quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Parece que isso

Parece que as férias foram longas, mas isso não é verdade. Houve coisas atrasadas para fazer e, claro, este blogue teve de ficar para trás por uns tempos. Chegou a altura do regresso, mas com uma orientação ligeiramente diferente: a ideia já não é tanto apoiar os meus alunos de filosofia, mas ser simplesmente um blogue de filosofia e de outras coisas igualmente interessantes, como música, ciência, livros e filmes. 

Relendo agora o que escrevi atrás, dei-me conta que comecei com uma frase  ambígua. O que queria eu dizer? Que não é verdade que parece que as férias foram longas ou apenas que não é verdade que as férias não foram longas? Tudo depende da interpretação do termo «isso». Eu, que tenho um acesso directo à intenção do falante, estou em condições de desambiguar a frase, esclarecendo que «isso» refere as próprias férias e não o que parece das férias. 

Já agora, seria a interpretação alternativa razoável? A interpretação alternativa dá o seguinte: não é verdade que me parece que as férias foram longas. Mas como pode algo parecer-me de uma maneira e não ser verdade que me parece dessa maneira? Se me parece que foram longas, é verdade que me parece que foram longas. Não posso estar enganado quanto a isso, como diria Descartes. Portanto, esta talvez não seja uma interpretação razoável e talvez a ambiguidade seja meramente aparente. 

Mas será que não estou a fazer aqui alguma confusão? É bem possível. Vejamos. Talvez seja a palavra «parece» que não está a ser usada na primeira pessoa do singular. Pode ser que com este «parece» eu esteja a falar de quem lê e não de mim. Nesse caso, a frase não é assim tão disparatada. À parte a arrogância que é eu estar aqui a dizer o que parece aos outros. Como sei eu o que parece aos outros?

Mas que complicado é tudo isto! E ainda há quem pense que a linguagem pode ser totalmente transparente. E se o não for? Será que devemos deixar tudo como está e não nos preocuparmos com isso?

Mas que maneira de recomeçar... 

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