há milhões de tipos como ele lá.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cogência

Quem sabe se o seguinte argumento é cogente e porquê?

Alguns portugueses são católicos.
Logo, alguns católicos são portugueses.

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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Filosofia, nas palavras de Rui Cunha

O grupo de professores de Filosofia da ESMTG no ano lectivo de 2006-2007. 
Rui Cunha é o primeiro da esquerda

Foi com tristeza que soube da morte de um excelente colega e amigo, que também foi professor de Filosofia nesta escola no ano lectivo de 2006-2007. Em memória de Rui Cunha, deixo aqui as palavras com que inicia o seu livro Existência, Sentido e Inferência (Arquimedes Livros, 2007).

Toda a filosofia consiste em propor teses, sejam elas epistemológicas, ontológicas, semânticas, estética, éticas, etc., e aduzir argumentos a favor, respectivamente contra, essas teses propostas. Qualquer tese deve ser formulada clara e concisamente, dado que crucial na sua eventual refutação é a produção de contra-exemplos [...]
Essas teses têm origem em problemas filosóficos, para os quais pretendem constituir soluções. Torna-se fundamental poder testar a validade dos argumentos apresentados em defesa dessas teses, para o que se torna imprescindível a existência de um método de análise desses argumentos. A lógica elementar, ao apresentar um cânone de regras de inferência válidas [...] fornece justamente uma base para esse método. 

Obrigado, Rui.

domingo, 17 de outubro de 2010

Duas ideias erradas acerca dos argumentos

Uma confusão muito frequente acerca dos argumentos é pensar que eles existem algures por aí e que nós nos limitamos a descobri-los. Mas isso é falso. Os argumentos não são como os cogumelos, que surgem por aí e que apenas temos de apanhá-los. Somos nós que criamos os argumentos quando procuramos defender, com razões, uma dada ideia ou opinião. E somos também nós que decidimos, quando discutimos ideias com os outros, se queremos ou não argumentar e, portanto, se as nossas afirmações constituem um argumento ou não. Mas, uma vez tomada a decisão de argumentar, isso é publicamente observável.

Algumas pessoas pensam, também erradamente, que a finalidade da argumentação em filosofia é ver quem ganha a discussão ou quem é mais inteligente. Mas a filosofia não está ao serviço de tais futilidades; os filósofos argumentam porque estão interessados na verdade.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Omnipotência

Há perguntas que nos deixam muitas vezes sem saber o que pensar. No teste diagnóstico que se encontra no início do manual A Arte de Pensar, do 10º ano, é feita uma pergunta para a qual alguns alunos nem sequer sabem como começar a responder, embora achem que há ali qualquer coisa que não bate certo. A finalidade da pergunta é precisamente a de deixar os alunos perplexos. Diz o seguinte: Poderá um ser omnipotente, como Deus, criar uma pedra tão pesada que ninguém a possa levantar?

Bom, quando se fala de «ninguém», isso inclui o próprio ser omnipotente. A pergunta parece conduzir-nos à ideia de que há algo de errado com a própria ideia de omnipotência e, por consequência, algo de errado também com a ideia de um deus omnipotente. Será?

Vamos tentar reformular a pergunta, para ver se compreendemos melhor o que está em causa. Proponho que se reformule da seguinte maneira: Será que um ser omnipotente pode criar algo que não possa criar?

Pois, se esta for uma reformulação correcta da nossa pergunta inicial, parece ficar mais claro que o problema talvez não seja a resposta, mas o que se pede na própria pergunta. Seria mais ou menos como perguntar se um ser que sabe tudo também sabe coisas que não sabe; ou que consegue criar coisas redondas que são quadradas.

No livro Que Diria Sócrates, organizado pelo filósofo Alexander George, alguns filósofos respondem a perguntas filosóficas de pessoas comuns. Deixo aqui um excerto do livro com a mesma pergunta, respondida pelo filósofo Richard Heck.

Pode Deus fazer uma pedra tão pesada que Ele próprio seja incapaz de a levantar? Se pode, então não é todo-poderoso. Mas se não a puder fazer, então também não será todo-poderoso. Em qualquer destes casos, temos uma coisa que Deus não consegue fazer. Assim, parece seguir-se que Deus (ou qualquer outra coisa, para o efeito) não pode ser omnipotente. 
RICHARD HECK: Apresenta-nos uma versão de um problema antigo, um problema que é incessantemente discutido por teólogos. Na sua formulação mais simples, diz o seguinte: Pode Deus fazer uma pedra que seja simultaneamente grande e não grande? É óbvio que não. Logo, Deus não é omnipotente.
A resposta mais conhecida a esta questão, favorecida por Tomás de Aquino, é que temos de ter mais atenção quanto ao modo como entendemos o conceito de omnipotência. Ser omnipotente não é ser capaz de fazer seja o que for: é ser capaz de fazer tudo o que é possível ser feito. Poderia Deus fazer uma pedra que fosse simultaneamente grande e não grande? Não. Mas o facto de Deus ser incapaz de o fazer não ameaça a omnipotência de Deus, uma vez que jamais seria possível existir uma pedra que fosse ao mesmo tempo grande e não grande. De igual modo, se Deus é omnipotente, então é simplesmente impossível existir uma pedra tão grande que Ele não possa levantá-la. Assim, o facto de Deus não poder criar uma pedra tão grande que Ele não possa levantá-la não constitui um limite ao poder de Deus.
Vale a pena referir também que alguns filósofos – René Descartes, por exemplo – defenderam que Deus poderia fazer uma pedra que fosse simultaneamente grande e não grande! Segundo esta perspectiva, os poderes de Deus são completamente ilimitados, a ponto de Deus não estar sequer limitado pelas leis da lógica. Pode ser impossível, para nós, compreender como se consegue tal feito, mas esta incompreensão deve-se ao facto de as nossas mentes serem finitas, sendo a do Criador infinita.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Saber fazer perguntas

Esta enorme pintura mural do artista renascentista italiano Rafael, intitulada A Escola de Atenas, representa os maiores filósofos da antiguidade em animada discussão. O encontro de filósofos descrito na história de Ned Markosian seria algo parecido a isto.

Um dos aspectos mais importantes da actividade filosófica é fazer as perguntas certas. Ao contrário do que muitos possam pensar, saber fazer perguntas é frequentemente tão ou mais difícil do que dar boas respostas.  Até porque as respostas dependem das perguntas e perguntas desinteressantes ou mal formuladas costumam ter como resultado respostas também elas desinteressantes e insatisfatórias. Num certo sentido, o bom filósofo é como o bom detective; é aquele que procura fazer as perguntas certas para atingir o seu objectivo, que é chegar à verdade. 

Esta pequena e interessante história inventada pelo filósofo americano Ned Markosian mostra bem como fazer boas perguntas não é uma tarefa fácil. 

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Novo blogue: cinema e filosofia


É possível aprender filosofia vendo cinema? Carlos Café, professor de Filosofia desta escola há vários anos, diz que sim e mostra como no blogue que acabou de criar precisamente para esse efeito. O novo blogue chama-se a filosofia vai ao cinema. E nós queremos ver a filosofia ir ao cinema e, já agora, aproveitar a boleia. Questões Básicas saúda o novo blogue de Carlos Café e deseja-lhe uma longa metragem vida. 

De regresso

Questões básicas está de regresso e com nova cara. Esperemos que gostem. Em breve actualizaremos também as ligações.

Aproveitamos também para desejar um bom ano lectivo a todos. E estamos sempre abertos às vossa colaboração, pois não há filosofia sem debate e discussão aberta das diferentes ideias. A filosofia não é uma coisa que se faz em solidão, como alguns pensam; exige uma comunidade de pares críticos e intelectualmente activos. Aliás, apresentar as nossas ideias para avaliação crítica dos nossos pares é um aspecto fundamental de toda a aprendizagem e não apenas da aprendizagem filosófica.