Ao ler os ensaios filosóficos realizados pelos alunos utilizarei as seguintes questões como critérios de avaliação:
1. O problema está correctamente formulado?
2. A importância do problema é mostrada?
3. As principais teses concorrentes são apresentadas?
4. A tese que se pretende defender é clara para o leitor?
5. Os argumentos apresentados são bons e não há falácias evidentes?
6. As principais objecções são apresentadas?
7. As objecções apresentadas são refutadas?
Além dessas, há mais três questões de carácter geral a ter em conta:
8. O ensaio está de acordo com o solicitado, em termos formais?
9. A prosa é fácil de ler e de compreender?
10. As ideias são apresentadas de forma pessoal?
Qualquer critério pode ser totalmente observado, parcialmente observado ou não ser de todo observado, o que será, naturalmente, tido em conta na atribuição de uma classificação a cada um deles. Há, contudo, um critério (o último atrás indicado) que se não for de todo observado, implicará a atribuição de zero valores ao ensaio. Isso sucede quando se torna óbvio que o ensaio não tem qualquer cunho pessoal.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Poderão as máquinas pensar?
Um pequeno pedaço do cérebro do leitor ficou danificado, o que o fez ficar cego. Mas, felizmente, há uma nova técnica biomédica que pode devolver-lhe a visão. Os cientistas desenvolveram um chip de sílica minúsculo, demasiado pequeno para ser visto a olho nu, que duplica exactamente as funções da parte danificada do seu cérebro. Eles podem retirar essa parte e substituí-la pelo chip. Depois da operação, é capaz de ver novamente. De resto, não nota qualquer diferença. Ficou como novo.
Pouco depois, no entanto, outro pedaço do seu cérebro fica danificado. Desta vez perdeu a capacidade de se recordar de nomes. Porém, uma vez mais, os cientistas são capazes de substituir esse pedaço por outro chip minúsculo que desempenha a mesma função e, quando a cirurgia acaba, não consegue notar qualquer diferença, excepto que é capaz de se recordar de nomes novamente.
Imagine agora que isto acontece repetidamente até todo o seu cérebro ser substituído. Em cada passo do processo, com a excepção do problema que foi corrigido, não consegue detectar qualquer diferença em relação ao que acontecia antes. Quando o processo fica concluído, no entanto, já não tem um cérebro orgânico. Tem antes um cérebro artificial, uma rede de chips de sílica que funciona exactamente como o modelo orgânico original.
Este argumento mostra não só que uma máquina pode pensar, mas também que nós poderíamos ser essa máquina. Se duvida disto, recue ao primeiro passo por um momento. Suponha que ficava realmente cego e que os cientistas se dispunham a devolver-lhe a visão, implantando um dispositivo capaz de desempenhar a função da parte defeituosa do seu cérebro. Recusaria a proposta, alegando que nenhum dispositivo artificial pode produzir efectivamente a visão humana? Iria preferir permanecer cego? A maior parte de nós aproveitaria a oportunidade de recuperar a visão dessa forma. Contudo, a partir do momento em que o processo de substituição gradual se iniciou, não há qualquer ponto no qual possamos traçar a linha e dizer que agora a consciência humana se extinguiu. Além disso, não podemos dizer que a consciência se está a extinguir um pouco de cada vez. Afinal, ainda consegue ver, recordar-se de nomes e assim por diante. Se o seu cérebro novo pode fazer tudo o que o original fazia, e não há qualquer ponto em que se sinta «diferente», temos de concluir que o cérebro artificial está a sustentar a mesma vida mental que o original.
O argumento tem um passo adicional. Suponha que nada acontece de errado com o seu cérebro e que não é sujeito a quaisquer operações. Em vez disso, os cientistas montam as mesmas partes no laboratório e colocam-nas num robot. O robot seria consciente, uma coisa pensante? Se admitirmos que essa colecção de partes poderia sustentar uma vida mental dentro do seu crânio, não há qualquer razão para que não faça o mesmo dentro da cabeça do robot. Logo, o robot seria um ser pensante no mesmo sentido em que nós somos seres pensantes.
James Rachels, Problemas da Filosofia (Gradiva, 2009)
domingo, 25 de abril de 2010
Liberdade e justiça
Comemoram-se hoje em Portugal 36 anos da revolução de 25 de Abril. Independentemente das razões que levaram os militares a rebelar-se contra o poder político instituído, os portugueses aderiram imediatamente à revolução, esperando que ela lhes trouxesse uma sociedade melhor.
Não pretendo discutir se isso foi conseguido ou não, pois é facilmente argumentável que uma sociedade democrática, como a que se seguiu à revolução, é sempre melhor do que qualquer ditadura. Todavia, muitas pessoas que naturalmente se entusiasmaram com a revolução de Abril parecem agora concluir melancolicamente: tanta coisa para tão pouco! Como se explica isso?
A verdade é que não queremos apenas viver numa sociedade melhor; desejamos, além disso, viver numa sociedade justa. Ora, muitas pessoas viam o 25 de Abril como uma promessa de uma sociedade justa. Mas acontece que nenhuma revolução permite garantir a existência de uma sociedade justa. O melhor que uma revolução pode fazer é estabelecer as condições necessárias, mas não suficientes, para uma sociedade justa.
Foi isso que aconteceu com a revolução do 25 de Abril: criou em Portugal algumas das condições necessárias para uma sociedade justa, a mais importante das quais é a liberdade, permitindo que todos os cidadãos beneficiem das mesmas liberdades básicas. Sem isto não pode haver uma sociedade justa. Mas isto não é suficiente para haver justiça social. O que falta não depende de qualquer revolução, pelo que foi algo ingénuo esperar que o 25 de Abril nos garantisse automaticamente justiça social.
A palavra que melhor descreve a revolução do 25 de Abril de 1974 em Portugal é, pois, «Liberdade». O que não é pouco.
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10º ano,
Filosofia política
sábado, 17 de abril de 2010
Filosofia e história das ciências da natureza
Escrevi este texto para os alunos do 11º ano lerem antes mesmo de começarmos a discutir alguns dos problemas de filosofia da ciência.
Para os orientar na leitura do texto, deixo seguidamente um conjunto de perguntas às quais devem tentar responder. Espera-se por respostas curtas e directas.
Para os orientar na leitura do texto, deixo seguidamente um conjunto de perguntas às quais devem tentar responder. Espera-se por respostas curtas e directas.
1. Tanto os mitos como a ciência respondem, por vezes, às mesmas perguntas. O que diferencia as respostas científicas das míticas ou religiosas?
2. Há um aspecto ao qual pela primeira vez Tales de Mileto dá importância e sem o qual a ciência não se teria desenvolvido. Qual é?
3. Porque é que para alguns filósofos gregos, como Platão, o mundo natural não poderia ser objecto de conhecimento?
4. Porque é que se diz que Aristóteles deu um passo importante na direcção da ciência tal como a conhecemos?
5. Em que consistia a ciência para os filósofos cristãos medievais?
6. Copérnico apresentou uma teoria completamente revolucionária. Quem nome tem e em que consiste?
7. Qual foi o grande contributo que Bacon deu para a origem da ciência moderna?
8. Para Bacon a ciência deveria ser activa e operativa. O que quer isso dizer?
9. Há 3 tipos de razões que fazem de Galileu o pai da ciência moderna. Quais são?
10. Uma das consequências da ciência moderna é a concepção mecanicista da natureza. O que é o mecanicismo?
11. O mecanicismo é uma forma de reducionismo. O que é o reducionismo?
12. A física newtoniana parece não deixar dúvidas sobre o que é e como se faz ciência. Mas Hume chama a atenção para outro problema. Que problema é esse?
13. O raciocínio de tipo indutivo está na origem de muitas das verdades científicas. Segundo Hume isso é fatal para a própria ciência. Porquê?
14. O que é o positivismo?
15. O que é o cientismo?
16. O que é o fisicalismo?
17. De todos os nomes que o texto refere, quais pareceram ser os 3 mais importantes para a história e desenvolvimento da ciência?
18. E para a filosofia da ciência?
19. Poderá o tipo de explicação fornecido pelas ciências sociais ser idêntico ao das ciências da natureza
20. O que foi mais difícil de compreender no texto?
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11º ano,
Filosofia da Ciência
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Sobre o problema ético da eutanásia
Eis algumas ligações a textos disponíveis na net sobre o problema ético da eutanásia:
Eutanásia, de Helga Kuhse
O problema ético da eutanásia, de Faustino Vaz
Eutanásia: Emergindo da sombra de Hitler, de Peter Singer
Eutanásia, de Philippa Foot
Será a eutanásia moralmente aceitável? de Ekaterina Kucheruk
O erro da eutanásia, de J. Gay-Williams
Esta lista de textos poderá ainda ser actualizada. Estejam atentos.
Eutanásia, de Helga Kuhse
O problema ético da eutanásia, de Faustino Vaz
Eutanásia: Emergindo da sombra de Hitler, de Peter Singer
Eutanásia, de Philippa Foot
Será a eutanásia moralmente aceitável? de Ekaterina Kucheruk
O erro da eutanásia, de J. Gay-Williams
Esta lista de textos poderá ainda ser actualizada. Estejam atentos.
domingo, 28 de março de 2010
O que é a ética?
Eis o início, bem humorado, de uma boa resposta:
De Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar (Dom Quixote)
Separar o que é bom do que é mau é aquilo de que se ocupa a ética. É igualmente o que mantém padres, especialistas e pais ocupados. Infelizmente, o que mantém as crianças e os filósofos ocupados é perguntar aos padres, especialistas e pais: Porquê?
De Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar (Dom Quixote)
terça-feira, 23 de março de 2010
Falácias do optimista e do pessimista
Eis uma maneira de raciocinar falaciosa, típica do optimista:
Se P, então Q.
Mas Q seria uma chatice.
Logo, não P.
Eis uma maneira de raciocinar falaciosa, típica do pessimista:
No fundo, tanto o optimista como o pessimista acabam por ser preguiçosos.
Se P, então Q.
Mas Q seria uma chatice.
Logo, não P.
Eis uma maneira de raciocinar falaciosa, típica do pessimista:
Se P, então Q.
Mas Q seria muito bom.
Logo, não P.
No fundo, tanto o optimista como o pessimista acabam por ser preguiçosos.
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Lógica
terça-feira, 16 de março de 2010
O que conta como justificação?
David Hume alega que não há qualquer justificação para a nossa crença na existência do mundo exterior (de algo além dos nossos conteúdos mentais). Diz ele que não há provas irrefutáveis da existência de objectos exteriores, pois apenas temos acesso às nossas próprias percepções, que são diferentes dos eventuais objectos percebidos. Ora, a crença de que os objectos exteriores são as causas das nossas percepções é uma espécie de tiro no escuro, pelo que tal crença, considera ele, não está justificada.
Mas será que Hume tem razão? Será que uma crença só está justificada se tal crença se apoiar em provas irrefutáveis?
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11º ano,
Conhecimento
terça-feira, 9 de março de 2010
Valores
Ouvimos frequentemente pessoas a lamentar-se de que vivemos numa sociedade sem valores, que a juventude actual não tem valores ou que há uma crise de valores. Mas será que podemos viver mesmo numa sociedade sem valores? O que significa isso? E de que estamos realmente a falar quando falamos de crise de valores? Será que «crise de valores» e «ausência de valores» significam a mesma coisa?
terça-feira, 2 de março de 2010
Animais vs Animais
Nós, humanos, utilizamos os animais como alimento, agasalho, ou como simples cobaias em investigações com o intuito de alargarmos o nosso conhecimento. Também nos fazem companhia ou podem servir como diversão.
Todavia, será que devemos atribuir-lhes direitos ou podemos usá-los como bem entendermos?
«O homem não difere do animal senão em saber que o não é. É a primeira luz, que não é mais que treva visível. É o começo, porque ver a treva é ter a luz dela. É o fim, porque é o saber, pela vista, que se nasceu cego. Assim o animal se torna homem pela ignorância que nele nasce. »
Fernando Pessoa, A Hora do Diabo
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Ética
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