domingo, 16 de agosto de 2020

Kant e a possibilidade da metafísica (passo 8: conclusão)


KANT E A POSSIBILIDADE DA METAFÍSICA
A RAZÃO TEÓRICA E A RAZÃO PRÁTICA

Conclusão
Passo 8 (os postulados da razão prática)

Qual é o objecto de uma vontade determinável pela lei moral?

R: É o soberano bem.

 

Mas o que é necessário para que se possa alcançar o soberano bem?

R: É necessário que exista uma total conformidade da vontade à lei moral.

 

Mas a total conformidade da vontade à lei moral, condição suprema do soberano bem, é possível?

R: Essa total conformidade tem de ser possível, tal como o seu objecto (o soberano bem), pois está contida na própria exigência da lei moral.

O soberano bem é uma exigência racional. Portanto, a possibilidade de alcançar o soberano bem é também racionalmente afirmada. Caso contrário, a razão entraria em contradição consigo própria.

 

Mas existe algum ser cuja vontade esteja sempre conforme à lei moral?                  

R: Dado que essa total conformidade é a santidade, trata-se de uma perfeição que nenhum ser racional do mundo sensível é capaz em momento algum da sua existência.

Contudo, a santidade é exigida como praticamente necessária.

 

Como pode, então, alcançar-se essa total conformidade, a santidade?

R: Só pode encontrar-se num progresso que vai até ao infinito, sendo praticamente forçoso admitir uma tal progressão.

 

Mas como é possível este progresso infinito?

R: Só é possível sobre o pressuposto de uma existência e de uma personalidade indefinidamente persistentes do mesmo ser racional.

 

Que nome se dá a uma existência e personalidade indefinidamente persistentes do mesmo ser racional?

R: Dá-se o nome de ALMA IMORTAL.

Portanto, o soberano bem, praticamente, só é possível sobre o pressuposto da imortalidade da alma.

A imortalidade da alma é, assim, afirmada como um postulado da razão prática. Estando ligado à lei moral, tal postulado tem a priori um valor incondicionado.

 

Qual é, então, o valor desse postulado?

R: Dado não ter uma finalidade especulativa (pois não tem qualquer função cognitiva), trata-se antes de uma necessidade prática da razão. Estando ligado à lei moral, tal postulado tem a priori um valor incondicionado e absoluto, ainda que não demonstrável.

Isto significa que o problema da moralidade (a total conformidade da vontade à lei moral) só pode ser resolvido numa ETERNIDADE.

 

Já sabemos que o objecto real de uma vontade determinável pela lei moral (moralidade) é o soberano bem. Mas, além de ser o objecto real da moralidade, o que é o soberano bem?

R: Há um segundo elemento do soberano bem, que é a felicidade.

 

O que é a felicidade?

R: «A felicidade é o estado no mundo de um ser racional para o qual, na totalidade da sua existência, tudo ocorre segundo o seu desejo e segundo a sua vontade e funda-se, pois, na natureza (…) e no princípio determinante essencial da sua vontade (lei moral)»

Isto significa que a felicidade consiste na harmonia entre os nossos desejos e necessidades naturais, por um lado e a lei moral, por outro lado.

Agir sempre por dever (obedecer à lei moral) e fazer sempre aquilo a que a nossa natureza nos impele (fazer o que nos apetece); aí está a difícil conciliação a que poderíamos chamar felicidade.

A felicidade implica, portanto, a harmonia entre uma vontade determinada pela lei moral e a natureza.

Todavia, a lei moral, que é uma lei de liberdade, rege-se por princípios totalmente independentes da natureza, podendo mesmo opor-se à inclinação natural.

Além disso, nós não somos a causa da natureza (ela não é uma criação nossa). Como tal, não lhe podemos impor as nossas “leis” de modo a tornar possível o acordo entre as leis da natureza (causalidade natural) e a lei moral (autodeterminação da vontade).

Ainda assim, a razão prática pressupõe como necessária essa conexão para alcançar o soberano bem. 

Tem, pois, de haver um princípio da conexão entre a moralidade e a felicidade. Esse princípio tem de ser uma inteligência (um ser racional) que seja, ao mesmo tempo, causa da natureza (e, por isso, diferente da própria natureza)

 

Tem que ser uma inteligência porquê?

R: Porque só uma inteligência, como ser racional que é, pode saber qual é a lei moral e, ao mesmo tempo, ser causa da natureza.

 

E tem de ser diferente da natureza porquê?

R: Porque só assim pode ser causa da natureza (seu criador) ao mesmo tempo que, ao causá-la, permite preservar a sua conexão com a lei moral.

Resumindo, o soberano bem só é possível no mundo enquanto se admite uma causa suprema da natureza que tem uma causalidade conforme à disposição moral.

 

Que causa é essa?

R: Essa causa só pode ser DEUS.

O postulado da possibilidade do soberano bem derivado (o melhor mundo) é ao mesmo tempo o postulado da realidade de um bem supremo primordial, ou seja, da existência de Deus.

Por isso se torna necessário postular a existência de Deus como algo inerente à possibilidade do soberano bem.

 

CONCLUSÃO


As três ideias metafísicas que no uso teórico da razão eram apenas problemas sem solução, podendo apenas ser pensadas sem que pudessem ser conhecidas, são agora afirmadas como praticamente necessárias. Têm, por isso, um valor absoluto. Essas ideias são os postulados da razão prática: LIBERDADE, IMORTALIDADE e DEUS.  

Assim se abrem, no seu uso prático, os horizontes da razão pura. É através da ação moral que entramos em contacto directo com um mundo inalcançável no domínio do conhecimento teórico. É pela moral que temos a experiência do absoluto e, consequentemente, nos libertamos do mundo fenoménico para entrarmos no mundo numénico, elevando-nos acima do determinismo sensível, na direção do supra-sensível. 

Assim, a pergunta «o que devo fazer?» leva-nos muito mais longe do que a pergunta «o que posso saber?». Esta coloca-nos perante os nossos próprios limites, enquanto seres sensíveis que procuram conhecer a natureza. Aquela liberta-nos desses limites, dando uma justificação racional prática ao objeto das questões metafísicas.

Em relação à pergunta «o que me é permitido esperar?» Kant responde que o soberano bem é a aspiração fundamental do ser humano, cuja realização é uma tarefa sempre aberta e que requer uma persistência que vai para além do indivíduo enquanto ser sensível, tomado isoladamente. Assim, além de pressupor a imortalidade da alma, envolve toda a espécie humana num processo por meio do qual se vai realizando a nossa liberdade.

Finalmente, em relação à pergunta «o que é o homem?», ela inclui todas as outras perguntas, pelo que podemos dizer que o homem é, enquanto sujeito de conhecimento, um ser sensível que está limitado ao domínio dos fenómenos; mas enquanto pessoa moral, ele é responsável por si mesmo e é o legislador dos princípios universais pelos quais se rege. 

As célebres palavras que Kant escreve na conclusão da Crítica da Razão Prática, procuram resumir tudo isto:

«Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. [...] A primeira começa no lugar que eu ocupo no mundo exterior dos sentidos e estende a conexão em que me encontro até ao imensamente grande [...]. A segunda começa no meu eu invisível, na minha personalidade, e expõe-me num mundo que tem a verdadeira infinidade [...]. O primeiro espectáculo de uma inumerável multidão de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal que deve restituir ao planeta (um simples ponto no universo) a matéria de que era feita, depois de, por um breve tempo (não se sabe como) ter sido provida de força vital. O segundo, pelo contrário, eleva infinitamente o meu valor como inteligência por meio da minha personalidade, na qual a lei moral me descobre uma vida independente da animalidade e mesmo de todo o mundo sensível, pelo menos, tanto quanto se pode inferir da destinação conforme a um fim da minha existência por essa lei, que não se restringe a condições e limites desta vida, mas se estende até ao infinito.» (A289-A290)

       

É POSSÍVEL A METAFÍSICA? DE QUE MANEIRA?

    R: SIM, A METAFÍSICA É POSSÍVEL. 

        MAS É POSSÍVEL APENAS NO PLANO MORAL. 

        ESTA É UMA NOVA METAFÍSICA.

  

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