quarta-feira, 16 de junho de 2010

Exames

Estão aí os exames nacionais. Desejo boa sorte a todos os alunos. Escrevi um artigo para o Público sobre os exames nacionais. Pode ser lido aqui.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Discutir filosofia

É mesmo antes de começarem as aulas, no início do próximo ano lectivo. É sobretudo para professores, mas está aberto a todos. Se algum dos alunos das escolas secundárias de Portimão estiver interessado em ver como é e, por que não, participar, pode fazê-lo. Estes alunos podem inscrever-se sem ter de pagar inscrição. Basta contactarem-me.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ética da clonagem

                                   Imagem do filme Gattaca, de Andrew Niccol

A discussão filosófica exige algum cuidado e subtileza, não dispensando frequentemente o recurso a informação empírica fidedigna e relevante. Verifico que a tendência para esquecer isso é particularmente notória em casos como a discussão sobre a moralidade da clonagem humana reprodutiva. Neste caso, a argumentação cuidada é tantas vezes substituída por cenários fantasiosos, que mais parecem inspirados nos filmes de Hollywood. Eis algumas dessas fantasias e ideias apressadas, que não têm qualquer sustentação na mais rigorosa informação disponível:

1. Se a clonagem humana reprodutiva for permitida, as pessoas passarão a ser quase todas iguais.

Mas por que razão iriam ser quase todas iguais? A não ser que só fosse permitido fazer clones de umas quantas matrizes seleccionadas, isso não faz qualquer sentido. Clones de pessoas diferentes são também diferentes.

2. Os clones não têm identidade própria.

Pensar que os clones não têm identidade própria é pensar que a personalidade de uma pessoa e aquilo que ela realmente é depende exclusivamente dos seus genes. Mas sabe-se que isto é pura e simplesmente falso. Há também quem diga que pessoas que partilham o mesmo ADN têm maior propensão para sofrer crises de identidade. Mas em que estudos sérios se baseia tal afirmação?

3. A clonagem põe em causa os processos naturais de reprodução.

Falso. A prática da clonagem não implica o fim da reprodução natural. Basta pensar que as pessoas que se opõem à clonagem com este mesmo argumento nunca iriam deixar de ter filhos recorrendo a processos de reprodução natural. As pessoas são diferentes e, por isso mesmo, querem coisas diferentes.

4. A clonagem não é um processo de reprodução natural.

Sim, e depois? Qual é exactamente o problema? Grande parte da medicina também não é natural e não tomamos isso como um mal. Bem pelo contrário. Usar lentes de contacto, pintar o cabelo e andar de avião também não são coisas naturais, mas ninguém acha isso moralmente inaceitável.

5. Os clones seriam o resultado de desejos egoístas dos seus progenitores.

Mas porquê? De resto, quantas vezes os pais não educam os seus filhos naturais em função dos seus desejos e não tanto dos próprios filhos?

E já nem sequer vale a pena falar na completa fantasia dos clones todos de olhos azuis e fartos cabelos louros, como se todas as pessoas gostassem do mesmo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ciência e indução

Karl Popper é, na linha de David Hume, um dos mais destacados críticos da indução, desvalorizando o papel deste tipo de raciocínio na construção do conhecimento científico. Mas será que Popper tem razão e a  indução é desnecessária para a ciência? Seria possível fazer previsões científicas tão rigorosas e nas quais confiamos plenamente sem confiar na indução? Afinal, o que levará um médico a receitar antibióticos quando apanhamos uma forte gripe?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Será a clonagem humana uma prática eticamente aceitável?


Este é o titulo de um ensaio filosófico de David Nunes, aluno do 11º C de 2008. Não tive oportunidade de lhe pedir autorização para publicar aqui o seu ensaio, mas não levantou qualquer problema quando, na altura da sua discussão, referi tal possibilidade. Eis, pois, a resposta do David:

Em primeiro lugar, é preciso compreender o que é a clonagem. A clonagem é um processo que alguns seres vivos utilizam para a sua reprodução, a reprodução assexuada. É um processo em que o material genético dos descendentes é exactamente igual ao do progenitor. Daí que a reprodução assexuada seja considerada um processo de clonagem. No caso dos seres humanos, a reprodução natural é realizada por um processo designado de reprodução sexuada, em que há a combinação do material genético de ambos os progenitores, e por isso não é um processo de clonagem.
Existem dois tipos de clonagem humana, a clonagem terapêutica, e a clonagem para fins reprodutivos. Na clonagem para fins terapêuticos são utilizados excertos de células que, por mitose, multiplicam o número de células iniciais, podendo assim ser utilizados para salvar a vida do paciente. A clonagem reprodutiva é um processo em que é utilizado o núcleo de uma célula, e este é transferido para um zigoto, em que por uma descarga eléctrica é unido o núcleo ao ovo e, se for bem-sucedido, este começará a dividir-se, levando à formação de um ser humano que é um clone do indivíduo dador da célula de onde proveio o material genético contido no núcleo. A clonagem terapêutica é pouco contestada, pois a sua utilização apenas visa melhorar a qualidade de vida de certos indivíduos que, por alguma razão médica, necessitam de recorrer a este método.
Apesar de a clonagem com fins reprodutivos ser muito contestada, defendo que não há nada de moralmente errado nisso. Assim, penso que não preciso de argumentar a favor da clonagem, bastando-me mostrar que os argumentos contra essa prática não são bons.
Um dos mais comuns argumentos dos opositores da clonagem humana é o chamado «argumento da identidade», de acordo com o qual é errado clonar seres humanos porque este processo, ao reproduzir num indivíduo (o clone) o mesmo material genético de outro indivíduo (a matriz), está a privar aquele indivíduo (o clone) de uma identidade própria.
Outro argumento contra a clonagem humana é que há o perigo da instrumentalização porque os clones poderão ser criados como meios para atingir os nossos fins: se a clonagem se vulgarizar, os clones serão utilizados para ultrapassar frustrações e fracassos que algumas pessoas tiveram durante a vida. Visto que os clones são indivíduos geneticamente iguais, algumas pessoas poderiam pensar que a clonagem seria como uma segunda oportunidade na vida. Isto acontecerá com alguns pais, que já nos dias de hoje querem que os seus filhos sejam o que eles não conseguiram ser. Com os filhos a serem clones dos pais, este efeito iria acentuar-se, pelo que os clones também poderiam ser utilizados para substituir pessoas que morreram, tomando o clone o lugar dessa pessoa.
Há o argumento do perigo da eugenia, a qual consiste no aperfeiçoamento ou eliminação de características físicas e mentais dos indivíduos. Existem dois tipos de eugenia, a eugenia negativa em que é feita uma selecção de características negativas, como malformações do feto ou doenças hereditárias, e há a eugenia positiva, em que são seleccionadas características que sejam desejadas para o indivíduo, tais como a cor dos olhos, a cor do cabelo, etc. Isto significa que se pode pré-determinar características que se pretende que a pessoa venha a ter, correndo-se o risco de dar origem apenas a indivíduos com certas características.
Há ainda o argumento do apelo à natureza, cujos defensores alegam não ser a clonagem humana um processo natural. Dado que a clonagem não requer a junção de um espermatozóide e de um óvulo, ela vai contra o funcionamento da natureza, sendo, por isso, moralmente errado recorrer a ela.
Creio, contudo, que todos estes argumentos falham. Em resposta ao argumento da identidade, basta notar que identidade de uma pessoa não depende apenas dos seus genes; depende também das suas experiências, do meio em que o indivíduo vive e da sua educação, entre outros aspectos. O ADN dos gémeos monozigóticos é exactamente o mesmo, mas isso não implica que ambos pensem ou reajam da mesma maneira aos mesmos estímulos, mesmo tendo vivências semelhantes.
Em resposta ao segundo argumento – os clones poderiam ser utilizados como instrumentos ao serviço de certos fins –, é preciso sublinhar que isso só iria acontecer se admitíssemos que a personalidade do clone, a sua vontade, etc., estariam completamente determinados pelos seus genes, o que já se viu ser falso. Por exemplo, o clone criado para substituir uma pessoa que faleceu não seria exactamente a pessoa que faleceu: os seus estados psicológicos não seriam os mesmos, pois este não teve as mesmas vivências que o falecido teve e, portanto, seria outra pessoa diferente.
Em resposta ao argumento da eugenia, se escolhermos através da manipulação genética algumas características que se quer que o indivíduo venha a ter para ser quase perfeito, então este não conteria genes apenas de um só dador. Mas para que um indivíduo seja um clone tem que ter os seus genes iguais ao de uma só matriz. Ora, no caso da eugenia o indivíduo teria um conjunto de genes de vários dadores, ou seja, um conjunto genético que mais ninguém possui. Logo, como não tem o mesmo conjunto genético de um dador, não é um clone.
Em conclusão, não havendo bons argumentos contra a clonagem reprodutiva humana, também não faz sentido afirmar que ela é moralmente inaceitável.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Avaliação de ensaios filosóficos

Ao ler os ensaios filosóficos realizados pelos alunos utilizarei as seguintes questões como critérios de avaliação:

1. O problema está correctamente formulado?
2. A importância do problema é mostrada?
3. As principais teses concorrentes são apresentadas?
4. A tese que se pretende defender é clara para o leitor?
5. Os argumentos apresentados são bons e não há falácias evidentes?
6. As principais objecções são apresentadas?
7. As objecções apresentadas são refutadas?


Além dessas, há mais três questões de carácter geral a ter em conta:

8. O ensaio está de acordo com o solicitado, em termos formais?
9. A prosa é fácil de ler e de compreender?
10. As ideias são apresentadas de forma pessoal?

Qualquer critério pode ser totalmente observado, parcialmente observado ou não ser de todo observado, o que será, naturalmente, tido em conta na atribuição de uma classificação a cada um deles. Há, contudo, um critério (o último atrás indicado) que se não for de todo observado, implicará a atribuição de zero valores ao ensaio. Isso sucede quando se torna óbvio que o ensaio não tem qualquer cunho pessoal.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Poderão as máquinas pensar?

Um pequeno pedaço do cérebro do leitor ficou danificado, o que o fez ficar cego. Mas, felizmente, há uma nova técnica biomédica que pode devolver-lhe a visão. Os cientistas desenvolveram um chip de sílica minúsculo, demasiado pequeno para ser visto a olho nu, que duplica exactamente as funções da parte danificada do seu cérebro. Eles podem retirar essa parte e substituí-la pelo chip. Depois da operação, é capaz de ver novamente. De resto, não nota qualquer diferença. Ficou como novo.
Pouco depois, no entanto, outro pedaço do seu cérebro fica danificado. Desta vez perdeu a capacidade de se recordar de nomes. Porém, uma vez mais, os cientistas são capazes de substituir esse pedaço por outro chip minúsculo que desempenha a mesma função e, quando a cirurgia acaba, não consegue notar qualquer diferença, excepto que é capaz de se recordar de nomes novamente.
Imagine agora que isto acontece repetidamente até todo o seu cérebro ser substituído. Em cada passo do processo, com a excepção do problema que foi corrigido, não consegue detectar qualquer diferença em relação ao que acontecia antes. Quando o processo fica concluído, no entanto, já não tem um cérebro orgânico. Tem antes um cérebro artificial, uma rede de chips de sílica que funciona exactamente como o modelo orgânico original.
Este argumento mostra não só que uma máquina pode pensar, mas também que nós poderíamos ser essa máquina. Se duvida disto, recue ao primeiro passo por um momento. Suponha que ficava realmente cego e que os cientistas se dispunham a devolver-lhe a visão, implantando um dispositivo capaz de desempenhar a função da parte defeituosa do seu cérebro. Recusaria a proposta, alegando que nenhum dispositivo artificial pode produzir efectivamente a visão humana? Iria preferir permanecer cego? A maior parte de nós aproveitaria a oportunidade de recuperar a visão dessa forma. Contudo, a partir do momento em que o processo de substituição gradual se iniciou, não há qualquer ponto no qual possamos traçar a linha e dizer que agora a consciência humana se extinguiu. Além disso, não podemos dizer que a consciência se está a extinguir um pouco de cada vez. Afinal, ainda consegue ver, recordar-se de nomes e assim por diante. Se o seu cérebro novo pode fazer tudo o que o original fazia, e não há qualquer ponto em que se sinta «diferente», temos de concluir que o cérebro artificial está a sustentar a mesma vida mental que o original.
O argumento tem um passo adicional. Suponha que nada acontece de errado com o seu cérebro e que não é sujeito a quaisquer operações. Em vez disso, os cientistas montam as mesmas partes no laboratório e colocam-nas num robot. O robot seria consciente, uma coisa pensante? Se admitirmos que essa colecção de partes poderia sustentar uma vida mental dentro do seu crânio, não há qualquer razão para que não faça o mesmo dentro da cabeça do robot. Logo, o robot seria um ser pensante no mesmo sentido em que nós somos seres pensantes.
James Rachels, Problemas da Filosofia (Gradiva, 2009) 

domingo, 25 de abril de 2010

Liberdade e justiça


Comemoram-se hoje em Portugal 36 anos da revolução de 25 de Abril. Independentemente das razões que levaram os militares a rebelar-se contra o poder político instituído, os portugueses aderiram imediatamente à revolução, esperando que ela lhes trouxesse uma sociedade melhor.

Não pretendo discutir se isso foi conseguido ou não, pois é facilmente argumentável que uma sociedade democrática, como a que se seguiu à revolução, é sempre melhor do que qualquer ditadura. Todavia, muitas pessoas que naturalmente se entusiasmaram com a revolução de Abril parecem agora concluir melancolicamente: tanta coisa para tão pouco! Como se explica isso?

A verdade é que não queremos apenas viver numa sociedade melhor; desejamos, além disso, viver numa sociedade justa. Ora, muitas pessoas viam o 25 de Abril como uma promessa de uma sociedade justa. Mas acontece que nenhuma revolução permite garantir a existência de uma sociedade justa. O melhor que uma revolução pode fazer é estabelecer as condições necessárias, mas não suficientes, para uma sociedade justa.

Foi isso que aconteceu com a revolução do 25 de Abril: criou em Portugal algumas das condições necessárias para uma sociedade justa, a mais importante das quais é a liberdade, permitindo que todos os cidadãos beneficiem das mesmas liberdades básicas. Sem isto não pode haver uma sociedade justa. Mas isto não é suficiente para haver justiça social. O que falta não depende de qualquer revolução, pelo que foi algo ingénuo esperar que o 25 de Abril nos garantisse automaticamente justiça social.

A palavra que melhor descreve a revolução do 25 de Abril de 1974 em Portugal é, pois, «Liberdade». O que não é pouco.

sábado, 17 de abril de 2010

Filosofia e história das ciências da natureza

Escrevi este texto para os alunos do 11º ano lerem antes mesmo de começarmos a discutir alguns dos problemas de filosofia da ciência.

Para os orientar na leitura do texto, deixo seguidamente um conjunto de perguntas às quais devem tentar responder. Espera-se por respostas curtas e directas.


1.     Tanto os mitos como a ciência respondem, por vezes, às mesmas perguntas. O que diferencia as respostas científicas das míticas ou religiosas?
2.     Há um aspecto ao qual pela primeira vez Tales de Mileto dá importância e sem o qual a ciência não se teria desenvolvido. Qual é?
3.     Porque é que para alguns filósofos gregos, como Platão, o mundo natural não poderia ser objecto de conhecimento?
4.     Porque é que se diz que Aristóteles deu um passo importante na direcção da ciência tal como a conhecemos?
5.     Em que consistia a ciência para os filósofos cristãos medievais?
6.     Copérnico apresentou uma teoria completamente revolucionária. Quem nome tem e em que consiste?
7.     Qual foi o grande contributo que Bacon deu para a origem da ciência moderna?
8.     Para Bacon a ciência deveria ser activa e operativa. O que quer isso dizer?
9.     Há 3 tipos de razões que fazem de Galileu o pai da ciência moderna. Quais são?
10.  Uma das consequências da ciência moderna é a concepção mecanicista da natureza. O que é o mecanicismo?
11.  O mecanicismo é uma forma de reducionismo. O que é o reducionismo?
12.  A física newtoniana parece não deixar dúvidas sobre o que é e como se faz ciência. Mas Hume chama a atenção para outro problema. Que problema é esse?
13.  O raciocínio de tipo indutivo está na origem de muitas das verdades científicas. Segundo Hume isso é fatal para a própria ciência. Porquê?
14.  O que é o positivismo?
15.  O que é o cientismo?
16.  O que é o fisicalismo?
17.  De todos os nomes que o texto refere, quais pareceram ser os 3 mais importantes para a história e desenvolvimento da ciência?
18.  E para a filosofia da ciência?
19.  Poderá o tipo de explicação fornecido pelas ciências sociais ser idêntico ao das ciências da natureza
20.  O que foi mais difícil de compreender no texto?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sobre o problema ético da eutanásia

Eis algumas ligações a textos disponíveis na net sobre o problema ético da eutanásia:

Eutanásia, de Helga Kuhse
O problema ético da eutanásia, de Faustino Vaz
Eutanásia: Emergindo da sombra de Hitler, de Peter Singer
Eutanásia, de Philippa Foot
Será a eutanásia moralmente aceitável? de Ekaterina Kucheruk
O erro da eutanásia, de J. Gay-Williams

Esta lista de textos poderá ainda ser actualizada. Estejam atentos.