terça-feira, 8 de agosto de 2017

Tu és o repouso

O poema Du bist die Ruh é de Friedrich Rückert, a música de Franz Schubert, a interpretação do precocemente falecido contralto britânico Kathleen Ferrier. E o comentário, no seu devido contexto,  é do filósofo, e também compositor, Roger Scruton. Foi retirado do seu último livro sobre a natureza humana, em breve disponível em tradução portuguesa.

«Quero-te» não é uma figura de estilo, mas a expressão verdadeira do que sinto. E aqui os pronomes identificam o centro exacto da escolha livre e responsável que constitui a realidade interpessoal de cada um de nós. Quero-te como ser livre que és, e a tua liberdade está encerrada na coisa que eu quero, a coisa que tu identificas na primeira pessoa quando falas comigo de eu para eu. E isso é porque eu quero que me queiras da mesma forma, e dessa forma queiras que eu te queira, numa correspondência crescente de desejo. Na cultura popular, as canções de amor são, por conseguinte, elaborações do pronome da segunda pessoa: «Tudo aquilo que tu és»; «Tenho-te sob a minha pele», e por aí fora. E na poesia lírica a segunda pessoa torna-se uma invocação, usando a forma familiar, como neste famoso poema de Rückert: 
Du bist die Ruh,
Der Friede mild,
Die Sehnsucht du
Und was sie stillt. 

Tu és o repouso,
A agradável paz,
O anseio és
E quem o aquieta. 
Vale a pena recordar a quietude inefável conferida a estas reflexões por Schubert, a forma inteligente de condensar uma coisa abstracta por que se anseia (calma, paz), e mesmo a própria ânsia, no pronome concreto que encerra as abstracções e constrói paredes à sua volta. Aqui, tu é o eu transcendente do outro, não descritível mas alvo da minha ânsia.

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