sexta-feira, 3 de abril de 2020

Kant e a possibilidade da metafísica (passo 3)


KANT E A POSSIBILIDADE DA METAFÍSICA
A RAZÃO TEÓRICA E A RAZÃO PRÁTICA

Passo 3 (intuições e conceitos)


Como se forma, então, o conhecimento?

R: Diferentemente do que defendem tanto os empiristas como os racionalistas, Kant considera que o conhecimento não provém apenas de uma fonte principal, argumentando que o “conhecimento procede de duas fontes”: na primeira os objectos são-nos dados; na segunda eles são pensados. O conhecimento, em geral, resulta da aplicação da estrutura a priori do sujeito aos dados da experiência. Porém, para que os objectos sejam conhecidos, eles têm antes de nos ser dados.

Trata-se, neste caso, dos dados da experiência, a que Kant chama intuições empíricas (por vezes, também lhes chama conhecimento a posteriori); aos elementos a priori (por vezes referido como conhecimento a priori) que nos permitem pensar o que nos foi dado chamamos conceitos.

Há, então, no sujeito uma faculdade de receber (receptiva) as impressões dos objectos externos, ou seja, uma capacidade de, ao ser afetado pelos objectos, o sujeito poder formar representações deles. Essa capacidade reside nos nossos sentidos e é, portanto, por aí que os objectos nos são dados enquanto representações empíricas. É aí que eles começam a existir para nós e sem isso eles nada seriam para nós.



Que faculdade receptiva do sujeito é essa?

R: A essa faculdade chama Kant SENSIBILIDADE. A sensibilidade é a capacidade de receber as impressões causadas em nós pelos objectos. E a essas impressões chama Kant SENSAÇÕES.

A sensibilidade é uma faculdade receptiva, com os seus princípios de funcionamento. Esses princípios não derivam dos objectos, pelo que precedem qualquer experiência. São antes as condições para que os objectos nos possam ser dados, as quais representam formas a priori da sensibilidade, isto é, as condições sob as quais os objectos são intuídos e sem as quais eles não poderiam sequer ser percepcionados.



Quais são essas formas a priori da sensibilidade que tornam possível o conhecimento sensível?

R: São as representações puras do espaço e do tempo.

Espaço e tempo não são, portanto, dados pela experiência; existem antes disso, na própria faculdade de perceber os objectos. Kant diz serem puras (no sentido transcendental) por serem “representações em que nada se encontra que pertença à sensação” e são “a forma pura das intuições sensíveis em geral, na qual todo o universo de fenómenos se intui em determinadas condições”. São, assim, INTUIÇÕES PURAS, isto é, não são intuições de alguma coisa (de objetos), existindo independentemente (mesmo que nenhum objeto fosse intuído).

É, pois, o sujeito que insere os objectos numa relação espácio-temporal, como condição da perceptibilidade dos mesmos.

Kant alega que as representações puras a priori do espaço e do tempo são necessárias, não podendo ser extraídas da experiência externa. Por exemplo, acerca do espaço, Kant diz ser perfeitamente “possível pensar que não haja objectos alguns no espaço”, embora “nunca se possa ter uma representação de que não exista espaço”.



Que espécies de intuições há, então?

R: Há as intuições puras e as intuições empíricas.



E o que as distingue?

R: As empíricas distinguem-se das puras porque aquelas são formadas pelas sensações (dadas pela experiência) e tornadas possíveis pelas intuições puras, sendo estas o espaço e o tempo, que existem a priori na sensibilidade. As sensações constituem a matéria (conteúdo) da intuição empírica e espaço e tempo, que são intuições puras a priori, representam a forma da intuição empírica.



Qual é, então, a função da sensibilidade?

R: Produzir intuições empíricas.



Bastam as intuições empíricas para haver conhecimento de objetos?

R: Não. Apesar de serem representações dos objectos (fenómeno) ainda não são conhecimento de objectos.



Porquê?

R: Porque os objetcos apenas nos foram dados. É necessário que sejam agora pensados e isso cabe a uma outra faculdade.



Que faculdade é essa?

R: Essa faculdade é o ENTENDIMENTO. É pelo entendimento, uma faculdade racional e não receptiva, que os objectos são pensados.



O que significa, “pensar” as intuições empíricas?

R: Como a sensibilidade fornece uma diversidade de intuições empíricas, o entendimento organiza-as, ligando-as entre si para as unificar.



De que maneira o entendimento unifica a diversidade de intuições dadas na sensibilidade?

R: Ligando o diverso das intuições num mesmo conceito.



Qual é então o papel do entendimento?

R: O entendimento produz os conceitos, que estabelecem as regras para organizar e unificar as intuições empíricas. Esses conceitos são fruto da espontaneidade do entendimento, pelo que também são a priori.



O que são os conceitos?

R: Antes de mais, não se trata de conceitos de alguma coisa, pois não se referem imediatamente aos objectos. Representam a “simples forma do entendimento”, ou o que encontramos num juízo quando fazemos abstracção do seu conteúdo. Correspondem às categorias da quantidade dos juízos (universais, particulares e singulares), da sua qualidade (afirmativos, negativos e infinitos), da sua relação (categóricos, hipotéticos e disjuntivos) e da sua modalidade (problemáticos, assertóricos e apodícticos).

Uma vez que os conceitos a priori, ou categorias, do entendimento se aplicam aos dados da experiência (às intuições empíricas), eles têm um uso empírico.

Kant resume a relação entre o entendimento e a sensibilidade numa afirmação célebre:

“Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas.”



Que quer isso dizer?

R: Quer dizer que os pensamentos, ou conceitos, têm de se aplicar às intuições para terem conteúdo (para não serem meras formas vazias) e que as intuições necessitam ser pensadas ou unificadas pelos conceitos para constituírem conhecimento. Não há, pois, conhecimento de objectos formado apenas por conceitos nem conhecimento de objectos constituído apenas por intuições. Entendimento e sensibilidade exigem-se e completam-se no processo de conhecimento.



De que modo a sensibilidade e o entendimento se ligam entre si?

R: Por meio de uma faculdade intermédia, a IMAGINAÇÃO. A faculdade da imaginação opera a partir da sensibilidade e está ao serviço do entendimento.



Como funciona a imaginação?

R: A função da imaginação consiste em reter as intuições sensíveis produzidas na sensibilidade e fazer delas sínteses ou esquemas para o entendimento.


É a imaginação que torna possível os conceitos do entendimento serem realmente preenchidos pelas intuições (deixando de ser vazios) e as intuições serem efectivamente pensadas pelos conceitos (deixando de ser cegas).

... (continua)

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