domingo, 19 de julho de 2020

Kant e a possibilidade da metafísica (passo 7)


KANT E A POSSIBILIDADE DA METAFÍSICA
A RAZÃO TEÓRICA E A RAZÃO PRÁTICA

Passo 7 (a lei fundamental da razão prática)


Qual é, segundo Kant, a lei fundamental da razão pura prática?

R: «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre e ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal».

(De maneira que possas querer que essa máxima seja encarada como uma lei universal).

Sabemos que a vontade humana nem sempre é boa, já que não somos seres absolutamente perfeitos. Uma vontade sempre boa, isto é, uma vontade santa, é algo que só um ser perfeito possui.


Mas o que é, então, preciso para que uma vontade que não é santa se deixe determinar pela lei moral?

R: É necessário que essa lei se apresente como uma obrigação para a vontade, isto é, como uma ordem ou IMPERATIVO.                                                                        


O que é um imperativo?

R: “É uma regra que é designada por um DEVER, o qual exprime a obrigação objectiva de uma acção.”

Os imperativos têm, portanto, um carácter objectivo, por isso são diferentes das máximas. As máximas são princípios não imperativos.

Há, no entanto, dois tipos de imperativos.


Quais são?

R: a) Imperativos hipotéticos; b) Imperativos categóricos.

 

Como se distinguem os hipotéticos dos categóricos?

a) Os hipotéticos são aqueles que ordenam uma acção com vista a um determinado fim ou objecto; têm sempre em vista outra coisa.

Exemplos: “Faz o bem para seres bem visto.”

                  “Estuda se queres ter um bom emprego”

b) Os categóricos são aqueles que ordenam uma acção como absolutamente necessária, sem referência a nenhuma condição, isto é, sem se subordinar a nenhum outro fim.

A lei moral exprime-se sempre sob a forma de imperativos categóricos. Não interessa qual é a finalidade dos nossos actos mas apenas a fórmula que os determina.

A acção moral é aquela que tem como motivação subjectiva o sentimento de respeito pela lei e como princípio objectivo o dever.

Aquela acção que não seja determinada apenas pelo dever, ainda que esteja em conformidade com ele (de acordo com ele), não é uma acção moral.

A acção moral acaba por ser o resultado de um esforço racional que implica a submissão das inclinações naturais ao dever.                                           

De acordo com Kant, agir moralmente não é tarefa fácil, na medida em que o dever é sentido como uma obrigação que não visa obter qualquer recompensa ou satisfação pessoal.

Agir moralmente é agir segundo princípios racionais a priori, os quais são independentes das consequências das nossas acções.

Não basta observar o que alguém faz para se saber se a sua acção é moralmente boa; é preciso saber qual o princípio que a determina — o que importa não é o conteúdo da acção mas antes a forma que a determina. Por isso, não basta fazer o bem para considerarmos a nossa conduta moralmente boa.

Isto parece justificar a ideia de que a moral kantiana é demasiado rígida, rigorosa e formalista, conduzida pelo imperativo categórico, o qual se apresenta como uma espécie de auto-imposição e como expressão objectiva da lei moral.

Seguir uma conduta moralmente boa é algo que implica um esforço permanente de sacrifício do instinto ou impulso natural a favor de uma lei que é racional, mas que, por isso mesmo, também nos eleva acima do determinismo natural (do mundo fenoménico) e faz de nós pessoas livres.

Daí que a liberdade não seja uma dádiva da natureza ao ser humano; ela é antes uma conquista nossa enquanto seres racionais. Enquanto pela natureza o ser humano se sente limitado, pela razão, nomeadamente através da lei moral, ele faz-se a si mesmo, construindo a sua liberdade. É precisamente isso que faz o ser humano elevar-se não só acima da natureza mas, de certa maneira, também acima de si mesmo (acima da sua própria condição animal).

Isto leva Kant a considerar três elementos constitutivos do destino humano.         

 

Quais são?

R: 1º a disposição, enquanto ser vivo, para a ANIMALIDADE; 

     2º a disposição, enquanto ser vivo e racional, para a HUMANIDADE;

     3º a disposição, enquanto ser racional e responsável, para a PERSONALIDADE.

 

Segundo Kant, é preciso ser mais do que homem para que este se realize como pessoa. Só enquanto seres morais nos podemos realizar como pessoas.

O homem é um destino, ou seja, faz-se a si mesmo como processo de personalização (a auto-determinação do homem, sendo causa de si mesmo).


... (continua)

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