domingo, 17 de maio de 2020

Kant e a possibilidade da metafísica (passo 5)


KANT E A POSSIBILIDADE DA METAFÍSICA
A RAZÃO TEÓRICA E A RAZÃO PRÁTICA

Passo 5 (o outro uso da razão: a razão prática)

É POSSÍVEL A METAFÍSICA? (pergunta inicial)
R: Pelo que vimos antes, sabemos já que a metafísica não é possível enquanto conhecimento, pois a razão teórica (ou especulativa) não permite afirmar que sabemos que Deus existe, que a alma é imortal ou que temos livre-arbítrio.
No domínio da razão teórica procura-se responder à questão «o que posso saber?». A resposta encontrada por Kant trouxe à luz os limites da razão no seu uso teórico, mostrando não estar ao seu alcance realizar tais aspirações metafísicas.
O conhecimento limita-se aos «fenómenos» e nunca ao domínio metafísico das «coisas em si». Os fenómenos são os objetos da nossa representação e o seu conhecimento resulta, como se viu, de uma síntese elaborada a partir de um elemento material (as impressões sensíveis, derivadas da experiência) e de um elemento formal (os princípios a priori), que fazem parte da estrutura transcendental da razão e são condição da possibilidade do conhecimento como tal.
Todavia, a razão humana não serve apenas para conhecermos os fenómenos (os objetos); ela desempenha ainda uma função prática, na medida em que serve para orientar a acção, indicando-nos o que devemos fazer. 


Há então duas razões?
R: Não, há apenas uma razão.


Porquê referir, então, a razão teórica e a razão prática?
R: Porque se trata de dois usos distintos da razão, que é a mesma.


Quais são?
R: No seu uso teórico, a razão tem como finalidade o conhecimento dos objetos (fenómenos), e no seu uso prático, ela tem como finalidade fornecer princípios que determinam a nossa vontade quando agimos.
A razão teórica (ou especulativa) apenas diz respeito ao problema do conhecimento em geral («O que posso saber?»), ao passo que a razão prática diz respeito à nossa acção e às questões morais («O que devo fazer?»).
Isto porque o ser humano, para além de ser um sujeito que conhece, é também uma pessoa moral.
Enquanto faculdade cognitiva, vimos antes que a razão humana está condicionada pela experiência.


Estará também a razão, no seu uso prático, condicionada pela experiência?             
R: Não, não está.


Porquê?
R: Uma vez que não tem em vista o conhecimento dos objetos, não precisa que estes lhe sejam dados, dispensando, pois, a experiência. Ao ocupar-se dos princípios determinantes da vontade, a razão prática aplica-se apenas ao querer, pelo que não está empiricamente condicionada. Ela pode, portanto, exercer-se de modo absolutamente INCONDICIONADO, “bastando-se a si mesma para determinar a vontade”. 


Por isso, no seu uso prático, a razão não tem limites, ao contrário do que se verifica no seu uso teórico.


O que se conclui do facto de a razão prática se exercer de um modo incondicionado?
Conclui-se que ela é LIVRE. Assim, a liberdade da razão, que no seu uso teórico não podia ser demonstrada, é aqui efetivamente confirmada pelo facto de ela poder ser causa de si mesma. 
  

É, então correcto afirmar que o ser humano é um ser dividido?
R: Em certo sentido sim.


Em que sentido?
R: Por um lado, o ser humano está sujeito às leis naturais, pois é prisioneiro do mundo empírico ou fenoménico; por outro lado, o ser humano, enquanto legislador moral, fica entregue a si mesmo (é um ser livre), libertando-se do mundo fenoménico.
No primeiro caso, está entregue à necessidade natural ou determinismo universal. No segundo caso, ele é um ser numénico, pois afirma-se de uma forma absolutamente incondicionada como pessoa autónoma.
Enquanto pessoa moral, os actos humanos não dependem da necessidade ou determinismo naturais (algo exterior a si), mas enquanto faculdade legisladora que determina uma vontade livre de qualquer determinação exterior, ela é autónoma. Neste caso, a LIBERDADE é pressuposta na própria noção de pessoa moral, pelo não precisa sequer de ser demonstrada.

Note-se que Kant não está assim tão longe do dualismo cartesiano. Não defende exactamente a mesma coisa que Descartes, pois este fala de duas substâncias distintas (corporal e mental) e Kant não vai tão longe. Contudo, os dois usos da razão de que fala Kant não deixam, em parte, de estar associados ao tipo de determinações que caracterizam a nossa condição corporal (a razão teórica está condicionada pelos nossos sentidos) e a nossa vida mental (no seu uso prático, a razão escapa a quaisquer tipos de condicionalismo empírico ou determinismo natural).

 ... (continua)

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