domingo, 25 de julho de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

O que eu penso sobre o valor da arte...


... está neste meu livro acabado de publicar pela editora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Trata-se de um livro um pouco avançado para ser lido por alunos do secundário. Tem, contudo, algumas secções bastante acessíveis, que podem ser lidas por qualquer pessoa com genuínos interesses filosóficos, mesmo sem formação especializada na área. Críticas são sempre bem vindas.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sugestões para férias: livros


Algumas pessoas pensam que as férias são boas apenas par nos dedicarmos a futilidades sem qualquer conteúdo, pensando que essas são as únicas coisas que realmente nos dão prazer e nos permitem relaxar. Mas essa opinião assenta, em meu entender, numa ideia muito mesquinha do prazer, que só aqueles que encaram o pensamento como algo doloroso podem partilhar. Pelo contrário, o pensamento, as ideias e o conhecimento são normalmente uma grande fonte de satisfação. Isso pode também ser alcançado lendo bons livros e não apenas as futilidades do momento. Deixo duas sugestões de leitura, que podem dar grande satisfação para quem gosta de pensar enquanto lê.

A primeira é um pequeníssimo livro de filosofia que não nomeia um único filósofo e que se dirige directamente ao leitor, sem lhe pedir seja o que for, além da sua disponibilidade para pensar com o autor. Foi escrito por um filósofo de renome, o americano de origem sérvia Thomas Nagel, para ser lido por jovens adolescentes. Intitula-se O Que Dizer Tudo Isto?

A segunda sugestão é de um clássico da literatura do século passado. Trata-se de A Metamorfose, de Franz Kafka. É também um livro muito pequeno, mas algo perturbador. Li-o quando era adolescente e impresionou-me muito.

sábado, 3 de julho de 2010

Sugestões para férias: Música

Os exames estão quase a terminar e para muitos alunos as férias até já começaram. É uma boa altura para, de uma forma descontraída, conhecer outras coisas e aproveitar para cultivar o espírito, com boa música, bons livros e bom cinema. Assim, deixo aqui algumas sugestões, começando pela música.

Sugiro dois discos, um de música pop-rock alternativa e outro de um jovem pianista de música clássica. Escolhi estes dois discos não só por conterem excelente música, mas principalmente porque não se ouvem a toda a hora na rádio.

O primeiro deles é de um quarteto de jovens, duas raparigas e dois rapazes, estudantes numa escola secundária do sul de Londres. É o primeiro disco dos The xx, que com pouquíssimos recursos instrumentais e de uma forma muito discreta, conseguem fazer o mais difícil: canções simples, mas inspiradas. Podem experimentar ver e ouvir  aqui ou, em alternativa, aqui a canção Islands, que faz parte deste disco.

O segundo disco é também de um jovem, desta vez trata-se do brilhante pianista francês David Fray, interpretando música genial de Johann Sebastian Bach. Experimentem ouvir, que vale mesmo a pena. Mas experimentem ouvir com o espírito aberto e sem preconceitos. Também podem ver aqui Fray a tocar música deste disco num ensaio com orquestra.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Exames

Estão aí os exames nacionais. Desejo boa sorte a todos os alunos. Escrevi um artigo para o Público sobre os exames nacionais. Pode ser lido aqui.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Discutir filosofia

É mesmo antes de começarem as aulas, no início do próximo ano lectivo. É sobretudo para professores, mas está aberto a todos. Se algum dos alunos das escolas secundárias de Portimão estiver interessado em ver como é e, por que não, participar, pode fazê-lo. Estes alunos podem inscrever-se sem ter de pagar inscrição. Basta contactarem-me.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ética da clonagem

                                   Imagem do filme Gattaca, de Andrew Niccol

A discussão filosófica exige algum cuidado e subtileza, não dispensando frequentemente o recurso a informação empírica fidedigna e relevante. Verifico que a tendência para esquecer isso é particularmente notória em casos como a discussão sobre a moralidade da clonagem humana reprodutiva. Neste caso, a argumentação cuidada é tantas vezes substituída por cenários fantasiosos, que mais parecem inspirados nos filmes de Hollywood. Eis algumas dessas fantasias e ideias apressadas, que não têm qualquer sustentação na mais rigorosa informação disponível:

1. Se a clonagem humana reprodutiva for permitida, as pessoas passarão a ser quase todas iguais.

Mas por que razão iriam ser quase todas iguais? A não ser que só fosse permitido fazer clones de umas quantas matrizes seleccionadas, isso não faz qualquer sentido. Clones de pessoas diferentes são também diferentes.

2. Os clones não têm identidade própria.

Pensar que os clones não têm identidade própria é pensar que a personalidade de uma pessoa e aquilo que ela realmente é depende exclusivamente dos seus genes. Mas sabe-se que isto é pura e simplesmente falso. Há também quem diga que pessoas que partilham o mesmo ADN têm maior propensão para sofrer crises de identidade. Mas em que estudos sérios se baseia tal afirmação?

3. A clonagem põe em causa os processos naturais de reprodução.

Falso. A prática da clonagem não implica o fim da reprodução natural. Basta pensar que as pessoas que se opõem à clonagem com este mesmo argumento nunca iriam deixar de ter filhos recorrendo a processos de reprodução natural. As pessoas são diferentes e, por isso mesmo, querem coisas diferentes.

4. A clonagem não é um processo de reprodução natural.

Sim, e depois? Qual é exactamente o problema? Grande parte da medicina também não é natural e não tomamos isso como um mal. Bem pelo contrário. Usar lentes de contacto, pintar o cabelo e andar de avião também não são coisas naturais, mas ninguém acha isso moralmente inaceitável.

5. Os clones seriam o resultado de desejos egoístas dos seus progenitores.

Mas porquê? De resto, quantas vezes os pais não educam os seus filhos naturais em função dos seus desejos e não tanto dos próprios filhos?

E já nem sequer vale a pena falar na completa fantasia dos clones todos de olhos azuis e fartos cabelos louros, como se todas as pessoas gostassem do mesmo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ciência e indução

Karl Popper é, na linha de David Hume, um dos mais destacados críticos da indução, desvalorizando o papel deste tipo de raciocínio na construção do conhecimento científico. Mas será que Popper tem razão e a  indução é desnecessária para a ciência? Seria possível fazer previsões científicas tão rigorosas e nas quais confiamos plenamente sem confiar na indução? Afinal, o que levará um médico a receitar antibióticos quando apanhamos uma forte gripe?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Será a clonagem humana uma prática eticamente aceitável?


Este é o titulo de um ensaio filosófico de David Nunes, aluno do 11º C de 2008. Não tive oportunidade de lhe pedir autorização para publicar aqui o seu ensaio, mas não levantou qualquer problema quando, na altura da sua discussão, referi tal possibilidade. Eis, pois, a resposta do David:

Em primeiro lugar, é preciso compreender o que é a clonagem. A clonagem é um processo que alguns seres vivos utilizam para a sua reprodução, a reprodução assexuada. É um processo em que o material genético dos descendentes é exactamente igual ao do progenitor. Daí que a reprodução assexuada seja considerada um processo de clonagem. No caso dos seres humanos, a reprodução natural é realizada por um processo designado de reprodução sexuada, em que há a combinação do material genético de ambos os progenitores, e por isso não é um processo de clonagem.
Existem dois tipos de clonagem humana, a clonagem terapêutica, e a clonagem para fins reprodutivos. Na clonagem para fins terapêuticos são utilizados excertos de células que, por mitose, multiplicam o número de células iniciais, podendo assim ser utilizados para salvar a vida do paciente. A clonagem reprodutiva é um processo em que é utilizado o núcleo de uma célula, e este é transferido para um zigoto, em que por uma descarga eléctrica é unido o núcleo ao ovo e, se for bem-sucedido, este começará a dividir-se, levando à formação de um ser humano que é um clone do indivíduo dador da célula de onde proveio o material genético contido no núcleo. A clonagem terapêutica é pouco contestada, pois a sua utilização apenas visa melhorar a qualidade de vida de certos indivíduos que, por alguma razão médica, necessitam de recorrer a este método.
Apesar de a clonagem com fins reprodutivos ser muito contestada, defendo que não há nada de moralmente errado nisso. Assim, penso que não preciso de argumentar a favor da clonagem, bastando-me mostrar que os argumentos contra essa prática não são bons.
Um dos mais comuns argumentos dos opositores da clonagem humana é o chamado «argumento da identidade», de acordo com o qual é errado clonar seres humanos porque este processo, ao reproduzir num indivíduo (o clone) o mesmo material genético de outro indivíduo (a matriz), está a privar aquele indivíduo (o clone) de uma identidade própria.
Outro argumento contra a clonagem humana é que há o perigo da instrumentalização porque os clones poderão ser criados como meios para atingir os nossos fins: se a clonagem se vulgarizar, os clones serão utilizados para ultrapassar frustrações e fracassos que algumas pessoas tiveram durante a vida. Visto que os clones são indivíduos geneticamente iguais, algumas pessoas poderiam pensar que a clonagem seria como uma segunda oportunidade na vida. Isto acontecerá com alguns pais, que já nos dias de hoje querem que os seus filhos sejam o que eles não conseguiram ser. Com os filhos a serem clones dos pais, este efeito iria acentuar-se, pelo que os clones também poderiam ser utilizados para substituir pessoas que morreram, tomando o clone o lugar dessa pessoa.
Há o argumento do perigo da eugenia, a qual consiste no aperfeiçoamento ou eliminação de características físicas e mentais dos indivíduos. Existem dois tipos de eugenia, a eugenia negativa em que é feita uma selecção de características negativas, como malformações do feto ou doenças hereditárias, e há a eugenia positiva, em que são seleccionadas características que sejam desejadas para o indivíduo, tais como a cor dos olhos, a cor do cabelo, etc. Isto significa que se pode pré-determinar características que se pretende que a pessoa venha a ter, correndo-se o risco de dar origem apenas a indivíduos com certas características.
Há ainda o argumento do apelo à natureza, cujos defensores alegam não ser a clonagem humana um processo natural. Dado que a clonagem não requer a junção de um espermatozóide e de um óvulo, ela vai contra o funcionamento da natureza, sendo, por isso, moralmente errado recorrer a ela.
Creio, contudo, que todos estes argumentos falham. Em resposta ao argumento da identidade, basta notar que identidade de uma pessoa não depende apenas dos seus genes; depende também das suas experiências, do meio em que o indivíduo vive e da sua educação, entre outros aspectos. O ADN dos gémeos monozigóticos é exactamente o mesmo, mas isso não implica que ambos pensem ou reajam da mesma maneira aos mesmos estímulos, mesmo tendo vivências semelhantes.
Em resposta ao segundo argumento – os clones poderiam ser utilizados como instrumentos ao serviço de certos fins –, é preciso sublinhar que isso só iria acontecer se admitíssemos que a personalidade do clone, a sua vontade, etc., estariam completamente determinados pelos seus genes, o que já se viu ser falso. Por exemplo, o clone criado para substituir uma pessoa que faleceu não seria exactamente a pessoa que faleceu: os seus estados psicológicos não seriam os mesmos, pois este não teve as mesmas vivências que o falecido teve e, portanto, seria outra pessoa diferente.
Em resposta ao argumento da eugenia, se escolhermos através da manipulação genética algumas características que se quer que o indivíduo venha a ter para ser quase perfeito, então este não conteria genes apenas de um só dador. Mas para que um indivíduo seja um clone tem que ter os seus genes iguais ao de uma só matriz. Ora, no caso da eugenia o indivíduo teria um conjunto de genes de vários dadores, ou seja, um conjunto genético que mais ninguém possui. Logo, como não tem o mesmo conjunto genético de um dador, não é um clone.
Em conclusão, não havendo bons argumentos contra a clonagem reprodutiva humana, também não faz sentido afirmar que ela é moralmente inaceitável.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Avaliação de ensaios filosóficos

Ao ler os ensaios filosóficos realizados pelos alunos utilizarei as seguintes questões como critérios de avaliação:

1. O problema está correctamente formulado?
2. A importância do problema é mostrada?
3. As principais teses concorrentes são apresentadas?
4. A tese que se pretende defender é clara para o leitor?
5. Os argumentos apresentados são bons e não há falácias evidentes?
6. As principais objecções são apresentadas?
7. As objecções apresentadas são refutadas?


Além dessas, há mais três questões de carácter geral a ter em conta:

8. O ensaio está de acordo com o solicitado, em termos formais?
9. A prosa é fácil de ler e de compreender?
10. As ideias são apresentadas de forma pessoal?

Qualquer critério pode ser totalmente observado, parcialmente observado ou não ser de todo observado, o que será, naturalmente, tido em conta na atribuição de uma classificação a cada um deles. Há, contudo, um critério (o último atrás indicado) que se não for de todo observado, implicará a atribuição de zero valores ao ensaio. Isso sucede quando se torna óbvio que o ensaio não tem qualquer cunho pessoal.