segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Amor e raciocínio prático


«Os temas filosóficos associados à questão de como uma pessoa deve viver caem no domínio de uma teoria geral do raciocínio prático. O termo «raciocínio prático» refere-se a qualquer das diversas variedades de deliberações em que as pessoas se empenham para decidir o que fazer, ou com que se ocupam para avaliar o que foi feito. Entre elas está o tipo especial de deliberação que incide especialmente sobre problemas de avaliação moral. Esta espécie de raciocínio prático recebe naturalmente, de filósofos e também de outros, uma grande dose de atenção.

É inquestionavelmente importante para nós compreender o que os princípios da moralidade requerem, o que recomendam, e o que proibem. Não é necessário dizer que precisamos de tomar seriamente as considerações morais. Na minha opinião, contudo, a importância da moralidade na direcção das nossas vidas tende a ser exagerada. A moralidade é menos pertinente no moldar das nossas preferências e na orientação da nossa conduta – diz-nos menos do que precisamos de saber sobre o que devemos valorizar e como devemos viver – do que normalmente se presume. É também menos autoritária. Mesmo quando tem algo relevante a dizer, não tem necessariamente a última palavra. No que diz respeito ao nosso interesse na gestão sensata dos aspectos das nossas vidas que são normativamente significativos, os preceitos morais não só não são totalmente genuínos mas também são menos definitivos do que com frequência somos encorajados a acreditar.

As pessoas que são escrupulosamente morais podem, não obstante, ser destinadas por deficiências de carácter ou de constituição a levar vidas que nenhuma pessoa razoável escolheria livremente. Podem ter defeitos pessoais e inadequações que não têm muito que ver com a moralidade mas que lhes tornam impossível viver bem. Por exemplo, podem ser emocionalmente superficiais; ou pode faltar-lhes vitalidade; ou podem ser cronicamente indecisas. Na medida em que activamente escolhem e buscam determinados objectivos, podem dedicar-se a ambições de tal modo insípidas que a sua experiência é geralmente enfadonha e sem sabor. Em consequência, as suas vidas podem ser implacavelmente banais e vazias, e – quer reconheçam ou não isto sobre si mesmos – podem estar terrivelmente enfadadas.

Há quem defenda que as pessoas que não são morais não podem ser felizes. Talvez seja verdade que ser moral seja uma condição indispensável para uma vida satisfatória. Não é certamente, contudo, a única condição que é indispensável. O juízo moral sólido não é sequer a única condição indispensável na avaliação de rumos de conduta. A moralidade pode proporcionar no máximo apenas uma resposta severamente limitada e insuficiente à questão de como uma pessoa deve viver.

Presume-se com frequência que as exigências da moral são inerentemente prioritárias — por outras palavras, que devem ter sempre precedência absoluta sobre todos os outros interesses e reivindicações. Isto parece-me implausível. Além disso, tanto quando me é dado ver, não há razão muito persuasiva para acreditar que assim é. A moralidade diz sobretudo respeito ao modo como as nossas atitudes e as nossas acções devem ter em consideração as necessidades, os desejos e os direitos das outras pessoas. Ora, porque é que isso deve ser visto como sendo, sem excepção, a coisa mais premente nas nossas vidas? Certamente, os nossos relacionamentos com as outras pessoas são enormemente importantes para nós; e as exigências da moralidade às quais dão origem são, por isso, inegavelmente importantes. Contudo, é difícil perceber por que razão devemos assumir que nada nunca, em nenhumas circunstâncias, conte mais fortemente para nós do que esses relacionamentos, e que as considerações morais devem invariavelmente ser aceites como mais importantes do que as considerações de todos os outros tipos.»


pp. 12-14

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